Manoel de Almeida Coelho Margarida ou Poeta Margarida foi um poeta português errante, um glosador, famoso por sua versatilidade e facilidade em compor de improviso suas poesias sobre os mais variados assuntos e temas, ou, segundo os motes que lhe eram propostos e, segundo o que o mesmo dizia, ele não era um repentista e sim um glosador.
Biografia Manoel, nasceu na vila e freguesia de Macieira de Cambra, no distrito de Aveiro, em Portugal, aos 7 de julho de 1829, filho de uma família que vivia na mais extrema pobreza. Seus pais residiam nas proximidades de Valgalhardo, onde seu pai ganhava a vida como serviçal, o que valia um soldo de quatro vinténs diários e sua mãe, uma tecelã [ou tecedeira], ganhava dois vinténs.Jornal “O Baependyano”, Caxambu, 22 de junho de 1886 ANNO IX N.428 pg 2. Sobre esses primeiros anos de vida e sobre sua progenitora, uma "honrada e trabalhadeira aldeã", o poeta diria o seguinte:
Infância em Portugal Quando morreram seus pais, Manoel, ainda nos primeiros anos de vida, "...começou a carecer da proteção de estranhos de quem vinha o pão" para a sua subsistência e que, malfadada sorte, fora o que o "...alimentou até a morte." Manoel, órfão foi obrigado a trabalhar no pastoreio de burros e, desde essa idade, circunstanciado pelas necessidades de suas funções de pastor e dos ofícios da criadagem, fora privado dos estudos, de tempo livre e de quaisquer forma de aprendizado uma vez que, por esta mesma época, então contando dez anos, perdia ele também o seu preceptor, o mestre de letras "...de quem recebera as primeiras noções de leitura."
Se por um lado lhe faltasse instrução e tempo livre por outro a sede de aprendizado não lhe fora subtraída e assim é que "aquele gênio furtava, às vezes, o tempo para estudar na estrebaria enquanto não vinham os burros, servindo-se de um tição." E o próprio poeta dizendo sobre esse tempo, assevera:
Ainda sobre seus primeiros anos de vida, infância e juventude, Carlos Borja Peixoto diz o seguinte:Jornal "Liberal Mineiro", Ano V, N.º 72 - Ouro Preto, 22 de julho de 1882.
Primeira estadia no Brasil Manoel veio para o Brasil e, radicando-se no Rio de Janeiro, depois de um curto período de permanência, retornou à pátria, "levando consigo a colossal fortuna de setecentos e vinte réis!..." ... Dos familiares que lhe restavam em Portugal, nenhum lhe fora simpático quando do retorno à pátria: "Nem a distância que o separava da família, nem esse rosário de sofrimentos de que tantos podem dar testemunho, nada minorou a antipatia com que o recebeu um único parente que lhe restava". A julgar pelo noticiado e pelo escrito de próprio punho, o poeta fora caluniado pelos próprios entes familiares:
Segunda estadia no Brasil O tempo de permanência em Portugal não é preciso, o que se sabe é que, mal recebido pelos familiares [e por outros motivos talvez], Manoel retorna ao Brasil, passa pelo Rio de Janeiro e, não muito depois, fixa sua residência definitivamente em Minas Gerais, na cidade de Mar de Espanha, onde se estabelece em um pequeno rancho e, para sua sobrevivência, trabalha como lavrador, cavouqueiro e biscateiro, ao mesmo tempo em que dedica-se à produção literária.
Sendo ele um analfabeto, tratou de criar o próprio um modo de registrar suas composições, inventou ele próprio um alfabeto rudimentar do qual servia-se para fazer suas composições e para, depois, repeti-las a quem pudesse transcrevê-las em alfabeto corrente.
Manoel já era grandemente conhecido na sociedade literária de então. Era convidado para eventos, encontros literários, festas e suas composições eram estampadas em vários periódicos de então. Como exemplo disso, em 1877, ele fora apresentado à importante Sociedade Ensaios Literários, no Rio de Janeiro, convidado para uma das seções literárias, pelo 2º secretário da mesma instituição, o Sr Camargo, ele glosou sobre o seguinte mote:
Manoel torna-se um incansável excursionista, um poeta errante. É ele quem publica e é ele quem divulga e vende suas composições poéticas. E foi graças à intervenção de amigos e apreciadores de seu trabalho que, em ], tinha já editado seus três primeiros livros e tinha um quarto já em preparo, conforme atesta o periodista de "O Arauto de Minas", que o fora visitá-los, ele, a esposa e quatro filhos, em seu casebre,Jornal "O Arauto de Minas", São João Del Rei, 6 de maio de 1882. em Mar de Espanha, em retribuição à visita que o poeta fizera às oficinas do jornal quando compusera as poesias "Casa de Pedra", "Igreja de São Francisco" e "Igreja Matriz". Manoel viaja pelas cidades do Rio de Janeiro, como em 1880 quando se apresenta em Macuco.Jornal "Carbonário", Ano V, N.º 28 - Rio de Janeiro, 12 de abril de 1876 E, nos anos que se seguem, como o de 1882, ele se encontra em peregrinação pelas diversas cidades da Zona da Mata Mineira, como Juiz de Fora e também por Ouro Preto, São João Del Rei, etc.
Em Juiz de Fora, em visita os principais periódicos, participa de eventos e, chafurdando pelas ruas e comércios da cidade, faz uma interminável peregrinação à custa de vender seus livros. São essas as palavras do periodista de "O Pharol" no início de maio de 1882: "O Poeta Margarida a quem a natureza enriqueceu com uma admirável veia poética, durante os poucos dias que tem estado nesta cidade, fez diversas poesias... {...} ...Admira-se neste poeta, que não recebeu das academias ilustração alguma, nem manuseou livros dos grandes mestres, uma notável conexão de ideias, e o modo porque emprega certos termos com grande propriedade.Jornal "O Pharol" - Juiz de fora, Ano XVI, N.º 48, Juiz de Fora, terça-feira, 2 de maio de 1882. Neste mesmo ano ele vai pra São João Del Rei e no ano seguinte 1883 retorna a Juiz de Fora.
Em fevereiro de 1885 ele se encontra no Rio de Janeiro, quando da entrega da comenda ao comendador A. Ribeiro jornais. na ocasião também presentes homens da sociedade e os periódicos O Paiz, Gazeta de Notícias, Folha Nova, e Gazeta da TardeJornal "O País", terça-feira, 17 de fevereiro de 1885 Do Rio de Janeiro ele vai (em junho de 1885) para Desterro Tubarão, em visita a um de seus filhos.Jornal "O Despertador", Ano XXIII, N.º 2310 - Desterro, sábado, 20 de junho de 1885. Permanece por pouco tempo na cidade, no mês seguinte (agosto) retorna ao Rio de Janeiro buscando como destino o Sul de Minas. Passa pelo Vale do Paraíba, onde recente-se da má acolhida em PindamonhangabaJornal "O Pharol" - Juiz de fora, Ano XIX, N.º 205, Juiz de Fora, sexta-feira, 11 de setembro de 1885. e, seguindo sua viagem, vai para Caxambu (setembro de 1885) em busca de tratamentos médicos.
Em setembro de 1885, aos 56 anos, ele, viúvo pela segunda vez, deixando seus quatro filhos em Mar de Espanha, sob os cuidados ou favores de amigos, se encontra em Caxambu por conta de sua saúde extremamente debilitada. Seus quatro filhos permanecem em Mar de Espanha, os três filhos ficaram sob os cuidados do fazendeiro Marcelino José da Costa e a menina com os padrinhos.Jornal "O Baependyano", Ano IX, N.º 381 - Caxambu, 6 de setembro de 1885. De sua estadia em Caxambu para tratamentos médicos, ainda que curta, ele serviu-se também para tratar de vender seus livros, pelos diversos pontos da região sul mineira como Rio Verde, Soledade, participou de atividades sociais, como o encontro com o amigo José Xavier Bastos e sua bengala emblemática,Jornal "O Baependyano", Caxambu, 17 de setembro de 1885. e o lançamento de seu "Poesias aquáticas, nas águas de Caxambu". O editorialista de "O Baependyano" assim se reporta ao Poeta Margarida: "...foi o "Leão da Moda" durante o tempo em que esteve neste lugar..."Jornal "O Baependyano", Ano IX, N.º 389 - Caxambu, 25 de outubro de 1885.
No dia 24 de fevereiro de 1886, ele retorna a Juiz de Fora. Seu estado de saúde inspira cuidados urgentes, haja vista a nota que o periodista de "O Pharol" estampa naquele jornal: "Sem quase poder consigo, chegou anteontem a esta cidade o poeta Margarida, de quem recebemos o volume de suas poesias Aquáticas...", emendando a seguir, "o poeta Margarida vem valer-se da proteção do nosso público, sempre voltado à prática do bem.".Jornal "O Pharol" - Juiz de fora, Ano XX, N.º 48, Juiz de Fora, sexta-feira, 26 de fevereiro de 1886. e não passou-se muito, no início de junho daquele mesmo ano Manoel de Almeida Coelho Margarida, falecia, no distrito de Rio Pardo da Leopoldina (Argirita), "para onde se retirara em busca de melhoras para a sua saúde", vitimado, provavelmente das mesmas moléstias que o vinham acompanhando e que o haviam, ano anterior, levado a Caxambu para tratamentos médicos.Jornal "O Pharol" - Juiz de fora, Ano XX, N.º 135, Juiz de Fora, quarta-feira, 16 de junho de 1886.
Morte Não resistindo às complicações de sua saúde, Manoel morre em 26 de junho de 1886, no Rio Pardo da Leopoldina. Vários periódicos da época noticiam com pesar o seu passamento: "Margarida era um pobre trabalhador, analfabeto, porém, dotado de uma elevada intuição poética. Com os seus versos harmoniza-se bem a modesta sinceridade [...] onde não raro se encontra o perfume de uma boa alma e a prova de um belo talento, que a absoluta falta de instrução não deixou que se desenvolvesse para melhor frutificar." Preponderando, alguns deles que o poeta "chegou a ser notável, pela facilidade com que encontrava a rima e pela prontidão com que vestia e adornava o pensamento."Jornal "A Semana", Ano II, N.º 77, Rio de Janeiro, 19 de junho de 1886. Diziam outros colunistas que "... era admirável a facilidade com que encontrava rimas e a habilidade com que as acomodava em suas singelas composições. A décima foi o gênero de verso com que mais se familiarizou, estava em seu elemento quando lhe davam uma quadrinha para glosar. Se muita gente que conversa com as musas apanhasse o talento de Margarida que figura não faria! Mas quase sempre acontece que quando existe aptidão falta a ilustração, ou melhor ainda - quando Deus dá o fubá, o diabo leva o saco...".Jornal "O Arauto de Minas", São João Del Rei, 26 de junho de 1886. Outros diziam dele que "...andou aí pela vida sem outra preocupação, além de rimar seus versos... [...] ...e analfabeto não tinha outra fortuna que não a sua satisfação constante, o seu bom humor perene. Dele se pode-se dizer bem que viveu viveu, cantou e morreu... [...] ...O poeta Margarida era conhecido por todos esse interior. O que, no fim de contas, é indício de seu mérito, pois não é coisa fácil de ser homem popular."Jornal "Gazeta da Tarde", quarta-feira, 16 de junho de 1886. Outros enalteciam seu caráter, dizendo que ele "...um honrado trabalhador analfabeto, dotado, porém, de uma facilidade enorme de versejar... [...] ...ele espalhou toda a sua alma generosa e grande em versos que, se não lhe deram o pão para ele e para os seus, deram-lhe a popularidade e estima."Jornal "Diário de Notícias", Ano II, N.º 373 - Rio de Janeiro, quarta-feira, 16 de junho de 1886
O poeta Margarida por Camilo A propósito de uma contestação que Manoel Margarida se lhe opôs relativa ao comentário sobre a tradução portuguesa do Hamlet, Camilo em 20 de julho de 1879, assim define Margarida: