Caso família Pesseghini faz referência à chacina ocorrida no dia 5 de agosto de 2013, no município brasileiro de São Paulo, na qual cinco membros da família Bovo Pesseghini foram mortos.

Entre as vítimas estavam Andreia Regina Bovo Pesseghini, cabo da 1.ª Companhia do 18º Batalhão da Polícia Militar, com base na Freguesia do Ó e mãe do menino Marcelo; Benedita Oliveira Bovo, mãe da cabo Andréia e avó do menino Marcelo; Bernardete Oliveira da Silva, irmã de Benedita e tia-avó de Marcelo; Luis Marcelo Pesseghini, sargento da ROTA e pai do menino Marcelo; e Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini, filho do casal de policiais e suspeito de ter executado o crime.

Os corpos das vítimas foram velados na tarde do dia 6, no Cemitério Gethsêmani Anhanguera, localizado na rodovia Anhanguera. O encerramento do caso pela justiça brasileira foi envolvido em uma série de críticas e controvérsias. Antonio Carlos Prado, escrevendo para a revista IstoÉ chamou o caso Pesseghini de "um dos mais mal explicados da história dos crimes no Brasil." Após várias tentativas de reabertura na justiça do Brasil, o caso foi denunciado em 2018 à Organização dos Estados Americanos, nos Estados Unidos.

História Crime Cinco pessoas da mesma família foram encontradas mortas na noite de segunda-feira, dia 5 de agosto de 2013, dentro da casa onde moravam, na Brasilândia, zona norte de São Paulo. Entre os mortos, estavam dois policiais militares — o sargento Luis Marcelo Pesseghini, 40 anos, e a mulher dele, a cabo Andreia Regina Bovo Pesseghini, 35 anos. O filho do casal, Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini, 13 anos, também foi encontrado morto, assim como a mãe de Andreia, Benedita Oliveira Bovo, 65 anos, e a irmã de Benedita, Bernardete Oliveira da Silva, 55 anos.

Investigação Os investigadores descartaram a possibilidade do crime ter sido um ataque de criminosos aos dois PMs e passou a considerar a hipótese de uma tragédia familiar: o filho do casal, Marcelo, teria atirado nos pais, na avó e na tia-avó e cometido suicídio.

A chefe do DHPP, delegada Elizabete Sato, afirmou que não foram descartadas outras hipóteses, como crime passional ou vingança. De acordo com a delegada, o local do crime não estava idôneo, ou seja, preservado para perícia, quando policiais civis foram atender a ocorrência, no dia do crime, 5 de agosto de 2013, pouco depois das 18h. Naquele dia, cerca de 200 policiais foram até a casa onde a família foi morta.

O promotor Luiz Fernando Bugiga Rebellato deu parecer favorável a um novo pedido de prorrogação das investigações por mais trinta dias. Foi feito sob o argumento de que a conclusão dos trabalhos dependia de um complemento aos dados referente à quebra do sigilo telefônico dos celulares encontrados na casa.

Com base no laudo psiquiátrico sobre o perfil de Marcelo Pesseghini (exame de insanidade mental póstumo retrospectivo), que foi feito somente a partir de análises baseadas em depoimentos e entrevistas, e assinado pelo psiquiatra forense Guido Palomba, foi apontado que o estudante sofria de uma "encefalopatia hipóxica" (falta de oxigenação no cérebro) que o fez desenvolver um "delírio encapsulado". O psiquiatra comparou essa perda da noção de realidade vivida por Pesseghini com a do personagem do jogo Assassin´s Creed.

A Polícia Civil, o Ministério Público e o Tribunal de Justiça de São Paulo concluíram que o garoto foi o assassino. Porém, a Polícia Militar continuou investigando o caso. No dia 15 de outubro de 2014, a PM pediu ao órgão especial do Tribunal de Justiça uma cópia do relatório do inquérito policial que já tinha sido concluído. A justificativa assinada pelo major Laerte Fidelis diz que existia a necessidade de conclusão da sindicância que apura os fatos que levaram à morte da cabo Andréia. A sindicância tentava esclarecer as denúncias de corrupção feitas por ela. O tenente coronel Wagner Dimas, que disse que não acreditava que o menino tinha matado a família, havia sido afastado, mas voltou a comandar a unidade.

Repercussão Mundial Jornais e sites de várias partes do mundo noticiaram o crime envolvendo uma família de policiais militares em São Paulo.

O jornal britânico Daily Mail aponta a dúvida lançada na versão da polícia depois que foi revelado que a mãe de Marcelo, Andreia Regina Pesseghini Bovo, 36 anos, havia denunciado policiais criminosos, que estariam atuando em roubo a caixas eletrônicos, nos meses que antecederam a sua morte violenta. Além disso, o jornal afirma que a polícia de São Paulo é conhecida como sendo uma das mais corruptas do mundo, envolvida em numerosos escândalos, esquadrões da morte e execuções extrajudiciais. Brazilian police investigate theory that criminal officers were behind massacre

Também publicaram sobre o assunto a versão espanhola do site Terra Networks, o Daily Mirror (Reino Unido), Telecinco (Espanha), entre vários outros.

Nota da Ubisoft A desenvolvedora de games Ubisoft, criadora da franquia Assassin's Creed, publicou um comunicado de pêsames à família Pesseghini, refutando a tese de que o jogo tenha influenciado o Marcelo a matar a família. Sites e portais de notícias alardearam que o perfil do jovem em redes sociais tinha foto do protagonista do jogo. Em trecho da nota consta:

No Brasil Em 2013 foi criada uma página no Facebook chamada "Não foi o Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini". Em um dia após sua criação a página tinha três mil curtidas. Ela foi analisada pelo jornal O Popular. Foi organizado um protesto a favor de Marcelo Pesseghini pela página de Facebook. 800 pessoas marcaram presença. No protesto seria questionada as investigações da polícia. Iria ocorrer na frente do DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa) em agosto de 2013. Ninguém compareceu. Na mesma época a polícia começa a divulgar informações que apontaria Marcelo Pesseghini como único culpado do crime. Marcelo Rezende disse que "a polícia colocou na conta de um menino a morte de pais, avó e tia-avó. E aparecia o jogo no centro da investigação."

Controvérsias Crítica da IstoÉ Antonio Carlos Prado, escrevendo para a revista IstoÉ, criticou em diversos pontos o modo como a polícia divulgou detalhes do caso à imprensa em 2013, chamando de "monopólio da informação":

Testemunhas Uma vizinha disse ter visto um policial militar fardado e outro homem pulando o muro da casa da família Pesseghini, por volta das 12h de segunda-feira do dia 5 de agosto. Ao sair da residência os dois comentarem que a família estava morta. Porém, a polícia apareceu somente às sete horas da noite, com a corporação informando que foi notificada após as 18h de 5 de agosto.

A vizinha disse que não acreditava que o menino Marcelo Pesseghini matou a família e que o alvo do assassino era a mãe, por estar "investigando alguma coisa errada na Freguesia do Ó" e ela foi encontrada morta "de joelhos" ao ter implorado para não atirarem. Também informou que um carro modelo Meriva na cor prata rondou durante meses a casa da família Pesseghini e passou informações sobre a residência, do carro e quem a visitiva.

O irmão de Bernardete e Benedita, e tio de Andreia, que não quer ser identificado, disse ter recebido dois telefonemas que seriam da escola de Marcelo, logo que entrou na casa, quando os corpos foram achados. A voz de uma mulher falou, 'é a casa do Marcelinho?'. Eu falei, 'quem quer falar com ele?'. Ela disse, 'é da escola, é porque o Marcelinho não veio para a escola hoje'".

Comentários de policiais O ex-deputado estadual Major Olímpio Gomes do Partido Democrático Trabalhista (PDT) disse que "Eu recebi de policiais da própria Zona Norte[18° Batalhão], que eu conheço, a informação de que a cabo Andreia foi convidada por colegas para participar do furto de caixas eletrônicos". De acordo com o deputado estadual, ele recebeu a denúncia de militares de várias unidades e diversas patentes no fim de semana, e em 12 de agosto relatou o fato ao coronel Rui Conegundes, comandante da Corregedoria da PM. Segundo relato de Major Olímpio, os policiais que fizeram denúncias dizem que Andreia teria recusado a proposta de formação de quadrilha e denunciou alguns colegas ao seu superior na época, o capitão Fábio Paganotto, no início de 2012. O capitão investigou o caso, mas não chegou a nenhuma conclusão e foi transferido do 18° Batalhão para o 9° Batalhão.

O delegado Itagiba Franco, do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) de São Paulo, que coordenou as investigações do caso das mortes da família Pesseghini, convocaria o coronel Wagner Dimas, comandante do 18.º Batalhão da Polícia Militar para depor. Dimas disse em entrevista à Rádio Bandeirantes que a cabo Andreia, que trabalhava no 18.º BPM, contribuiu para as investigações que apontavam a ligação de policiais do batalhão com roubo de caixas eletrônicos. Dimas ainda disse que não acreditava na versão de que o menino tenha sido o autor da chacina, mas ponderou que a mãe de Marcelo não vinha sendo ameaçada de morte. Ele afirmou que o depoimento dela não chegou a provocar a punição de policiais.

No dia seguinte, ele voltou atrás e disse que "se perdeu" na entrevista. O recuo foi feito em depoimentos à Corregedoria da PM e ao DHPP (departamento de homicídios da Polícia Civil). A Folha de S. Paulo apurou que as declarações de Dimas irritaram o comando da corporação, já que batiam de frente com a investigação da Polícia Civil.

Comentando sobre a retirada do depoimento do coronel Wagner Dimas o major Olímpio disse: "Obviamente, ele foi pressionado [pelos seus superiores] porque não havia registro oficial da denúncia (…) Ele acabou sendo destroçado administrativamente pela Secretaria de Segurança Pública [ao recuar na sua declaração] (…) Não podemos desprezar nenhuma possibilidade para a elucidação da chacina de uma família de policiais, nenhuma linha de investigação". O coronel Wagner Dimas foi afastado do comando do batalhão, porém, a PM disse que foi Dimas solicitou afastamento por motivos médicos, mas que ele continua no comando da unidade.

Em entrevista para a revista Isto É Independente, o Major Olímpio Gomes declarou:

Na época em que a cabo Andreia denunciou os colegas, o comandante do 18º Batalhão era o coronel Osni Rodrigues de Souza, que depois foi para a reserva. A investigação que apurava se a cabo Andreia Bovo Pesseghini, morta com a família, teria denunciado o esquema de PMs corruptos, desapareceu. Apesar da gravidade da denúncia, a Justiça Militar decidiu não prosseguir com a investigação, informando que a sindicância interna não virou inquérito policial militar.

Questionamentos dos laudos oficiais Em julho de 2014 foi divulgado em uma reportagem da Band que centenas de horas de gravação não haviam passado por perícia - e poderiam provocar a reabertura do caso. Em uma das sequências, é possível observar que à 1h15 do dia 5 de agosto um carro prata que, segundo a polícia, era dirigido por Marcelinho após assassinar a família. O condutor do veículo está com as mãos em cima do volante e no banco de trás é possível ver o que parece ser um vulto. Um veículo com os faróis apagados estaciona e, como se estivesse sinalizando algo, pisca quatro vezes a lanterna traseira. Mais tarde, por volta de 40 segundos depois dois carros escuros, com películas protetoras nos vidros, passam em baixa velocidade.

Outro vídeo que foi analisado pelo norte-americano Mark Andrews, que trabalha na Law Enforcement and Emergency Services Video Association, diz que os vídeos das câmeras de seguranças que mostram Marcelo saindo do carro e entrando na escola foram manipuladas. Faltam trechos do vídeo no tempo de 6:24:41 e 6:24:43. Também o foi questionado o motivo da polícia ter feito somente um reconhecimento fotográfico em um vídeo de qualidade duvidosa e concluindo que era Marcelo Pesseghini.

Outros questionamento apontados foram: