Alexander José Ibsen Voerões (Santiago, Chile, 5 de julho de 1952 - São Paulo, 27 de fevereiro de 1972) foi um estudante chileno membro do Movimento de Libertação Popular (Molipo) contra o Regime Militar no Brasil e morto pela polícia durante o regime.
É um dos casos investigados pela Comissão da Verdade, que apura mortes e desaparecimentos durante o período da ditadura militar brasileira, que foi instaurada no dia 31 de março de 1964 e terminou no dia 15 de março de 1985.
Biografia Alexander José Ibsen Voerões nasceu no dia 5 de julho de 1952, em Santiago, no Chile. Ele era filho do húngaro Alexander Voerões Toth, e da chilena Carmen Ibsen Chateau de Voerões. No dia 28 de agosto de 1952, Alexander, com apenas um mês de vida, mudou-se para o Brasil com sua família.Caravana da Anistia julga o caso do estudante Alexander José Ibsen Voeroes, acessado em 10/06/2014. Alexander José Ibsen Voerões e seus pais vieram ao país como imigrantes, com visto permanente de moradia. Alexander passou toda a infância e adolescência no Brasil, crescendo com amigos brasileiros e estudando em escolas de São Paulo.
Educação No ano de 1959, Alexander iniciou os estudos no Grupo Escolar Tomas Galhardo, na rua Marcelina, Vila Romana, São Paulo , e ficou lá até completar o ensino primário. Depois, estudou no ginásio e Escola Técnica de Comércio Mário de Andrade, na rua Caio Graco 263, localizada também na região da Vila Romana.
No dia primeiro de junho de 1962, fez sua 1ª Comunhão na Matriz de São João Vianney, Água Branca. Aos domingos assumia o papel de coroinha nas missas realizadas na igreja.
No segundo semestre de 1963, deu início ao 5º ano no Grupo Escolar Pereira Barreto, na rua Clélia, no bairro da Lapa. Ao mesmo tempo foi admitido para o curso ginasial no Colégio Campos Salles, na rua Doze de Outubro, onde se formou no ensino fundamental no dia 19 de fevereiro de 1968. Por recomendação dos professores do Colégio Campos Salles, realizou o exame de admissão para o Colégio Estadual Fidelino de Figueiredo (Colégio de Aplicação), na rua Gabriel dos Santos 30. Foi aceito e cursou lá o científico, até que em 1970 ganhou uma bolsa de estudos integral no Centro de Estudos Filo-Juris para candidatar-se ao curso de Biologia da USP, mas nunca chegou a ingressar em uma universidade.
Militância Sua família conhecia o espírito do filho que não se inquietava, mas não tinha conhecimento sobre seu engajamento em lutas sociais e políticas. DOna Carmem, sua mãe, foi tomada de surpresa em outubro de 1971 quando, policiais fortemente armados com todos os tipos de armamento, inclusive com metralhadoras, chegaram na casa deles buscando por Alexander e o chamando de subversivo. Os políciais adentraram a casa da família e revistaram tudo, mas especialmente o quarto do filho. Levaram documentos importantes que impediriam Alexander de sair do país. Além disso, também confiscaram todos os seus trabalhos escolares, inclusive sobre o país de seu pai, a Hungria. Os itens levados pelas autoridades nunca foram devolvidos para a família. Por volta dessa época, Alexander já estava envolvido na luta contra o regime ditadorial, e havia já entrado na Molipo (Movimento de Libertação Popular) e estava sendo perseguido.
De acordo com uma carta apresentada a Comissão da Verdade, Alexander, juntamente a colegas do Colégio Fidelino de Figueiredo (conhecido como Colégio da Aplicação), foram processados pelo regime Militar por subversão, sendo que César, um dos colegas, foi inocentado. A carta conta ainda que Alexander foi acusado de ser "outro estrangeiro que vem fazer subversão no Brasil", apesar de ter sido criado desde um mês de vida no Brasil.
Antes de se tornar membro do Movimento de Libertação Popular (Molipo), Alexander participou de ações da Ação Libertadora Nacional.Comissão da Verdade do Estado de São Paulo , acessado em 10/06/2014. Ele utilizava os codinomes Oto, Carlos, José Roberto Soares Coimbra, Alex, Steta e Bigode.Ficha de Alexander José Ibsen Voerões, acessado em 10/06/2014. Antes de ser assassinado, o chileno foi preso pelo DOI-CODI de São Paulo.
As ações do Molipo eram, em sua maioria, práticas que se direcionavam para arrecadação de fundos no combate contra a ditadura militar. Dentre suas ações, destacam-se ataques, sequestros e "expropriações de bancos" — uma ação contra o sistema financeiro burguês. A o grupo concentrava-se em São Paulo e no Rio de Janeiro, embora o a junção a favor da revolução também agisse em outras regiões, como nos estados da Bahia e Goiás.
Em uma das ocasiões em que José Dirceu voltou do exílio de Cuba, segundo sua biografia, junto com outros integrantes do Molipo, ele teria participado da ação em que tombou um sargento da Polícia Militar em São Paulo, em 1972.
Assassinato Alexander José Ibsen Voerões foi morto no dia 27 de fevereiro de 1972, na rua Serra de Botucatu, no bairro do Tatuapé, em São Paulo. Ele estava junnto com Lauriberto José Reyes, outro militante do Molipo. Ambos os estudantes foram metralhados por JC, ou Jesus Cristo, apelido pelo qual era conhecido o torturador Dirceu Gravina. Assim como Voerões e Reyes, Napoleão Felipe Biscaldi, um morador local, também foi morto, e a culpa da sua morte foi direcionada aos militantes, segundo a nota oficial publicada no jornal Folha de S.Paulo no dia 29 de fevereiro de 1972. Isaac Abramovitc e Walter Sayegque foram os legistas que examinaram os corpos de Alexander José Ibsen Voerões e Laubertino José Reyes, e ambos confirmaram que os jovens teriam sido assassinados por confronto armado.
Pouco antes do assassinato acontecer, Alexander, já na clandestinidade, enviou uma carta à sua família, compartilhando suas intenções de sair do país e expressando seu pensamento:
" [...] Outra coisa que me vem à memória é que nem sempre uma linha reta é o caminho mais curto entre dois pontos. Sim, pois eu estando perto de vocês: no mesmo país, por causa dessa comunicação unilateral nunca estive tão longe. Então, paradoxalmente, para a gente se aproximar deve afastar-se.
Tem outro ponto que queria abordar, já que falo nessa quebra de unilateralidade. Não vamos ser irreais e voltar-se ao passado. Acho que a missão de vocês em relação a este filho já está definitivamente cumprida e brilhantemente. Vocês fizeram o que puderam, e acho que fizeram bem. Deram-me coisas importantes: ser independente, saber se virar por si mesmo, ter capacidade de tomar suas próprias decisões. Cultura e independência, essas são duas coisas que fazem o homem mais livre. Por isso este bicho aqui se considera Homem. E sou grato.
Acho ainda que já não se deve dedicar tempo pensando ou se preocupando comigo. Esse tempo deve ser utilizado para os daí. A Cristina, o Jorge e a Margarida e para vocês mesmos. Eles precisam ser homens e vocês acho que já devem se considerar realizados em boa parte. Acho que comigo já cumpriram a tarefa.
Muitas vezes os pais por um certo egoísmo paternal acham que os filhos devem se fazer pela imagem que eles próprios gostaria de ter sido. Não é mesmo? Dependendo das bases em que for colocado pode ser positivo ou não. O primeiro aspecto positivo dessa atitude é o fato dela ser voltada para a frente: “sempre melhor do que sou”. Está implícita a ideia de progresso.
Agora, cada homem tem sua individualidade que distingue dos outros e sua que o aproxima e o faz pertencer à mesma espécie.
Não vamos colocar como objetivo para os filhos aqueles que são apenas projeções individuais, que são reflexo do que há de diferente entre os homens, pois o que seria realização de um pelo outro seria a negação deste. Sempre considerei vocês bastante esclarecidos nesse assunto, não querendo fazer, com muita gente, que o filho seja médico (por ex.) porque esse foi o sonho de juventude do pai. Isso de querer fazer o filho à própria imagem do eu individual é uma realização feita com a negação da dos outros.
Por isso deve-se fixar naquilo que é comum entre as pessoas e que as aproxima. Porque, quando um homem se realiza nesse ponto, também o faz toda uma sociedade e aí se confirma o progresso: destina-se não só a continuação do ser humano, mas ao seu constante melhoramento. Fiquem atentos e verão onde quero chegar.
A verdadeira educação liberta o homem.
Os pais não devem desenvolver ferramentas pelos filhos, muito menos ainda fazer a casa, mas sim desenvolver as ferramentas nos filhos, isto é, a capacidade de fazê-las.
Uma vez na igreja ouvi: Se vem uma pessoa e te pede um peixe, não dê. Ensine-a a pescar. Entenderam o que estou querendo agradecer?
Obrigado pela vara de pesca!
pelos instrumentos que vocês me deram: cultura honestidade consigo mesmo, (aí se consegue para com os outros) e essa independência.
Pois quem sabe transmitir essa capacidade de pescar aos outros, pelo que isso de tem de quebra de egoísmo, generosidade e confirmação do que há de bom no ser humano, pode, deve e tem a obrigação de ser considerar realizado.
Vocês verão só os peixes que eu vou pegar. Peixes que vocês nunca sonharam e sei que vão ficar contentes porque esse era o objetivo de você."
Na carta, Alexander também demonstra que não gostaria de sair do Brasil e que escolhera um país da América Latina exatamente para se manter próximo a terra natal.
"Mas o que eu gostaria mesmo era de permanecer no Brasil, no final é chato a gente que passou os anos nessa terra tão intimamente ligado a ela ter que sair. A gente sabe que vai sentir saudades e até desambientado, é por isso que escolhi a América Latina para fixar-me, que apesar das diferenças a gente tem uma certa personalidade continental, um pouco mais fora, mas a gente ainda está com os seus e ainda existem universidades boas por aqui.
Enfim, dá para começar a vida de novo e, pensando bem, não recomeçar, mas começar verdadeiramente. Mas tudo isso é um parêntese para o que eu dizia acima, que eu gostaria mesmo era de permanecer no Brasil. Tinha esperanças de esfriar a barra e esclarecer os mal-etendidos, mas sabe qual é o critério desse pessoal, todo mundo é considerado em princípio culpado até provas em contrário."
Alexander também conta sobre como outros perseguidos políticos afirmam inocência em relação ao que foram acusados pelos militares e compartilha com sua família sua inconformação com os militares quererem prender a todos que os contrariam.
"Na entrevista, dos que se recusaram a sair houve coisas bem interessantes, lá tinha um sujeito que disse, não sei por que estou preso, não, eu não quero pegar uma dessa não, preso sem saber por que e a falta de preocupação com a verdade ficou bem demonstrada com esse belo presente de natal. O processo da VAR-Palmares, coisa com a qual nunca na vida estive metido e nem pensei em fazê-lo e ainda nunca cheguei a conhecer nenhum dos gajos relacionados, pois são todos estudantes da manhã que já devem ter saído há bom tempo de lá.
Todos os caras que encontram, [os militares] tratam logo de relacioná-los com alguma organização e etc. Se eles pudessem prender toda a cidade e só soltar os amigos íntimos já o teriam feito, nas não tem nada não."
No dia 29 de fevereiro de 1972, o jornal Folha de S.Paulo publicou uma nota, e disse que a morte do jovem foi consequência de um tiroteio com policiais. A nota dizia: "Dois terroristas, um dos quais natural do Chile, ao dispararem metralhadora e revólver contra agentes dos órgãos de repressão, acabaram por atingir e matar o sr. Napoleão Felipe Biscaldi, de 61 anos de idade, no cerco realizado domingo na rua Serra de Botucatu, bairro do Tatuapé". Houve por parte do DOPS/SP uma estratégia para incriminar Alexander e Lauriberto pela morte de Napoleão. O laudo do Instituto Médico Legal (IML) de ambos foi assinado pelo legista Paulo Altenfelder que destacou com a letra maiúscula T a análise dos dois corpos identificando-os como militantes, ou seja, terroristas.
O cerco que culminou na morte de Alexander, de acordo com a Comissão da Verdade, teria sido montada a partir de informações fornecidas por uma pessoa que estava presa.