Economia solidária é definida como o "conjunto de atividades econômicas – de produção, distribuição, consumo, poupança e crédito – organizadas sob a forma de autogestão." Compreende uma variedade de práticas econômicas e sociais organizadas sob a forma de cooperativas, associações, clubes de troca, empresas autogestionárias, redes de cooperação, entre outras, que realizam atividades de produção de bens, prestação de serviços, finanças solidárias, trocas, comércio justo e consumo solidário.O que é Economia Solidária ? Trata-se de uma forma de organização da produção, consumo e distribuição de riqueza centrada na valorização do ser humano e não do capital, caracterizada pela igualdade.

"A economia solidária é uma alternativa inovadora na geração de trabalho e na inclusão social, na forma de uma corrente do bem que integra quem produz, quem vende, quem troca e quem compra. Seus princípios são autogestão, democracia, solidariedade, cooperação, respeito à natureza, comércio justo e consumo solidário."Prefeitura Municipal de Curitiba. Economia solidária em Curitiba. s.d.

A economia solidária preconiza o entendimento do trabalho como um meio de emancipação humana dentro de um processo de democratização econômica, criando uma alternativa à dimensão alienante e assalariada das relações de trabalho capitalistas.

Além disso, a economia solidária possui uma finalidade multidimensional, isto é, envolve a dimensão social, econômica, política, ecológica e cultural. Isto porque, além da visão econômica de geração de trabalho e renda, as experiências de economia solidária se projetam no espaço público, tendo como perspectiva a construção de um ambiente socialmente justo e sustentável. Economia Social e Solidária e Cooperação Sul-Sul e Triangular na América Latina e Caribe: contribuições para o desenvolvimento inclusivo e sustentável. Por Leandro Pereira Morais.Vale ressaltar que a economia solidária não se confunde com o chamado "terceiro setor", que substitui o Estado nas suas obrigações legais e inibe a emancipação de trabalhadores, enquanto sujeitos protagonistas de direitos. A economia solidária reafirma, assim, a emergência de atores sociais, ou seja, a emancipação de trabalhadores como sujeitos históricos.

Origem

Milton Santos já se referia a algo que ele chamou de pequenos circuitos econômicos urbanos que desenvolviam-se em locais com algum grau de desenvolvimento em capital social. Com o tempo verificou-se o crescimento desse fenômeno, muitas vezes intrinsecamente ligado à escassez enfrentada em certa região.

É de crescente aceitação que a Economia Popular Solidária caracteriza um sistema econômico- ou modo de produção -diverso, ou seja, nele se produzem, distribuem e consome-se riquezas de maneira diferente das do capitalismo. Apesar de a expressão economia solidária ter sido criada no Brasil, trata-se de um movimento que ocorre no mundo todo e diz respeito a produção, consumo e distribuição de riqueza com foco na valorização do ser humano. A sua base são os empreendimentos coletivos (associações, cooperativas, grupos informais e sociedades mercantis). Economia solidária se aproxima das origens do socialismo, diz Paul Singer. Por Joel dos Santos Guimarães e Paula Quental. Brasil Debate, 24 de dezembro de 2014

Pode-se dizer que a economia solidária se origina na Primeira Revolução Industrial, como reação dos artesãos expulsos dos mercados pelo advento da máquina a vapor. Na passagem do século XVIII ao século XIX, surgem na Grã-Bretanha as primeiras trade unions (sindicatos) OLIVEIRA FILHO, Marco Aurélio M. B. de Cultura Solidária e Cooperativas Populares. Rotatividade dos sócios e desafios à autogestão. Um estudo de caso em São Carlos, Brasil, p. 25. "No primeiro século a partir da revolução industrial, os sindicatos são formados exclusivamente por trabalhadores qualificados, sejam estes artesãos ou operadores de máquinas. Aqueles que não eram qualificados, entre eles um grande número de mulheres e crianças, tinham a pobreza e o desamparo como grandes obstáculos à sua organização sindical. Os trabalhadores qualificados tinham suas organizações de ofício chamadas Trades, e em cada local havia um Trade ou Trade Club para cada ofício. Já a Trade Union era uma associação de clubes do mesmo ofício de um conjunto de cidades, abrangendo uma região ou várias, e até mesmo o país. Em virtude do alargamento do mercado de trabalho produzido pela revolução capitalista, a defesa ocasional do salário requeria a união dos clubes da mesma região." SINGER, Paul . Uma utopia militante: repensando o socialismo. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998. e as primeiras cooperativas. Com a fundacão da cooperativa de consumo dos Pioneiros de Rochdale (1844), o cooperativismo de consumo se consolida em grandes empreendimentos e se espalha - primeiro pela Europa e depois pelos demais continentes.

Mas, desde uma visão intercultural, pode-se afirmar que práticas econômicas fundadas em princípios de solidariedade existiram em todos os continentes - e muito antes da Revolução Industrial. Práticas solidárias milenares no campo econômico foram reconhecidas e têm sido estudadas no cerne das diferentes culturas como elementos fundamentais da agregação e coexistência de comunidades humanas. Portanto, identificar a economia solidária apenas com as vertentes do movimento operário europeu seria um equívoco, pois sua história pode ser recontada, por exemplo, a partir das tradições da América pré-colombiana, ou dos povos africanos ou asiáticos, tanto quanto dos povos europeus. A expressão economia solidária, porém, foi cunhada somente na última década do século XX.

Conceito A economia solidária é um modo específico de organização de atividades econômicas. Ela se caracteriza pela autogestão, ou seja, pela autonomia de cada unidade ou empreendimento, e pela igualdade entre os seus membros.

Algumas características contribuem para o desenvolvimento de uma economia solidária, visto que, desemprego, desigualdade e exploração são atributos inexistentes dentro de um contexto solidário, ou seja, todas as partes se desenvolvem positivamente nesse modelo. Essa filosofia estrutural promove uma relação inversa ao capitalismo, pois o caráter humano e a união prevalecem perante outras virtudes, porém, não excluindo o objetivo financeiro inicial estipulado pelo capital. MORAIS, Edson Elias de et al. Propriedades coletivas, cooperativismo e economia solidária no Brasil. Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 105, p.67-88, jan./mar. 2011

Existem diferentes autores que se dedicam à conceituação da economia solidária, sendo que os principais são Paul Singer e Euclides Mance. Singer propõe que a economia solidária seja uma estratégia possível de luta contra as desigualdades sociais e o desemprego: "A construção da economia solidária é uma destas outras estratégias. Ela aproveita a mudança nas relações de produção provocada pelo grande capital para lançar os alicerces de novas formas de organização da produção, à base de uma lógica oposta àquela que rege o mercado capitalista. Tudo leva a acreditar que a economia solidária permitirá, ao cabo de alguns anos, dar a muitos, que esperam em vão um novo emprego, a oportunidade de se reintegrar à produção por conta própria individual ou coletivamente...” SINGER, Paul. "Economia Solidária: geração de renda e alternativa ao neoliberalismo". In: Proposta– Revista Trimestral de Debates. São Paulo: FASE, 1997 p. 138.

Já de acordo com Mance, o conceito vai além e agrega ao conceito a noção não apenas de geração de postos de trabalho, mas sim uma colaboração solidária que visa a construção de sociedades pós-capitalistas em que se garanta o bem-viver de todas as pessoas: "...ao considerarmos a colaboração solidária como um trabalho e consumo compartilhados cujo vínculo recíproco entre as pessoas advém, primeiramente, de um sentido moral de corresponsabilidade pelo bem-viver de todos e de cada um em particular, buscando ampliar-se o máximo possível o exercício concreto da liberdade pessoal e pública, introduzimos no cerne desta definição o exercício humano da liberdade...".

A economia popular solidária é "o conjunto de empreendimentos produtivos de iniciativa coletiva, com certo grau de democracia interna e que remuneram o trabalho de forma privilegiada em relação ao capital, seja no campo ou na cidade. Tolerar ou mesmo estimular a formação de empreendimentos alternativos aos padrões capitalistas normalmente aceitos, tais como cooperativas autogeridas é, objetivamente falando, uma forma de reduzir o passivo corrente que se materializa em ondas crescentes de desemprego e falências. (...) Tais empreendimentos encontram potencialmente no trabalho coletivo e na motivação dos trabalhadores que os compõem, uma importante fonte de competitividade reconhecida no capitalismo contemporâneo. Enquanto no fordismo a competitividade é obtida através das economias de escala e de uma crescente divisão e alienação do trabalho associadas a linhas produtivas rígidas – automatizadas ou não -, na nova base técnica que está se configurando, uma importante fonte de eficiência é a flexibilização.” Autogestão no Brasil: A viabilidade econômica de empresas geridas por trabalhadores. Por José Ricardo Tauile e Eduardo Scotti Debaco. In Economia Solidária. Volume 1

No capitalismo, o trabalhador é separado dos meios de produção, que anteriormente controlava. Segundo Paul Singer, "a empresa solidária nega a separação entre trabalho e posse dos meios de produção, que é reconhecidamente a base do capitalismo. (...) A empresa solidária é basicamente de trabalhadores, que apenas secundariamente são seus proprietários. Por isso, sua finalidade básica não é maximizar lucro mas a quantidade e a qualidade do trabalho".

A economia solidária, então, apresenta-se como uma "reconciliação" do trabalhador com os meios de produção e fornece, de acordo com Gaiger (2003), uma experiência profissional fundamentada na equidade e na dignidade, na qual ocorre um enriquecimento do ponto de vista cognitivo e humano. Com as pessoas mais motivadas, a divisão dos benefícios definida por todos os associados e a solidariedade, "o interesse dos trabalhadores em garantir o sucesso do empreendimento estimula maior empenho com o aprimoramento do processo produtivo, a eliminação de desperdícios e de tempos ociosos, a qualidade do produto ou dos serviços, além de inibir o absenteísmo e a negligência" GAIGER, Luiz Inácio. "Empreendimentos Econômicos Solidários". In: CATTANI, AntônioDavid (Org.). A Outra Economia. Porto Alegre: Veraz, 2003, p. 135-143

Um dos conceitos, então, que está intrinsecamente ligado à realização de um empreendimento solidário é o de desenvolvimento local. Com a tendência de aumento do rendimento do trabalho associado, há a busca por promover o desenvolvimento local dos aspectos econômico e social, sendo que este define-se como o “processo que mobiliza pessoas e instituições buscando a transformação da economia e da sociedade locais, criando oportunidades de trabalho e renda, superando dificuldades para favorecer a melhoria das condições de vida da população local” Jesus, Pablo (2003), "Desenvolvimento Local", in Antonio David Cattani (org.), A outra economia. São Paulo: Veraz Editores, 72-75.

Segundo Gaiger,A Economia Solidária diante do Modo de Produção Capitalista. A Economia Solidária, volume I, p.18 quatro características econômicas fazem parte do modo de produção capitalista. produção de mercadorias tendo como único objetivo o mercado separação dos trabalhadores dos meios de produção transformação do trabalho em mercadoria, sob a forma de trabalho assalariado extração de mais-valia sobre o trabalho cedido ao detentor dos meios de produção, como meio de ampliação incessante do valor investido na produção.