Sheldon Glueck (1896 - 1980) e Eleanor Touroff Glueck (1898 – 1972), ambos criminólogos e pesquisadores de Harvard Law School, casaram-se e se dedicaram à realização de pesquisas criminológicas, destacando a delinquência juvenil e a criminalidade adulta. Sua fama se deve, principalmente, ao modelo de “tabelas de previsão social” desenvolvido com o intuito de prever a probabilidade de se ocorrer, nos jovens, o comportamento delinquente. Biografia Sheldon Glueck Sheldon Glueck, nasceu em 15 de agosto de 1896. Apesar de ter vivido a maior parte de sua vida nos Estados Unidos, é natural de Varsóvia, Polônia. Sua mudança ocorreu quando seu pai, Charles Glueck, dono de uma loja de aço, se viu à beira da falência e, como alternativa, mudou-se com sua esposa, Anna Steinhardt (mãe de Sheldon Glueck), para Milwaukee, Wisconsin em 1903.
Sua vida acadêmica começou na Universidade de Georgetown. Estudante de Direito, trabalhava durante o período da manhã para o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Durante a Primeira Guerra Mundial teve que parar seus estudos por dois anos para servir na “Rainbow Division” da Força Expedicionária dos Aliados na França. Nessa oportunidade, serviu como tradutor no posto de sargento. Ao voltar da Guerra, foi transferido para a George Washington University, formando-se em 1920. Foi neste mesmo ano que Sheldon Glueck tornou-se também mestre em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Nacional e naturalizou-se norte americano.
A princípio tinha a ideia de seguir praticando direito, porém teve uma mudança em seus planos ao conhecer Eleanor Touroff, com quem viria a se casar em abril de 1922. Ela estudava com o irmão de Sheldon, Berbard Glueck, um conhecido psiquiatra criminal que sempre influenciou a carreira do irmão. Após conhecer Eleanor, ambos seguiram para Boston, uma vez que ela conseguira um emprego de assistente social. Da união deles, nasceu Anitra Joyce em 1924, um poeta que faleceu precocemente em 1956.
Surpreendentemente, Sheldon não foi classificado para entrar no programa de doutorado de direito da Universidade de Harvard, matriculando-se então no Departamento de Ética Social, terminando em 1924. No ano seguinte, sua tese foi publicada com o título Mental Disorder and the Criminal Law, um estudo que se baseava na Psiquiatria, no Direito e na Sociologia. Foi neste momento que Glueck iniciou sua vida acadêmica em Harvard, permanecendo ali o resto de sua vida. Em 1925 foi instrutor do Departamento de Ética Social até se transferir para a Escola de Direito como professor assistente em 1929. Três anos depois, em 1932 tornou-se professor titular, atingindo o ápice em 1963 ao se tornar professor emérito.
Curioso perceber que o autor possuía outros interesses além da delinquência juvenil. Glueck também tinha muita afeição ao tema dos crimes de guerra. Durante e após a Segunda Guerra, o autor escreveu sobre o julgamento futuro e a punição dos criminosos de guerra. Sobre esse tema, dois de seus livros merecem destaque: “Guerra Criminosos: Seu julgamento e punição” de 1944 e “O Julgamento de Nuremberg e Guerra Agressivo” de 1946. A primeira dessas obras destacadas pode ser considerada a origem do Tribunal de Nuremberg e do futuro Tribunal Penal Internacional. Com essa mesma perspectiva, o criminólogo espanhol Mariano Ruiz Funes, natural de Múrcia, escreveu Criminologia de Guerra. Sem dúvida, é inegável que o pensamento que estes autores apresentavam foi co-responsável pelo genocídio julgado nesses tribunais. Além disso, Sheldon foi membro da Comissão de Criminosos de Guerra da Liga das nações e atuou como consultor de Justiça de Robert H. Jackson, Conselheiro Americano Chefe nos julgamentos de Nuremberg.
Outro ponto curioso era o fato de Sheldon Glueck ser membro da Academia Americana de Artes e Ciências e da Academia Internacional de Direito e Ciência. Foi vice-presidente da American Society of Criminology. No ano de 1961 recebeu o prêmio Isaac Ray da Associação Psiquiátrica Americana.
Faleceu nos Estados Unidos, onde viveu grande parte de sua vida, em Cambridge, Massachusetts, em 10 de março de 1980.
Eleanor Touroff Glueck Eleanor Glueck nasceu em 12 de abril de 1898 no Brooklyn, Nova Iorque, Estados Unidos. Apesar de americana, era filha única do russo Bernard Leo e da polonesa Anna Wodzislawska. Em 1916 formou-se na Hunter College High School e quatro anos depois terminou a Bernard College. Depois disso, foi para a Escola de Trabalho Social de Nova Iorque, onde teve a oportunidade de conhecer e estudar com Bernard Glueck, irmão de Sheldon, psicólogo e psiquiatra da penitenciária de Sing Sing em Ossining, Nova Iorque, especializado em trabalho social e criminologia. Foi Bernard que conseguiu para ela o cargo de chefe assistente social no Centro Comunitário de Dorchester (Boston) e apresentou seu irmão, o já citado Sheldon Eleanor, com quem Eleanor viria a se casar em 16 de abril de 1922.
Foi nessa mesma ocasião que ela iniciou seus estudos de pós-graduação na Graduate School of Education of Harvard. Terminou seu mestrado em 1923 e o doutorado dois anos depois. No período de 1929 a 1953 foi assistente de pesquisa e entre 1953 e 1972 foi pesquisadora associada do Projeto de Pesquisa da Harvard Law School sobre as causas, tratamentos e prevenção da delinquência juvenil. Nesse período, a começar em 1966 e até seu falecimento, foi co-diretora do projeto com seu marido.
Em 1947, a United Prison Association of Massachusetts deu a ela o prêmio Parsons Memorial Award. Curioso ressaltar que apesar de nunca ter recebido a nomeação de titular de Harvard, tanto ela quanto o marido foram premiados como Doutores da Ciência (Sc.D.) honorários da faculdade em 1958. Dois anos depois foi eleita membro da Academia Americana de Artes e Ciências. Em 1969 recebeu o Distinguihed Alumni da Barnard College. Nessa ocasião, tornou-se membro da Sociedade Internacional de Criminologistas e da Associação Americana para Avanço da Ciência.
Faleceu de maneira trágica em 25 de setembro de 1972, vítima de afogamento na banheira de sua casa em Cambridge, nos Estados Unidos.
Pensamento e pesquisa criminológica Como casal, dedicaram suas vidas à realização de pesquisas. Foi na Harvard Law School que lhes foi dada a oportunidade de trabalharem juntos, onde iniciaram e desenvolveram seus estudos e experiências sobre a criminologia, trabalhos que duraram aproximadamente 50 anos, principalmente do que tange à delinquência juvenil e à criminalidade adulta.
Sheldon e Eleanor inovaram ao utilizar estudos de acompanhamento como parte do tratamento médico que era fornecido aos criminosos condenados a cumprir penas em reformatórios. O intuito desses estudos era analisar a etiologia, os padrões, o desenvolvimento e a evolução das “carreiras criminosas”. O método consistia em colher de forma minuciosa os dados, observando um grupo acompanhado frequentemente e de forma periódica, para que fossem testados os resultados obtidos. Devido a seus estudos complexos e detalhados escreveram em torno de doze livros e trinta mil itens de trabalho, dentre artigo e afins.
Na retrospectiva do casal, impossível não citar a obra 500 Criminal Careers de 1930, um estudo que tratava sobre a reincidência de mais de quinhentos ex-internos do Reformatório de Massachusetts entre os anos de 1911 e 1922. Estes eram acompanhados a partir do quinto ano após a conclusão da liberdade condicional. Nessa mesma linha, lançaram mais dois livros: Criminal Carrer em 1937 e Criminal Carrers in Retrospect em 1943. Foi em 1934 que lançaram Five Hundred Delinquent Women, um estudo realizado com as mulheres presas no Reformatório de Mulheres em Framingham, Massachusetts. Ainda nesse ano lançaram outra obra: One Thousand Juvenile Delinquents, uma avaliação do Tribunal de Menores de Boston para a Fundação Baker Guidance Center. Contudo, tal estudo não fora finalizado, prosseguindo com Juvenile Delinquents Grown Up, de 1940, que promoveu a aproximação entre o já citado Tribunal de Menores e agências sociais. Tal estudo foi de grande importância, haja vista que revelou a persistência de elevados níveis da atividade criminal.
Apesar de todas as obras e feitos já destacados, foi em 1959 que o casal lançou sua obra mais polêmica e conhecida, Predecting Delinquency and Crime, garantindo ao casal Glueck um espaço importante no cenário da criminologia. Tal estudo foi iniciado quase vinte anos antes, em 1940, sendo analisados quinhentos delinquentes e quinhentos não-delinquentes de locais desfavorecidos de Boston. Todos esses meninos foram reavaliados depois, ao completar dezessete, vinte e cinco e trinta e um anos. Com ajuda de uma equipe de antropólogos, físicos, psicólogos, estatísticos, investigadores sociais e psiquiatras, foram analisados os seguintes parâmetros: etnia, inteligência e residência. Além dos garotos, também foram entrevistados colegas, professores e familiares. Os resultados foram surpreendentes, apontando fortemente para o papel crucial da família na formação ou prevenção da delinquência juvenil. Pontos como coesão familiar, afeto dos pais, supervisão e disciplina consistente eram a chave dessa questão. Foi deste estudo que resultaram as “Tabelas de Previsão Social”, nas quais o casal Glueck deu previsões da probabilidade de evidenciar a delinquência juvenil ainda quando os jovens tivessem seis anos de idade.
Outro ponto o qual merece destaque é o de que os Glueck foram os primeiros criminólogos a realizar estudos de jovens delinquentes crônicos. Foram eles também um dos pioneiros a examinar os efeitos da psicopatia entre os mais sérios delinquentes. Foi através de seus estudos que se mostrou que a psicopatia é vinte vezes mais comum entre adolescentes infratores.
Contexto e Influências O casal foi influenciado em suas investigações por alguns pensadores e pelo contexto social. Na época, a pesquisa com viés sociológico que colocava a criminalidade como um fenômeno social (determinista), entrava em conflito com a pesquisa sociológica de raiz positivista e psicológica, que foca nos problemas e causas individuais.
Os estudos do Casal Glueck, dessa forma, encontram-se na linha da Criminologia Etiológica individual. “Buscava-se detectar os criminosos e os homens com tendências criminosas por algum dado diferencial dos supostos normais na constituição do próprio corpo ou cérebro, de acordo com as idéias originárias de Lombroso. O positivismo de meados do século XX insistia em “testar” estas diferenças, com a melhora, em relação ao italiano, não apenas nas técnicas de medição dos prisioneiros, mas também mediante a elaboração de uma linguagem um tanto mais complicada que permitisse esconder o racismo grosseiro do século XIX” (ANITUA, 2008, p. 525).
Crise e Legado A crise dos Glueck encontra-se justamente em duas polêmicas nas quais suas ideias e seu método foram colocados em cheque. As noções positivistas clássicas e legitimadoras da seleção operada pelo sistema penal conflitaram diretamente com o que estabeleciam as ideias da nova onda sociológica, principalmente do que apresentava Sutherland. Edwin Sutherland foi um sociólogo norte-americano e um dos criminalistas mais influentes do século XX. Sua grande teoria foi a da associação diferencial, que ressalta que os padrões habituais de criminalidade surgiam a partir da associação com aqueles que cometem crimes. Ele acreditava que, de alguma maneira, o conflito e a desorganização social seriam as causas subjacentes ao crime porque determinavam os padrões de pessoas associadas.