Hinterkaifeck é uma pequena fazenda situada entre as cidades bávaras de Ingolstadt e Schrobenhausen (aproximadamente 70 km ao norte de Munique) que foi palco de um dos crimes mais famosos da Alemanha. Na noite de 31 de Março de 1922, os seis moradores da fazenda foram mortos com uma enxada. O assassinato permanece sem solução até hoje.Leuschner, Peter (1997): Hinterkaifeck. Spuren eines mysteriösen Verbrechens. p. 76 ff.
As seis vítimas eram os fazendeiros Andreas Gruber (63) e a esposa dele Cäzilia (72); a filha viúva deles Viktoria Gabriel (35) e os dois filhos dela, Cäzilia (7) e Josef (2); e a empregada Maria Baumgartner (44). Houve rumores que Josef era filho de Viktoria e o seu pai Andreas, que tiveram uma relação incestuosa.
Localização Construída por volta de 1863, Hinterkaifeck (o prefixo hinter, que é parte dos nomes de diversos lugares em alemão, significa “atrás”) nunca foi oficialmente o nome de um lugar ou um distrito separado com esse nome, e sim o nome não-oficial de uma casa. Perto de Kaifeck fica um Einödhof, ou um loteamento de fazenda única, localizado a cerca de 1 km ao sul da “fazenda dos assassinatos” na rodovia municipal para Schrobenhausen. A fazenda, no entanto, não pertencia a Kaifeck, mas ao vilarejo de Gröbern como a casa de número 27 ½ do município de Wagen, e foi incorporada a Waidhofen em 1971.
Menos de um ano após os assassinatos, e depois da investigação, a fazenda foi completamente demolida, revelando evidências adicionais (a enxada escondida no sótão e um canivete no feno do celeiro). Desde então, o local não teve nenhuma construção, exceto um altar memorial e hoje a antiga terra de Hinterkaifeck é uma área de agricultura aberta.
Assassinatos Prelúdio
Coisas estranhas começaram a acontecer em HInterkaifeck algum tempo antes do ataque. Seis meses antes do ataque, a empregada da família pediu demissão, alegando ter ouvido sons estranhos e dizendo acreditar que a casa era assombrada. Andreas Gruber encontrou um jornal estranho, de Munique, na propriedade em março de 1922. Ele não se lembrava de tê-lo comprado e por isso Gruber inicialmente achou que o carteiro havia perdido o jornal. Esse não era o caso, entretanto, já que ninguém na vizinhança recebia esse jornal. Apenas dias antes dos assassinatos, Gruber contou aos vizinhos que ele havia descoberto rastros na neve fresca que levavam da floresta até uma porta quebrada na casa de máquinas da fazenda. Enquanto isso por si só não era perturbador, foi o fato de que as marcas não saíam da fazenda que o deixou nervoso. Por volta do mesmo período, algumas chaves da família sumiram.
Mais tarde, durante a noite, eles ouviram passos no sótão, mas Gruber não encontrou ninguém quando revistou a propriedade. Apesar de ele ter contado a diversas pessoas sobre essas supostas observações, ele recusou ajuda e os detalhes não foram relatados à polícia. De acordo com um amigo de escola de Cäzilia Gabriel, a menina de sete anos contou que sua mãe, Viktoria, havia fugido da fazenda na noite anterior ao ato depois de uma briga violenta e só foi encontrada horas depois, na floresta. A família também observou repetidas vezes um homem com um bigode parado na orla da floresta, olhando em direção à casa, aparentemente os observando.
31 de março – 1 de abril de 1922
Na tarde de 31 de março de 1922, uma sexta-feira, a nova empregada, Maria Baumgartner, chegou à fazenda. A irmã de Maria a havia acompanhado até lá e partiu da fazendo após uma curta estadia. Ela foi provavelmente a última pessoa a ver os habitantes vivos. Parece que tarde da noite, Viktoria Gabriel; sua filha de sete anos, Cäzilia; e seus pais, Andreas e Cäzilia foram atraídos para o celeiro da família através do estábulo, onde foram assassinados, um de cada vez. O perpetrador (ou perpetradores) usou uma enxada da família para mata-los com golpes na cabeça. O perpetrador então entrou na casa, onde – com a mesma arma do crime – ele matou Baumgartner em seu quarto. Ele presumivelmente matou Josef por último, visto que ele dormia em um berço no quarto de sua mãe.
Descoberta
Quatro dias se passaram entre os assassinatos e a descoberta dos corpos. Em 1 de abril, os vendedores de café Hans Schirovsky e Eduard Schirovsky chegaram em Hinterkaifeck para fazer uma entrega. Quando ninguém respondeu às batidas na porta e nas janelas, eles deram a volta pelo jardim, mas não viram ninguém. Eles só notaram que o portão para a casa de máquinas estava aberto antes de decidirem sair. Cäzilia Gabriel se ausentou da escola sem justificativa pelos próximos dias e a família não compareceu ao culto de domingo. Na segunda-feira, 3 de abril, o carteiro, Josef Mayer, estava entregando o correio em Hinterkaifeck quando percebeu que a correspondência de sábado ainda estava onde ele a havia deixado e que ninguém havia estado no jardim.
O funcionário Albert Hofner foi até Hinterkaifeck em 4 de abril para consertar o motor do triturador de alimentos. Ele disse que não viu ninguém da família nem ouviu qualquer coisa som os dos animais da fazenda e do cachorro dentro do celeiro. Depois de esperar por uma hora, ele decidiu começar o reparo, que completou em cerca de 4h30m. Em Gröbern, cerca de 14h30m, ele encontrou as filhas do guia do vilarejo, Lorenz Schlittenbauer, e disse a ele que os reparos em Hinterkaifeck haviam sido feitos. Hofner também contou a Georg Greger, o prefeito de Wangen, sobre o vazio fantasmagórico de Hinterkaifeck.
Por volta de 15h30m, Schlittenbauer mandou seu filho, Johan (16), e seu enteado, Josef (9), para Hinterkaifeck, com a esperança de estabelecer contato com a família. Quando eles relataram não ter visto ninguém, o próprio Schlittenbauer foi até a fazenda no mesmo dia com Michael Pöll e Jakob Sigl. Ao entrar no celeiro, eles encontraram os corpos de Andreas Gruber; sua esposa, Cäzilia Gruber; sua filha, Viktoria Gabriel; e sua neta, Cäzilia Gabriel. Pouco depois, eles encontraram a empregada, Maria Baumgartner, e o mais jovem membro da família, Josef, assassinados dentro da casa.
Investigação O inspetor Georg Reingruber e seus colegas do Departamento de Polícia de Munique investigaram os assassinatos. Investigações iniciais foram atrapalhadas pelo número de pessoas que haviam interagido com a cena do crime, movido corpos e itens, e até mesmo cozinhado e comido na cozinha. Um dia depois da descoberta dos corpos, o médico da corte Johann Baptist Aumüller realizou as autópsias no celeiro. Foi estabelecido que uma enxada era a arma do crime mais provável, apesar de a arma em si não estar na cena do crime. Evidências mostravam que a jovem Cäzilia havia ficado viva por várias horas após o ataque – ela havia arrancado tufos de seu cabelo enquanto estava deitada na palha. Os crânios das vítimas foram removidos e enviados para Munique, onde foram examinados mais minuciosamente. As cabeças foram, por fim, mantidas em um prédio da justiça em Augsburgo e então perdidas, possivelmente destruídas nos bombardeios dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. No sábado, 8 de abril, as vítimas foram enterradas no cemitério de Waidhofen.
A polícia inicialmente suspeitou que o motivo do crime fosse roubo, e interrogou artesãos viajantes, vadios, e diversos habitantes dos vilarejos vizinhos. Quando uma grande quantia de dinheiro foi encontrada na casa, eles abandonaram essa teoria. Estava claro que o(s) perpetrador(es) havia(m) permanecido na fazenda por vários dias: alguém havia alimentado o gado, comido todo o suprimento de pão da cozinha, e tinha recentemente cortado carne da despensa. Também era possível que o perpetrador houvesse ficado na casa por alguns dias depois da descoberta. Vizinhos também relataram fumaça saindo da chaminé durante todo o final de semana. O perpetrador teria facilmente encontrado o dinheiro se um roubo fosse a intenção, mas o dinheiro estava intocado.
Sem uma motivação clara a ser encontrada na cena do crime, a polícia começou a formular uma lista de suspeitos. Apesar de repetidas prisões, nenhum assassino foi encontrado e o caso foi encerrado em 1955. Apesar disso, os últimos interrogatórios aconteceram em 1986, antes que o Kriminalhauptkommissar Konrad Müller se aposentasse. Ao todo, mais de 100 suspeitos foram interrogados ao longo dos anos, mas resultados conclusivos nunca foram encontrados.
Inconsistências
Na inspeção dos relatórios da comissão da corte, foi notado que as vítimas provavelmente haviam sido atraídas até o celeiro por uma agitação no estábulo resultante de barulhos dos animais. No entanto, quanto tentaram reproduzir as mesmas condições, percebeu-se que pelo menos gritos humanos no celeiro não podiam ser ouvidos de dentro da casa. Isso levanta a pergunta: por que os quatro integrantes mais velhos da família foram para o celeiro em primeiro lugar?
A sequência exata de eventos não pôde ser totalmente esclarecida. Foram tiradas apenas cinco fotos da cena do crime: duas dos corpos no celeiro, uma da empregada morta em seu quarto, uma do berço de Josef destruído e uma da vista da casa no jardim. Não tiraram impressões digitais. Uma reconstrução baseada nas posições dos corpos revelou que Viktoria Gabriel foi provavelmente a primeira a ser assassinada. Depois, foi a velha Cäzilia Gruber; seguida por seu marido, Andreas Gruber e, por fim, Cäzilia Gabriel. Na casa, a empregada deve ter sido morta antes de Josef.
Costuma-se assumir que o assassino já estava nas premissas, dentro do telhado, antes do ato, baseado no que Gruber contou aos vizinhos antes de sua morte. Algumas das evidências a favor dessa teoria, como telhas fora do lugar e sulcos no feno, foram mais tarde interpretadas como esconderijos possíveis para as atividades incestuosas de Gruber e Viktoria. Isso explicaria porque Gruber não notou nenhuma dessas irregularidades mesmo tendo revistado a casa minuciosamente várias vezes.
Na noite após o crime, três dias antes de os corpos serem descobertos, o artesão Michael Plöckl passou por Hinterkaifeck. Plöckl observou que o forno havia sido ligado por alguém. Essa pessoa se aproximou dele com uma lanterna e o cegou, o que fez com que ele se apressasse em continuar seu caminho. Plöckl também notou que a fumaça saindo da chaminé tinha um cheiro nojento. Esse incidente e o cheiro da fumaça não foram investigados.
No dia 1 de abril, às 15h, o fazendeiro e açougueiro Simon Reißländer, no caminho para sua casa, perto de Brunnen, viu duas figuras misteriosas na orla da floresta. Quando os estranhos o viram, eles viraram as costas para que seus rostos não ficassem visíveis. Mais tarde, quando ele ouviu falar dos assassinatos de Hinterkaifeck, ele achou possível que os estranhos estivessem envolvidos.
O funcionário Albert Hofner esteve em Hinterkaifeck fazendo consertos por diversas horas após o crime, mas só foi interrogado em 1925. Seu depoimento sugere que o perpetrador estava no quintal durante seus reparos. As portas da casa haviam sido trancadas e ele não encontrou ninguém, mas conseguia ouvir o cachorro latindo do lado de dentro. Quando terminou os consertos, um cachorro estava amarrado do lado de fora e a porta do celeiro estava aberta. Quando os homens descobriram o corpo mais tarde naquele dia, o cachorro estava dentro do celeiro e a porta havia sido fechada de novo.
Em meados de maio de 1927, há rumores que um estranho parou um residente de Waidhofen à meia-noite. Ele perguntou sobre os assassinatos, então gritou que ele era o assassino e correu para a floresta. Quem aquele homem era nunca foi descoberto.
Suspeitos Karl Gabriel