miniatura|upright=1.41|: Hilde Zimmermann (1999) imagem retirada do documentário 'Dagegen muss ich etwas tun. Portrait der Widerstandskämpferin Hilde Zimmermann' (tradução livre: Preciso fazer alguma coisa a esse respeito! Retrato de Hilde Zimmermann, combatente da resistência), (2009) por Tina Leisch miniatura|upright=1.41|Sala de exposição no Memorial de Ravensbrück, com fotos e listas de nomes de ex-prisioneiras no Campo de Concentração de Ravensbrück(2008)
Hilde Zimmermann (Viena, 12 de setembro de 1920 – Viena, 25 de março de 2002) foi uma combatente da resistência contra o nazismo e ativista política austríaca. Ela sobreviveu à prisão no Campo de concentração de Ravensbrück e a uma marcha da morte. Após a Segunda Guerra Mundial, foi muito ativa em uma organização que buscava preservar a memória do Campo de concentração de Ravensbrück, a Österreichische Lagergemeinschaft Ravensbrück - ÖLGR (Associação Austríaca do Campo de Ravensbrück), da qual foi co-fundadora. Além disso, dedicou-se ao longo da vida a expor os crimes da era nazista. Comprometeu-se especialmente em repassar a memória do nazismo à próxima geração, apresentando-se, entre outros, como testemunha ocular nas escolas. Ela mesma se via como "perseguida", não como "vítima".
Vida Infância e juventude Hilde Wundsam nasceu numa família de trabalhadores e cresceu em condições pobres na Viena vermelha, como era chamada a capital austríaca quando sob a égide socialista. Aos quatro anos, mudou-se com seus pais e seu irmão mais novo, Othmar Wundsam ("Otto"), dois anos menor, para Floridsdorf, na região metropolitana de Viena. A princípio, vivia com sua família na casa de seus avós, que haviam adquirido um terreno barato para cultivo de subsistência. Mesmo quando seus pais conseguiram um apartamento numa Gemeindebau (habitação social subvencionada pelo estado) em Kagran, ela permaneceu com sua avó, indo juntar-se a eles e ao seu irmão só mais tarde.Brigitte Halbmayr: „Die erste Prägung war also: Kein Krieg!“ Hilde Zimmermann (geborene Wundsam). In: Helga Amesberger u. a.: Lebensgeschichten. Wien 2001, S. 257–263.
Seus pais eram militantes social-democratas; sua mãe trabalhava no Departamento de Educação do antigo Partido Social-democrata dos Trabalhadores (SDAP, hoje Partido Social-Democrata da Áustria) e seu pai era um ferroviário e social-democrata igualmente convicto. Como disse Hilde Zimmermann numa entrevista, anos mais tarde, sua primeira recordação política remonta a 1927 - ao frenesi da sua família depois dos julgamentos no processo de Schattendorf, estopim para a revolução que se instaurou em julho daquele ano, culminando no incêndio do Palácio da Justiça de Viena. Foi então que ela percebeu a existência de diferentes pontos de vistas e de inequidades entre as pessoas. Daí em diante, permaneceu distante do ensino religioso; são desconhecidas suas motivações para tanto, porém. Ainda enquanto estudante, já havia desenvolvido consciência política por meio das discussões de seus pais; desde já, tinha uma inclinação para o pacifismo. “ miniatura|Soldados do Exército Federal durante as batalhas da Guerra Civil Austríaca, em fevereiro de 1934, em frente à Ópera Estatal de Viena
Em torno de 1930, começou a acompanhar com frequência a mãe em encontros políticos. Até 1934, Hilde passava um bocado de tempo nos Kinderfreunden e nos Rote Falken, grupos de jovens afiliados à esquerda. Também frequentou cursos profissionalizantes. Mais tarde, ela lembraria dos anos entre 1930 e 1934 como a época mais marcante e feliz de sua vida. Seus pais ficaram desempregados em 1934 e, em fevereiro daquele ano, se envolveram ativamente na Guerra Civil Austríaca entre o Partido Social-democrático Trabalhista, com sua Republikanischer Schutzbund (Liga de Defesa Republicana), e o Estado Federal Austríaco austrofascista, com o Exército Federal e a Guarda Interna. Seu pai esteve na Schutzbund, designado para ser técnico de emergência médica em Floridsdorf, ao passo que sua mãe tratava dos trabalhadores ferroviários feridos. As habitações sociais de Kagran, como as de vários outros lugares, foram bombardeadas por serem "fortalezas vermelhas", e a família teve confiscada uma grande parte de seus bens. Eventualmente, seus pais foram encarcerados; sua mãe, numa prisão, por dois meses, e seu pai, no campo de detenção de Wöllersdorf.
Aos 14 anos, ela e seu irmão, de doze, ficam sozinhos e são ajudados por ações internacionais de auxílio, como os Quaker Vgl. e o Socorro Vermelho. Essa ajuda muito impressionou Hilde que, mais tarde, lembrou-se com carinho do que chamava de "solidariedade internacional da classe operária". Ela própria ficou rapidamente detida pela primeira vez em 1935, mas foi solta sem maiores consequências.Monika Horsky (Hrsg.): Man muss darüber reden. Schüler fragen KZ-Häftlinge. Wien 1988, S. 209.
Primeiras experiênciais profissionais e universitárias Seus pais se divorciaram em 1936. Hilde trabalhou como faxineira e fez um curso de serviços domésticos. Para conseguir um emprego mais facilmente, converteu-se à Igreja Veterocatólica. A partir do banimento dos Rote Falken em 1934, os jovens continuaram a se encontrar, agora sob a alcunha de Junguranier. Como outros jovens de seu ambiente social-democrata, Hilde simpatizava com o Partido Comunista da Áustria, que desde 1933 estava banido, mas permanecia ativo na clandestinidade, na luta contra o fascismo e no movimento contra o desemprego. Mais adiante, ela se filiou ao partido. Em 1936, Hilde foi presa junto com outros jovens devido ao seu envolvimento na elaboração de panfletos com mensagens comunistas; todos foram soltos, contudo, oito dias depois. miniatura|Comitiva de Hitler na Praterstern, em Viena, em 15 de Março de 1938, depois da tomada do poder pelos nazistas
Ela, então, aceitou um trabalho como babá na Hungria e, em 1938, voltou a Viena, onde viveu com sua mãe Anna, em Kagran, e desempenhou diversas atividades de escritório. Depois da Anschluss da Áustria ao III Reich Alemão em março de 1938, o austrofascismo foi substituído pelo nacional-socialismo. Foi presa em 1939 com seu irmão Othmar, depois que a polícia encontrou um panfleto comunista durante uma busca pela casa. Conforme acordado entre os irmãos, seu irmão de 17 anos assumiu a culpa, ficando em cárcere por nove meses; ela foi liberta depois de oito dias. Seu irmão voltou da prisão com pneumonia. Em 1941, começou a universidade, onde estudava escultura na Wiener Frauenakademie, que frequentou até sua prisão, em março de 1994. 1941 begann sie ein Studium der Bildhauerei an der Wiener Frauenakademie, das sie bis zu ihrer Verhaftung im März 1944 wahrnahm.
Resistência contra o Nazismo Desde o Anschluss (anexação da Áustria) e a ascensão ao poder pelo Nazismo, Hilde sentia o impulso de lutar contra o regime, mas, em virtude de seu período na prisão em 1939, decidiu agir com mais cautela. Através de conversas, buscava influenciar outras pessoas, como, por exemplo, soldados em férias e colegas da Academia Feminina (de Viena), para incitá-los contra o nazismo. Durante a Segunda Guerra Mundial, seu irmão Othmar, após sua formação em curso técnico comercial em 1941, foi convocado pelo Wehrmacht (forças armadas do Terceiro Reich). Quando ele, em férias do front, relatou a Hilde os horrores da guerra e que "os alemães, quando capturam partisans, enforcam também as mulheres", ela disse: "Eu preciso fazer algo a respeito!". Em uma festa de ano-novo em 1943, Hilde conheceu um militante clandestino que atuava na resistência organizada, a quem ela ofereceu ajuda. Este buscava esconderijo para um dos dois assim chamados agentes de paraquedasDie Fallschirmagenten, die im Hinterland des Feindes abgesetzt wurden, waren mit verschiedenen militärischen, nachrichtendienstlichen oder politischen Aufträgen ausgestattet, wie etwa „Informationen über Truppenbewegungen, Vorbereitung und Durchführung von Sabotageakten, Etablierung von Spionagenetzen, Gründung bzw. Unterstützung von antifaschistischen Widerstandsgruppen.“Vgl. Brigitte Halbmayr: „Das war eine Selbstverständlichkeit, dass wir da geholfen haben.“ Die Fallschirmagenten Albert Huttary und Josef Zettler und ihre UnterstützerInnen – ein Fallbeispiel. In: Christine Schindler (Red.), Dokumentationsarchiv des österreichischen Widerstandes (Hrsg.): Schwerpunkt: Bewaffneter Widerstand – Widerstand im Militär. Münster 2009, S. 179–180., que haviam chegado da União Soviética pela Inglaterra para apoiar e elaborar redes de resistência na Áustria. Hilde pediu auxílio à mãe, à amiga Pauline Hochmeister (Pauline Leibel após o casamento) e sua mãe Gisela Hochmeister: o pai de Pauline estava no front. As quatro mulheres, muito próximas umas das outras devido a suas convicções políticas e ao período em que foram vizinhas no distrito Kagran, assumiram a tarefa de abrigar os agentes em suas casas alternadamente. Hilde nunca soube quem era o seu contato no 3º distrito (Landstraße) de Viena e nem de quem era a casa onde estavam os agentes. O agente vindo da Alemanha, Josef Zettler (Sepp), ficou primeiramente na casa da família Hochmeister, no distrito de Stadlau, e depois com Hilde e a mãe. Não se sabe quais atividades realizavam Josef Zettler e Albert Huttary, o agente designado para trabalhar com ele. A situação ficou complicada quando Zettler tentou fazer funcionar seu aparelho de radioamador para contatar aliados durante as operações. Por motivos técnicos (era necessário aterramento) e por causa do perigo de detecção pelos nazistas, esses contatos por rádio não eram possíveis na casa da família Wundsam. Assim, iniciou-se uma tentativa para colocar o rádio em funcionamento, durante a noite, no ateliê de escultura no distrito de Leopoldstadt, onde Hilde trabalhava e, portanto, tinha acesso à chave do lugar. Essa tentativa falhou, e Pauline Hochmeister levou o aparelho de rádio de volta em uma mala.Brigitte Halbmayr: „Das war eine Selbstverständlichkeit, dass wir da geholfen haben.“ Die Fallschirmagenten Albert Huttary und Josef Zettler und ihre UnterstützerInnen – ein Fallbeispiel. In: Christine Schindler (Red.), Dokumentationsarchiv des österreichischen Widerstandes (Hrsg.): Schwerpunkt: Bewaffneter Widerstand – Widerstand im Militär. Münster 2009, S. 176–204. miniatura|esquerda|O antigo Hotel Metropol na Morzinplatz, sede da Gestapo entre 1938 e 1945, onde também ocorriam os interrogatórios Já era tarde demais quando as mulheres foram avisadas da presença de um informante. Todos os envolvidos foram presos em 30 de março de 1944. Foi preso também Othmar Wundsam, que estava de férias em casa e, por coincidência, era operador radiotécnico no Wehrmacht. Zettler, que estava na casa da família Wundsam, foi arrancado de sua cama pela polícia e tratado com brutalidade. Todos os envolvidos foram detidos pela Gestapo e na sequência interrogados várias vezes no quartel-general da polícia estadual de Viena, situado no antigo Hotel Metropol na Morzinplatz. As mulheres tentaram minimizar suas ações com uma história combinada de antemão, porém logo precisaram reconhecer que a Gestapo já estava no seu encalço há muito tempo e já sabia a respeito dos agentes e sua missão. Assim, foram presos em Viena, no mesmo dia, juntamente com Zettler, o agente Albert Huttary e seus apoiadores. Zettler e Huttary sofreram maus tratos e ameaças, sendo forçados a estabelecer contatos por rádio com outros agentes do grupo, numa armadilha montada pela polícia. As mulheres foram poupadas amplamente do uso da violência por parte da Gestapo vienense.
Como revelaram investigações posteriores, a Gestapo já estava informada anteriormente a respeito de mais agentes que estavam por chegar. Os primeiros desses agentes tinham sido capturados e tinham revelado, sob tortura severa, muitos outros nomes e os códigos de rádio. Apenas sob jurisdição do quartel-general da Gestapo de Viena se tem registro, de 1942 a 1945, de cerca de 100 prisões de agentes e cerca de 500 outras de provedores de alojamento e ajudantes.