thumb|400px|direita|"Ecce Agnus Dei". João Batista identifica Jesus como aquele "que virá depois de mim", um dos episódios de Marcos 1.1837/57. Obra prima de Alexander Andreyevich Ivanov, atualmente na Galeria Tretyakov, em Moscou. Marcos 1 é o primeiro capítulo do Evangelho segundo Marcos, no Novo Testamento da Bíblia. Ele começa com a frase "Princípio do evangelho de Jesus Cristo, o Filho de Deus" (Nova Versão Internacional), afirmando desde o princípio a crença do autor, Marcos. Robert Miller traduz este versículo como "As boas novas de Jesus, o Ungido"Miller 13, defendendo que significa "ungido" e que a frase não está presente em alguns dos manuscritos mais antigos. O termo "princípio" pode ser uma referência ao começo do livro ou do versículo seguinte ("O evangelho de Jesus, o Ungido, começa com algo que Isaías, o profeta, escreveu:" - 1:1-2a Scholars Version, Miller 13</ref> ou ainda o começo da história de Jesus, pois Marcos está começando a contar-nos sobre a vida de Jesus e não escrevendo uma biografia completaKilgallen 17.

Ao afirmar que ele é o "ungido", Marcos declara Jesus como o Messias, o sucessor do rei David. Ele sempre usa a palavra "Cristo", uma derivada da tradução do termo para o grego, e nunca "Messias"Strong's G3323, uma forma derivada da transliteração para o grego da palavra aramaica para "Messias". "Filho de Deus" pode ser visto neste contexto como sinônimo de um messias político, um rei dos Judeus, mas também como uma expressão de sua divindadeKilgallen 22, como no termo "Deus, o Filho". Apenas os adversários demoníacos de Jesus o chamam assim em Marcos até o centurião de . As "boas novas" podem ser "sobre Jesus", "de Jesus" ou uma combinaçãoKilgallen 21. Segundo Henry Barclay Swete Henry Barclay Swete, Introduction to the Old Testament in Greek, pages 456-457 defende que " ("boas novas" ou "evangelho") em LXX ocorre apenas no plural e, provavelmente, apenas no sentido clássico de 'uma recompensa por boas notícias' (). No Novo Testamento, o termo é, desde o princípio, associado às boas notícias messiânicas (), provavelmente derivando este novo significado do uso de em , , , " (vide Cânticos do servo).

João Batista thumb|direita|300px|João Batista.Década de 1740. Por Giovanni Battista Piazzetta, atualmente na Gemäldegalerie, em Berlim. Marcos introduz os versículos 2 e 3 com "Está escrito no profeta Isaías:", porém a citação que ele apresenta não corresponde exatamente a nenhuma versão ainda existente do Livro de Isaías, nem mesmo a encontrada entre os Manuscritos do Mar Morto. Alguns manuscritos de mar trazem a versão "...nos profetas"Metzger, 73. Alguns defendem que isto pode indicar que ele não teria utilizado uma versão completa da Bíblia judaica, mas uma coleção de citações das Escrituras, comuns na épocaBrown et al. 599. A citação também parece ser uma composição dos livros do Êxodo, Malaquias e Isaías: , e Novum Testamentum Graece, Nestle-Aland, p.88 "Kata Markon 1", 27th edition, 1979, Deutsche Bibelgesellschaft Stuttgart, uma ligação dos evangelhos sobre Jesus com uma esperada realização do "Antigo Testamento". Marcos assume que Isaías falava de João Batista. É provável que Marcos tenha se apropriado de parte de Êxodo 23:20 na SeptuagintaÊxodo 23:20 ( - "Eis que eu envio um anjo adiante de ti" na TBB) e combinou-a com parte de Malaquias 3:1 da Septuaginta ( - "preparar o caminho" na TBB) para criar em grego (). A citação seguinte é diretamente de Isaías 40:3 da SeptuagintaNovum Testamentum Graece, p.88; também Catholic Encyclopedia: Septuagint Version; ver também Hexapla.

Os quatro evangelhos utilizam a mesma citação de Isaías: , e . Este trecho trata do retorno do cativeiro na Babilônia e era uma passagem que os judeus frequentemente utilizavam como exemplo do auxílio de Deus. Isaías provavelmente utiliza a passagem simbolicamente para descrever uma purificação moral e renovação. Assim, João Batista é ligado a Isaías também e, mais uma vez, Marcos iguala o "Senhor" nesta passagem, Javé, com JesusKilgallen 24.

Em seguida, Marcos descreve as atividades de João, que pregava o arrependimento, o perdão dos pecados e batizava no rio Jordão. Conta ainda que ele vestia pelo de camelo, um cinto de couro e sobrevivia com uma alimentação a base de gafanhotos e mel selvagem, uma descrição similar à de Elias em e pode ser uma referência à profecia sobre a roupa que deveria vestir um verdadeiro profeta em . Sua alimentação pode ser uma tentativa de se demonstrar sua pureza. Muito já se especulou sobre se João teria sido um essênio, mas não existem provas contra ou a favor da tese. Este relato sobre João é parecido, mas diferente do que foi fornecido por Josefo, que afirma que João batizava, mas não por causa do perdão dos pecados, e que ele era um líder do povo, sem mencionar qualquer relação entre ele e Jesus. É possível que esta diferença demonstre que Marcos enxergava João como uma representação de Elias e um mero arauto do que considerava realmente importante, Jesus. De acordo com a hipótese do documento Q, os batismos de João também estavam presentes no princípio deste documentoMiller 253.

Muitos seguiam para ser batizados por João segundo Marcos, mas o profeta lhes dizia que . Desamarrar as sandálias era uma tarefa geralmente executada por escravos na época. O que "batizar com o Espírito Santo" significa, dado que Jesus não batiza ninguém em Marcos, é incerto se levarmos em consideração apenas este evangelho.

O Jesus Seminar concluiu que este é um dos autênticos atos de Jesus (marcado como "vermelho"), relatado em , , e Evangelho dos Ebionitas 1, e chamado de "Uma voz no deserto".

Batismo e Tentação de Cristo thumb|direita|300px|Jesus no deserto. 1860. Por William Dyce.

Jesus é um dos muitos que vieram para serem batizados por João, no caso dele de Nazaré na Galileia. Como João, segundo Marcos, batizava pelo arrependimento e perdão dos pecados, muitos tentaram argumentar que Jesus também teria vindo para ser perdoado de seus pecados, mas o próprio Marcos nota que João afirma ser "indigno" de batizá-lo. Para ele, a função de João era de preparar o terreno para Jesus e uma possibilidade é que Jesus teria se submetido a ele para abraçar a doutrina de João e se identificar com todos que acreditavam nelaKilgallen 26.

Marcos introduz Jesus sem nenhuma história ou descrição anterior, sugerindo que seu público alvo era os que já o conheciam. Além disso, Marcos, como todos os demais evangelistas, não faz nenhuma menção às características físicas de Jesus, apesar da breve descrição que fez, pouco antes, da aparência de João Batista.

João o batiza e Jesus então vê uma teofania: e ouviu uma voz: . Esta passagem pode ter relação com e Brown 128. O céu se abrindo é geralmente visto como uma união e começo da comunicação entre Deus e o mundo. Se alguém mais viu ou ouviu o que aconteceu além de Jesus é tema bastante discutido, pois o texto de Marcos não faz referência nenhuma a isto.

Alguns estudiosos argumentaram que, como Marcos começa sua história neste episódio, ele poderia estar apresentando uma forma de adocionismo, pois foi um ato de Deus que alterou a vida de Jesus, embora Marcos esteja provavelmente confirmando uma relação preexistente entre os dois. Jesus jamais é declarado como "filho adotado de Deus" em Marcos, mas o evangelista não menciona quando e nem como Jesus era filho de Deus. Tanto Mateus quanto Lucas fazem uso de seus relatos sobre a infância de Jesus para demonstrar que ele era filho de Deus desde a concepção e João, em João 1:1, declara-o como o Verbo de Deus desde a criação.

A voz do céu chama Jesus de "dileto". Alguns vêem nisto uma relação com a descrição de Isaac no Gênesis (Gênesis 22), no qual Abraão demonstra sua devoção a voz demonstrando estar "propenso" a sacrificar seu filho. Por esta tese, Deus demonstra seu amor pela humanidade sacrificando seu filho "de fato" (veja expiação substitucionária). Há também uma possível ligação deste trecho e os Cânticos do servo em IsaíasKilgallen 28.

O Espírito então "imediatamente" (Kai euthys) o impele para o deserto para ser tentado por Satã por quarenta dias. Quarenta é um artifício numerológico da Bíblia, como os quarenta dias do Dilúvio em Gênesis 7 e os quarenta anos vagando no deserto no Êxodo. Elias também passou quarenta dias e noites viajando ao monte Horeb em . Ao contrário de Mateus 4 e Lucas 4, Marcos não especifica o número de tentações e nem a natureza delas, mas faz menção aos anjos que o serviam.

João é preso em seguida, presumivelmente por Herodes Antipas. Marcos utiliza o termo "paradothēnai" para descrever o fato, o mesmo termo que utilizará depois para descrever a prisão de Jesus já durante a Paixão.

Segundo Jesus Seminar, partes destes dois relatos foram considerados autênticos ("vermelhos"), especificamente "João batiza Jesus" e "Jesus proclama o evangelho".

Chamado dos primeiros quatro discípulos thumb|direita|300px|Jesus chama Pedro e André.1308/11. Por Duccio di Buoninsegna, atualmente na National Gallery of Art, em Washington, D.C.

Jesus então segue para a Galileia pregando que O "reino de Deus" pode ser interpretado como sendo um local físico ou espiritual. Pode ainda ser traduzido como o "governo imperial de Deus", indicando o poder de Deus sobre todas as coisasMiller 14. O evangelho é visto não apenas como a mensagem de Deus, mas suas ações. Neste trecho, Jesus liga a vinda de Deus com o termo "ēngiken", que alguns entendem como significando "próximo" no sentido de "vindouro", mas outros defendem que seria algo como "o próprio Jesus está próximo", ou seja, que Deus havia chegado. ambas as acepções estão ligadas ao arrependimento, às mudanças de atitude e, finalmente, à fé. Fé e arrependimento seriam, portanto, o que Jesus estaria dizendo que Deus deseja dos homensKilgallen 32-36 (veja Justificação).

Jesus segue então para o mar da Galileia e encontra ali Simão (Pedro) e seu irmão André pescando, uma das principais atividades econômicas da região na épocaBrown et al. 600. Jesus os convida então com uma de suas mais famosas frases: . Alguns estudiosos defenderam que os dois seriam pescadores apenas metaforicamente, provavelmente se baseando em , mas Karris argumenta que a ocupação de ambos é histórica e foi utilizada por Marcos para demonstrar o custo de se tornar um discípulo, pois os irmãos tiveram que largar para trás um bom emprego. Os dois seguem Jesus e logo o grupo encontra outros dois irmãos, Tiago e João, filho de Zebedeu, que Marcos chama, em aramaico, de "boanerges" ("filhos do trovão") em . Depois de serem chamados, eles . Pedro, Tiago e João serão futuramente muito importantes na vida de Jesus, enquanto André, que segundo João 1 era discípulo de João Batista, aparecerá apenas mais duas vezes em Marcos (em e ). Nos dois eventos, Marcos não relata como Jesus os convenceu e relata que os quatro o seguiram sem nenhum questionamento. Kilgallen argumenta que, historicamente, este chamado não teria sido tão súbito e que é possível que Jesus os tenha encontrado antes, mas Marcos teria encurtado o relato para enfatizar a devoção total dos novos discípulos a JesusKilgallen 39.

Marcos afirma que os irmãos Zebedeu tinham redes em e que o pai deles empregava outros. Karris defende que isto mostra que eles eram ricos e, muito provavelmente, bem educados, conhecedores da Bíblia judaica. Outros estudiosos citam para mostrar que eles eram iletrados, mas Karris se defende afirmando que esta leitura seria uma interpretação literal demais.

O chamado dos discípulos aparece também em João 1, Lucas 5 e Mateus 4.

Jesus em Cafarnaum e na Galileia