Culpabilização da vítima (em inglês, victim blaming) é o ato de desvalorizar uma vítima de crime, considerando-a responsável pelo acontecido.The Canadiana Resource Centre for Victims of Crime Victim blaming, Agosto de 2009 Além disso, também pode ser definida como o ato de justificar uma desigualdade encontrando defeitos em suas vítimas.Paul Downes; Ann Louise Gilligan (2007). Beyond Educational Disadvantage. Institute of Public Administration. p. 49. ISBN 978-1-904541-57-8. O termo foi cunhado pelo psicólogo William Ryan em seu livro Blaming the Victim, de 1971,Todd F. Heatherton (2003).The Social Psychology of Stigma. Guilford Press. p. 130. ISBN 978-1-57230-942-5. que abordou a questão das minorias étnicas do Estados Unidos.José G. V. Taborda; Miguel Chalub; Elias Abdala-Filho (2012). Psiquiatria Forense 2ed. Artmed. p. 102. ISBN 978-85-363-2703-7.

O estudo da vitimologia procura mitigar a percepção das vítimas como responsáveis. Há uma maior tendência em culpar as vítimas de estupro do que as vítimas de assalto nos casos em que vítimas e agressores conhecem um ao outro.

História O termo foi inicialmente apresentado no livro Blaming the Victim de Ryan como uma construção social relacionada à culpa dada pela classe média norte-americana aos pobres por sua própria pobreza. O termo tem sido usado notadamente em vítimas de estuproBrent E. Turvey (2013). Forensic Victimology: Examining Violent Crime Victims in Investigative and Legal Contexts. Academic Press. p. 209. ISBN 978-0-12-407920-5.

Embora Ryan popularizou a expressão, o fenômeno de culpar a vítima está bem estabelecida na psicologia humana e na História; por exemplo, há uma abundância de exemplos no Antigo Testamento em que as tragédias e catástrofes são justificados e culpam as vítimas por suas faltas como pecadores.Daniel N. Robinson (2009). Praise and Blame: Moral Realism and Its Applications. Princeton University Press. p. 141. ISBN 1-4008-2531-8.

Em 1947 Theodor W. Adorno definiu o que viria a ser chamado de "culpar a vítima", como "uma das características mais sinistras do caráter fascista".Adorno, TW (1947) Wagner, Nietzsche and Hitler in Kenyon Review Vol.ix (1), p. 158 Pouco tempo depois Adorno e outros três professores da Universidade da Califórnia em Berkeley formularam a influente e altamente debatida Escala F, ou escala de fascismo (F Scale),Cláudio Torres; Elaine Rabelo Neiva (2011). Psicologia Social. Artmed. p. 49. ISBN 978-85-363-2652-8. publicada em A personalidade autoritária (1950),Nancy McWilliams (2014). Entendendo a Estrutura da Personalidade no Processo Clínico,2.ed.. p. 138. ISBN 978-85-65852-98-2. que incluía, entre os traços fascista da escala "desprezo por tudo que é discriminado ou fraco".Espen Hammer (2006). Adorno and the Political. Routledge. p. 63. ISBN 978-0-415-28913-9. Uma expressão típica de culpabilização da vítima é o "pedir por isso", por exemplo, "Ela estava pedindo por isso", dito de uma vítima de violência ou agressão sexual.Nicky Ali Jackson (2007). Encyclopedia of Domestic Violence. Taylor & Francis. p. 715. ISBN 978-0-203-94221-5. Este pensamento foi mais tarde aperfeiçoado e divulgado pelo canadense Bob Altemeyer em 1981.

Opiniões contrárias O criminologista Menachem Amir, aluno de Marvin Wolfgang, concluiu entre 1960 e 1968 uma análise polêmica sobre o crime de estupro listando fatores que colaborariam para o ato criminoso, aplicando então o conceito de "precipitação pela vítima". A análise identificou situações em que a vítima inicialmente consente no ato sexual se arrependendo em seguida ou ainda, não sendo capaz de resistir às investidas do agressor.Bonnie S. Fisher; Steven P. Lab (2010). Encyclopedia of Victimology and Crime Prevention. SAGE Publications. p. 732. ISBN 978-1-4522-6637-4. Assim com Wolfgang, o consumo de álcool pela vítima era um dos principais fatores, potencializados pelo consumo também do agressor. Outros fatores seriam o comportamento sedutor da vítima, uso de roupas provocantes, linguajar insidioso, ter "má" reputação e estar no local e hora errados. Além desses fatores, algumas vítimas teriam a necessidade inconsciente de serem controladas por sexo violento.Homicídios no Brasil. FGV Editora. 2007. pp. 107–109. ISBN 978-85-225-0622-4.

O estudo recebeu fortes críticas por parte de acadêmicos, pesquisadores, feministas, defensores dos direitos das mulheres e vítimas, além de ativistas.Ann Wolbert Burgess; Professor of Psychiatric Nursing William F Connell School of Nursing Boston College Ann Wolbert Burgess; Cheryl Regehr; Professor Faculty of Social Work and Faculty of Law Cheryl Regehr, PH.D., Albert R. Roberts, Professor of Social Work and Criminal Justice Albert R Roberts, PH.D. (2011). Victimology: Theories and Applications. Jones & Bartlett Publishers. p. 40. ISBN 978-1-4496-4371-3.

Incidentes No ano de 2011, uma garota de 11 anos de idade que sofreu estupro coletivo em Cleveland, no Texas, foi acusada pela defesa dos acusados de atrair os homens que a violentaram. O jornal New York Times publicou um artigo relatando de forma acrítica a maneira como muitos da comunidade culparam a vítima, o jornal pediu desculpas mais tarde.

Em um caso que atraiu cobertura mundial, quando uma jovem foi estuprada e morta na Índia, em dezembro de 2012, alguns funcionários do governo indiano e líderes políticos culparam a vítima por sua roupa e por estar fora de casa tarde da noite.

Estatísticas Brasil Em 27 de março de 2014, o órgão brasileiro Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) realizou uma pesquisa que mostrou 42.7% de concordantes com a afirmação "Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas" contra 24% de discordantes gerando manifestações públicas e nas redes sociais. Pouco depois, em 4 de abril de 2014, o órgão admitiu que o resultado foi um erro causado pela troca dos gráficos relativos aos percentuais das respostas às frases "Mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar" e "Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas", a versão corrigida trouxe 13,2% de concordantes e 58,4% de discordantes da afirmação "Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas".

Em uma pesquisa do instituto Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), um em cada três brasileiros acredita que nos casos de estupro, a culpa é da mulher, segundo o levantamento, 33,3% da população brasileira acredita que a vítima é culpada.

Segundo pesquisa divulgada pelo IPEA em 2014, a maioria dos brasileiros acredita que o estupro é culpa da mulher.

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