thumb|200px|right|upright|Vilarejo descrito pelas crianças verdes. A lenda das crianças verdes de Woolpit diz respeito a duas crianças de cor de pele incomum que teriam aparecido em Woolpit, em Suffolk, Inglaterra durante o reinado de Estêvão no século XII. As crianças, irmão e irmã, teriam aparência geralmente normal, exceto pela cor verde de sua pele. Eles falavam em uma língua desconhecida e só comiam favas cruas. Com o tempo, aprenderam a comer outros alimentos e perderam a palidez verde, mas o menino estava doente e morreu logo depois que ele e sua irmã foram batizados. A menina ajustou-se a sua nova vida, mas ela foi considerada "bastante solta e devassa em sua conduta". Depois de aprender a falar inglês, a garota explicou que ela e seu irmão tinham vindo de uma terra onde o sol nunca brilhava e a luz era como o crepúsculo. De acordo com uma versão da história, ela disse que tudo lá era verde, e de acordo com outra, ela disse que o local era a Terra de São Martinho (Land of St Martin), um mundo subterrâneo habitado por pessoas verdes.

Os únicos relatos quase contemporâneos estão contidos em Historia rerum Anglicarum, de Guilherme de Newburgh, e Chronicum Anglicanum de Ralph de Coggeshall, escritos por volta de 1189 e 1220, respectivamente. Entre então e sua redescoberta em meados do século XIX, as crianças verdes parecem surgir apenas em uma menção passageira na Britannia de William Camden em 1586, e no fantástico O Man in the Moone do bispo Francis Godwin no início do século XVII, em ambos os quais o relato de Guilherme de Newburgh é citado.

Duas abordagens dominam as explicações da história das crianças verdes: a de que é um conto popular que descreve um encontro imaginário com os habitantes de outro mundo, talvez subterrâneo ou mesmo extraterrestre, a a de que é um relato distorcido de um acontecimento histórico. A história foi elogiada como uma fantasia ideal pelo poeta e crítico anarquista inglês Herbert Read em seu English Prose Style, publicado em 1931. Ela forneceu a inspiração para seu único romance, The Green Child, escrito em 1934.

Fontes O vilarejo de Woolpit fica no condado de Suffolk, Ânglia Oriental, cerca de a leste da cidade de Bury St Edmunds. Na Idade Média, o local pertencia à Abadia de Bury St Edmunds e era parte de uma das regiões mais densamente populadas da Inglaterra rural. Dois escritores, Ralph de Coggeshall (falecido c. 1226) e Guilherme de Newburgh (c. 1136–1198), relataram a chegada repentina e inesperada ao vilarejo de duas crianças verdes durante um verão no século XII. Ralph era o abade da abadia cisterciense de Coggeshall, cerca de a sul de Woolpit. Guilherme era um cônego no prioriado agostiniano, muito mais ao norte em Yorkshire. Guilherme afirma que o conto fornecido no seu Historian rerum Anglicarum (c. 1189) é baseado em "relatos de várias fontes confiáveis"; Ralph, em seu Chronicum Anglicanum da década de 1220, baseia-se no relado de Sir Richard de Calne de Wykes, que supostamente abrigou as crianças em seu solar, localizado a norte de Woolpit.

Apesar de cronistas medievais comumente copiarem passagens de outros de forma exata—muitas vezes com pouca ou nenhuma atribuição—os relatos fornecidos pelos dois autores diferem em alguns detalhes. O acadêmico literário Michał Madej não acredita que Guilherme ou Ralph tenham visto os manuscritos um do outro quando contaram a história das crianças verdes. Ele também afirma que, enquanto Ralph morava a aproximadamente de Woolpit, Guilherme escreveu seus registros "praticamente do outro lado da Inglaterra", o que torna uma cópia ainda mais improvável. Além disso, Ralph cita suas fontes, enquanto Guilherme afirma que ele ouviu o conto de "pessoas de nome desconhecido". John Clark sugere a possibilidade de Richard de Calne ter sido a fonte de ambos os escritores e que, enquanto Guilherme estava mais distante, tinha mais chances de ter contatos com a Abadia de Thetford agostiniana. Enquanto Ralph estava mais próximo geograficamente, ele escreveu décadas depois de Guilherme. Apesar de Guilherme escrever num tempo relativamente próximo aos eventos, Campbell sugere que sua escrita é "envolta em dúvidas" sobre a sua natureza: apesar de ele afirmar , isto pode traduzido como "eu me forço a acreditar", mas literalmente "sou esmagado suficientemente para me forçar a acreditar".

Conto Um dia, durante a época da colheita no reinado de Estêvão (entre 1135 e 1154), de acordo com Guilherme de Newburgh, os aldeões de Woolpit encontraram duas crianças, irmão e irmã, ao lado de uma das fossas cobertas com folhas construídas como armadilhas para lobos (wolf pits, de onde deriva o nome do vilarejo, Woolpit). Sua pele era verde, eles falavam uma língua desconhecida e suas roupas eram estranhas. Ralph de Coggeshall relata que as crianças foram levadas à casa de Richard de Calne. Ralph e Guilherme concordam que a dupla recusou toda a comida que lhe era oferecida por dias até se depararem com favas cruas, que consumiram com prazer. As crianças gradualmente se adaptaram a uma alimentação normal e com o tempo perderam sua coloração verde. Decidiu-se batizá-las, mas o garoto, que parecia ser o mais jovem entre os dois, estava enfermo e morreu pouco antes ou depois do batismo.

Após aprenderem a falar inglês, as crianças— ou apenas a garota sobrevivente, de acordo com Ralph— explicaram que vinham de uma terra onde o sol nunca brilhava e a luz era como o crepúsculo. De acordo com Guilherme, a garota chamava sua terra natal de Terra de São Martinho (Land of St Martin). Pelo relato de Ralph, a garota também menciona que tudo lá era verde. Para Guilherme, as crianças não foram capazes de descrever sua chegada a Woolpit; eles arrebanhavam a boiada de seu pai quando escutaram um ruído alto (de acordo com Guilherme, era como os sinos da Abadia de Bury St Edmunds) e de repente se encontraram na fossa de lobos onde foram achados. Ralph afirma que os irmãos haviam se perdido ao seguirem o rebanho para uma caverna e, após serem guiados pelos sons de sinos, emergiram ao nosso mundo.

Segundo Ralph, a garota foi empregada por muitos anos como serva na casa de Richard de Calne, onde foi descrita como "bastante solta e devassa em sua conduta". Pelo relato de Guilherme, ela acabou se casando com um homem de King's Lynn, a cerca de de Woolpit, onde ela ainda estava vivendo pouco antes de ele escrever. De acordo com a sua pesquisa sobre o histórico da família de Richard de Calne, o astrônomo e escritor Duncan Lunan concluiu que a garota foi batizada de 'Agnes' e se casou com o nobre Richard Barre.

Explicações Nem Ralph de Coggeshall nem Guilherme de Newburgh explicam o evento "estranho e prodigioso", como Guilherme o descreve, e alguns historiadores modernos possuem a mesma reticência: "Considero o processo de preocupação a respeito dos detalhes sugestivos desses milagres maravilhosamente sem sentido numa tentativa de encontrar explicações naturais ou psicológicas do que 'realmente' teria acontecido, se é que qualquer coisa aconteceu, inútil para o estudo de Guilherme de Newburgh ou, como um todo, da Idade Média", diz Nancy Partner, autora de um estudo da historiografia do século XII. Ainda assim, tais explicações continuam a ser buscadas e duas abordagens distintas dominam as explicações do mistério das crianças verdes. A primeira é de que a narrativa descende do folclore e descreve um encontro imaginário com os habitantes de um "mundo fantástico". Em algumas das primeiras interpretações, bem como algumas modernas, este outro mundo é extraterrestre e as crianças verdes são alienígenas. A segunda é de que a história se trata de um "relato distorcido" de um evento real, ainda que seja impossível determinar se a história tal como a conhecemos é um relato autêntico das crianças ou uma "invenção dos adultos". Seu estudo da história levou Charles Oman a concluir que "há claramente algum mistério por trás disso tudo, alguma história em que alguém foi dopado e sequestrado". O medievalista Jeffrey Jerome Cohen sugere outro tipo de explicação histórica, arguindo que o conto é um relato oblíquo da diferença racial entre os ingleses e os bretões nativos.

Folclore Folcloristas especializados no século XII como Charles Oman observaram que um elemento do relato das crianças, a entrada para uma realidade distinta por meio de uma caverna, parecia ser uma narrativa bastante popular na época. O historiador medieval Geraldo de Gales conta uma história similar de um garoto que, enquanto matava aula, "encontrou dois pigmeus que o levaram, por meio de uma passagem subterrânea, até uma terra encantadora com campos e rios, mas sem iluminação completa do sol". No entanto, o motivo específico que se refere às crianças verdes é parcamente documentado; E. W. Baughman o lista como o único exemplo da da categoria F103.1 de motivos de contos folclóricos ingleses e norte-americanos: "Habitantes de um submundo visitam os mortais e continuam a viver com eles". Madej, de forma similar, argumenta que o conto das Crianças Verdes fazia parte de uma popular rede de imaginação, "originária nos territórios da Inglaterra e de Gales, a de passar por uma caverna e chegar a outro mundo".

Martin Walsh, folclorista especializado em histórias de todo o mundo, identifica o conto das crianças verdes como "um relato distorcido de um ritual atavístico de colheita". Ele considera as referências a São Martinho significantes e vê a história como evidência de que a festa do Dia de São Martinho tem suas origens no passado aborígene da Inglaterra, do qual a história das crianças forma "o estrato mais baixo". No entanto, John Clark questiona as conclusões de Walsh, argumentando uma falta de evidências de que São Martinho era "uma figura conectada a outro mundo", ou que conectem as crianças a "um ritual atavístico de colheita". Madej conecta a hipotética Terra de São Martinho com o próprio santo, ecoando a visão de Anne Witte, que havia previamente defendido uma conexão entre São Martinho e o submundo. O folclore medieval o associa bastante a símbolos da morte, como ele montado num cavalo—psicopompo comum do período—e ele carregando um bastão que simboliza a ressurreição. Ele também sugere que as duas crianças podem representar, simultaneamente, a vida e a morte, de forma similar aos quase contemporâneos contos do Cavaleiro Verde. A mudança de pigmentação das crianças "simbolizaria sua passagem da morte para a vida, um reavivamento ocorrendo sobre a terra".

O consumo de favas também atrai atenção dos folcloristas. "É de se notar, também, que a alimentação habitual das crianças consistia de favas, a comida dos mortos", observa K. M. Briggs. Ela também faz a mesma observação sobre a comida dos mortos no seu livro de 1967 The Fairies in English Tradition and Literature ("As Fadas na Tradição e Literatura Inglesas"), mas John Clark expressa dúvidas sobre a suposta tradição a que Briggs se refere, comentando que "a identificação das favas como a comida dos mortos é indevida". Ainda assim, ele concorda que "favas são em muitas culturas associadas aos mortos", enquanto Madej argumenta que as favas não apenas "são símbolo de morte e corrupção desde os tempos antigos... mas também são associadas a fenômenos opostos, como renascimento e fertilidade".

thumb|upright|Ilustração das Crianças na Floresta (Babes in the Wood) de Randolph Caldecott, 1879