Esponsiano () foi um suposto imperador romano que exerceu o poder no século III na província da Dácia
Descoberta Não há registros escritos antigos que atestem a existência de um imperador romano com o nome de Esponsiano. Ele é conhecido por meio de áureos que integravam um tesouro monetário encontrado na Transilvânia em 1713, região que então pertencia ao domínio dos Habsburgos. O exato local e as circunstâncias do achado permanecem desconhecidas. Há pelo menos quatro moedas de ouro com o nome de Esponsiano, das quais duas atualmente estão em Viena (no Museu de História da Arte), uma em Glasgow (no Museu Hunterian, da Universidade de Glasgow) e outra em Sibiu, na coleção do Museu Brukenthal.
Desde a segunda metade do século XIX, a opinião corrente é a de que as moedas de Esponsiano não são autênticas. Em 1868, o numismata Henri Cohen definiu as peças “como moedas modernas ridiculamente imaginadas e muito mal feitas”. No século XX, em catálogos numismáticos de referência, como o Roman Imperial Coinage, o nome de Esponsiano é indicado com um asterisco, informando que "nenhum imperador com esse nome é conhecido pela história" e que os áureos de Esponsiano eram "estranhos, com características bárbaras".
Reabilitação de Esponsiano Recentemente, o debate em torno de Esponsiano foi reacendido. Na década de 2020, surgiram trabalhos que reabilitam a figura de Esponsiano, propondo que se tratava de um imperador romano que realmente existiu. A partir de trechos de narrativas históricas escritas durante a era bizantina, que assinalam a existência de movimentos usurpatórios logo no início do governo de Filipe, o Árabe, o historiador Ilkka Syvänne sugere que Esponsiano possa ter sido um comandante militar que, após repelir os ataques promovidos por povos externos (como os quados) contra o Império Romano nas áreas do Baixo Danúbio, veio a ser proclamado imperador no ano de 244.
Os argumentos de Syvänne são circunstanciais. O principal deles é o de que o nome Severo Estiliano, misterioso usurpador mencionado na “História” de João ZonarasJoão Zonaras, História, 12.28., seria, na verdade, resultado de uma confusão envolvendo o nome de Hostiliano, jovem imperador que governou brevemente em 251, com Severo Esponsiano, o nome verdadeiro do suposto governante que aparece nas moedas descobertas em 1713. Syvänne alega que Esponsiano poderia ter adotado o prenome “Severo” como forma de legitimar-se, estabelecendo uma conexão com a dinastia imperial dos Severos. Severo Esponsiano teria governado nos Bálcãs por apenas dois meses em 244, quando foi morto por seus apoiadores ou forçado a se suicidar, em um contexto em que as fronteiras orientais do Império Romano haviam se estabilizado graças a um acordo de paz firmado entre Filipe, o Árabe e o rei persa Sapor I, o que permitiu ao primeiro deslocar-se até a cidade de Roma e ter o seu poder confirmado pelo Senado romano, deslegitimando as ações desse suposto Severo Esponsiano.
A autenticidade das moedas de Esponsiano não foi alvo do estudo de Syvänne, que aponta somente a existência de tesouros monetários descobertos no território da atual Romênia que datam dos anos iniciais do governo de Filipe, o Árabe, e que talvez os áureos de Esponsiano possam ter feito parte de algo semelhante.
O anúncio de que as moedas de Esponsiano seriam autênticas foi feito por um estudo publicado na revista científica PLOS ONE em 2022, reforçando a tese de que Esponsiano efetivamente tomou o poder imperial romano na província da Dácia, intitulando-se imperador. A pesquisa foi conduzida por uma equipe multidisciplinar liderada pelo geólogo e paleoclimatogista Paul N. Pearson, a partir da análise do exemplar monetário que pertence ao acervo do Museu Hunterian, de Glasgow. Pela primeira vez, essa moeda de Esponsiano foi submetida a um exame espectroscópico e a diferentes exames de imagem não destrutivos e de alta resolução, o que permitiu identificar padrões microscópicos de desgaste na superfície da moeda. De acordo com Pearson e equipe, essas marcas de desgaste sugeririam que a moeda teria circulado amplamente, talvez desde muitos séculos.
Análises químicas apontaram a existência de minerais do solo na moeda condizentes com objetos que permanecem enterrados durante prolongado período. Era comum entre falsificadores de moedas da Era Moderna enterrar no solo, por alguns meses, as peças espúrias que produziam, para dar uma aparência de antiguidade para as moedas. Mas Pearson e sua equipe concluíram que a moeda de Esponsiano guardada pelo Museu Hunterian continha traços de enterramento que seriam consistentes com algo enterrado em um período tão remoto quanto o século III.
Testes metalúrgicos também revelaram que a moeda de ouro de Esponciano apresenta um grau de pureza ligeiramente inferior ao das demais moedas de ouro que faziam parte do tesouro encontrado em 1713, caso dos exemplares que ostentavam os nomes de Gordiano III e Filipe, o Árabe, que governaram o Império Romano na década de 240. Isso indicaria que a moeda teria sido produzida depois do ano de 251, quando houve uma grande diminuição na quantidade de ouro disponível no interior do Império Romano. Pearson defende também que a moeda não foi fabricada na cidade de Roma, pois mesmo depois de 251 a casa monetária de Roma conseguiu manter um elevado nível de pureza das peças lá emitidas.
O estudo encabeçado por Pearson defende a hipótese de que Esponsiano teria sido um líder militar, à frente das duas legiões estacionadas na região (a XIII Gemina e a V Macedonica), vindo a assumir o poder imperial romano na província da Dácia, em um contexto de crise política e militar do Império a partir do ano de 260, quando a Dácia se viu isolada do governo central romano e ameaçada por povos externos. Esponsiano teria exercido o poder até meados da década de 270, quando a Dácia foi formalmente abandonada pelo imperador Aureliano, que conduziu uma evacuação da população civil e militar que se encontrava nas áreas transdanubianas, o que resultou na criação de uma nova província de nome Dácia em áreas ao sul do rio Danúbio.
A moeda de Esponsiano examinada por Pearson e equipe teria sido produzida durante a década e meia em que Esponsiano governou na Dácia romana como forma de remunerar os oficiais e os soldados sêniores que estariam sob o seu comando, em um período em que toda a região, na prática separada do restante do Império Romano, não recebia mais novas moedas cunhadas pelas casas monetárias imperiais controladas por Galieno. Esponsiano tinha acesso às minas auríferas localizadas nos Cárpatos Ocidentais, cuja produção deixou de ser enviada à cidade de Roma. O metal extraído localmente serviu de fonte para a fabricação de moedas em nome de Esponsiano, impedindo que a economia da Dácia entrasse em colapso pela ausência de meio circulante.
Reações ao estudo de Pearson Desde a publicação do estudo liderado por Pearson, vários especialistas manifestaram-se a respeito do tema, reforçando a antiga ideia de que nunca existiu um imperador romano chamado Esponsiano. Alfred Deahl destaca graves problemas do estudo em relação à interpretação dos dados. A legenda principal do anverso da moeda se traduz como “do imperador Esponciano” (IMP[erator] SPONSIANI), com o uso do caso genitivo em latim. Até mesmo as imitações monetárias produzidas por populações bárbaras naquela época não apresentam esse tipo de grafia, completamente em desacordo com as convenções e os padrões iconográficos das moedas imperiais romanas, que se referiam aos imperadores a partir do caso nominativo. Era de se esperar que, se a moeda tivesse sido fabricada no século III, a legenda contendo o nome do governante se referiria a ele como SPONSIANVS (“Esponsiano”).
Csaba Szabó registra os problemas de natureza metodológica do estudo. Alega que a moeda atribuída a um suposto imperador, como seria o caso de Esponsiano, deveria ter sido comparada com peças produzidas para outros usurpadores do século III cuja autenticidade se encontra devidamente comprovada. Isso tornaria possível contrastar as marcas e padrões de desgaste entre moedas realmente datadas do século III e a peça fabricada em nome de Esponsiano. Szabó também questiona até que ponto é possível reconstruir o passado a partir de uma única evidência, o que faz com que as hipóteses propostas por Pearson sobre Esponsiano e seu longo governo de quinze anos se assemelhem mais a uma ilusão ou desejo por realidade.
Alice Sharpless lista as características físicas incomuns da moeda analisada por Pearson e colegas. A mais importante delas envolve o método de fabricação da moeda. A moeda de Esponciano é moldada, e não cunhada. Durante a era imperial romana, todos os pequenos discos metálicos que davam origem às moedas eram batidos à martelo, pressionando nos discos as imagens e detalhes a serem estampados nas moedas a partir de cunhos em que eram gravadas essas imagens. Essa era a técnica utilizada até mesmo para produzir moeda para os mais obscuros imperadores do período. Já a técnica da moldagem de moedas era geralmente utilizada em falsificações da Época Moderna. Antiquários na Transilvânia estavam integrados aos mercados italianos e alemães entre os séculos XVI e XVIII, por meio de trocas comerciais que envolviam objetos romanos autênticos então descobertos e muitas falsificações criadas por falsários modernos que pretendiam se aproveitar desse circuito mercantil antiquário.
A hipótese de que Esponsiano produziu moeda para impedir o colapso da economia regional na Dácia durante quinze anos também é questionável. Se verdadeira, era de se esperar que mais exemplares de moedas em nome de Esponsiano tivessem sido descobertos. As quatro moedas de Esponsiano atualmente conhecidas foram todas fabricadas a partir de um mesmo molde. Um único molde jamais teria sido suficiente para produzir moedas em maior escala ao longo de mais uma década.
Apesar das alegações de Pearson e sua equipe, as fragilidades do seu estudo não permitem afirmar que tenha existido um imperador romano no século III chamado Esponsiano.
Referências Categoria:Mortos no século III Categoria:Romanos antigos do século III Categoria:Ano de nascimento desconhecido Categoria:Romanos de gentes desconhecida
Categoria:Imperadores romanos