Pombo-verde-malhado ou pombo-pontilhado (nome científico:Caloenas maculata) é uma espécie de pombo de proveniência desconhecida e presumido extinto. Foi mencionado e descrito pela primeira vez em 1783 por John Latham, que afirmou ter visto dois espécimes e um desenho retratando a ave. Suas relações taxonômicas permaneceram obscuras por muito tempo. Cientistas antigos sugeriram muitas possibilidades, mas a ideia de que a espécie era próxima do pombo-de-nicobar prevaleceu, sendo por isso classificada no gênero Caloenas. Restou hoje apenas um único exemplar, mantido no World Museum, em Liverpool. Negligenciado durante grande parte do século XX, só foi reconhecido como espécie válida pela Lista Vermelha da IUCN em 2008. Um estudo genético realizado em 2014 confirmou-o como uma espécie distinta relacionada com o pombo-de-nicobar, e mostrou que os dois eram os "primos" mais próximos dos extintos dodô e solitário-de-rodrigues.
O espécime sobrevivente mede 32 cm de comprimento, e tem uma plumagem marrom-escura com um brilho verde. As penas do pescoço são alongadas, e na maioria das penas das partes superiores e das asas há uma mancha amarelada na ponta. Ele tem uma bico preto com a ponta amarela, e a extremidade da cauda tem uma faixa pálida. Possui pernas relativamente curtas e asas longas. Pensava-se que tinha uma carúncula na base do bico, mas não há nenhuma evidência dessa característica. Ao contrário do pombo-de-nicobar, que é principalmente terrestre, as características físicas do Caloenas maculata sugerem que tinha hábitos arbóreos e se alimentava de frutas. Pode ter sido nativo de uma ilha em algum lugar no sul do Oceano Pacífico ou no Índico, e em 1928 foi levantada a possibilidade de que uma ave chamada de titi por nativos do Taiti tenha sido este pombo. Os cientistas acreditam que já estava perto da extinção na época da chegada dos europeus na sua área nativa, e pode ter desaparecido devido à caça excessiva e predação por animais introduzidos.
Taxonomia 200px|miniaturadaimagem|esquerda|Ilustração de John Latham para a obra A General History of Birds, 1823 O pombo-verde-malhado ou pombo-pontilhado foi mencionado e descrito pela primeira vez na obra do ornitólogo inglês John Latham A General Synopsis of Birds, publicada em 1783. Nela, o autor afirma que viu dois exemplares: um na coleção do major britânico Thomas Davies e o outro na do naturalista Joseph Banks. Não se sabe ao certo como os espécimes foram parar nesses acervos, e a origem deles é desconhecida. O fato de Banks ter recebido muito material do explorador britânico James Cook, e Davies de seus contatos em Nova Gales do Sul, Austrália, fez com que fosse levantada a hipótese de que a ave é originária do Pacífico sul, embora não haja registros confirmando essa suposição. Após a morte de Davies, seu espécime foi comprado por Edward Smith-Stanley, 13.º Conde de Derby, em 1812, que o manteve no Knowsley Hall. A coleção Smith-Stanley foi transferida para o Derby Museum em 1851, onde o espécime, na época empalhado na posição original (talvez taxidermizado pelo próprio Davies), foi preparado para ser incluído numa coleção científica de aves. O museu viria a se tornar o World Museum de Liverpool, local que atualmente abriga o pombo (numerado como WML 3538). O exemplar de Banks encontra-se perdido nos dias de hoje. Latham também mencionou um desenho do pombo na coleção Ashton Lever, mas não se sabe qual espécime serviu de modelo para a ilustração; pode ter sido qualquer um dos dois, ou até um terceiro indivíduo. Latham incluiu um desenho do pombo na sua obra A General History of Birds (1823), e, embora não se saiba qual foi o modelo de sua ilustração, ela difere do espécime de Davies em alguns detalhes. É possível que tenha sido feita com base no desenho da Coleção Leveriana, uma vez que Latham afirmou que a ilustração mostrava a ponta da cauda de cor de ferrugem escura, uma característica também retratada em seu próprio desenho.
miniaturadaimagem|World Museum, Liverpool, onde o único exemplar está guardado O pombo foi nomeado cientificamente por Johann Friedrich Gmelin em 1789, com base na descrição de Latham. O nome binomial original, Columba maculata, significa "pombo manchado" em latim. O próprio Latham aceitou este nome, e o utilizou na sua obra Index ornithologicus em 1790. Uma vez que Latham parece ter baseado sua descrição de 1783 no espécime de Davies, este, portanto, pode ser considerado o espécime holótipo da espécie. Mais tarde, pesquisadores questionaram a validade e os parentescos da espécie; James Francis Stephens sugeriu que ele pertencia ao gênero Ptilinopus em 1826, e Johann Georg Wagler, por sua vez, levantou a possibilidade de que se tratasse de um jovem pombo-de-nicobar (Caloenas nicobarica) em 1827. Tommaso Salvadori listou a ave num apêndice sobre "espécies duvidosas de pombos, que ainda não foram identificados" em 1893. Em 1898, Henry Ogg Forbes apoiou a validade da espécie, depois de examinar exemplares do pombo-de-nicobar e concluir que nenhum se parecia com o Caloenas maculata em qualquer estágio de desenvolvimento. Ele, portanto, a considerou uma espécie distinta do mesmo gênero do pombo-de-nicobar, Caloenas. Em 1901, Walter Rothschild e Ernst Hartert concordaram que o pombo pertencia aos Caloenas, mas sugeriram que era, provavelmente, uma "anormalidade", embora houvesse o registro de mais de um espécime.
Ao longo do século XX, o pombo foi apenas esporadicamente mencionado na literatura; pouca informação nova foi publicada e ele permaneceu um enigma. Em 2001, Errol Fuller sugeriu que a ave tinha sido historicamente negligenciada porque Rothschild (um ávido colecionador de aves raras) admitiu-a como uma aberração, talvez porque não era ele o dono do único espécime existente. Fuller considerou-a uma espécie extinta válida, e também cunhou um nome popular alternativo em inglês para a ave: "Liverpool pigeon" (o nome mais comum é "Spotted green pigeon"). Como o aval de Fuller, a BirdLife International listou o pombo como "Extinto" na Lista Vermelha da IUCN em 2008; até então era tido como "não reconhecido". Em 2001, o ornitólogo David Gibbs afirmou que o pombo era apenas superficialmente semelhante ao pombo-de-nicobar, e possivelmente distinto o suficiente para justificar seu próprio gênero (relacionado com Ptilinopus, Ducula, ou Gymnophaps). Ele também levantou a hipótese de que a ave poderia ter habitado uma ilha no Pacífico, baseado em histórias contadas por moradores do Taiti em 1928 a cerca de um pássaro salpicado de verde e branco chamado titi. O paleontólogo David Steadman contestou esta ideia numa resenha do livro, ressaltando que titi é uma palavra onomatopoeica (que se assemelha ao som emitido por um animal) usada especialmente para alguns tipos da aves marinhas (membros da família Procellariidae) no leste da Polinésia. Os ornitólogos Julian Hume e Michael Walters, escrevendo em 2012, concordaram com Gibbs que a ave deve ter um gênero só para si.
Evolução miniaturadaimagem|O pombo-de-nicobar pertence ao mesmo gênero Em 2014, uma análise de DNA antigo feita pelo geneticista Tim H. Heupink e colaboradores comparou os genes do único espécime de Caloenas maculata com os de outros pombos, com base em amostras extraídas a partir de duas das suas penas. Uma das árvores filogenéticas (ou cladogramas) resultantes é mostrada abaixo:
miniaturadaimagem|O dodô está entre os "primos" mais próximo de Caloenas maculata Caloenas maculata mostrou-se mais próximo do pombo-de-nicobar. A distância genética entre eles era maior do que é vista entre outras espécies de pombos, mas semelhante à distância entre espécies diferentes dentro do mesmo gênero. Isto confirmou que os dois eram espécies distintas do mesmo gênero, e que o C. maculata pertenceu a um táxon único extinto. O gênero Caloenas foi colocado em um clado mais amplo no qual a maioria dos membros possui uma mistura de características arbóreas (que vivem em árvores) e terrestres (que habitam o solo). O fato dos Caloenas terem sido colocados num clado morfologicamente diversificado pode explicar a razão pela qual muitas relações diferentes terem sido previamente propostas para os membros do gênero. Uma terceira espécie do gênero Caloenas, o C. canacorum, só é conhecida a partir de subfósseis descobertos na Nova Caledônia e Tonga. Esta espécie era maior do que os dois outros membros do gênero, por isso é improvável que represente a mesma espécie do C. maculata. A possibilidade de que esta última tenha sido um híbrido entre outras espécies pode também ser desconsiderada com base nos resultados genéticos.
A distribuição do pombo-de-nicobar e do C. canacorum (que não parecem ter tido habilidades de voo diminuídas) sugere a dispersão de ilha em ilha, e uma origem para o C. maculata na Oceania ou sudeste asiático. O fato dos parentes mais próximos dos Caloenas serem a subfamília extinta Raphidae (demonstrado antes num estudo de 2002), que consiste no dodô de Maurício e o solitário-de-rodrigues de Rodrigues, indica que o C. maculata também poderia ter se originado em algum lugar no Oceano Índico. De qualquer maneira, parece mais provável que a ave habitava uma ilha, tal como seus "primos". A posição dos pombos Caloenas num clado na base da linhagem que leva aos Raphidae indica que os antepassados do dodô e do solitário-de-rodrigues foram capazes de voar, e chegaram às ilhas Mascarenhas por "passeios" pelas ilhas do sul da Ásia.
Descrição A descrição da espécie feita por John Latham em 1823 para a sua obra A General History of Birds, expandida a partir da que consta em A General Synopsis of Birds, afirma que a ave tinha:
miniaturadaimagem|Versão alternativa do desenho de Latham de 1823. Note as asas longas Doze polegadas de comprimento. Bico preto, com a ponta amarelo pálido; ao redor dos olhos praticamente sem penas; cor geral da plumagem verde escuro e brilhante; a cabeça e o pescoço são mais escuros que o restante do corpo, e de uma única cor; as penas do pescoço são longas e estreitas, como as penas eriçadas de um galo; cada uma das penas das asas e escápulas têm na extremidade uma mancha branca-acinzentada muito pálida, com um prolongamento ascendente mais ou menos triangular: as penas maiores das asas e a cauda são pretas; as penas da primeira têm a ponta branca-acinzentada, e as da última branca ferruginosa, até mesmo no final; abdome, coxas e crisso pretos: as pernas são marrons, e as canelas cobertas até a metade com penugem; garras pretas. Vimos apenas dois espécimes; um na coleção do general Davies, o outro em posse de Sir Joseph Banks. No desenho de um exemplar na coleção de Sir Ashton Lever, a extremidade da cauda é ferruginosa escura.Tradução livre de: "Length twelve inches. Bill black, tipped with pale yellow; round the eye somewhat naked; general colour of the plumage dark green, and glossy; the head and neck are darker than the rest, and of one plain colour; the feathers of the neck long and narrow, like the hackles of a Cock; every feather of the wings and scapulars tipped with a spot of very pale cinereous white, with a point running upwards, somewhat triangular: quills and tail black; the feathers of the first tipped with cinereous white, those of the last with ferruginous white, and even at the end: belly, thighs, and vent, dusky black: the legs are brown, and the shins covered half way with downy feathers; claws black. We have only seen two specimens; one in the collection of Gen. Davies, the other in possession of Sir Joseph Banks. In a drawing of one at Sir Ashton Lever's, the end of the tail is deep ferruginous."