Stanley Cohen (Joanesburgo, 23 de Fevereiro de 1942 - Londres, 7 de janeiro de 2013) foi um sociólogo e escritor consagrado no campo da criminologia crítica. É a ele creditado o termo “pânico moral”, usado no estudo Folk Devils and Moral Panics, publicado em 1972, no qual analisa os meios de comunicação em massas do Reino Unido e a reação social ao fenômeno “mods e rockers” na década de 1960. Sua obra engloba escritos sobre a teoria criminológica, as prisões, o controle social, a política de justiça criminal, delinquência juvenil, mídia de massa, crime político e violações dos direitos humanos.http://blogs.lse.ac.uk/condolences/2013/01/08/stancohen/

Foi membro fundador do Centro de Estudos de Direitos Humanos da London School of Economics (LSE), bem como o mais proeminente membro do Centro Mannheim de Criminologia e Justiça Criminal, da mesma instituição.

Vida

Cohen nasceu em 23 de fevereiro de 1942 na cidade de Joanesburgo, África do Sul, onde tomou contato inicial com movimentos de juventude sionistas - o que se refletiria mais tarde na opção pela ida à Israel. Graduou-se em sociologia e serviço social na Universidade de Witwatersand, mudou-se para Londres em 1963 e lá desempenhou a função de assistente social até completar seu doutorado na London School of Economics. Em 1967 passou a lecionar na Universidade de Durham e, em 1972, tornou-se professor de sociologia na Universidade de Essex.http://www.theguardian.com/education/2013/jan/23/stanley-cohen

Na década de 1980 mudou-se para Israel, onde tornou-se diretor do Instituto de Criminologia da Universidade Hebraica de Jerusalém, destacando-se pela sua atuação em organizações de direitos humanos que lidam com o conflito israelo-palestino.

Retornou à Inglaterra, onde foi nomeado Professor Martin White de Sociologia na LSE, em 1996, e eleito membro da Academia Britânica em 1998. Em 2009 foi a primeira pessoa a receber o Prêmio de Mérito Excepcional da Sociedade Britânica de Criminologia. Faleceu em 07 de janeiro de 2013, vítima de Mal de Parkinson, doença degenerativa com a qual foi diagnosticado em 1996.

Pontos de vista sobre a criminologia crítica

As visões de Cohen acerca da criminologia crítica são evidenciadas em uma reunião de diversos artigos, produzidos ao longo das duas décadas e publicados no livro “Against Criminology”Cohen, S. (1988) Against Criminology, New Brunswick, NJ: Transaction Books Após uma longa reflexão sobre a criminologia britânica e a emergência da criminologia crítica, impulsionada pelos seus próprios estudos, Cohen traz a tona uma crítica a todo esse movimento. Ampliando seu campo de estudo, outrora direcionado ao cenário britânico, o sociólogo passa a analisar, também, as instituições e os fracassos da criminologia americana. Busca, nessa reunião de ensaios, construir uma perspectiva transatlântica para a “sociologia do desvio” em que houvesse metodologias compartilhadas, ortodoxias comuns e desafios vigentes para a criminologia frustrantemente distante.

A criminologia Na primeira parte da obra, introdutória, o sociólogo apresenta ao leitor, em síntese, a história da criminologia, retomando desde a criminologia clássica às influências do positivismo nesta área, a qual passa a ser veementemente contestada quando da mudança verificada a partir da década de sessenta, notadamente através da edificação de três grandes correntes.

A primeira delas, a teoria da rotulação (labeling approach), seria a crítica liberal ao próprio liberalismo, a qual, segundo Cohen, coaduna-se mais com os valores da classe média do que com a natureza científica da criminologia. Além desta, Cohen destaca a criminologia “marxista”, cujas concepções só seriam praticáveis ante a uma mudança da ordem social vigente, visto que inconciliáveis com a criminologia dita burguesa. Por fim, há ainda o realismo, o qual se voltava às questões elementares como o que seria justiça e como defender a sociedade.

Essa profusão de teorias e resultados culmina, consoante aduz o sociólogo, em um presente “polêmico” e uma consequente disputa intelectual em relação a análise do crime e seu controle, questão majoritária para a criminologia.

A criminologia crítica

Após a apresentação do histórico, Cohen passa a definir a própria criminologia crítica e a sua oposição à criminologia convencional. Assim como já demonstrado em outras obras, o crime é um produto social da rotulação feita pelos grupos de poder. É mais por interesses econômicos-políticos do que pela efetiva pacificação social que se dá o processo de criminalização, fazendo com que o direito penal reflita mais um interesse ideológico e classista do que a concreta busca pela justiça social.

A reviravolta do discurso

O terceiro capítulo, The Twist of the Discourse, constitui a essência do livro. Analisando a evolução da criminologia crítica, Cohen aduz pela necessidade de aderir ao pensamento com cautela e até mesmo contendo-o de certa forma. Uma vez que, desde o princípio, Cohen rejeita a criminologia convencional, consegue produzir a crítica à criminologia crítica sem retomar ao debate que precedeu a sua própria edificação. Destarte, traz contundentes questões à tona, visando não exatamente a reformulação da criminologia crítica, mas sim a retomada de suas orientações básicas muitas vezes esquecidas – o que resulta na limitação da criminologia em transpor seus preceitos teóricos à realidade concreta.

Enquanto seus primeiros ensaios, bem como suas obras iniciais, mostram a grande influência de Cohen na estruturação da criminologia crítica, seus estudos datados mais próximos à publicação de Against Criminology mostram a oposição feita por Cohen à teoria cujo desenvolvimento foi por ele impulsionado. Ele vislumbra uma tensão entre normatização e criminalização dentro da criminologia e da política de esquerda. A dissonância entre discurso e prática, a assincronia entre ações e palavras, apontada já em Visions of social control, é enfatizada nos ensaios reunidos na presente obra.

Cohen examina a tensão entre a naturalística da criminologia crítica, a apreciação etnográfica dos desviados e as subculturas desviantes e sua dura economia política para o crime e o desvio. Ele passa a vincular essa tensão a diferenças políticas e teóricas (e.g., a teoria liberal da rotulação e a criminologia marxista do conflito), para mostrar a evolução e os desafios imperantes. Ainda, ao longo dos artigos reunidos nessa seção do livro, Cohen busca edificar a criminologia para além de uma crítica ao direito penal, pautando efetivas políticas públicas sem, contudo, aproximá-la do gerencialismo, movimento que considera perigoso porquanto banaliza a criminologia ao incurtir-lhe uma postura imediatista e reducionista, pautando-a tão somente por uma relação de custo-benefício, desinteressante sob o ponto de vista da “sociologia dos desvios”, uma vez que deixa de compreender o processo de criminalização para tão somente geri-lo de maneira eficiente.

Ante as profundas análises efetuadas ao longo dos ensaios, Cohen concluiu que a criminologia não deve se pautar nas preocupações governamentais, mas sim na análise profunda dos crimes e dos desvios, confrontando a própria natureza política da definição desses elementos, bem como as estruturas de poder que deles derivam. Investigar o poder, a política e o controle requer perceber o crime e o desvio como processos de construção social, como expressões de uma economia política em desenvolvimento e das interações entre os agentes estatais e os econômicos, os empreendedores da moral, a mídia, os desviados, as subculturas, as vítimas e os diversos outros atores sociais – sendo essas as noções básicas a serem retomadas.

Obras e conceitos

A obra de Cohen é fortemente influenciada pelo trabalho de Leslie Wilkins sobre comportamento divergente, e de Howard Becker, sobre o labeling approach.

Como explica em sua obra Folk Devils and Moral Panics,Cohen, S. (1972) Folk Devils and Moral Panics, London: MacGibbon and Kee, pg. 4 o autor faz parte de uma reorientação do estudo do crime, da delinquência, do consumo de drogas e de outras formas de comportamento problemático, algo que ele chama de “revolução cética’. Anteriormente, as soluções e conceitos eram dados como autoritários, padrões, aceitos e inquestionáveis. A nova tradição seria cética no sentido em que quando vê termos como “problemático”, se pergunta “para quem?" e "por quê?”. Conceitos como “problemático” e “desviante” deixam de ser aceitos como dados e passam a ser criticados como rótulos (labels) colocados em indivíduos pela sociedade, não sendo intrínsecos a um ato ou a uma qualidade desse indivíduo. Em suas palavras, “(...) grupos sociais produzem desvios a partir da criação de regras cuja infração caracteriza o desvio e aplicando essas regras a pessoas em particular, rotulando-as como “forasteiros” (outsiders). Desse ponto de vista, o desvio não é qualidade do ato ou da pessoa que o pratica, mas sim consequência da aplicação por outros de regras e sanções a um “agressor”. O desviante é aquele em que o rótulo foi aplicado com sucesso; comportamento desviante é o comportamento que o povo assim rotula”“social groups creates deviance by making the rules whose infraction constitutes deviance and applying those rules to particular persons and labeling them as outsiders. From this point of view, deviance is not a quality of the act the person commits, but rather a consequence of the application by others of rules and sanctions to a ‘offender’

Principais linhas teóricas pânico moral controle social manutenção da identidade negação

Folk Devils and Moral Panics

Foi a primeira grande obra do autor e é uma das obras mais influentes da criminologia britânica. Trabalhando com a obra de Leslie Wilkins “Social Deviance” ("Desvio Social") e com a emergente perspectiva da teoria da rotulação que que surgia nos EUA através das obras de Howard Becker, principalmente, Cohen teoriza que a mídia atua distorcendo o contexto daqueles que a sociedade considera fora de seus padrões criando a imagem de “demônios populares”, o que resulta em uma reação desproporcional e contraprodutiva dessa mesma sociedade, que chama de pânico moral.Fifty Key Thinkers in Criminology, edited by Keith Hayward, Shadd Maruna and Jayne Mooney, ed. Routledge, 2010, pg. 243

Visions of Social Control Uma de suas obras de maior reconhecimento "Visions of Social Control", resulta de uma análise linear, traçando as mudanças recentes ocorridas no trato ao crime e à delinquência como um todo. O autor indica uma alternância nas bases do sistema no qual recentemente se transforma a maneira de predominância do cárcere e dos agentes ligados ao sistema punitivo, movimento denominado de desestruturação. Com aporte histórico e cruzamentos teóricos entre Michel Foucault, George Orwell, Franz Kafka, David Rothman e outros, Cohen lança predições quanto ao futuro do controle da criminalidade e elenca elementos de transformação ao sistema.Short, J. F.. (1986). [Review of Visions of Social Control: Crime, Punishment and Classification.].American Journal of Sociology, 92(1), 240–242. Retrieved from http://www.jstor.org/stable/2779748Myers, M. A.. (1986). Social Control Words, Social Control Deeds [Review of Visions of Social Control: Crime, Punishment and Classification.]. Contemporary Sociology, 15(5), 702–704. Retrieved from http://www.jstor.org/stable/2071019

Ideias sobre escape, rotina e manutenção da identidade