A antiga Matriz de Porto Alegre, dedicada a Maria, Madre de Deus, foi a principal igreja católica da cidade brasileira de Porto Alegre, centro de intensa vida religiosa e social, até a construção da atual Catedral Metropolitana. Em seu tempo um dos edifícios coloniais mais importantes do estado do Rio Grande do Sul, foi erguida a partir de 1779 com projeto de c. 1774, e demolida entre 1920 e 1929 para dar lugar à nova Catedral.

História

Na década de 1740 a futura Porto Alegre era um pequeno arranchamento de poucas famílias organizadas em torno de um ancoradouro natural junto à primitiva desembocadura do arroio Dilúvio no lago Guaíba, abrigo então conhecido como Porto de Viamão ou Porto do Dornelles, uma alusão ao nome do sesmeiro que possuía a área, onde ele criava gado. Viamão, de fato, se localiza a alguns quilômetros para leste, usando o ancoradouro como via de acesso à grande rede hidrográfica da região, através da qual se conseguia alcançar o mar em Rio Grande.Macedo, Francisco Riopardense de. Porto Alegre: Origem e Crescimento. Prefeitura Municipal de Porto Alegre, 1999Damasceno, Athos. Artes Plásticas no Rio Grande do Sul. Globo, 1971, pp. 43-46

Atendendo a uma solicitação do brigadeiro José da Silva Paes, em 1744 o rei de Portugal deu autorização para colonizar a área com casais de açorianos. Apenas em 1752 a povoação efetiva iniciou, com a chegada de 60 famílias, num total de cerca de 300 pessoas, que se fixaram junto do porto, que por esta razão passou a ser conhecido como Porto dos Casais. No mesmo ano chegou o primeiro capelão, o carmelita frei Faustino Antônio de Santo Alberto, erguendo-se à beira do lago uma capela dedicada a São Francisco das Chagas, o primeiro orago da povoação.Franco, Sérgio da Costa. Guia Histórico de Porto Alegre. EDIUFRGS, 2006. 4ª ed., pp. 103–104

Em 1755 frei Faustino foi designado para Triunfo, deixando os locais novamente na dependência do vigário de Viamão, que não conseguia dar atendimento a todo o povo de sua vasta paróquia. Assim, Dom Antônio do Desterro, bispo do Rio de Janeiro (cuja diocese se estendia até as terras gaúchas), em 26 de março de 1772 elevou a povoação a Freguesia de São Francisco do Porto dos Casais, entregue aos cuidados do padre José Gomes de Faria. No mesmo ato foi ordenada a construção de uma igreja que pudesse servir de Matriz, pois a capela de São Francisco não se prestava para tanto. Em 18 de janeiro de 1773 o orago da freguesia foi mudado, sendo posta sob a proteção de Nossa Senhora Madre de Deus.

Em vista de sua situação geográfica e estratégica privilegiada, em 1773 o Porto dos Casais foi escolhido nova sede da Capitania do Rio Grande de São Pedro, quando ainda não era nem vila constituída. Imediatamente se criaram novas necessidades de infraestrutura, sendo erguidos o Palácio de Barro e outras edificações para abrigar o poder civil, localizando-os, assim como a Matriz, o cemitério e outras benfeitorias, nos Altos da Praia, uma colina sobranceira ao lago que tem esplêndida vista de todo o entorno, formando o embrião da atual Praça da Matriz. A escolha do sítio se deve naturalmente à sua localização dominante, tornando-se em breve o centro político e religioso da urbe e atraindo a elite emergente para residir nos arredores.Machado, Andréa Soler. "A Praça da Matriz". In: Revista ArqTexto, 2000; (0):45-46Scott, Ana Silvia Volpi. "Do Porto de Casais à Freguesia de Nossa Senhora da Mãe de Deus de Porto Alegre: ensaio sobre os espaços de sociabilidades a partir do cruzamento nominativo de fontes eclesiásticas". In: VII Jornadas Setecentistas. Curitiba, Centro de Documentação e Pesquisa da História dos Domínios Portugueses, Universidade Federal do Paraná, 2007, pp. 413-427.

O traçado da igreja data de c. 1774, sem que se conheça o autor. Günter Weimer a atribuiu, sem certeza, a José Custódio de Sá e Faria,Weimer, Günter. "As Relações Arquitetônicas Rio-grandenses com o Prata". In: Clemente, Elvo (org.). Integração: Artes, Letras e História. Coleção Cone Sul nº 2. Edipucrs, 1995, p. 82 e Sofia Inda, a Alexandre José Montanha.Inda, Sofia. "Igrejas e artífices no Rio Grande do Sul: a tradição luso-brasileira". In: Tópicos em História da Arte no Rio Grande do Sul. Secretaria de Estado da Cultura / Museu de Arte do Rio Grande do Sul, 2021. Vídeo, citação em: 1h 36min 18s Em junho a Irmandade de São Miguel e Almas e a Irmandade do Santíssimo Sacramento e Nossa Senhora Madre de Deus tomaram as primeiras providências para o início das obras, supervisionadas pelo padre Faria e o próprio governador da capitania, José Marcelino de Figueiredo. Contudo, o trabalho efetivo só começou em 1779. Em 1780 foi adquirido um terreno da Real Fazenda de onde era possível obter argila para tijolos e telhas, cuja fabricação revertia em benefício das obras, que por isso ganharam ímpeto.Nascimento, Maria Regina do. Irmandades Leigas em Porto Alegre: práticas funerárias e experiência urbana. Tese de Doutorado em História. UFRGS, 2006, p. 281 Seu custo foi orçado em 500 mil réis, bastante baixo, mas o material e a mão-de-obra foram doados pela comunidade. O encarregado geral foi o mestre-pedreiro José Rodrigues Pimentel, auxiliado pelo mestre-de-olaria Domingos Passarinho, o mestre-cavouqueiro Inácio José Moreira e o mestre-ferramenteiro João Batista, mais uma equipe de operários. As molduras das aberturas da fachada eram de pedra lavrada, vindas especialmente do Rio de Janeiro sob o pagamento de uma pequena fortuna, que equivalia a cerca de 75% do orçamento da Matriz, embora fossem de talhe simples.

A decoração interna, esta sim muito mais rica, contou com um retábulo-mor, altares laterais, portas entalhadas, pintura no forro e um relógio de sol gravado na fachada, custo orçado em 700 mil réis. A autoria da talha é incerta. Monsenhor João Maria Balen citou José Pereira de Matos, Athos Damasceno disse que Balen se enganou e o autor foi o mestre baiano Joaquim Pereira de Matos, alcunhado Joaquim Pataca, mas a cronologia de sua vida (morto em 1885) é incompatível com a datação da talha de Porto Alegre.Frantz, Ricardo André. A antiga Igreja Matriz de Nossa Senhora Madre de Deus de Porto Alegre: Síntese histórica e social – questões estéticas e autorais – legado. Academia.edu, 2014, pp. 62-67

Em 1794 a igreja estava quase pronta, só faltando as torres, e já recebia o culto. Em 1800 foi instalada uma cruz de ferro sobre o frontão. Sua finalização, porém, levaria muito tempo. Até 1808 só se conseguiu erguer uma torre, e em 1820, quando Auguste de Saint-Hilaire passou pela cidade, registrou que ainda lhe faltava completar a outra. Também considerou suas dimensões acanhadas, com quarenta passos entre a entrada e o fundo, mas notou que era bem ornamentada. No início do século XIX a Matriz já era a sede de várias irmandades, além da de São Miguel e Almas e a do Santíssimo Sacramento e Mãe de Deus: a do Santo Sepulcro, a do Rosário, a de Nossa Senhora das Dores, a de Santa Bárbara e a de Nossa Senhora da Conceição, que disputavam entre si os altares da igreja.Nascimento, p. 288 Em 1832 a paróquia foi desmembrada, revelando já possuir população significativa, criando-se duas novas circunscrições, a paróquia de Nossa Senhora das Dores e a de Nossa Senhora do Rosário, a partir das suas respectivas irmandades.

A igreja permaneceu inconclusa até que o Conde de Caxias mandou em 1846 terminar a torre esquerda, rebocar o exterior e consertar o telhado que já ameaçava desmoronar, atendendo a repetidas queixas da Irmandade do Santíssimo Sacramento. Já nesta altura se começava a pensar em um templo maior. Em 7 de maio de 1848 foi elevada à condição de Catedral pelo papa Pio IX, na bula Ad Oves Dominicas Rite Pascendas, que criou a Diocese de São Pedro do Rio Grande do Sul. Em 1866 ganhou mais dois sinos.Nascimento, p. 291 Em 1899 passou por várias reformas para reparar danos, recebendo nova decoração interna em pintura, confiada aos italianos Antonio Cauduro e Romano Tertulini, que também restauraram a pintura do forro da capela-mor, segundo relatos, à sua condição original.

Com o crescimento da capital do estado, a multidão de fiéis já não se acomodava na antiga Matriz, e decidiu-se pela sua substituição por uma igreja mais ampla. Em 1915 foi aberto um concurso para o projeto, vencendo Jesús Maria Corona com o plano de uma vasta catedral neogótica com torres de 72 metros de altura. No entanto, sua proposta desencadeou controvérsia pública e acabou não sendo aproveitada, e depois de várias cogitações solicitou-se o auxílio de um profissional da Cúria Romana, o arquiteto Giovanni Battista Giovenale, resultando no atual prédio de imponentes linhas renascentistas.Pellegrini, Ana Carolina Santos & Machado, Andréa Soler. "A Praça e a Piazza: transitoriedade e permanência do esquema clássico de cidade". In: Anais do 7º Seminário Do.Co.Mo.Mo.Brasil: O Moderno Já Passado — O Passado No Presente: Reciclagem, Requalificação, Rearquitetura. Porto Alegre, 22-24/10/2007 Os trabalhos de demolição da antiga Matriz e terraplanagem do terreno do entorno iniciaram em 1920, mas esperou-se a nova cripta ficar pronta — espaço que receberia provisoriamente o culto e o Santíssimo Sacramento — para derrubar-se o corpo principal, que permanecia em uso precário. A última missa na velha igreja aconteceu em 1929, em meio a um cenário já desmantelado.Vargas, Élvio (ed). Torres da Província: História e Iconografia das Igrejas de Porto Alegre. Pallotti, 2004.

Importância cultural

A antiga Matriz foi uma igreja típica do Barroco tardio, tendo uma fachada austera e um interior ricamente decorado. A fachada se dividia em três blocos principais: o corpo da igreja e as duas torres anexas. A igreja tinha três portas ao nível da rua, sendo a central mais elevada, fechadas por pranchas entalhadas, e três janelas alinhadas por cima, no nível superior, com vergas trabalhadas. O bloco era coroado por um frontão com curvatura delicada, onde havia um óculo circular. De ambos os lados do frontão havia dois pequenos pináculos arrematados por uma esfera. As duas torres tinham três níveis, amparadas em pilastras em destaque, e eram coroadas por coruchéus prismáticos rodeados de pináculos, com uma cruz no topo.

O interior se dividia em uma nave e uma capela-mor, com cinco altares principais no total, todos ricamente entalhados em um estilo que revela uma mescla de influências barrocas e rococós, semelhantes aos que ainda hoje se conservam na Matriz de Viamão, com estatuária e ornados de alfaias preciosas como tocheiros e candelabros. Pelas paredes havia pinturas, e o teto da capela-mor também recebeu pintura decorativa, com uma cópia de uma composição de Rafael Sanzio representando a Virgem Maria.

Embora suas virtudes estéticas fossem pouco notadas pelos viajantes do século XIX, a antiga Matriz foi uma das igrejas coloniais mais ricas do estado, e, por sua condição de sede da religiosidade católica, adquiriu grande relevo social e influência. Como era o costume no Brasil Colônia, e como se verificou em Porto Alegre pelo menos até a metade do século XIX,Nascimento, p. 271-272 as igrejas eram os mais importantes centros de reunião comunitária, muito mais do que simples locais de culto, num tempo em que as esferas do profano e do religioso eram mal delimitadas e se sobrepunham, havendo a união formal entre Igreja e Estado no sistema do Padroado.Tirapeli, Percival. "A Igreja como Centro Irradiador de Cultura no Brasil Colonial". In: Tirapeli, Percival (ed). Arte Sacra Colonial: Barroco memória viva. UNESP, 2005. pp. 8-11Costa, Maria Cristina Castilho. A imagem da mulher: um estudo de arte brasileira. Senac, 2002. pp. 63-64 Relatos de antigos viajantes descrevem escandalizados a informalidade que o culto assumia, mais se parecendo uma festa popular do que um rito em presença da divindade, a exemplo do que disse Marie Van Langendonck: