As mulheres no Islão são guiadas pelas leis primárias islâmicas, nomeadamente o Alcorão, assim como pelas demais leis secundárias (que tendem a variar de acordo com a diferença na conceituação das mulheres islâmicas).Motahhari, Morteza (1983). Jurisprudência e seus princípios (tradução livre), ISBN 0-940368-28-5
As leis e a cultura islâmica possuem grande impacto nos mais variados aspectos da vida de uma mulher islâmica, tais como sua educação, oportunidade de emprego, herança, casamento e justiça, entre outros.Offenhauer, Priscilla (2005) Mulheres na Sociedade Islâmia. Biblioteca do Congresso.
O papel das mulheres na sociedade muçulmana mudou significativamente nos séculos desde que o Islamismo começou na Arábia no início dos anos 600 d.C. Sua posição variou com a mudança de circunstâncias sociais, econômicas e políticas. No Islão, homens e mulheres são considerados iguais perante Allah (deus em árabe) em termos de responsabilidade moral e espiritual. No Islão, homens e mulheres são iguais perante Allah em termos de responsabilidade moral e espiritual. Contudo, historicamente, o acesso das mulheres a áreas sociais, políticas e educativas variou conforme a época, a cultura e a região. Apesar dessas restrições, algumas mulheres muçulmanas desempenharam papéis significativos como líderes, educadoras e transmissoras de conhecimento religioso, mostrando que a participação feminina não foi homogénea. Ao mesmo tempo, certos governantes, administradores e a maioria dos juristas impuseram sistemas de desigualdade, justificando-os com interpretações do Alcorão e das tradições do Profeta. Em muitos contextos coloniais, a presença europeia não melhorou a situação das mulheres e, por vezes, agravou desigualdades ou reforçou estruturas de poder patriarcais locais. Desde que grande parte do mundo islâmico se tornou independente na metade do século XX, as mulheres têm-se encontrado no meio de tensões entre grupos tradicionalistas e reformistas, à medida que estes disputam influência na sociedade islâmica
Antes do surgimento do Islão no início dos anos 600, os árabes viviam em uma sociedade tradicionalmente patriarcal. As mulheres eram consideradas como propriedade, e não existiam limitações à poligamia. O Islão trouxe algumas reformas, particularmente no que se refere ao estatuto das mulheres. O Alcorão reconheceu o direito de uma mulher escolher seu próprio parceiro de casamento e fixou limites à prática da poligiamiaː um homem poderia ter até quatro esposas, desde que pudesse sustentá-las e tratá-las com justiça.
No Islão, a poligamia é permitida para homens, com um máximo de quatro esposas simultâneas, desde que sejam tratadas com justiça; esta prática não é uniforme em todos os segmentos da religião e é regulada por leis específicas em cada país. Por exemplo, no Irão existe a figura do matrimónio temporário (sigheh ou mut’ah), permitido em certas circunstâncias. As mulheres, por sua vez, não podem contrair matrimónio com homens não-muçulmanos, enquanto os homens muçulmanos podem casar com mulheres de outras religiões do Livro (judaísmo ou cristianismo), respeitando as normas religiosas.
A Sharia provê, como complementarismo,Women Embracing Islam: Gender and Conversion in the West. (2007) - Universidade do Texas em Austin diferenças entre os papéis, direitos e deveres de homens e mulheres. Ser muçulmano é mais do que simplesmente uma identidade religiosa; o Islão estrutura a vida quotidiana de uma mulher muçulmana.
Na maioria dos países muçulmanos, as mulheres exercem os mais variados níveis de seus direitos religiosos com relação a casamento, divórcio, estado civil, vestuário e educação, baseados nas diferentes interpretações da lei islâmica.
Fontes de influência Existem quatro fontes de influência no Islã sobre as mulheres muçulmanas. As duas primeiras, o Alcorão e os Hádice, são consideradas principais fontes, enquanto as outras duas são fontes secundárias e derivadas que diferem entre várias seitas muçulmanas e escolas da jurisprudência islâmica. As fontes secundárias de influência incluem o ijma (consenso), as qiyas (analogias) e, em outras formas como as fátuas e o ijtihad.Kamali, Mohammad Hashim. Principles of Islamic Jurisprudence, Cambridge: Islamic Text Society, 1991.
A igualdade espiritual entre mulheres e homens é detalhada na sura al-Aḥzab: "Quanto aos muçulmanos e às muçulmanas, aos fiéis e às fiéis, aos consagrados e às consagradas, aos verazes e às verazes, aos perseverantes e às perseverantes, aos humildes e às humildes, aos caritativos e às caritativas, aos jejuadores e às jejuadoras, aos recatados e às recatadas, aos que se recordam muito de Deus e às que se recordam d'Ele, saibam que Deus lhes tem destinado a indulgência e uma magnífica recompensa." (Alcorão 33:35) (Tradução de Samir El-Hayek)
A visão básica do Islã sobre mulheres e homens postula uma complementaridade de funções: como todas as coisas no universo, a humanidade foi criada em um par (sura Adh-Dhariyat, 51:49) (Tradução de Samir El-Hayek) - nenhum pode ser completo sem o outro. No pensamento cosmológico islâmico, o universo é percebido como um equilíbrio construído em relações polares harmoniosas entre os pares que compõem todas as coisas. Além disso, todos os fenômenos externos são reflexos do noúmeno interno e, no final, de Deus.
A mulher nos textos sagrados No Alcorão An-Nisa - "A Mulher" - é a quarta sura do Alcorão, com 176 versos, revelada em Medina.Trata essencialmente dos direitos e obrigações das mulheres. O verso 34 é frequentemente citado nas discussões sobre gênero e crítica feminista do Islão. Eis a tradução em língua portuguesa, conforme Helmi Nasr, na sua edição do Alcorão com a colaboração da Liga Islâmica Mundial em Meca.
"Os homens têm autoridade sobre as mulheres, pelo que Alá preferiu alguns a outros, e pelo que despendem de suas riquezas. Então, as íntegras são devotas, custódias da honra, na ausência dos maridos, pelo que Alá as custodiou. E àquelas de quem temeis a desobediência, exortai-as, pois, e abandonai-as no leito, e batei-lhes. Então, se elas vos obedecem, não busqueis meio de importuná-las. Por certo, Alá é Altissimo, Grande."
Com ligeiras variantes, esta tem sido a tradução clássica do verso, apresentada por tradutores como Marmaduke Pickthall, Yusuf Ali, Muhammad Taqi Usmani e Maulvi Sher Ali. A tradução de Ahmed Ali, professor paquistanês, em Al-Qurʻan: A Contemporary Translation, apresenta uma versão alternativa da parte final, substituindo-a por: "(...) deixe-as sozinhas na cama (sem as molestar) e durma com elas (quando estiverem dispostas)", refletindo uma interpretação mais ética e consensual da disciplina conjugal, em consonância com princípios de justiça e respeito mútuo.
A activista marroquina dos direitos femininos Fatima Mernissi já se tinha debruçado sobre este verso na década de 1980. Ela anota que não achou tradição que o próprio Profeta alguma vez tivesse levantado a mão contra alguma das suas mulheres, e sugeriu que a permissão dada pelo Profeta para o uso da violência contra as mulheres foi sob a influência de Omar ibne Alcatabe (o controverso segundo califa do Islão, 634-644), conhecido pela sua misoginia. Para Mernissi, o verso santifica o direito dos homens de bater nas mulheres em caso de rebelião contra a autoridade masculina.
No início dos anos 90, a feminista Amina Wadud lidou com a primeira parte do verso. Rejeitou a opinião de que a expressão árabe "qawwamuna 'ala" implicasse que o Corão colocava o homem num plano superior à mulher; afirma que, pelo contrário, essa expressão indica um compromisso dos homens de apoiá-las financeiramente durante o período em que suas esposas são impedidas de trabalhar devido à gravidez e à amamentação, porque os homens têm maiores recursos financeiros nessa altura. A. Wadud é de opinião que em relação à preferência material, existe apenas uma referência no Alcorão que especifica que Alá determinou para os homens uma porção maior do que para as mulheres: a herança - a mulher herda metade do que herda o homem.
Laleh Bakhtiar, autora, tradutora e psicóloga iraniana-americana, a viver nos EUA, tinha iniciado uma tradução do Alcorão para a língua inglesa quando deparou com o verso 34 da Sura An-Nisa. Perturbada, quase abandonou o projecto na altura: ""Decidi que (o verso) tinha de ter um significado diferente, ou não podia continuar a traduzir", disse Bakhtiar, que adotou a fé islâmica de seu pai já adulta e não tinha refletido no verso anteriormente. "Eu não podia acreditar que Alá aprovaria prejudicar outro ser humano a não ser na guerra." Após encontrar uma tradução alternativa, prosseguiu o seu trabalho e publicou "The Sublime Quran" em 2007, a primeira tradução inglesa do Alcorão por uma mulher americana.
A tradução de L.Bakhtiar tenta ter uma perspectiva feminina e admitir significados alternativos para muitos termos árabes que são ambíguos ou cujo significado os estudiosos tiveram que adivinhar por causa da antiguidade da língua. O seu trabalho procura criar um entendimento entre não-muçulmanos e muçulmanos.
Na sua tradução do Alcorão, ela traduz kāfirūn (kafir) como "aqueles que são ingratos" em vez das traduções comuns "incrédulos" ou "infiéis". Ela também traduz a palavra árabe ḍaraba no capítulo 4, versículo 34, referente ao tratamento de um marido em relação a uma esposa rebelde, como "afastar-se", em vez da comum "bater" ou "golpear". As palavras inglesas "God" (Deus) e "Mary" são usadas em vez das árabes Alá e Maryam.
As reações foram imediatas. O chefe de uma das principais organizações muçulmanas do Canadá, a Sociedade Islâmica da América do Norte (ISNA), Mohammad Ashraf, disse que não permitiria que o livro de Bahktiar fosse vendido na livraria da ISNA porque ela não foi treinada numa instituição acadêmica credenciada no mundo muçulmano (e cita uma universidade na Arábia Saudita como uma delas) e também disse que "esta tradução amiga da mulher estará desalinhada e não irá muito longe" e que "foi dada às mulheres uma posição muito boa no Islã"
Bakhtiar discorda de tais críticas dizendo: "A crítica existe porque sou mulher". Ela também comenta que alguns outros conhecidos tradutores do Alcorão não eram considerados estudiosos islâmicos. Bakhtiar deixa claro que este livro é uma tradução, não um comentário, e que não abordou outras questões potencialmente divisórias, tais como o vestuário, a modéstia das mulheres, o domínio masculino e a poliginia.
Nos Hádices Os hádices são uma coleção de episódios sobre a vida de Maomé, a seguir ao Alcorão em importância. Foram transmitidos através de uma cadeia oral, e mais tarde compilados várias gerações após a morte do profeta (séculos VIII e IX) por vários dos seus seguidores.
São classificados pelos religiosos muçulmanos e juristas pela sua fiabilidade, sendo as coleções mais consideradas as Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim .
Em Sahih al-Bukhari encontra-se, por exemplo, o episódio do encontro de Maomé com um grupo de mulheres:
"Ele passou pelas mulheres e disse: "Ó mulheres! Dêem esmolas, que eu vi que a maioria dos habitantes do inferno eram vocês (mulheres)". Elas perguntaram: "Por que é assim, ó apóstolo de Alá?" Ele respondeu: "Vocês amaldiçoam frequentemente e são ingratas com os vossos maridos. Eu não vi ninguém mais deficiente em inteligência e religião do que vocês. Um homem sensato e cauteloso poderia ser desencaminhado por alguns de voós". As mulheres perguntaram: "Ó Apóstolo de Alá! O que é deficiente em nossa inteligência e religião?" Ele disse: "Não é a evidência de duas mulheres igual ao testemunho de um homem?" Elas responderam afirmativamente. Ele disse: "Esta é a deficiência em sua inteligência. Não é verdade que uma mulher não pode rezar nem jejuar durante a sua menstruação?" As mulheres responderam afirmativamente. Ele disse: "Essa é a deficiência em sua religião".
Educação thumb|right|230px|Estudantes numa escola islâmica do Paquistão