Vitória da Encarnação (Salvador, 6 de março de 1661 — 19 de julho de 1715), foi uma freira brasileira do Convento de Santa Clara do Desterro de São Salvador da Bahia falecida com fama de santidade.MARTINS, William de Souza (2013). Um espelho possível de santidade na Bahia colonia: madre Vitória da Encarnação (1661-1715). Disponível em http://www.scielo.br/pdf/rbh/v33n66/a10v33n66.pdf. Acesso em 30 de dezembro de 2014. Dentre as primeiras religiosas do Brasil, destacou-se pelas suas elevadas virtudes e busca da perfeição cristã.LAGE, Ana Cristina Pereira (2014). Mulheres de véu preto: Letramento religioso das irmãs clarissas na América portuguesa. Disponível em http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs/index.php/historia/article/viewFile/38282/23430. Acesso em 30 de dezembro de 2014.
Primeiros anos Nascida em São Salvador da Bahia, era filha do Capitão de Infantaria Bartolomeu Nabo Correia e Dona Luísa Bixarxe. Teve um irmão e três irmãs, uma das quais entrou juntamente com ela no convento.
Admitida na clausura das Irmãs Clarissas em São Salvador, exerceu de forma contínua a caridade, humildade, paciência e outras tantas virtudes. Amou e socorreu os pobres e doentes que batiam à porta do convento; foi frequente na oração, na penitência e entregou-se sem reservas à sua vocação. Apesar de não ser ainda canonizada é chamada por alguns de "a primeira santa baiana".A primeira santa baiana. Texto de Salvador de Ávila, extraído do livro: Bahia de Mil Encantos. Disponível em http://lcfaco.blogspot.com/2013/05/madre-vitoria-da-encarnacao.html. Acesso em 4 de janeiro de 2015. Viveu, morreu e foi sepultada no convento de Santa Clara do Desterro (mais antigo convento feminino do Brasil), onde parte de suas relíquias encontram-se expostas.
Cinco anos após sua morte, foi biografada na obra História da Vida, e Morte da Madre Soror Victória da Encarnação Religiosa Professa no Convento de Santa Clara do Desterro da Cidade da Bahia, livro publicado em Roma, no ano de 1720, de autoria do Arcebispo de São Salvador da Bahia, Sebastião Monteiro da Vide, o mesmo que em 1706 ordenara sacerdote o eremita Francisco da Soledade, que fundou o Santuário do Bom Jesus da Lapa e da Mãe da Soledade e que também tinha fama de santo.
Vários nomes da literatura brasileira escreveram sobre a Madre Vitória. Entre eles os escritores baianos Sebastião da Rocha Pita, Amélia Rodrigues, Afrânio Peixoto e Pedro Calmon. Este último, escreveu que “guarda-se no convento do Desterro, da Bahia, a piedosa memória de Sóror Vitória da Encarnação, ali falecida em 1715, e em cuja honra o arcebispo Dom Sebastião Monteiro da Vide escreveu o livrinho famoso. Na cela que foi de sóror Vitória, ainda se vê a ‘vera-effigie’, ali mandada colocar pelo prelado, que a conheceu, testemunhando-lhe as virtudes, com a biografia, e a fama, com o retrato”. E conclui, categórico, Pedro Calmon: “É necessário incluir no hagiológio brasileiro essa heroica figura de mulher…”.COSTA, Sandro Roberto (2003). Vida Religiosa feminina e situação da mulher no Brasil colonial: as primeiras clarissas. Disponível em http://www.lisaac.blog.br/primeiras-clarissas-no-brasil-ultima-parte/. Acesso em 4 de janeiro de 2015.
A fundação do convento das clarissas
Decorreu a infância da menina Vitória num período em que as jovens nascidas na Colônia, destinadas à vida religiosa por opção ou por decisão familiar, eram obrigadas a ingressar em mosteiros e conventos portugueses. Mas a crise dos senhores de engenho, devido a concorrência do açúcar do Caribe, fez com que o envio de meninas para Portugal se tornasse cada vez mais difícil pois as despesas eram muitas. Além disso, a viagem era um grande risco. Havia os assaltos de piratas e os perigos de naufrágio. A Câmara de Salvador e famílias nobres empenharam-se então para que um convento feminino de clausura monástica fosse fundado no Brasil. O pedido foi feito à Coroa portuguesa em 1664, mas foram necessários alguns anos de espera até a fundação do esperado convento.Clarissas no Brasil. Disponível em http://clarissasclarissas.blogspot.com/2010/10/clarissas-no-brasil.html. Acesso em 4 de janeiro de 2015.
Passados treze anos, desde o pedido de fundação, somente em 1677, no dia 29 de abril, chegaram à Salvador quatro Irmãs Clarissas Urbanistas do Convento de Santa Clara de Évora que tiveram de permanecer a bordo do navio ainda por alguns dias esperando a conclusão das obras do seu convento que, até então, estava sem o muro necessário à preservação da clausura. Terminadas as obras, desembarcaram do navio e foram recebidas com festa pelos moradores da cidade. Foi então fundado o Convento de Santa Clara do Desterro de São Salvador da Bahia que, até ao ano de 1744, quando foi fundado o Convento da Lapa, era o único mosteiro feminino reconhecido na colônia.
Sobre a sede de santidade das primeiras religiosas deste convento, dentre elas a Madre Vitória, escreveu Sebastião da Rocha Pita, em 1730, no seu livro “História da América Portuguesa”:
Da teimosia à clausura monástica
Quando ouvia falar das moças que entravam para o convento e pensava que poderia ser esse também o seu destino, Vitória dizia a seu pai que preferia que este lhe cortasse a cabeça de que fazê-la tornar-se uma freira. Este, preocupado com a aversão de sua filha à vida religiosa, foi falar de sua angústia ao seu confessor, o Padre João de Paiva, jesuíta com fama de santidade e muito venerado pela população de Salvador, falecido em 1681. Nesse encontro o padre João tranquilizou-o profetizando que sua filha seria uma grande religiosa.
Alguns sonhos e visões frequentes com a Virgem Maria e o Menino Jesus teriam perturbado o coração da menina que sempre recusava a possibilidade de tornar-se uma religiosa. Mas uma outra visão aterradora, na qual se viu entre pessoas mundanas dentro de uma embarcação que naufragava, teria dobrado seu coração, fazendo-a descobrir a excelência da vida consagrada e passando a desejar viver em clausura. Pediu então a seu pai que a mandasse para o Convento do Desterro pois estava decidida uma vez por todas a consagrar sua vida a Deus.
Ingressou, juntamente com sua irmã mais velha, no convento das clarissas, sendo admitidas no noviciado em 29 de setembro de 1686 e fazendo profissão religiosa no dia 21 de outubro do ano seguinte, conforme escreveu Dom Sebastião Monteiro da Vide:
Recebeu o nome de Vitória da Encarnação e passou a viver de forma radical os votos religiosos de pobreza, castidade e obediência, tornando-se exemplo entre as monjas da clausura. Sua irmã foi a Madre Maria da Conceição.
Seu amor aos pobres, doentes e desamparados
O âmbito do convento era uma esfera limitada para a intensa caridade da Madre Vitória, e transbordava da clausura para fora dos muros favorecendo a todos quantos fosse possível. Quando exercia o cargo de porteira, muitos pobres ficavam próximos ao portão à sua espera, pois sabiam que não voltariam para suas casas sem algum auxílio. Amante dos desamparados, pedia esmolas às suas companheiras de clausura para o benefício dos mesmos e repartia com eles do que havia no refeitório. Por esses feitos, eles a chamavam de Madre Esmoler. Doava-lhes tudo quanto fosse possível, até a banca sobre a qual dormia e a sua manta, passando a dormir no chão sobre uma esteira, coberta com um lençol de algodão. Foi este o motivo pelo qual a mesma madre não faleceu em sua cela, pois não tendo onde recostar-se, suas irmãs de clausura a levaram para morrer na cela de uma delas.
Era comum que a família de cada uma que fosse acolhida no convento mandasse junto com sua filha uma escrava para servir as religiosas. Essas negras escravas passavam a viver no convento e eram chamadas de servas ou moças. Madre Vitória passou a recusar os serviços das escravas tornando-se serva destas, a tal ponto que passou a ser ridicularizada e chegou a levar uma bofetada na face de uma escrava a quem servia. As outras monjas indignadas, pediram a Madre Vitória que usasse de autoridade e punisse a escrava por sua atitude. A madre por sua vez rejeitou tal sugestão dizendo-lhes que também o Cristo recebeu bofetadas na face suportando com paciência e humildade.
Certa ocasião, duas das escravas vieram a adoecer de varíola, e por já não haver mais o que fazer e pelos riscos de contágio, o médico que as assistia aconselhou as monjas que mandassem as doentes para fora do convento, pois os remédios da medicina já não mais podiam curá-las. Mas a Madre Vitória insistiu para que não as mandassem embora, pois ela mesma cuidaria delas. Fez de sua cela uma enfermaria dando-lhes toda assistência necessária e rezava pedindo a Deus que as curasse. Uma terceira escrava veio a desenvolver a mesma doença e então levaram-na também para que a madre dela cuidasse. Passados alguns dias as três se curaram completamente sem que outras viessem a se contaminar.
Noutra ocasião, trouxeram para o mosteiro um menino com uma grave doença para que fosse cuidado pelas religiosas. O dito menino, cujos pais eram escravos, há dois anos sofria nas mãos de cirurgiões e nenhum deles conseguiu curá-lo. A Madre Vitória, então, inspirada por Deus, percebeu que a criança nunca havia sido batizada e disse às outras monjas que o remédio para ele seria a instrução da doutrina cristã e o batismo. Após breve tempo de catequese, foi enfim batizado e curado daquele mal.
Esses e muitos outros atos de caridade fez a Madre Vitória por aquelas que adoeciam no convento e rezando por elas restituía-lhes a saúde. As orações da madre teriam ainda tirado de um surto de loucura uma moça já desenganada pelos médicos, que haviam dito que a tal doente não mais retornaria ao seu juízo normal. O que a Madre Vitória não podia fazer fora dos muros, pedia a sua família que fizesse. Doentes curados, moribundos assistidos até a morte, pessoas que morriam desamparadas e sem ninguém para enterrá-las, todos esses eram recomendados pela madre aos cuidados de sua família, já que a mesma não poderia ausentar-se da clausura.
Sua especial devoção ao Arcanjo Miguel e às almas
Depois da sua grande devoção aos sagrados mistérios da vida de Cristo e da Virgem Maria, nutria uma devoção especial a São Miguel Arcanjo, por ser ele o vencedor do demônio e aquele a quem é confiado o cuidado das almas do purgatório. Como tradição herdada de São Francisco de Assis e continuada pelos seus discípulos, fazia com muita dignidade a chamada Quaresma de São Miguel, conforme narrado em sua primeira biografia:
Sufragava continuamente as almas do purgatório oferecendo lhes Missas em seu favor, além de outras orações e penitências. Chamava-as de "minhas amigas" e frequentemente tinha visões de umas que lhe pediam orações para o alívio de suas penas e de outras que lhe agradeciam pelos seus favores. Via ainda os anjos da guarda dessas almas padecentes e os mesmos lhe agraciavam com muitas graças e consolações.
Fama de Santidade
De entre todas as religiosas que passaram pelo convento do Desterro, a Madre Vitória foi aquela que mais se destacou pela sua vida virtuosa. Praticou a humildade, a caridade, o desapego dos bens materiais, a oração contínua, a busca da perfeição espiritual e diversas outras virtudes que fizeram com que fosse reconhecida por muitos, como uma santa em vida. Suportou com paciência e coragem as humilhações e incompreensões pelas quais passou. Dentro do convento considerava-se a menor de todas e serva de todas.
Fazia suas refeições sentada no chão e nunca comia carne. Quando o sabor de alguma comida aguçava-lhe o prazer do paladar, misturava cinzas para alterar o gosto. Alimentava-se por necessidade e não por prazer. Em uma de suas frequentes visões, teria visto o Cristo com a cruz às costas dizendo-lhe: "Esposa minha, vem e segue meus passos". Desde então, começou a percorrer as estações da Via Sacra com uma grande cruz às costas e uma coroa de espinhos à cabeça a exemplo de Jesus. Usava ainda cilício e praticava auto flagelação, além de outras mortificações.