As guerras bizantino-otomanas foram uma série de conflitos entre os turcos otomanos e os bizantinos que levaram à destruição final do Império Romano do Oriente e à ascensão do Império Otomano.

Em 1204, a capital bizantina, Constantinopla, foi saqueada e ocupada pelos soldados da Quarta Cruzada, um momento decisivo no contexto do cisma cristão que vigorava entre ocidente e oriente. Os bizantinos, já enfraquecidos pelo desgoverno, se viram mergulhados no caos.The Fourth Crusade and the Sack of Constantinople, Jonathan Phillips, History Today v 54:5 2004 Aproveitando-se da situação, o Sultanato de Rum iniciou seu avanço na Anatólia ocidental, que só foi interrompido quando o Império de Niceia conseguiu repeli-lo. Em 1261, a capital foi retomada das mãos do Império Latino pelos nicenos, porém, a posição do Império Bizantino no continente europeu permaneceu incerta por causa da presença ameaçadora de reinos rivais como o Despotado do Epiro, a Sérvia e o Segundo Império Búlgaro. Esta ameaça e o enfraquecimento do Sultanato de Rum levaram à transferência das tropas asiáticas para a Trácia para defender as posses bizantinas na região.Compact History, pp. 70–71 Porém, o enfraquecimento dos seljúcidas não foi, de forma alguma, algo positivo, pois nobres conhecidos como gazis começaram a criar seus próprios feudos às custas do território conquistado dos bizantinos. O mais poderoso deles era , que agora ameaçava Constantinopla e Niceia (atual İznik). Em 1299, seguro de sua posição, Osmã se declarou sultão e seus territórios passaram a ser conhecidos a partir daí como Império Otomano.

Num período de 50 anos depois da fundação do Beilhique Otomano, a Ásia Menor bizantina deixou de existir e, por volta de 1380, a Trácia também. Em 1400, o poderoso Império Bizantino não passava de uma coleção de territórios composta pelo Despotado da Moreia, as ilhas Egeias e uma faixa de terra vizinha da capital. A Batalha de Nicópolis em 1386, a invasão de Tamerlão em 1402 e a Cruzada de Varna em 1444 deram algum respiro aos bizantinos e adiaram a derrota até 1453, quando Constantinopla finalmente caiu. Com o fim da guerra, se estabeleceu a supremacia otomana no Mediterrâneo Oriental.

Origens da guerra

Depois das guerras bizantino-seljúcidas, no final do , os vários grupos de turcos que se assentaram na Ásia Menor começaram a fundar beilhiques, um tipo de Estado semi-independente governado por um bei, no vácuo deixado pelo colapso do Sultanato de Rum.Madden, Thomas F. Crusades: the Illustrated History. 1st ed. Ann Arbor: University of Michigan P, 2005 pg 164–165 Um destes beis chamava-se , conhecido também como Uc beg ("protetor"), e seu domínio ficava na região noroeste da Anatólia, não muito longe de Constantinopla. Por conta desta proximidade, ele e seus gazis conseguiram tirar proveito do enfraquecimento bizantino, provocado principalmente pela obsessão de Miguel VIII Paleólogo em expulsar os latinos da Grécia. Ao retirar suas tropas da Ásia e transferi-las para a Europa, o imperador abriu as portas do império aos ataques turcos.Mango, Cyril. The Oxford History of Byzantium. 1st ed. New York: Oxford UP, 2002 pg 260

Ascensão dos otomanos: 1265–1328 Depois da reconquista de Constantinopla por Miguel VIII Paleólogo em 1261, o Império Bizantino se viu numa difícil situação. Havia rumores entre os estados latinos na Grécia sobre uma possível retomada da cidade pelo que restava do Império LatinoMango, Cyril. The Oxford History of Byzantium. 1st ed. New York: Oxford UP, 2002. pp. 255–257 enquanto que ao norte a principal ameaça era a expansão da Sérvia de Estêvão Uroš I nos Balcãs.Mango, Cyril. The Oxford History of Byzantium. 1st ed. New York: Oxford UP, 2002. 260 O que já fora antes uma poderosa fronteira na gestão da dinastia comnena na região do Danúbio era agora uma ameaça à capital bizantina

Para resolver todos esses problemas, Miguel começou consolidando sua posição: ele mandou cegar seu coimperador júnior, João IV Láscaris, o que provocou um enorme ressentimento. Para contê-lo, ele nomeou um novo patriarca, Germano III, para levantar a pena de excomunhão que lhe fora imposta pelo anterior, Arsénio I, por causa da mutilação de João. Ele também obrigou-o a se submeter à autoridade de Roma para apaziguar os latinos.

A medida que os bizantinos avançavam sobre os territórios latinos na Grécia, os turcos de Osmã começaram seus raides na Anatólia bizantina: Söğüt e Esquixequir caíram em 1265 e 1289 respectivamente. Miguel nada podia fazer uma vez que o exército bizantino havia se retirado da região.

Em 1282, o imperador morreu e seu filho, , tomou o poder. A morte de Miguel provocou alívio na maior parte da população, que ressentia da política de apaziguamento com a Igreja de Roma e dos altos impostos para bancar os gastos militares. Os turcos cada vez mais eram vistos como libertadores dos anatólicos e muitos camponeses rapidamente se converteram ao islamismo, minando ainda mais a legitimidade do jugo bizantino na região.Bentley, Jerry H., and Herb F. Ziegler. Traditions & Encounters: a Global Perspective on the Past. 3rd ed. Vol. 1. New York: McGraw-Hill, 2006

O governo de Andrônico foi marcado pela incompetência e por más decisões que, no longo prazo, arruinariam o império definitivamente. Ele começou desvalorizando o hipérpiro bizantino (a moeda de ouro que era base do comércio internacional da região), o que na verdade reduziu a importância da economia bizantina como um todo. Ele também baixou os impostos e, para compensar, passou a taxar a classe dos cavaleiros (pronoia). Para aumentar sua popularidade, ele repudiou a União das Igrejas decidida em 1274 no Segundo Concílio de Lyon, reiniciando as hostilidades entre bizantinos e latinos.Oxford History, pp. 260–261

Andrônico desejava preservar o controle bizantino na Anatólia e ordenou a construção de diversas fortalezas na região e um vigoroso treinamento para o exército bizantino. O imperador mudou com sua corte para lá para conseguir supervisionar os trabalhos pessoalmente e ordenou que seu general, Aleixo Filantropeno, atacasse os turcos. Contudo, os sucessos iniciais logo se perderam quando Aleixo tentou tomar o trono para si e fracassou. Ele foi cegado e exilado, mas o respiro permitiu que os otomanos cercassem Niceia (atual İznik) em 1301. Novas derrotas do filho de Andrônico, o coimperador Miguel IX Paleólogo, e do general Jorge Muzalon em Magnésia do Sipilo (atual Manisa) e na Batalha de Bafeu encerraram a campanha em 1302.

Apesar disso, Andrônico tentou mais uma vez dar um golpe decisivo nos turcos, desta vez valendo-se de mercenários catalães liderados por Rogério de Flor e por Miguel IX. A chamada Companhia Catalã, formada por cavaleiros, atacou na primavera e no verão de 1303 e forçou os turcos a recuarem. Os caros serviços da companhia conseguiram expulsar os turcos da região entre a Filadélfia (atual Alaşehir), à oeste, e Cízico, à leste, mas à custa da devastação completa do zona rural. Uma vez mais as vitórias bizantinas foram atrapalhadas por conflitos internos: Rogério foi assassinado e, como vingança, a Companhia Catalã passou a saquear a região. Quando eles finalmente se mudaram para o Tema da Trácia em busca de novos saques em 1307, a população local, agradecida, recebeu os turcos de braços abertos, que rapidamente cercaram as principais fortalezas bizantinas na Ásia Menor.Madden, Thomas F. Crusades: the Illustrated History. 1st ed. Ann Arbor: University of Michigan P, 2005.179.

Depois dessas derrotas, Andrônico não era mais capaz de enviar mais tropas para a região. Em 1320, o neto do imperador, , foi deserdado depois da morte do pai, o filho de Andrônico II, Miguel.Oxford History, p. 262 No ano seguinte, ele retaliou marchando para a capital e acabou recebendo a Trácia como apanágio. Porém, não satisfeito, Andrônico III continuou pressionando o avô e, em 1322, foi nomeado coimperador. O conflito se transformou numa guerra civil travada nos Balcãs na qual os sérvios apoiaram Andrônico II enquanto que os búlgaros estavam do lado de Andrônico III. A guerra terminou em 23 de maio de 1328 com Andrônico III emergindo como vitorioso. Enquanto a guerra era travada nos Balcãs, os turcos atacaram novamente na Ásia e tomaram Bursa em 1326.

Contra-ofensiva bizantina: 1328–1341

Foi durante o reinado de Andrônico III que ocorreu a última tentativa genuína - e com alguma possibilidade de sucesso - de restaurar a "glória que fora um dia de Roma". Em 1329, tropas bizantinas foram enviadas para combater as forças otomanasOxford History, p. 263 que estavam cercando Niceia (atual İznik) desde 1301.Grant, R G. Battle: a Visual Journey Through 5000 Years of Combat. London: Dorling Kindersley, 2005 122 As campanhas da Companhia Catalã e as fortes defesas da cidade frustraram as tentativas otomanas de tomá-la. Porém, o destino da cidade foi selado quando este exército foi derrotado na Batalha de Pelecano em 10 de junho de 1329. Em 1331, Niceia se rendeu,Grant, R G. Battle: a Visual Journey Through 5000 Years of Combat. London: Dorling Kindersley, 2005 pg 122 um severo golpe para os bizantinos, principalmente considerando que ela havia sido a capital do Império de Niceia e a base grega para a retomada de Constantinopla das mãos do Império Latino.

Uma vez mais o poder militar bizantino estava exaurido e Andrônico III foi forçado a negociar, como fizera seu avô. Em troca da segurança dos demais assentamentos bizantinos na Ásia Menor, um tributo seria pago aos otomanos. Infelizmente para os bizantinos, o pagamento não impediu que os otomanos cercassem Nicomédia em 1333, que finalmente caiu em 1337.

Apesar destes contratempos, Andrônico III conseguiu algumas vitórias contra seus adversários na Grécia e na Ásia Menor. O Despotado do Epiro e Salonica foram subjugados. Em 1329, os bizantinos capturaram a ilha de Quio e, em 1335, tomaram Lesbos. Ainda assim, estas ilhas eram apenas exceções isoladas na tendência geral das conquistas otomanas. Além disso, nenhuma delas era parte do domínio dos turcos e a captura delas pelos bizantinos mostra que eles ainda detinham algum potencial militar. Porém, as forças bizantinas seriam ainda mais enfraquecidas pela expansão do Reino da Sérvia na região recém-conquistada do Epiro durante a devastadora guerra civil que deixaria o Império Bizantino como vassalo dos otomanos.

Invasão dos Balcãs e guerra civil: 1341–1371

Andrônico III morreu em 1341 deixando seu filho de apenas 10 anos de idade, , no trono.Oxford History, p. 265 Uma regência foi formada por João VI Cantacuzeno, a mãe do jovem imperador, Ana de Saboia, e o patriarca João XIV Calecas. A rivalidade entre Cantacuzeno e Calecas provocou uma destrutiva guerra civil que terminaria com a vitória de Cantacuzeno em fevereiro de 1347. Durante esse período, a peste, terremotosOxford History, p. 266 e constantes ataques otomanos enfraqueceram o império a tal ponto que apenas Filadélfia (atual Alaşehir) continuava sob controle bizantino na Anatólia e, ainda assim, à custa do pagamento de tributos. Durante a guerra, ambos os lados empregaram mercenários turcos e sérvios, que saqueavam e pilhavam o território bizantino à vontade,Oxford History, p. 267 o que arruinou a maior parte da Tema da Macedônia e deixando-a à mercê do recém-criado Império Sérvio de . Vencedor, Cantacuzeno se fez coroar coimperador e reinou como juntamente com João V.