Otto Guerra Netto (Porto Alegre, 5 de março de 1956) é um cineasta, animador e roteirista brasileiro. É considerado um dos pioneiros da animação autoral no Brasil, sendo o criador da Otto Desenhos Animados, que se estabeleceu como uma das produtoras de animação mais importantes do país.
Entre suas obras destacam-se filmes como Rocky & Hudson (1994), Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock'n'Roll (2006), Até que a Sbórnia Nos Separe (2014) e A Cidade dos Piratas (2019).
Desde 2020 é membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Otto é o único diretor com quatro obras na lista dos 100 filmes mais importantes da animação brasileira definida pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE) no livro 100 anos do cinema de animação no Brasil. Também é um dos 5 brasileiros citados no livro Animation Now!, reconhecido como a bíblia da animação mundial, publicado na Alemanha pela Editora Taschen.
Otto Guerra é graduado em Tecnologia em Multimídia Digital, pela Universidade do Sul de Santa Catarina, e é mestrando em Gestão de Design na Universidade Federal de Santa Catarina.
Biografia
Os primeiros anos Nascido em Porto Alegre, Otto mudou-se ainda na primeira infância para a cidade de Alegrete, na fronteira gaúcha. Lá, ele praticamente se alfabetizou lendo revistas em quadrinhos, o que o estimulou a desenvolver seu lado criativo desde cedo. Ainda na infância, ele costumava encenar textos improvisados inspirados nas histórias que lia e, logo, também começou a se dedicar ao desenho diariamente, um hobbie que o acompanhou ao longo dos anos. Naquela época, seu sonho era se tornar engenheiro mecânico para projetar aviões.
No entanto, somente aos 13 anos, Otto decidiu direcionar sua paixão por desenhos para sua carreira. Essa decisão foi influenciada pelo seu primeiro contato com a obra do quadrinista belga Hergé, quando ganhou de sua mãe um exemplar da revista Tintim durante uma viagem pelo litoral gaúcho. Esse encontro com a publicação belga o fez acreditar que era possível levar sua arte para o mundo e sustentar-se com ela. Quase na mesma época, ao assistir ao filme Piconzé, uma das primeiras produções animadas em cores no Brasil, ele também despertou seu interesse pela produção de filmes animados.
Inicio da carreira profissional Contrariando a vontade de sua família, na adolescência, retornou à capital gaúcha com a firme determinação de construir uma carreira como ilustrador. Nessa época circulava pelas ruas da cidade com anúncios pendurados em seu corpo ofertando serviços de ilustração. Aos 18 anos, ele viajou para São Paulo em busca de uma editora que publicasse seus quadrinhos, mas a tentativa não teve sucesso.
Seu processo de transição das histórias em quadrinhos para os filmes animados começou após participar de uma oficina de animação ministrada pelo argentino Félix Follonier. Aos 19 anos ele produziu sua primeira animação em Super-8 na faculdade Comunicação Social na PUCRS, o filme foi intitulado Ernesto.
Em 1977, Otto iniciou seu trabalho na agência do argentino Félix Follonier, onde se envolveu na produção de animações para campanhas publicitárias televisivas, aprimorando ainda mais seu conhecimento e habilidades na área.
Fundação e atuação na Otto Desenhos Animados Em 1978, aos 22 anos, Otto fundou a Otto Desenhos Animados, sua própria produtora de animações, em parceria com o animador José Maia, que ele conheceu durante sua passagem pela produtora do argentino Félix. Apesar de ter recebido subsídios da extinta Embrafilme, ele percebeu a importância de inicialmente direcionar os projetos da produtora para o mercado publicitário. Essa estratégia tinha como objetivo criar recursos financeiros que, no futuro, seriam empregados para financiar a produção de seus próprios curtas e longas-metragens. Nos seis primeiros anos da sua produtora se dedicou exclusivamente à criação de desenhos comerciais.
No início da década de 1990, ele redirecionou seu foco para obras de ficção, desenvolvendo filmes institucionais ocasionalmente. Isso incluiu o filme Zé Gotinha enfrenta o vilão Monstro da Perna de Pau para uma campanha de combate à poliomielite e o comercial da campanha O amor é a melhor herança. Cuide das crianças, que foi exibido pela RBS TV no início dos anos 2000 e revisitado em 2013. Otto também contribuiu com aberturas de programas de televisão, como o Muvuca, apresentado por Regina Casé na TV Globo.
Com foco na produção de curtas-metragens, longas-metragens e séries, Otto conquistou reconhecimento profissional já na década de 1980. Ao longo dos anos, ele solidificou sua carreira, levando suas obras para o mundo e sendo reconhecido como um dos principais nomes da animação no Brasil.
Além de dirigir, produzir e escrever roteiros para suas obras autorais, por meio da sua produtora, colaborou na realização de filmes de profissionais que integraram sua equipe ao longo dos anos. Entre esses filmes estão Deus é Pai, de Allan Sieber, Castillo Y El Armado, de Pedro Harres, Magnética, de Marco Arruda, A Pequena Vendedora de Fósforos, de Kyoko Yamashita e o seriado Boa Noite, Martha, de Vivian Altman.
Carreira no cinema
Década de 1980: Os primeiros curtas e o reconhecimento profissional Em 1984, já aos 28 anos, Otto lançou seu primeiro curta-metragem profissional, O Natal do Burrinho, em co-direção com Lancast Mota e José Maia. Este trabalho inicial lhe rendeu o prêmio de Melhor Curta Gaúcho no Festival de Gramado, além de projetar seu nome internacionalmente ao ser selecionado para os festivais de Bilbau, na Espanha, e Oberhausen, na Alemanha.
Este curta proporcionou a ele a oportunidade de conhecer Mauricio de Sousa, o criador da Turma da Mônica, com quem colaborou na produção de Os Trapalhões no Rabo do Cometa, lançado em 1986.
Ao longo da década de 1980, Otto lançou mais três curtas-metragens em parceria com José Maia e Lancast Mota: As Cobras - O Filme (1985), Treiler - A Última Tentativa (1986) e O Reino Azul (1989).
As Cobras - O Filme, inspirado em personagens criadas pelo escritor Luis Fernando Verissimo, rendeu a Otto os prêmios de Melhor Curta-Metragem nos Festivais do Maranhão e de Gramado. Neste último festival, o filme também venceu como Melhor Trilha Sonora.
Treiler - A Última Tentativa lhe proporcionou seu primeiro prêmio internacional, o Prêmio Coral de Animação no Festival de Havana. Além disso, o filme ganhou os prêmios de Melhor Curta-Metragem nos Festivais do Maranhão e de Gramado, bem como o Prêmio Especial do Júri em Gramado. Todos esses prêmios foram conquistados em 1987.
O Reino Azul concedeu a ele a premiação inédita de Melhor Filme da Década no 1º Festival de Cinema de Animação em João Pessoa em 1992. Além disso, o filme ganhou mais um Prêmio Coral de Animação do Festival de Havana e o Prêmio Especial do Júri em Gramado, ambos conquistados em 1989.
Os seus dois últimos trabalhos na década levaram seu nome pela primeira vez aos festivais de Espinho em Portugal, Ottawa no Canadá, Huelva na Espanha e Annecy na França.
Ainda na década de 1980, Otto participou da animação coletiva do filme Planeta Terra, uma produção em homenagem ao Ano Nacional da Paz.
Década de 1990: O primeiro longa-metragem
No início da década de 1990, em 1992, Otto lançou o curta Novela como diretor solo. Este trabalho, assim como seus antecessores, trouxe uma série de premiações para Otto, incluindo Melhor Curta no 9º Rio Cine Festival e em Gramado. Em Gramado, Otto também foi premiado pelo roteiro do filme.
Durante este período, Otto começou a trabalhar na direção de seu primeiro longa-metragem, Rocky & Hudson, baseado nos quadrinhos de 1987 de Adão Iturrusgarai. Ele e Adão trabalharam juntos por aproximadamente dois anos na realização do filme, que foi lançado em 1994. O filme de Otto foi considerado o primeiro longa-metragem de animação no Brasil em 20 anos, excluindo a produção em série de Maurício de Souza.
Com o lançamento de seu primeiro longa, ele recebeu o Prêmio Especial do Júri no Festival de Brasília em 1994 e os prêmios de Melhor Filme no Festival de Animação de João Pessoa e Guarnicê, no Maranhão em 1995. O filme também levou o nome de Otto pela primeira vez ao Japão, ao ser selecionado para o Festival Internacional de animação de Hiroshima.
Paralelamente à produção de Rocky & Hudson, co-dirigiu a animação O Batismo com Adalgiza Luz. Esta animação integrou o longa-metragem em episódios Os Sete Sacramentos de Canudos, financiado por emissoras de televisão alemãs. Posteriormente, em 1997, Otto lançou o curta sob o título O Arraial. Por este trabalho, Otto recebeu os prêmios de Melhor Desenho Animado no Festival de Vitória, Festival de Cinema e Vídeo de Recife e no Guarnicê, do Maranhão.
Ainda durante a década, Otto assinou a produção executiva do premiado curta Deus é Pai, dirigido por Allan Sieber. Neste curta, também dublou o personagem Deus.
Década de 2000: O primeiro curta-metragem em 3D e Sexo Orégano e Rock and Roll Em 2000, Otto lançou o curta-metragem Cavaleiro Jorge, que foi eleito o Melhor Curta-Metragem no Guarnicê Cine-Vídeo Maranhão no ano seguinte.
Em 2004, apresentou seu primeiro curta em 3D, Nave Mãe, Este filme foi reconhecido como o Melhor Filme Gaúcho no Festival de Cinema de Gramado em 2004. No ano seguinte, foi premiado como Melhor Filme de Animação no Florianópolis Audiovisual Mercosul, no Grande Prêmio Tam do Cinema Brasileiro, no Guarnicê Cinema e Vídeo do Maranhão e na Jornada Internacional de Cinema da Bahia.
Em 2006, lançou seu segundo longa-metragem, Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock'n'Roll. Este filme foi baseado nos personagens criados pelo cartunista Angeli para a extinta revista em quadrinhos Chiclete com Banana na década de 1980. Otto trabalhou neste projeto por mais de dez anos.
O filme teve uma grande repercussão e trouxe um novo destaque para sua carreira. Em 2006, Otto recebeu várias premiações, incluindo Melhor Longa-Metragem em Córdoba, Prêmio Especial do Júri no Cine PE e Prêmio Itamaraty de Melhor Filme pelo Júri Popular no Festival Internacional de Cinema de Brasília. Em 2008, o filme ainda rendeu a Otto o prêmio de Melhor Longa-Metragem de Animação no Grande Prêmio Vivo do Cinema Brasileiro.
Década de 2010: Até que a Sbórnia nos Separe e A Cidade dos Piratas
No início da década, Otto participou do filme documentário Luz, Anima, Ação, lançado em 2013 pelo diretor Eduardo Calvet. O filme propõe um resgate da trajetória da animação brasileira.
Em 2013, lançou seu terceiro longa-metragem, Até que a Sbórnia nos Separe. Este filme foi inspirado na peça teatral gaúcha Tangos & Tragédias e co-dirigido em parceria com Ennio Torresan Jr. Além de atuar na direção e no roteiro do filme, Otto também dublou os personagens Garden All e Adolphus Dendo.
Naquele ano, o filme lhe rendeu os prêmios de Melhor Longa-metragem Nacional pelo Júri Popular na 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Festival de Cinema de Gramado. Em Gramado, o filme também foi agraciado com o prêmio de Melhor Direção de Arte pelo júri oficial.
Após ser lançado nos cinemas em 2014, como o primeiro longa gaúcho disponível também no formato 3D, o filme lhe rendeu o prêmio de Melhor Longa-Metragem de Animação no Grande Prêmio Brasil do Cinema Brasileiro em 2016.
Outros projetos da filmografia de Otto que foram lançados entre 2013 e 2014 são os premiados curtas Castillo y el Armado e A Pequena Vendedora de Fósforos,, além da série de TV Boa Noite, Martha, selecionada para o Festival de Annecy na França. Em todos esses projetos, ele atuou como produtor ou produtor executivo.
O ano de 2015 foi marcado pelo lançamento do longa Bruxarias. Otto co-produziu esse filme em parceria com a Continental Filmes da Espanha e com a diretora espanhola Virginia Curiá.
Em 2018, concluiu seu quarto longa-metragem, A Cidade dos Piratas Este filme, que levou quase 25 anos para ser concluído, foi inspirado nos personagens das tirinhas Piratas do Tietê e outros também criados pela cartunista Laerte Coutinho.