Longhi é um sobrenome italiano de antiga origem, grafado inicialmente como Longo, do qual Longhi é plural. Alguns grupos ganharam grande poder na Idade Média e na Idade Moderna, possuindo dezenas de títulos de nobreza e vastos latifúndios na região centro-norte da Itália. O sobrenome aparece em muitas variantes dialetais, como Longis, Longoni, Longa, Longhù, Longi, Longu e outras, além da versão Longus, plural Longi, usualmente encontrada nos textos em latim. Porém, como em italiano longo significa "longo", "alto", "antigo" ou "comprido", sendo palavra de uso extremamente comum, sem dúvida grande parte dos numerosos grupos espalhados por toda a Itália tiveram origens independentes, muitos deles de extração popular.
Roma Antiga A palavra aparece como denominador de pessoas desde a Roma Antiga, surgindo num ramo da gens Sempronia, os Semprônios Longos. Dois de seus representantes foram cônsules, a mais alta magistratura no período da República romana, citados por Tito Lívio, Tácito e Políbio.Peck, Harry Thurston. Harpers Dictionary of Classical Antiquities. Harper and Brothers, 1898Bellis, Carlo Longo de. Famiglia Longo. Libro d'Oro Napolitano / Elenco Regionale Napolitano / Sedili di NapoliLellis, Carlo de. Discorsi delle famiglie nobili del Regno di Napoli, Parte II. Pacci, 1663Ceriolli, Alessandro. Pietra de' Giorgi nell'Oltrepò pavese e dintorni: Studio di storia locale con copia di documenti inediti. Figli Provvidenza, 1906
Uma outra gens também usou o nome Longo em Roma, a gens Atília, que deu 19 cônsules e tinha ramos patrícios e plebeus, dos quais, segundo Smith, os Longos eram patrícios. Podem ser citados como notáveis Atílio, um dos três primeiros tribunos consulares, eleito em , Sulpício e Duílio, que ocuparam o mesmo cargo respectivamente em 390 e . Mussídio Longo, procônsul, emitiu várias moedas logo depois da morte de Júlio César. No tempo de Marco Antônio, Júlio Longo emitiu moedas. Lucílio, senador, foi amigo íntimo de Tibério e o acompanhou no seu exílio. A gens Atília floresceu pelo menos até o Smith, William. Dictionary of Greek and Roman Biography and Mythology. Little, Brown & Co., 1844-49Fasolo, Michele. Tyndarise il suo território, Volume I. MediaGEO, 2013
Na Idade Média o sobrenome surge em diversos pontos da Itália, sem que se possa estabelecer qualquer ligação segura entre eles.
Veneza Diz uma tradição que no ocaso do Império Romano Luca Longo, magister equitum, de origem obscura, no ano de 560 começou a ligar as ilhas de Veneza com pontes e construiu edifícios e templos, mas seus rastros se perdem em seguida, embora alegue-se que ele seja a origem de alguns tribunos e depois de uma linhagem patrícia. Não existe prova documental, e pode ser apenas uma coincidência onomástica que os próximos que surgem, cinco séculos depois, estão efetivamente no patriciado.Dizionario Storico-Portatile di Tutte le Venete Patrizie Famiglie: Cosi di quelle, che rimaser' al serrar del Maggior Consiglio, come di tutte le altere, che a questo furono aggregate. Bettinelli, 1780Bandelli, Giovannina. Notizie Storiche di Trieste. Coen, 1951
Em Veneza reaparecem em 1053, quando Ursa, viúva de Petrus Longus, doava um vinhedo aos dominicanos da ilha de Chioggia.Cicogna, Emmanuele Antonio. Delle inscrizioni Veneziane, Volume 4. Orlandelli, 1834 No , Jacopo é mencionado como almirante, um cargo tradicionalmente atribuído ao patriciado, e Benedito, Domínico e João aparecem assinando documentos de Estado junto com outros patrícios e o doge.Sanudo, Marin [Monticolo, Giovanni, (ed.)]. "Le Vite dei Dogi". In: Carducci, G. & Muratori, L. A. (eds.). Rerum italicarum scriptores; raccolta degli storici italiani dal cinquecento al millecinquecento. Lapi, 1900 Em 1268 Gerardo foi comandante supremo dos exércitos da cidade e em 1272 fez parte da embaixada enviada a Bolonha.Freschot, Casimir. La nobiltà veneta. Forni, 1707 Foram excluídos do patriciado em 1297, sendo reintegrados em 1380 em reconhecimento de sua contribuição na guerra contra Gênova, e confirmados como nobres no .Lumaga, op. cit.L’Archivio di Stato di Venezia [Mosto, Andrea da]. L’Archivio di Stato di Venezia: Indice Generale, Storico, Descritivo. Volume V della Biblioteca degli Annales Institutorum. Biblioteca d’Arte Editrice, 1940Chojnacki, Stanley. "La formazione dello stato patrizio - Diritto, finanze, economia: la formazione dela nobiltà doppo la Serrata". In: Storia di Venezia. Treccani, 1997Radossi, G. "Monumenta Heraldica Iustinopolitana". In: Centro di Ricerche Storiche di Rovigno. Collana degli Atti, 2003
No os patrícios Francesco e depois seu filho Antonio foram do Conselho dos Dez; o filho deixou um relato importante sobre a guerra contra os turcos e um neto foi conselheiro secreto. Vários outros se tornaram conhecidos como guerreiros, escritores, religiosos e políticos, e muitos mais foram podestà em cidades e territórios venezianos, como Taddeo, Francesco, Antonio, Claudio, Vincenzo e Nicolò, podestàs de Vicenza, Verona, Bréscia, Martinengo, do vale Imagna, do vale Seriana e de Asola. Raines, Dorit. “Cooptazione, aggregazione e presenza al Maggior Consiglio: le casate del patriziato veneziano, 1297-1797”. In: Storia di Venezia - Rivista, 2003; (I):1-64 “Consiglio de’ Dieci, 1537-1538. Carta 159v”. In Lorenzi, Giambattista. Monumenti per servire alla storia del Palazzo Ducale di Venezia: ovvero serie di atti pubblici dal 1253 al 1797, che variamente lo riguardano, Volume 1. Visentini, 1868 Em Veneza é notada também Laura, "dama virtuosa" e esposa do poderoso nobre bergamasco Gian Girolamo Albani, grande oficial em Veneza e cardeal depois de enviuvar. Ela descendia de Abbondio Longhi, senhor do Castelo de Urgnano e secretário de Bartolomeo Colleoni, célebre condottiero.Comune di Cologno al Serio. Cologno sotto la Reppublica di Venezia.
Bréscia thumb|Castelo de Redondesco, dos condes de mesmo nome. thumb|A torre sobrevivente do Castelo de Remedello.
O grupo medieval mais notável é o formado pelos condes Ugoni-Longhi, ou Ugonidi. Sua tradição alegava que descendiam dos Semprônios Longos da Roma Antiga, mas não há prova documental.Preto, Paolo."Falsari di epigrafi nell’Italia meridionale". In: Giuffrida, Antonino; D’Avenia, Fabrizio & Palermo, Daniele (eds.). Studi storici dedicati a Orazio Cancila. Associazione Mediterranea, 2011, pp.1415-1460Parascandolo, Gaetano. Monografia del comune di Vico-Equense ... con un'appendice. Priggiobba, 1858Maffucci, Giuseppe. "Antiche e nobili famiglie". Vico Equense Storia, 03/02/2013
Segundo Marchetti-Longhi, trata-se de "antiga família feudal de origem lombarda, espalhada pela Lombardia, Ligúria e Vêneto, e depois radicada também em Roma. [...] A origem destes condes é bastante obscura e polêmica, mas alegavam terem sido investidos do Condado de Bréscia no fim de 974 por Otão II".Marchetti-Longhi, Giuseppe. “Longhi”. Enciclopedia Italiana, 1934 Suas raízes mais imediatas provavelmente estão em Ugo, que em 1085 herdou do pai, Bosão II, o Condado de Sabioneta, e teria dado seu nome à descendência. Sua mulher foi Matilde, filha dos condes Arduini de Parma. O primeiro registro do sobrenome nesta região, datado de 1167, cita Narisio, Vizzolo e Azzo Longhi como condes de Montichiari, Asola e Mosio. Os testemunhos de Andrione de Redondesco, junto com outros, em um processo judicial de 1228, confirmam a consanguinidade dos Longhi com os Ugonidas:
"Lembra-se que há mais de 50 anos os condes da Casa Ugonidi e estes que aqui estão [os condes Longhi de Montichiari, então sob processo], e os seus pais, e os seus antecessores, se diziam e chamavam de condes de Montichiari. [...] Ouvi que seus ancestrais diziam que os condes da Casa Ugonidi se diziam e chamavam condes de Montichiari e que Montichiari era a cabeça da Casa; e digo que há mais de 45 anos sempre ouvi dizer que estes condes que aqui estão, e seus pais e seus antecessores se diziam e chamavam condes de Montichiari".Baronio, Angelo. "Ecclesia ad confines posita: per la storia dell’organizazzione della Chiesa bresciana nel medioevo: Montichiari". In: Archetti, Gabriele & Donni, Giovanni. (eds.). Brixia Sacra: la memoria della fede, Tomo I. Associazione per La Storia della Chiesa Bresciana, 2009, pp. 103-178
Mesmo assim, não são citados os elos desta ligação, a documentação sobre os Ugonidas em geral é pobre e pouco clara, havendo várias hipóteses circulando sobre a origem e descendência desta estirpe, muito ramificada e associada a muitas outras Casas importantes, que floresceu com grande poderio entre os séculos X e XII, mas quase sempre envolta em disputas e guerras e intercâmbios de territórios, com uma sorte bastante agitada. Incorporaram vários outros títulos de conde, como Desenzano, Marcaria, Bizzolano, Redondesco, Casaloldo, San Martino Gusnago, Ceresino e Belforte, entre vários outros feudos, que formaram em seu apogeu um vasto latifúndio. Fundaram um mosteiro, possuíam vários castelos, alguns dos quais ainda existem.Fe d’Ostiani, L. F. "I conti rurali bresciani del medio evo". In: Archivio strorico lombardo. Milano, 1899 Caso raro no mundo da nobreza medieval, os Longhi aparecem em data muito precoce já estabelecidos com um sobrenome que não é derivado de um topônimo. No entanto, logo alguns ramos, a fim de se diferenciarem claramente, retornaram à antiga prática de adotar o nome das localidades onde tinham feudos, a exemplo dos Casalodi (ou Casaloldi), possivelmente o mais poderoso de todos esses ramos derivativos.Piovanelli, G. Casate bresciane nella storia e nell’arte del medio evo. Zanetti, 1981
Os Ugonidas vieram a cair em desgraça em sua região de origem no , enfrentando as comunas que se fortaleciam e combatiam o poderio dos senhores feudais, foram privados de inúmeros feudos e castelos e acabaram banidos de várias cidades, como Bréscia e Mântua, seus principais baluartes e sedes de alguns dos ramos mais importantes. Refugiaram-se no entorno e buscaram novas alianças com os condes de Placência e Verona, os condes palatinos de Lomello e os marqueses Obertenghi.Bonaglia, A. Storia di Montichiari. Il medioevo (476-1250). Zanetti, 1991 Odorici, F. Storie bresciane. Gilberti, 1855-1858Marchetti-Longhi, G. Il cardinale Guglielmo de Longis de Adraria di Bergamo: la sua famiglia e la sua discendenza. Staderini, 1961 Dali se iniciou uma dispersão, "alguns conservando, outros perdendo, os títulos feudais e o poder, mas sempre mantendo o nome gentílico e a lembrança da sua origem comum na identidade fundamental da sua família: o leão rampante”, como ressaltou Marchetti. Mesmo antes da queda fora um clã com forte política expansionista. Irradiaram-se para o oeste até Bérgamo, onde a família conquistou poder especialmente depois que Guilherme de Longis, antes chanceler do rei de Nápoles, foi criado cardeal por Celestino V.