As palavras ditas e retornadas são referências religiosas recorrentes em preces católicas populares portuguesasFontes (197, p. 872) e brasileirasSão Paulo (1959, p. 207). As palavras, cujo número varia conforme a tradição - podendo ser 12, 13Memória Média.As treze palavras ditas e retornadas. Disponível em <www.memoriamedia.net>. Acesso em 5 jan. 2015 ou 15 -, não se referem a vocábulos individuais; antes, dizem respeito a acontecimentos e dogmas ligados à tradição católica, quer oficial ou popular, que tenham relação com a ordem numérica. As palavras ditas e retornadas geralmente se inserem em complexas orações, em que se narra o desafio proposto pelo demônio àquele que as venha proferirLopes (1998, p. 57), ou ao seu Anjo da GuardaLima (1964, p. 167). O diálogo inicial entre o demônio e o protagonista - geralmente chamado de Custódio ou Cristóvão - permeia toda a prece, e varia imensamente conforme a tradição. Em algumas delas, aliás, sequer se menciona o diabo, tornando sua menção implícita. Um exemplo paradigmático da disputa entre os interlocutores é fornecido por Pedroso ([200?], p. 88), que a informa da seguinte maneira:

Diabo - Custódio amigo, tu queres ser santo? Pessoa - Custódio sim, amigo teu não! Quero sim, pela graça de Deus E do Divino Espírito Santo Diabo - Hás de dizer-me doze palavras ditas e retornadas. Quais (sic) delas é a primeira [ou qual delas é a um][...]Pedroso ([200?], p. 88)

Frente à provocação do demônio, deve-se dizer a referência religiosa equivalente ao número por ele proposto mais as antecedentes. Assim, dita a segunda referência religiosa, deve-se dizer também a primeira, e dita a terceira, deve-se dizer também a segunda e a primeira, e assim sucessivamente. A interrupção da prece ou erro no encadeamento das referências religiosas, segundo a tradição popular, significaria tornar-se vulnerável às artimanhas do demônio, de modo que a execução da prece somente deve se realizar em situações extremas. A referência religiosa associada a cada número varia grandemente conforme o lugar em que se recite. Na tentativa de tornar fácil o entendimento, pode-se propor a seguinte ordem numérica, sem pretensão de fazê-la exaustiva de todas as possibilidades:

Um: o sol mais claro que a lua São Paulo (1959, p. 206), o Senhor Jesus Cristo ou a Santa Casa de JerusalémPedroso ([200?], p. 89).Dois: as duas tábuas de Moisés.Três: as três pessoas da Santíssima Trindade ou os três profetas: Abraão, Isaque e JacóQuatro: os quatro evangelistasCinco: as cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo Fontes (1987, p. 873)Seis: os seis filhos bentos, os seis celebrantes ou os seis círios bentosSete: os sete coros de anjos, os sete pecados mortais ou os sete sacramentosFontes (1987, p. 874).Oito: os oito coros de anjos ou os oito corpos santosNove: os nove meses em que Nossa Senhora trouxe seu menino no ventre ou os nove salmos sentenciados Dez: os dez mandamentos Onze: as onze mil virgensDoze''': os doze apóstolos de CristoA última estrofe, na maioria das vezes a decima terceira, pode conter um exconjuro ao demônio, conforme demonstra Fontes (1987, p. 874):

Treze raios tem o sol Treze raios tem a lua; Parte-te daqui, demônio, p'ro inferno Que esta alma não é tua

Em outros casos, entretanto, a prece pode se estender para além de 13, e findar com a recitação do Pai Nosso, Ave Maria, ou outra reza católica, dedicadas às Cinco Chagas de Cristo ou outra devoção.

A tradição popular atribui propriedades extraordinárias a essas orações: recitadas sobre os agonizantes, teriam a capacidade de o salvar do inferno; ademais, possuiriam a capacidade de fazer envultar quem as recite, apagar queimadas e proteger dos perigos do corpo e da alma, atuando de maneira tão forte que o recitador se sentiria abatido depois de as dizerJangada Brasil. Oração do Anjo Custódio. Disponível em <jangadabrasil.com.br>. Acesso em 5 jan. 2015.

Bibliografia FONTES, M. da C. Romanceiro da Província de Trás-os-Montes (distrito de Bragança). Tomo I. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1987. LIMA, F. de C. P. Revista de etnografia. Volumes 3-4. Póvoa do Varzim: Museu de Etnografia e História, 1964. LOPES, A. Tempo de soltícios. Santarém: O Mirante, 1998. PEDROSO, C. Tradições Populares Portuguesas. Braga: Vercial, [200?]. SÃO PAULO. Revista do Arquivo Municipal de São Paulo''. Volumes 162-164. São Paulo: Diretoria do Protocolo e Arquivo da Prefeitura, 1959

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