Os lusitanos constituiram um conjunto de povos ibéricos pré-romanos que habitaram o território entre os rios Douro e Tejo. Oriundos da Europa Central, provavelmente dos Alpes, chegaram à península Ibérica nas migrações célticas da Idade do Ferro. Em , na sequência da invasão romana a que resistiram por longo tempo (ficando conhecida como Guerra Lusitana), a província romana criada depois tomou o nome Lusitânia, e abrangia a parte do território ocupado por esse povo e regiões vizinhas ao sul e ao leste das tribos lusitanas. Dentro das atuais fronteiras políticas de Portugal concentra-se a maior fração do território que teria sido ocupado pelos lusitanos. Boa parte do seu território ficava situado em regiões fora do que viria, mais tarde, a ser Portugal. Não obstante, a sua capital era a cidade de Mérida, na Estremadura espanhola no período romano.

A figura mais destacada deste povo foi sem qualquer dúvida Viriato, um dos seus líderes no combate aos romanos. Outros líderes conhecidos foram Púnico (Punicus), Césaro (Cæsarus), Cauceno (Caucenus), Cúrio (Curius), Apuleio (Apuleius), Conoba (Connoba) e Tautalo (Tantalus).

Os lusitanos são considerados, por antropólogos e historiadores, como um povo sem história por não terem deixado registos nativos antes da conquista romana. As informações sobre os lusitanos foram-nos transmitidas através dos relatos dos autores gregos e romanos da Antiguidade, o que, por vezes, causa diversos problemas ou conflitos na interpretação dos seus textos.

Além dos Lusitanos, que habitavam predominantemente a franja do interior entre o Rio Douro e o Rio Tejo, também tinham uma implantação muito importante os Túrdulos, Célticos, Cónios, Galaicos (ou calaicos), Gróvios, e Vetões, entre outros que continuam a ser objeto de estudo conforme se realizam descobertas arqueológicas.

Origem miniaturadaimagem|472x472px|Migrações das tribos pré-românicas no território do atual Portugal: Os antepassados dos lusitanos compunham um mosaico de diferentes tribos que habitaram Portugal desde o Neolítico. Miscigenaram-se parcialmente com os invasores celtas, dando origem aos lusitanos. Não se sabe ao certo a origem dessas tribos celtas, mas é muito provável que fossem oriundas dos Alpes suíços e teriam migrado devido ao clima mais ameno da Península Ibérica.

Entre as numerosas tribos que habitavam a Península Ibérica quando chegaram os romanos, encontrava-se, na parte ocidental, a dos lusitanos, considerada por alguns autores a maior das tribos ibéricas, com a qual durante muitos anos lutaram os romanos.

Supõe-se que a zona do centro de Portugal era habitada pelos Lusis ou Lysis que teriam dado origem aos Lusitanos. Os Lusis eram provavelmente povos do Bronze Final, linguisticamente de origem indo-europeia e pré-céltica que vieram a sofrer relevantes influências da Cultura de Hallstatt e mediterrânicas ao longo dos séculos VIII e

Os Lusis foram referidos pela primeira vez no Ora Maritima de Avieno, onde foram chamados de pernix, que significa ágil, rápido e é o adjectivo que se aplicava ao praticante de jogos de destreza física.

Etnia segundo os autores da Antiguidade Os escritores da Antiguidade identificaram duas etnias na Península Ibérica, a ibera e a celta, e qualificavam os seus habitantes como sendo iberos ou celtas ou uma mistura das duas etnias. No entanto, o conceito de ibero podia ser usado num sentido geral, isto é, num sentido geográfico, referindo-se ao conjunto dos seus habitantes e num sentido restrito, referindo-se a um conjunto de tribos com a mesma etnia; ou podia mesmo variar consoante o conceito da época; e o mesmo pode-se considerar relativamente ao conceito de celta da Ibéria ou celtibero.

Diodoro Sículo considerava os lusitanos um povo celta: "Os que são chamados de lusitanos são os mais valentes de todos os cimbros". Estrabão diferenciava os lusitanos das tribos iberas. Viriato foi referido como líder dos celtiberos. Os Lusitanos também eram chamados de Belitanos, segundo Artemidoro.

Indícios arqueológicos e pesquisas etnográficas relativamente recentes sugerem que os lusitanos estejam ligados aos lígures, possivelmente através de uma origem comum. No entanto, a religião, a onomástica, nomes próprios e topónimos, e escavações nos castros lusitanos revelam tratar-se de um povo celta, ainda que entre autores modernos não exista consenso total e alguns os considerem iberos, lígures e/ou celtas.

Tribos thumb|upright=0.8|Lusitânia romana e suas principais cidades

Povos (populi) que constituíam os Lusitanos, conforme descrito na Ponte de Alcântara (CIL II 760): Igeditanos Taporos Meidubrigenses Pésures

Língua e escrita

thumb|upright=1.3|Reprodução de inscrições em língua lusitana em Arroyo de la Luz (Província de Cáceres) As principais inscrições foram feitas em território português em Moledo (Castro Daire), Viseu e Cabeço das Fráguas; a outra inscrição procede de Arroyo de la Luz (Província de Cáceres, Espanha) no território dos vetões. Como exemplo segue-se a inscrição de Cabeço das Fráguas (concelho da Guarda) do :

thumb|upright=1.3|esquerda|Línguas da Península Ibérica pré-romana. A língua lusitana assinalada como (L1) As inscrições em língua lusitana (escritas em alfabeto latino) mostram uma língua celtoide facilmente traduzível e interpretável, já que conserva em maior grau a sua semelhança com o celta comum. A conservação do p- inicial em algumas inscrições lusitanas, faz com que muitos autores não considerem o lusitano como uma língua celta, mas celtoide. O celta comum perde o p- indo-europeu inicial. Por exemplo: "porc/om" em lusitano seria dito "orc/os" em outras línguas celtas como o celtibero, goidélico ou gaulês.

Para esses autores, o lusitano, mais do que uma língua descendente do celta comum, seria uma língua aparentada ao celta comum, ou seja, uma variante separada do celta, mas com muita relação com ele. O alfabeto latino, o sistema de escrita utilizado nas inscrições, já era usado na Península Ibérica pelos povos que habitavam junto ao mar, segundo informação de Artemidoro, no princípio do , época em que visitou a Península Ibérica.

Os autores antigos diziam que as pessoas das diferentes tribos que habitavam a Península Ibérica, a Ibéria, falavam línguas diferentes, mas não tinham dificuldade em entenderem-se umas às outras. O que poderia revelar uma situação de possível bilinguismo ou até polilinguismo na Península Ibérica.

Guerreiro lusitano Dizem que os Lusitanos são hábeis em armar emboscadas e descobrir pistas; são ágeis, rápidos e de grande destreza. Usam um pequeno escudo de dois pés de diâmetro, côncavo para diante, que é preso ao corpo por correias de couro, porque não tem nem braçadeiras nem asa. Usam também um punhal ou um gládio. A maior parte dos guerreiros veste couraças de linho, e apenas alguns cotas de malha e capacete de tríplice cimeira. Mas em geral usam elmos de nervos. Os peões calçam polainas de couro e estão armados com lanças de ponta de bronze.Estrabão: Geografia 3.3.6

Os guerreiros ibéricos são citados como tropas mercenárias na batalha de Hímera em Os mercenários ibéricos aparecem nos principais confrontos bélicos do Mediterrâneo, tornando-se num dos pilares dos exércitos do Mediterrâneo central.

Estão presentes na batalha de Selinute, Agrigento, Gela e Calamina. Surgem em outros conflitos na segunda guerra greco-púnica, na Sicília, em Siracusa, em Atenas e estão presentes na defesa de Esparta na batalha de Crímios, na Primeira Guerra Púnica, e com os púnicos no norte de África. Tito Lívio () descreve os lusitanos pela primeira vez como mercenários ao serviço dos cartagineses na guerra contra os romanos.

Os lusitanos foram considerados pelos historiadores como hábeis na luta de guerrilhas. Eram indivíduos jovens na plenitude da sua força e agilidade e seleccionados dentre os mais fortes. Neles recaía a defesa da comunidade quando estava ameaçada. A preparação militar dos jovens guerreiros tinha lugar nas montanhas em lugares específicos.

"Em tempo de guerra eles marcham observando tempo e medida; e cantam hinos (paeans) quando estão prontos para investir sobre o inimigo" batendo nos escudos à maneira ibérica.Lusitania: historia y etnología, p.50

Segundo Tito Lívio, os lusitanos eram pacíficos quando não eram acossados.

Mulheres guerreiras Apiano relata que quando o pretor Bruto, ao perseguir Viriato, atacou as cidades da Lusitânia, as mulheres lutavam e morriam valentemente lado a lado com os homens. Depreende-se que de alguma forma o treino militar também era dado às mulheres em quem recaía também a defesa dos castros.

Iuventus lusitana A iuventus era o nome romano para designar os jovens que tinham posição social relevante e desempenhavam uma função militar, ou seja, jovens de uma certa elite com capacidade militar.

A iuventus lusitana era formada por grupos de jovens, que recebiam treinamento militar e que provavelmente serviam como militares de reserva na defesa dos castros.

Organizações similares encontravam-se entre os celtas, celtiberos e romanos. O massacre da "flos iuventutis" lusitana, por Galba, desencadeou um conflito que ficou conhecido como a guerra lusitana.

Armas utilizadas pelo exército lusitano

thumb|300px|Falcata do (Museu Arqueológico de Espanha, Madrid). Segundo Tito Lívio, são as seguintes as armas utilizadas pelo exército lusitano:

Armamento ofensivo usado na luta corpo a corpo punhal de fio recto e antenas atrofiadasLusitania: historia y etnología, p.123 ou afalcatado. espadas que tinham um esmerado processo metalúrgico, com uma resistência e flexibilidade fora do comum para a época. Usavam a espada do tipo La Tène, a espada de antenas atrofiadas e a falcata.

lança de ponta de bronze — segundo Estrabão, essas lanças eram de uma época antiga e supõe-se que a sua presença se devia a ainda serem usadas em rituais que teriam origem nas tradições das fraternidades guerreiras da idade do bronze.

lábris, machado de dupla lâmina que aparece em moedas romanas da Lusitânia, não parece que tenha sido usado pelos lusitanos mas pelos cântabros.

Armamento ofensivo de arremesso

dardos farpados de ferro. lanças de arremesso, todas de ferro. fundas. arcos curtos e longos de madeira.

Armamento defensivo

thumb|230px|esquerda|Capacete de Lanhoso, da Idade do Ferro

cetra, pequeno escudo de dois pés de diâmetro que se manejava com a mão esquerda, era feito de madeira, couro, nervos trançados, bronze ou ferro, ficava suspenso por correias que eram manejadas habilmente para se defenderem dos dardos. Era decorado com o desenho de um labirinto, que se supõe ter sido um símbolo ou emblema étnico de reconhecimento entre os lusitanos.

cota de malha era feita de pequenas argolas de ferro entrelaçadas, era pesada, e usada apenas por alguns guerreiros, provavelmente os líderes. couraça de linho, o tipo de protecção mais usada, era mais leve e adaptada ao clima que as cotas de malha, e provavelmente mais barata. elmos eram de couro, de nervos trançados ou de metal e parecidos com os dos celtiberos, do tipo montefortino, elmos de três cimeiras (penas) de cor púrpura.

polainas eram feitas de couro para proteger as pernas.

Os guerreiros lusitanos realizavam competições entre si, em que tomavam parte a cavalaria e a infantaria; competiam em boxe, luta livre, corridas, faziam combates de grupo e combates entre esquadras.Estrabão. Geography, Book III Chapter 3

Estrabão reconhecia que os lusitanos lutavam como peltastas,Estrabão. Geography, Book III Chapter 4 §15 e eram organizados e eficientes a posicionarem-se na linha de batalha ou a movimentarem-se concertadamente para posições estratégicas.