thumb|Página inicial da primeira edição estadunidense da obra A Vindication of the Rights of Woman: with Strictures on Political and Moral Subjects () é um livro publicado em 1792 da autoria de Mary Wollstonecraft, uma proto-feminista britânica do século XVIII, e uma das primeiras obras de filosofia feminista. A primeira tradução direta e integral da obra de Mary Wollstonecraft, para a língua portuguesa foi realizada por Elisabete M. de Sousa, publicada em Portugal pela editora Antígona em 2017. Nela, Wollstonecraft responde aos teóricos da educação e política do século XVIII que não acreditam que as mulheres devem ter acesso ao sistema educacional, argumentando que as mulheres devem ter uma educação compatível com a sua posição na sociedade, que as mulheres são essenciais para a nação, porque educam seus filhos e poderiam ser "companheiras racionais" para seus maridos, ao invés de meras esposas. Em lugar de ver as mulheres como enfeites para a sociedade, ou uma propriedade a ser negociada no casamento, Wollstonecraft afirma que elas são seres humanos merecedores dos mesmos direitos fundamentais fornecidos aos homens.

Wollstonecraft foi impelida a escrever os Direitos da Mulher depois de ler o relatório de 1791 feito por Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord para a Assembleia Nacional Francesa, o qual afirmava que as mulheres só deveriam receber uma educação doméstica; ela usou seu comentário sobre este evento específico para lançar um amplo ataque contra as desigualdades de gênero e contra os homens por encorajarem as mulheres a se entregarem aos excessos emocionais. Wollstonecraft escreveu a obra às pressas para responder diretamente aos eventos em curso; tinha a intenção de escrever um segundo volume mais profundo, mas morreu antes de concluí-lo.

Enquanto Wollstonecraft põe a igualdade entre os sexos em determinadas áreas da vida, como a moralidade, ela não afirma explicitamente que homens e mulheres são iguais. Suas declarações ambíguas a respeito da igualdade entre os sexos, desde então, tornaram difícil classificar Wollstonecraft como uma feminista no sentido moderno, particularmente porque a palavra e o conceito ainda não existiam na época. Embora seja comumente assumido que os Direitos da Mulher foi recebido de forma desfavorável, isto é um equívoco moderno baseado na crença de que Wollstonecraft foi tão criticada durante sua vida como ela foi depois da publicação de Memoirs of the Author of A Vindication of the Rights of Woman (1798), do seu marido William Godwin. A obra de Wollstonecraft foi realmente bem recebida quando foi publicada pela primeira vez em 1792. Um contemporâneo chamou-o de "talvez o livro mais original do século".Sunstein, 3.

Contexto histórico esquerda|miniaturadaimagem|Charles-Maurice de Talleyrand por Pierre-Paul Prud'hon Reivindicação dos Direitos da Mulher foi escrito no pano de fundo da tumultuada Revolução Francesa e os debates que ela gerou na Grã-Bretanha. Em uma animada e às vezes cruel guerra de panfletos, agora conhecido como a Controvérsia da Revolução, comentaristas políticos britânicos abordaram temas que vão desde o governo representativo e os direitos humanos até a separação entre a igreja e o estado; muitas destas questões foram levantadas inicialmente na França. Mary Wollstonecraft entrou pela primeira vez nesta briga em 1790, com Uma Reivindicação dos Direitos dos Homens, uma resposta às Reflexões de Edmund Burke sobre a Revolução na França (1790).Macdonald e Scherf, Introduction, 11–12. Em suas reflexões, Burke criticou a visão de muitos pensadores e escritores britânicos que receberam favoravelmente os primeiros estágios da Revolução Francesa. Enquanto eles viram a revolução como análoga à própria Revolução Gloriosa da Grã-Bretanha em 1688, que havia restringido os poderes da monarquia, Burke argumentou que a analogia histórica adequada era a Guerra Civil Inglesa (1642-1651), na qual Charles I foi executado em 1649. Ele via a Revolução Francesa como a derrubada violenta de um governo legítimo. Em Reflexões, ele argumenta que os cidadãos não têm o direito de se revoltar contra seu governo porque a civilização é o resultado do consenso social e político; suas tradições não podem ser continuamente desafiadas porque o resultado seria a anarquia. Um dos principais argumentos do Direitos dos Homens de Wollstonecraft, publicado seis semanas após Reflexões de Burke, é que os direitos não podem ser baseados na tradição; direitos, ela argumenta, devem ser conferidos porque são razoáveis ​​e justos, independentemente da sua base na tradição.Wollstonecraft, Vindications, 43–44

Quando Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord apresentou seu Rapport sur l'instruction publique (Relatório sobre a instrução pública, 1791) à Assembleia Nacional na França, Wollstonecraft foi estimulada para responder.Kelly, 107; Sapiro, 26–27. Em suas recomendações para um sistema nacional de educação, Talleyrand havia escrito:Talleyrand, Rapport sur l'instruction publique, relançado em Vindications, 394–95 miniaturadaimagem|Olympe de Gouges 

Wollstonecraft dedicou os Direitos da Mulher a Talleyrand: "Depois de ler com grande prazer um panfleto que você recentemente publicou, dedico este volume para você; para induzi-lo a reconsiderar o assunto, e maduramente pesar o que eu trago sobre os direitos da mulher e a educação nacional".Wollstonecraft, Vindications, 101 No final de 1791, a feminista francesa, Olympe de Gouges, tinha publicado sua Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, e a questão dos direitos das mulheres tornou-se central para os debates políticos na França e na Grã-Bretanha.

Os Direitos da Mulher é uma extensão dos argumentos de Wollstonecraft nos Direitos dos Homens. Neste, como o título sugere, ela está preocupada particularmente com os direitos dos homens (britânicos do século XVIII), enquanto em Direitos da Mulher ela está preocupada com os direitos concedidos à "mulher" como uma categoria abstrata. Wollstonecraft não confina seus argumentos às mulheres do século XVIII ou às mulheres britânicas. O primeiro capítulo dos Direitos da Mulher aborda a questão dos direitos naturais e questiona quem têm estes direitos inalienáveis e quais as razões. Ela responde que se os direitos naturais são dados por Deus, é um pecado um segmento da sociedade negá-los a outro segmento. Direitos da Mulher envolve, portanto, não apenas eventos específicos na França e Grã-Bretanha, mas também questões maiores levantadas por filósofos políticos como John Locke e Jean-Jacques Rousseau.Sapiro, 182–84.

Temas da obra Ao compor suas obras Wollstonecraft não empregou a argumentação formal ou estilo de prosa lógica que era comum aos escritos filosóficos do século XVIII. Os Direitos da Mulher é um longo ensaio que introduz os seus principais temas nos capítulos de abertura e depois retorna a eles, cada vez a partir de um ponto de vista diferente. Ela também adota um tom híbrido que combina o argumento racional com a retórica fervorosa da sensibilidade.Kelly, 110.

No século XVIII, a sensibilidade era considerada um fenômeno físico, que veio a ser ligado a um conjunto específico de crenças morais. Médicos e anatomistas acreditavam que se as pessoas têm nervos mais sensíveis, mais emocionalmente elas são afetadas por fatores externos. Desde que as mulheres eram vistas como tendo ​​nervos mais aguçados do que os homens, também acreditava-se que as mulheres eram mais emocionais do que os homens.Barker-Benfield, 9. O excesso emocional associado com a sensibilidade também produziu teoricamente uma ética da compaixão: aqueles com sensibilidade poderiam facilmente simpatizar com pessoas em sofrimento. Assim, os historiadores têm creditado o discurso da sensibilidade e aqueles que a promoveram, com o aumento dos esforços humanitários, tais como o movimento para abolir o tráfico de escravos.Barker-Benfield, 224. Mas a sensibilidade também paralisava aqueles que tinham muito dela; o estudioso G. J. Barker-Benfield explica que, "um refinamento inato dos nervos também foi identificável com maior sofrimento, fraqueza, e uma susceptibilidade à desordem".

Durante o período em que Wollstonecraft estava escrevendo os Direitos da Mulher, a sensibilidade já estava recebendo ataques há vários anos.Todd, Sensibility, 144. A sensibilidade, que tinha inicialmente prometido levar os indivíduos à união através da simpatia, passou a ser vista como "profundamente separatista"; os romances, peças de teatro e poemas empregavam a linguagem da sensibilidade para afirmar direitos individuais, liberdade sexual e relações familiares não convencionais sustentados apenas em cima do sentimento.Todd, Sensibility, 136. Além disso, como argumenta Janet Todd, uma estudiosa da sensibilidade, "para muitos na Grã-Bretanha, o culto à sensibilidade parecia ter afeminado a nação, dando às mulheres proeminência indevida e emasculando os homens".Todd, Sensibility, 133.

Educação racional esquerda|miniaturadaimagem|O principal tema da obra de Wollstonecraft é a educação feminina, ela defende que as mulheres sejam letradas, cultas e racionais. Pintura: La Lecon De Piano de Marguerite Gérard. Um dos argumentos centrais de Wollstonecraft em Direitos da Mulher é que as mulheres devem ser educadas de forma racional para dar-lhes a oportunidade de contribuir para a sociedade. No século XVIII, foi frequentemente assumido por filósofos educacionais e por autores que escreviam o que poderia ser o precursores dos livros de auto-ajuda,Batchelor, Jennie. "Conduct Book." The Literary Encyclopedia.  que as mulheres eram incapazes de pensamento racional ou abstrato. Mulheres, acreditava-se, eram muito suscetíveis à sensibilidade e frágeis demais para serem capazes de pensar com clareza. Wollstonecraft, juntamente com outras reformadoras, como Catharine Macaulay e Hester Chapone, sustentaram que as mulheres eram capazes de pensamento racional e mereciam ser educadas. Ela argumentou este ponto em seu próprio livro de conduta, Thoughts on the Education of Daughters (1787), em seu livro infantil, Original Stories from Real Life (1788), bem como nos Direitos da Mulher.Wollstonecraft, Vindications, 169ff; Kelly, 123; Taylor, 14–15; Sapiro, 27–28; 243–44.

Wollstonecraft afirmou em seu prefácio que "o meu principal argumento é construído sobre este princípio simples, que, se [a mulher] não for preparada pela educação para se tornar uma companheira do homem, ela vai interromper o progresso do conhecimento e da virtude, pois a verdade deve ser acessível a todos". Ela alega que a sociedade degenerará sem mulheres instruídas, especialmente porque as mães são as primeiras educadoras dos filhos.Wollstonecraft, Vindications, 102; Sapiro, 154–55. Ela atribui o problema das mulheres sem instrução aos homens e denuncia "um falso sistema de educação, recolhido a partir dos livros escritos sobre este assunto por homens que [as consideram] fêmeas, em vez de mulheres que são criaturas humanas".Wollstonecraft, Vindications, 109. As mulheres são capazes de racionalidade; apenas parece que não são porque os homens recusam-se a educá-las e as encorajam a ser frívolas (Wollstonecraft descreve as mulheres tolas como "servis" e "brinquedos"Wollstonecraft, Vindications, 144.).Kelly, 124–26; Taylor, 234–37; Sapiro, 129–30. Embora sublinhando que é a mesma razão, ela deixa implícito a noção de que as mulheres podem não ser capazes de atingir o mesmo grau de conhecimento que os homens.Tong, Rosemarie (2009). Feminist Thought: A More Comprehensive Introduction (3 ed.). Westview Press (Perseus Books). p. 20. ISBN 978-0-8133-4375-4.