Galinhola-vermelha-de-maurício, frango-d'água-vermelho ou frango-de-água-da-maurícia (nome científico: Aphanapteryx bonasia) é uma espécie extinta de ave da família dos ralídeos que era endêmica de Maurício, uma ilha no Oceano Índico a leste de Madagascar. Única espécie do gênero Aphanapteryx, era pouco maior que uma galinha, possuía pernas compridas e um longo bico curvado. Sua plumagem castanho-avermelhada era composta de penas macias parecidas com pelos; a cauda não ficava visível na ave viva, e as suas curtas asas não lhe permitiam voar. No geral, sua aparência se assemelhava a de um carão ou de um kiwi esbelto.

O primeiro registro da espécie foi um desenho no diário de bordo do navio holandês Gelderland, datado de 1601. Outras figuras e descrições foram feitas durante o século XVII, algumas delas imprecisas porque, após a extinção do dodô, os colonos passaram a chamá-la pelo nome desse famoso pombo terrestre. Na década de 1860, ossos subfósseis da galinhola-vermelha foram encontrados junto a esqueletos de outros animais no pântano Mare aux Songes, em Maurício. A análise deste e de outros resquícios encontrados mais tarde permitiu estabelecer seu parentesco próximo com o Erythromachus leguati, endêmico da ilha vizinha de Rodrigues. As duas espécies são bastante parecidas, e alguns cientistas chegaram a classificá-las num mesmo gênero.

Além da semelhança física, compartilhavam um comportamento curioso: quando uma pessoa lhes mostrava um tecido vermelho, reagiam com agressividade, atacando o pedaço de pano. Os colonos aproveitavam-se dessa atitude, pois uma única ave apanhada emitia um chamado de ajuda que atraía as demais, e todas podiam assim ser abatidas com facilidade. A galinhola-vermelha-de-maurício era uma popular ave de caça e sua carne foi descrita como saborosa, parecida com a de porco. Além do extermínio pelos europeus, os animais introduzidos, como os gatos, predavam seus ovos e filhotes, o que levou ao desaparecimento da espécie. A última menção da ave data de 1693, e já descreve que havia se tornado rara na ilha. Presume-se que a extinção ocorreu por volta do ano 1700.

Taxonomia 180px|miniaturadaimagem|esquerda|Os primeiros resquícios foram encontrados em 1866. A galinhola-vermelha-de-maurício (ou das-maurícias), também chamada em português de frango-d'água-vermelho ou frango-de-água-da-maurícia, foi por muito tempo conhecida apenas por alguns poucos relatos de época, nos quais era referida como se fosse uma "galinha" vermelha, um tipo de tetraz ou mesmo uma espécie de perdiz. A ave também ficou notória graças aos desenhos dos viajantes Pieter van den Broecke e Thomas Herbert feitos entre os anos de 1617 e 1634. Alguns autores acreditavam que essas descrições e imagens representavam diferentes espécies de aves, mas em 1848 o ornitólogo inglês Hugh Strickland considerou que elas retratavam um único animal. Hermann Schlegel pensou que a gravura de Broecke representava uma espécie menor de dodô da ilha Maurício, e a de Herbert mostrava um dodô de Rodrigues, batizando-os, respectivamente, de Didus broecki e Didus herberti em 1854. A pintura de Jacob Hoefnagel de 1610, o desenho do diário de bordo do navio Gelderland de 1601, e a descrição e imagem de Peter Mundy de 1638 vieram à tona mais tarde, mas ainda havia incerteza sobre a identidade das aves representadas.

Na década de 1860, ossos subfósseis do pé e de uma mandíbula inferior foram encontrados junto a restos de outros animais no pântano Mare aux Songes, em Maurício. Esse material foi descrito por Alphonse Milne-Edwards em 1866, que os identificou como pertencentes a um ralídeo. O cientista defendeu também a ideia de que tais ossos pertenciam à mesma espécie de ave das descrições e ilustrações do século XVII. Em 1869, ele combinou o nome do gênero de Aphanapteryx imperialis, que havia sido cunhado no ano anterior por Georg von Frauenfeld para a pintura de Hoefnagel, com o antigo epíteto específico broecki. Mas devido à prioridade nomenclatural, o nome do gênero foi mais tarde associado ao primeiro epíteto da espécie, bonasia, dado por Edmond de Sélys Longchamps em 1848. Formou-se assim o nome científico atual da ave: Aphanapteryx bonasia.

miniaturadaimagem|Ossos subfósseis achados em 1893. Longchamps havia originalmente batizado o gênero de Apterornis, no qual também incluiu o íbis-terrestre-de-reunião e o Porphyrio coerulescens, mas o nome foi usado antes, como Aptornis, para uma ave descrita por Richard Owen em 1844. Aphanapteryx significa "asa-invisível", mas a etimologia de bonasia não está clara. Alguns relatos iniciais referem-se a ralídeos vermelhos por nomes populares dados à perdiz-avelã, Bonasa bonasia, então o termo evidentemente se origina daí. O nome em si, por sua vez, refere-se a bonasus, "touro" em latim; ou bonum e assum, que significa "bom assado". Uma terceira possibilidade é que seja uma forma latinizada da palavra francesa bonasse, que quer dizer "simplório" ou "de boa índole".

Mais fósseis foram posteriormente encontrados por Theodore Sauzier, que havia sido incumbido de explorar os "souvenirs históricos" de Maurício em 1889. Alguns anos depois, em 1903, um esqueleto quase completo foi achado pelo naturalista amador Louis Etienne Thirioux, que também descobriu na ilha importantes vestígios de dodôs.

Evolução À parte de ser um "primo" próximo do Erythromachus leguati, os parentescos da galinhola-vermelha ainda não estão bem definidos. A maioria dos especialistas as classifica em gêneros separados, Aphanapteryx e Erythromachus, mas ao longo da história foram às vezes catalogadas juntos como espécies de Aphanapteryx. Os primeiros a colocá-las num mesmo gênero foram Edward Newton e Albert Günther, em 1879, devido a semelhanças esqueléticas. Com base na localização geográfica e na morfologia dos ossos nasais, tem sido sugerido que elas são parentes próximos das aves dos gêneros Gallirallus, Dryolimnas, Atlantisia e Rallus. Ralídeos chegaram em muitos arquipélagos oceânicos, o que frequentemente levou à especiação e evolução para a perda da capacidade de voar. O fato de a galinhola-vermelha ter perdido muito da estrutura de suas penas indica que ela ficou isolada por um longo tempo. Estes ralídeos podem ter origem asiática, tal como muitas outras aves das ilhas Mascarenhas.

Descrição miniaturadaimagem|Reconstrução da aparência da ave (1869). A análise dos ossos subfósseis, dos desenhos e também das descrições permitiu aos cientistas concluir que a galinhola-vermelha era uma ave incapaz de voar e cujo tamanho era um pouco maior que o de uma galinha. Espécimes subfósseis variam em tamanho, o que pode indicar dimorfismo sexual, como é comum entre os ralídeos. O seu comprimento exato é desconhecido, mas a pelve tinha 6,0 cm de comprimento; o fêmur, 6,9 a 7,1 cm; a tíbia, 9,8 a 11,5 cm; o tarsometatarso, 7,9 cm; e o úmero media entre 6,0 e 6,6 cm. Toda a plumagem era castanho-avermelhada e as penas eram macias, parecidas com pelos; a cauda não era visível na ave viva e as suas curtas asas pareciam quase desaparecer em meio a plumagem. A galinhola tinha um bico marrom, longo e ligeiramente curvado, e algumas ilustrações sugerem que possuía uma crista na nuca. Sua aparência talvez se assemelhasse um pouco à de um kiwi esbelto. A ave também foi comparada ao carão, tanto na aparência como no comportamento.

O esterno e úmero eram pequenos, indicando que a espécie havia perdido a capacidade de voar. Suas pernas eram longas e finas para uma ave de seu porte, mas a pelve era compacta e robusta. Diferia do Erythromachus leguati de Rodrigues, seu parente mais próximo, por ter um úmero proporcionalmente mais curto, um crânio mais longo e estreito, e narinas mais curtas e elevadas. Suas plumagens eram consideravelmente diferentes, conforme consta nas descrições de época. A galinhola-vermelha era também maior, com asas um pouco menores, mas suas pernas eram proporcionalmente semelhantes, bem como a pelve e o sacro.

Descrições contemporâneas miniaturadaimagem|Esboços de um indivíduo caçado (1601). O viajante inglês Peter Mundy visitou Maurício em 1638 e descreveu a galinhola-vermelha da seguinte maneira:

Uma galinha de Maurício, uma ave tão grande quanto as nossas galinhas inglesas, de cor amarelo trigo, das quais nós só pegamos uma. Ela tem um bico curvo, longo e pontiagudo. É toda emplumada, mas suas asas são tão frágeis e pequenas que com elas não podem elevar-se do chão. Há uma maneira agradável de pegá-las usando uma capa vermelha, mas a nossa foi pega com uma vara. Elas têm uma carne muito boa, e também os pés rachados, de modo que não podem nem voar nem nadar.Tradução livre de: "A Mauritius henne, a Fowle as bigge as our English hennes, of a yellowish Wheaten Colour, of which we only got one. It hath a long, Crooked sharpe pointed bill. Feathered all over, butte on their wings they are soe Few and smalle that they cannot with them raise themselves From the ground. There is a pretty way of taking them with a red cap, but this of ours was taken with a stick. They bee very good Meat, and are also Cloven footed, soe that they can Neyther Fly nor Swymme."

A coloração amarelada, em vez da vermelha, mencionada em outros relatos, tem sido usada como argumento de que a ave descrita é uma espécie distinta, a Kuina mundyi. Porém, acredita-se que esses indivíduos de cor diferente sejam juvenis, e não adultos. Outro viajante inglês, John Marshall, descreveu a ave em 1668 da seguinte forma:

Aqui há também uma grande abundância de dodôs ou galinhas vermelhas que são um pouco maiores que as nossas galinhas inglesas, têm bicos longos e pouco ou nenhum rabo. Suas penas são como penugem, e suas asas são tão pequenas que não são capazes de suportar seus corpos; mas elas têm pernas longas e correm muito rápido, tanto que um homem não consegue pegá-las, pois logo se escondem entre as árvores. Têm uma boa carne quando torradas, de sabor parecido com a de porco, e sua pele, como a pele de porco, fica dura quando tostada.Tradução livre de: "Here are also great plenty of Dodos or red hens which are larger a little than our English henns, have long beakes and no, or very little Tayles. Their fethers are like down, and their wings so little that it is not able to support their bodies; but they have long leggs and will runn very fast, and that a man shall not catch them, they will turn so about in the trees. They are good meate when roasted, tasting something like a pig, and their skin like pig skin when roosted, being hard."

Representações contemporâneas miniaturadaimagem|Edwards' Dodo (1626), de Roelant Savery, talvez mostrando uma galinhola-vermelha-de-maurício às costas do Dodô. miniaturadaimagem|Pintura de Jacopo Bassano (1570), há uma provável galinhola-vermelha no canto direito. Muito do que se sabe sobre a aparência da galinhola-vermelha-de-maurício vem de uma pintura atribuída a Jacob Hoefnagel, que utilizou como modelo uma ave da menagerie do imperador Rodolfo II por volta de 1610. É a única imagem colorida da espécie, mostrando uma plumagem marrom avermelhada, mas não se sabe se foi baseada num exemplar vivo ou empalhado. A ave provavelmente foi transportada viva à Europa, já que é improvável que taxidermistas estivessem a bordo dos navios que visitaram Maurício, e substâncias químicas ainda não eram usadas para preservar espécimes biológicos mortos. A maioria dos espécimes tropicais eram preservados como cabeças e pés secos. Ela provavelmente viveu no jardim zoológico do imperador por um certo período junto com os outros animais pintados para a mesma obra. A pintura foi descoberta na coleção do imperador e publicada em 1868 por Georg von Frauenfeld, juntamente com a pintura de um dodô da mesma coleção e artista. Acredita-se que este seja o único espécime de galinhola-vermelha-de-maurício que chegou à Europa.