A Ponte de Vouga SOUSA BAPTISTA, 1947.Anúncio 46/2025, Património Cultural I.P., publ. Diário da República: 2ª Série, nº 36, 2025/02/20."Aluimento da Ponte de Vouga", Soberania do Povo, 2011/11/13. "«A ponte não morreu de morte súbita, morreu de doença prolongada»: o «jogo do empurra» para reabilitar ponte de Vouga arrasta-se há 12 anos", Expresso, 2024/01/22.Carlos Pereira Marques, «Ainda a ponte de Vouga: Reabilitação versus Salvação», Soberania do Povo, 2024/03/13.Luís Seabra Lopes, «Ponte de Vouga: Causas – Problema – Solução», Soberania do Povo, 2023/11/29."Ponte de Vouga em Águeda em vias de classificação", LUSA, 2025/02/20."Ponte de Vouga em Vias de Classificação de Âmbito Nacional", Soberania do Povo, 2025/02/26., também conhecida como Ponte Velha de Vouga , Ponte do Vouga, Ponte Velha do Vouga, e Ponte de D. João V, localiza-se sobre o rio Vouga entre as freguesias de Lamas do Vouga e Macinhata do Vouga, no município de Águeda, Distrito de Aveiro, em Portugal, cerca de 200 m para montante da nova ponte da EN1/IC2.
Junto a esta ponte monumental se formou e desenvolveu o histórico burgo e vila de Vouga, sede de concelho até meados do século XIX.
A ponte sofreu a derrocada do pilar central em 2011, situação que se mantém na atualidade.
História
Situada sobre o rio Vouga, esta ponte foi construída no século XIII. As mais antigas referências actualmente conhecidas são do 2º quartel desse século: dois legados testamentários em favor da ponte, um não posterior a 1239 e outro datado de 1245 Seabra Lopes, 2021; Seabra Lopes, 2022.. Tinha já nessa altura pelo menos 10 arcos, dos quais ainda existem e estão visíveis os pilares e as abóbodas até 2 m acima do plano da imposta. Pensa-se que teria, no total, 12 arcos, com um comprimento a aproximar-se dos 160 m Seabra Lopes, 2022.. A ponte fazia parte da chamada estrada coimbrã, via que ligava a cidade do Porto e o noroeste de Portugal à cidade de Coimbra, e que seguia de perto a velha estrada romana. Seabra Lopes, 1994; Seabra Lopes, 2000.
No sopé do monte onde existia o castelo ou civitas do Marnel, e bem próximo da ponte, formou-se o burgo de Vouga, que passou a funcionar como sede do mais extenso e antigo município do Baixo Vouga, conhecido como territorio Vauga ou terra de Vouga. Seabra Lopes, 1996. A importância da ponte para esta região levou a que o seu brasão tivesse como figura central precisamente a representação de uma ponte. Seabra Lopes, 2000; Ferreira, 2008; Seabra Lopes, 2018.
thumb|upright=1|left|Selo do município de Vouga, sendo de notar uma representação da ponte no centro do selo (exemplar datado de 1317)
As cheias e o progressivo assoreamento do rio foram obrigando a sucessivas reconstruções da ponte, por vezes com alteamento e/ou alongamento do tabuleiro. A história destas intervenções tem vindo a ser clarificada em estudos recentes. Sabe-se que sofreu uma intervenção em meados do século XVI Sousa Baptista, 1947; Sousa Baptista, 1958; Nogueira Gonçalves, 1959. Não tem fundamento a ideia, muito difundida, de que a obra da ponte tenha sido ordenada em 1529., reinado de Dom João III, mas não se sabe em que consistiu. Em 1594, um italiano, Giovanni Battista Confalonieri, secretário do patriarca de Jerusalém, passando por ali em peregrinação a Santiago, realçou que a ponte de Vouga era tão longa como a ponte de Sant’Angelo, em Roma (uma das famosas pontes romanas sobre o Tibre).
Em 1708, a ponte já estava tão assoreada que, em tempo de cheias, passava-se o rio em barca. Por volta de 1713, a mando de Dom João V, foi construída uma nova ponte em cima dos pilares e arranques de arcos da ponte medieval Sousa Baptista, 1947; Sousa Baptista, 1958; Seabra Lopes, 2021b.. A nova ponte ficou com 15 arcos Seabra Lopes, 2024..
Por razões ainda desconhecidas, a ponte arruinou-se em finais de 1761, entrando de imediato em funcionamento duas barcas, uma entre as vilas de Vouga e Serém, e outra entre os lugares de Lamas e Vila Verde Seabra Lopes, 2024, p. 132.. Em 1773, sabe-se que os primeiros dois arcos do lado sul, que seriam arcos pequenos, estavam arruinados. Em 1773-1776, a travessia continuava a fazer-se em barca. Em 1776, graças à instalação de passadiços de madeira, a ponte entrou novamente em funcionamento. Finalmente, em 1791, Dona Maria I mandou reconstruir a ponte. Os dois arcos arruinados deram então lugar a três novos arcos, dois dos quais são os maiores da ponte actual. A ponte ficou então com 16 arcos e cerca de 225 m .
thumb|upright=3.5|left|A ponte de Vouga, vista de sudeste, no início do Século XX (reprodução de IIllustração Portuguesa, Série II, nº 150, 1909)
thumb|upright=1.25|left|Marcas de identidade dos pedreiros medievais na ponte de Vouga
recorrendo a estruturas de betão armado. Em 1944-1945, o acesso norte foi elevado e o 16º arco terá ficado soterrado.
Apesar das intervenções do século XVIII, subsiste uma boa parte das estruturas da ponte medieval. Além disso, muitos silhares e aduelas da ponte medieval, com as características marcas dos canteiros medievais, estão reutilizados na ponte construída por Dom João V Seabra Lopes, 2021.. A ponte é actualmente o principal repositório de marcas dos canteiros medievais em todo o distrito de Aveiro.
Com o desaparecimento de outras pontes históricas monumentais tão importantes como a ponte romana de Sacavém, sobre o rio Trancão, e a ponte de Coimbra, sobre o Mondego, a ponte de Vouga é hoje a principal ponte histórica existente no traçado da velha «estrada principal do reino». É também a principal ponte histórica na bacia do Vouga e no distrito de Aveiro.
Ao contrário do que por vezes aparece escrito, esta ponte ainda não foi objecto de classificação. A ponte de Vouga está em vias de classificação desde Fevereiro de 2025.
Nome
thumb|upright=0.75|right|Capa do livro de contas do legado da ponte de Vouga referente ao período de 1780 a 1818 (Arq. C.M. Águeda, fundo do extinto concelho de Vouga)
Este monumento é hoje frequentemente referido como "ponte do Vouga" ou "ponte velha do Vouga". Em trabalhos de investigação especificamente dedicados ao monumento, quer antigos Sousa Baptista, 1947, quer recentes Seabra Lopes, 2018; Seabra Lopes, 2021a; Seabra Lopes, 2022., tem prevalecido a designação historicamente documentada desde o século XIII, a saber, "ponte de Vouga". É essa também a designação oficialmente estabelecida .
De facto, a ponte era identificada pela vila junto à qual estava localizada (Vouga) e não pelo rio homónimo, no qual aliás existiram/existem outras pontes desde longa data. Daí dizer-se "de Vouga" (vila) e não "do Vouga" (rio). Já no século XVI, falando do povoamento romano na sua famosa Chorographia, Gaspar Barreiros frisava: «o lugar de Vacca q nos auemos sera que ora chamã Ponte de Vouga, .s. Põte de Vacca, nam por causa do rio senam por causa do nome do lugar».Barreiros, 1561, fl. 50v.. Dois séculos mais tarde, em 1758, na memória paroquial de São Pedro de Segadães, encontra-se uma referência semelhante: "ponte de pedra de cantaria junto a villa de Vouga, da qual toma o nome" ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 34, nº 99.. Na documentação do antigo concelho de Vouga, a designação "ponte de Vouga" era também usada de forma sistemática.
Cronologia de um abandono Na sequência da construção da nova ponte (EN1/IC2) a jusante da ponte antiga, esta ficou sem manutenção e o seu estado deteriorou-se rapidamente:
1984 - Inauguração da ponte nova. 1996 - Ponte velha de Vouga passou para a responsabilidade da Câmara Municipal de Águeda.
2001 - Queda da ponte de Entre-os-Rios assusta a Câmara Municipal de Águeda, que decide ordenar uma inspecção à ponte velha de Vouga.
2002, 8 de Março - Segundo inspecção por empresa credenciada, o estado de conservação dos elementos da ponte era variado: 1 - muito bom (guarda corpos, passeios), 2 - bom (muros de ala, taludes, encontros), 3 - razoável (revestimento da via), 4 - mau (apoios intermédios, tabuleiro), 5 - muito mau (cornijas). Globalmente, o estado de conservação era de grau 4 - mau, significando risco elevado de a ponte deixar de cumprir a sua função. O estado de manutenção era também mau. 2008-2009 - Ponte tem um pilar muito degradado e um abatimento no tabuleiro. Alcides de Jesus, Presidente da Junta de Lamas de Vouga, lança vários alertas sobre o estado da ponte. 2010, 8 de Setembro - Por ordem da Câmara Municipal de Águeda, foi feita nova inspecção à ponte, segundo a qual o estado de conservação dos seus elementos era variado: 2 - bom (taludes, encontros, passeios), 3 - razoável (muros, revestimento da via, guarda corpos, drenagem), 4 - mau (tabuleiro), 5 - muito mau (apoios intermédios). Globalmente, o estado de conservação estava em grau de gravidade 5 - muito mau, ou seja, risco muito elevado de a ponte deixar de cumprir a sua função. O estado de manutenção era mau. 2011, 2 de Maio - Dado agravamento do estado da ponte, ela foi encerrada ao trânsito automóvel, continuando a ter trânsito de peões, bicicletas e motociclos. 2011, 19 de Maio - Jorge Almeida, vice-presidente da Câmara Municipal de Águeda, anuncia que as reparações necessárias «vão custar milhões de euros».Pedro Fontes da Costa, «Obras na Ponte de Macinhata custam milhões de euros», Jornal da Bairrada, 2011/05/19. No entanto, segundo o relatório da inspecção realizada alguns meses antes, o custo da reparação geral da ponte estaria na ordem de apenas 350 000 EUR. 2011, Setembro - Alcides de Jesus volta a chamar a atenção para o estado da ponte em Assembleia Municipal.
2011, 12 de Novembro - Por falta de manutenção, o 7º pilar e os dois arcos centrais da ponte cederam à força das águas "Ponte ruiu e provocou um ferido", Soberania do Povo, 2011/11/17. 2011, 13 de Novembro - Reforça-se a narrativa oficial segundo a qual a reabilitação da ponte custaria «vários milhões de euros» ou «mais de dois milhões de euros». 2011, 14 de Novembro - CMA informa que vai realizar estudo com vista à demolição da ponte. 2011, Novembro-Dezembro - Levanta-se um coro de vozes em defesa da ponte "A velha ponte do Vouga", por José Neves dos Santos, Soberania do Povo, 2011/11/24 () "Salvemos a histórica ponte do Vouga " , por Luís Seabra Lopes, Soberania do Povo, 2011/11/24. () "A ponte velha do Vouga não pode ser demolida!", por Pedro Soutinho, 2011/12/05. () "Ponte Velha do Vouga. (Lamas do Vouga - Águeda)", Blog Monumentos Desaparecidos, 2011/12/19 "Vamos salvar a ponte do Vouga", por Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro, Soberania do Povo, 2011/12/22. 2011, 23 de Dezembro - Assembleia de Freguesia de Macinhata do Vouga aprova por unanimidade moção em defesa da reconstrução da ponte «que muito orgulhava o nosso concelho», «por ser um legado dos nossos avós, que devemos preservar por todos os meios ao nosso alcance». 2012 - Foram removidos os escombros do pilar arruinado e salvaguardada a inscrição alusiva à obra de Dom João V. 2012, Novembro - Na Assembleia Municipal, o deputado José Manuel Gomes de Oliveira, questiona: "Se fecharam [a ponte] é porque ela não estava em condições. Porque é que não intervieram imediatamente?" e conclui de forma lapidar: "Uma pequena obra e não deixavam cair a ponte, mas deixaram!" 2013-2023 - Sucessivas tomadas de posição em defesa da ponte, quer nos órgãos autárquicos, quer na comunicação social, sem resultado. 2018, 28 de Julho - PCP de Águeda visita ponte de Vouga e aponta o "desprezo patrimonial e de desrespeito pelos habitantes". 2018, 14 de Novembro - CDU de Águeda promove acção em defesa da reconstrução da ponte. 2020, 10 de Outubro - CDU de Águeda promove várias acções em defesa da reabilitação da ponte, incluindo um abaixo-assinado.
2022, 21 de Janeiro - Luís Seabra Lopes apresenta pedido de classificação da ponte, sugerindo a categoria de Monumento Nacional.