thumb|Apolo Belvedere atribuído a Leocarés, exemplo típico de nu heroico da Antiguidade. Museu Pio-Clementino, Vaticano
thumb|Antonio Canova: Perseu com a cabeça da Medusa, 1800-1801, exemplo moderno do nu heroico. Museus Vaticanos.
Nudez heroica, uma das várias modalidades da nudez artística, é um conceito usado no estudo dos clássicos que se refere à representação de personagens nus para significar sua condição exaltada.
A nudez masculina foi um costume socialmente aceito dentro de certos contextos atléticos e militares da Grécia Antiga, e se tornou um traço distintivo da cultura helênica. Em outros contextos, a nudez não era tolerada e era motivo de vergonha. Aparentemente, como se deduz de uma passagem de Tucídides, a nudez foi praticada primeiro pelos espartanos em seus exercícios militares, e daí teria sido introduzida nos Jogos Olímpicos, mas outras fontes afirmam que o costume se originou quando um atleta corredor venceu a prova na V Olimpíada () ao perder ou tirar no meio do trajeto o perizoma (espécie de tanga) que o atrapalhava.
No entanto, esta origem da nudez pública grega tem sido disputada e parece pertencer à lenda. Larissa Bonfante pensa que a nudez devia servir a um propósito mágico e protetor, já que eram comuns naquela época amuletos contra as forças do mal na forma de falos eretos, e é de assinalar que os Jogos atléticos eram comemorados como festividades religiosas e os próprios atletas eram de certa forma santificados pela participação. Qualquer que tenha sido a forma de sua introdução, a nudez rapidamente foi adotada pela sociedade grega e pelas artes dentro de uma moldura formal e conceitual idealizante, gerando prolífica e influente iconografia atestada desde o em pinturas de vasos e nos numerosos kouroi arcaicosBonfante, Larissa. Etruscan Dress. The Johns Hopkins University Press, 2003, pp. 20; 102 e, no , quando aparecem os primeiros ginásios atléticos, ela já estava largamente difundida. A palavra ginásio, aliás, deriva do grego gymnos, nu.Spivey, Nigel. Greek Sculpture. Cambridge University Press, 2013, pp. 133-148
A educação na Grécia Antiga seguia um sistema pedagógico de amplo escopo, conhecido como paideia, que se destinava a preparar cidadãos felizes e úteis à sociedade. Dentro deste sistema era dada grande atenção à formação do caráter, havendo forte ênfase em aspectos éticos e cívicos, ao mesmo tempo em que se pensava que a beleza das formas corpóreas refletia a beleza, a força, a pureza e a bondade da alma, síntese expressa no conceito de kalokagathia, e por isso o cuidado com o corpo era igualmente importante. Esta filosofia tinha uma forte inclinação idealista, e entendia a arte como um auxiliar educativo privilegiado, atribuindo-lhe a função de criar imagens simbólicas que servissem como exemplo de virtudes e condutas a serem imitadas. Por consequência, a representação do nu logo foi associada à representação de personagens célebres e dignificados, ou por qualquer motivo merecedores de apreço social, como deuses, militares e atletas vencedores das Olimpíadas, eternizando publicamente suas qualidades em estátuas e pinturas que os mostravam de corpos belos, vigorosos, saudáveis e jovens, mesmo que, quando humanos, na realidade não fossem assim. Embora esta nudez tenha provavelmente se inserido na cultura grega da homossexualidade masculina, não é claro se sua representação artística guardava associações sexuais importantes, e em muitos contextos esta interpretação é, ao que tudo indica, inadequada.Hurwitt, Jeffrey. "The Human Figure in Early Greek Sculpture and Vase Painting". In Shapiro, Henry. The Cambridge companion to archaic Greece. Cambridge University Press, 2007, pp. 274-275.
A nudez heroica não se limitou aos homens, mas a inclusão de mulheres na galeria de nus clássicos foi posterior e muito menos usual, aparecendo somente no , inaugurada pela célebre Afrodite de Cnido de Praxíteles,Havelock, Christine Mitchell. The Aphrodite of Knidos and Her Successors: A Historical Review of the Female Nude in Greek Art. University of Michigan Press, 2007, p. 142 e não se repetiu em práticas físicas, continuando a mulher grega real a permanecer invariavelmente vestida, salvo em Esparta, onde a exposição de seu corpo durante exercícios era aceitável. Para as mulheres a associação com o heroísmo não era natural, e o nu feminino tendia a significar vulnerabilidade, imoralidade, fraqueza, derrota ou vitimização, pois somente escravas e prostitutas eram vistas em público sem roupas.Cohen, Ada. Art in the Era of Alexander the Great: Paradigms of Manhood and Their Cultural Traditions. Cambridge University Press, 2010, p. 236. Exceção notável é a tipologia de Afrodite, mostrada desde Praxíteles sempre nua para indicar a pureza, vigor e beleza de seu amor.
Com uso muito limitado no domínio feminino, o nu heroico masculino assumiu definitivamente o espaço principal na arte da Grécia e foi de importância decisiva na evolução da representação do corpo humano de um modelo esquemático quase abstrato típico do período arcaico até a figuração classicista, onde foi atingido elevado nível de semelhança com a natureza. Os romanos também o adotaram, mas impuseram maiores restrições morais ao aparecimento do nu masculino, tornando-o mais raro, restrito aos retratos de deuses e de algumas eminências políticas em sua condição divinizada, quase desaparecendo das representações de eventos históricos, como faziam os gregos. Em compensação o nu feminino se tornou mais admissível, havendo sobrevivido muitas estátuas de respeitáveis matronas romanas nuas ou semidespidas, mas é significativo que tais retratos em geral tragam elementos que liguem a retratada a Vênus (a Afrodite romana).Blanshard, Alastair J. L. Sex: Vice and Love from Antiquity to Modernity. John Wiley & Sons, 2010, pp. 27-28.
Depois do obscurecimento generalizado do nu na Idade Média,Sorabella, Jean. "The Nude in Western Art and its Beginnings in Antiquity". In: The Metropolitan Museum of Art. Heilbrunn Timeline of Art History, 2000. o nu heroico reapareceu com grande pujança no Renascimento e no Neoclassicismo, períodos em que o legado clássico influenciou poderosamente todas as formas de arte erudita. São célebres, por exemplo, o exemplo precursor de Nicola Pisano com sua alegoria da Fortaleza, depois os nus heroicos de Michelangelo, na figura do David, e de Antonio Canova, que o mostrou no Perseu com a cabeça da Medusa e no Napoleão Bonaparte como Marte pacificador.Osborne, R. "Men Without Clothes: Heroic Nakedness and Greek Art". In: Gender & History, 1997; 9 (3):504-528.Stevenson, Tom. "The 'Problem' with Nude Honorific Statuary and Portrait in Late Republican and Augustan Rome". In: Greece and Rome, 1998; XLV (1).Stevenson, Jane. "Nacktleben". In: Montserrat, Dominic (ed.). Changing Bodies, Changing Meanings: Studies on the Human Body in Antiquity. Routledge, 2002, pp. 200-201
Ver também Nu artístico Vênus Pudica História da nudez Escultura da Grécia Antiga
Categoria:Cultura da Grécia Antiga Categoria:Arte da Grécia Antiga Categoria:Nu artístico