Esta é uma cronologia de acontecimentos que resultaram na falência da Rede Manchete, em meados de 1999, e os acontecimentos posteriores.

thumb|Logotipo Oficial da Emissora

Antecedentes

Desde seu início, a Manchete passou por crises que eram provocadas por altos gastos em produção de conteúdo. Porém, em 1992, o canal passou por sua primeira grande crise quando estreou sua nova grade de programação e investiu pesado na telenovela Amazônia, que acabaram por fazer a emissora cair na audiência e sofrer grandes prejuízos em seu faturamento, aliada às dívidas acumuladas nos anos anteriores. Mesmo com resistência de Adolpho Bloch, a rede fechou, em junho, a venda das empresas do grupo com a Indústria Brasileira de Formulários (IBF), presidida pelo empresário Hamilton Lucas de Oliveira. Uma das cláusulas do contrato de venda deu à IBF o direito irretratável de administrar a emissora.

Apesar do compromisso da IBF em assumir as dívidas, até fevereiro de 1993 os salários atrasados ainda não haviam sido pagos e, por conta disso, funcionários da filial paulista da Manchete instauraram uma greve que paralisou as produções da emissora. Em 15 de março, outra greve ocorreu na matriz carioca, que tirou a emissora do ar por algumas horas. Posteriormente, novos boatos de venda começaram a surgir fazendo a cúpula da família Bloch a solicitar de volta o controle da Manchete. Em 23 de abril, a Justiça do Rio de Janeiro decide devolver a Rede Manchete de Rádio e Televisão ao empresário Adolpho Bloch, alegando que a IBF descumpriu cláusulas contratuais. Após a perda da emissora, Hamilton entrou com um processo, que foi conseguido, na Justiça do Estado do Rio de Janeiro, para que a Manchete não poderia ser vendida sem autorização de Hamilton de Oliveira, que se considera o legitimo dono da emissora.

A Rede Manchete só viria a se estabilizar financeiramente em meados de 1995 com o crescimento no faturamento e na audiência graças ao sucesso dos animes, além do conteúdo em formato popular, transmissões esportivas e telenovelas, sobretudo, Tocaia Grande e Xica da Silva, com a última sendo lançada no ano seguinte, chegando a assumir a vice-liderança em alguns capítulos.

Cronologia

1998 A Rede Manchete inicia o ano de 1998 mergulhada em problemas. A novela Mandacaru passou a registrar baixos índices, ficando na casa dos 4 e 5 pontos, além da programação começar a apresentar os primeiros sinais de desgaste com a queda de audiência. Aliada a isso, a situação econômica do Brasil e mundo não era estável desde a crise asiática de outubro de 1997, com as taxas de juros em alta e o afastamento de investidores. As dívidas da emissora aumentavam cada vez mais à medida que não eram pagas.

Março Para tentar recuperar os índices perdidos, a emissora reformulou o Jornal da Manchete, voltando ao seu formato original com três edições diárias: uma às 12h30, incorporando também o formato do extinto Manchete Esportiva, a segunda às 20h45, sendo a principal, e a terceira às 23h45, substituindo o Manchete Verdade. Além disso, passou a adotar o mapa-mundi em seu cenário, além de expor a redação e usar recursos tecnológicos de ponta. As novidades do telejornal estreariam no dia 27 de março.

O canal também anunciou a contratação de Claudete Troiano para apresentar o feminino Mulher de Hoje. Salomão Schvartzman substituía o noticiário noturno Momento Econômico pelo talk show Frente a Frente. O programa Pra Valer estreia nas tardes diárias pelo apresentador Celso Russomanno, desmembrado do programa Mulher de Hoje. Outra novidade foi o polêmico Magdalena Manchete Verdade, apresentado por Magdalena Bonfiglioli, oriunda do SBT, que apresentava casos populares no palco que muitas vezes continham brigas físicas no cenário, em uma clara tentativa de bater de frente com os programas Márcia e Ratinho Livre, que possuíam a mesma fórmula. Aos domingos, o Domingo Milionário era substituído pelo Domingo Total, comandado por Otávio Mesquita, Virgínia Novick e Sérgio Malandro. O programa tinha a parceria com a produtora independente TV Ômega, de propriedade de Amílcare Dallevo e que futuramente seria o proprietário da emissora. Apesar das novidades e do crescimento nos índices, o faturamento do canal seguiu baixo, a tal ponto que as dívidas ultrapassavam os seus patrimônios.

Pela situação financeira, o canal deveria encerrar as suas atividades, mas, o bom relacionamento com o governo federal impediu isso, além do temor de ter funcionários desempregados.

Junho Os salários dos funcionários do mês de maio não foram pagos, fazendo com que a emissora enfrentasse a primeira ameaça de greve. No mesmo mês, a equipe da emissora instalou-se na França para a cobertura do que seria a última Copa do Mundo da Rede Manchete. A transmissão, apesar de simples e elogiada, não atraiu público, fazendo com que o canal ficasse atrás das outras quatro emissoras que realizavam a cobertura do torneio. Em São Paulo, a Manchete registrava zero ponto e 1 ponto na cidade do Rio de Janeiro. Além disso, o canal não pagava as diárias da equipe presente na cobertura e também não possuía uma grade de programação atrativa, sendo cada vez mais sucateada e reduzida a televendas e reprises.

Julho No dia 19 de julho, ia ao ar pela última vez o Domingo Total, já que Otávio Mesquita acabaria acertando o seu retorno ao SBT após quatro meses na Manchete, chegando a comunicar ao vivo a sua saída do canal. No domingo seguinte (26), ia ao ar o Festa do Mallandro, apresentado por Sérgio Mallandro, que chegou a ocupar durante um período o segundo lugar no Ibope, mas ficando no ar por pouco tempo, já que o ator acertaria com a Rede CNT para apresentar um formato similar.

Agosto No dia 3 de agosto, sob grande expectava, além das tensões nos bastidores devido ao atraso no pagamento dos salários e até ao oferecimento de comida estragada para a produção, a Manchete estreava a telenovela Brida, baseada no livro do mesmo nome, de Paulo Coelho, sendo a sua maior aposta em uma possível reviravolta no cenário de crise. O projeto foi dirigido por Walter Avancini e adaptado por Jayme Camargo, sendo investidos cerca de R$ 45 mil em cada um dos 180 capítulos previstos. A Manchete apostava que a novela Brida fosse exportada para o exterior, uma vez que o livro foi publicado em mais de 40 países. No entanto, a novela passou a registrar índices ainda piores que Mandacaru, a sua antecessora, cravando médias na casa dos 2 pontos, ficando abaixo da meta estipulada de 10 pontos. O canal chegou a apelar até para reapresentação dos capítulos às 19h, três horas antes dos inéditos, além da troca de autores e direção, mas sem sucesso, juntamente com as alterações na história, que desgradavam cada vez mais o público e a crítica. A emissora tinha um contrato de risco com os patrocinadores, que estipulava uma meta de pelo menos 5 pontos de audiência, caso contrário, os patrocínios iriam ser cancelados, o que de fato ocorreu.

Setembro A situação da Manchete começava a piorar quando nomes de peso do canal, afetados pelo atraso nos pagamentos, pediram demissão. Entre eles: Jayme Monjardim, que retornaria para a Rede Globo, Raul Gil, que fecharia um novo contrato com a Rede Record para apresentar o seu programa por lá após dois anos, e Márcia Peltier, que assinaria com a Rede Bandeirantes. A emissora também começava a perder importantes afiliadas como a TV Vitória, que informou no mesmo mês que não renovaria com o canal, além de fechar um acordo com a Rede Record, deixando a Manchete sem sinal no Espírito Santo a partir de 1 de outubro. Em 18 de setembro, funcionários da Manchete ameaçam entrar em greve devido ao atraso no pagamento e o parcelamento de salários aos que ganhavam acima de R$ 700,00. e alguns deles acabariam iniciando aquela que seria a mais longa paralisação da história da emissora.

Outubro A Manchete abre o mês com mais três novas saídas além da perda de sinal em Vitória: o diretor geral da programação da rede Fernando Barbosa Lima, o jornalista Ronaldo Rosas e a diretora de eventos jornalísticos especiais Ana Costábile, anunciam que vão deixar a emissora.

Notícias (que seriam confirmadas mais tarde) dão conta que cerca de 600 funcionários seriam demitidos nos dias subsequentes. O objetivo era reduzir em 50% os gastos com pessoal. Todos os programas jornalísticos, com exceção do Jornal da Manchete, seriam extintos e trocados por reprises. A direção do grupo Bloch reage à nova crise e decide demitir quase 700 funcionários da emissora (30% do quadro de TV e 20% da editora) dos que tinha cerca de 1.700 funcionários, corta a produção de quase todos os seus programas jornalísticos, encerra os programas Na Rota do Crime, Magdalena Manchete Verdade, 24 Horas e Mistério. A novela Brida teve a equipe reduzida, assim como o número de capítulos, que acabou encerrando sem um final após os atores aderirem ao movimento grevista. No lugar do "último capítulo", exibido no dia 23 de outubro, foi levado ao ar um desfecho narrado com algumas cenas de capítulos anteriores. A direção decidiu que após o termino da novela, o departamento de dramaturgia seria desativado, sendo colocado no ar a reprise da novela Pantanal. A emissora é oficialmente colocada à venda, apesar do impedimento jurídico da IBF, agora sob o nome Grupo DCI - Editora Jornalística. Com o fim de Brida, é iniciada uma batalha judicial no Tribunal Regional do Trabalho do Rio de Janeiro entre o elenco e a produção contra a Bloch Som e Imagem exigindo o pagamento dos salários atrasados. A produtora devia cerca de R$ 150 mil aos artistas. A petição foi entregue por Carlos Fernando Albuquerque, advogado do SATED-RJ, e exigiam também o fim dos contratos de exclusividade dos artistas com a emissora.

A direção da emissora já havia anunciado que não possuía dinheiro em caixa para realizar o pagamento dos funcionários e tentou negociar um acordo, que evitasse uma nova greve, com a direção de três sindicatos: dos radialistas, dos gráficos e dos jornalistas. Alguns meses antes, a emissora optou pelo parcelamento do pagamento dos salários dos funcionários que ganhavam entre R$ 700,00 e R$ 5.000,00, dando início ao momento grevista. Os funcionários que ganhavam acima de R$ 5.000,00 continuavam sem receber desde setembro. Os vencimentos de agosto foram pagos com atraso e apenas a quem ganhava menos de R$ 5 mil. O pagamento de setembro, que deveria ter sido feito até dia 7 de outubro, tampouco foi depositado. Em 14 de outubro cerca de 1100 funcionários das cinco emissoras próprias da Manchete, iniciaram a maior greve da história da rede, para protestar contra a demissão de 600 funcionários e também os atrasos dos salários em cinco emissoras próprias da Manchete (RJ, MG, PE e CE foram pagas até agosto e a de SP até setembro). Na mesma semana da greve, a DCI se interessa para comprar a Manchete.

Piorando ainda mais a situação, a Manchete também possuía débitos com a recém-privatizada Embratel, que determinou, a partir de 9 de outubro, a suspensão do fornecimento do sinal da emissora, junto com suas afiliadas, além da Rede CNT, na faixa das 23 horas até às 6 horas até que a situação seja regularizada, prejudicando o andamento do canal pela madrugada, que não tinha seus índices aferidos nesse período.

O Grupo Abril é anunciado como um dos primeiros interessados em comprar a Rede Manchete, dado a sua participação nas licitações em 1981 de uma parte das emissoras da Rede Tupi que foram cassadas pelo Governo Federal por problemas financeiros. Roberto Civita anunciou que não possuía interesse na produção de TV. Segundo rumores posteriormente confirmados, a direção da Bloch já teria oferecido a emissora a família Civita. No dia 26 de outubro, surgiram boatos de que Rede Mulher, associada a um banco japonês, estaria interessada em comprar a rede, mas os bancos no Japão se encontravam em dificuldades devido à crise internacional de agosto do mesmo ano. A dívida da Manchete alcançaria mais de R$ 500 milhões.

Novembro