Museu da Música da Arquidiocese de Mariana (denominação estendida), Museu da Música de Mariana (denominação oficial a partir de 2001) ou apenas Museu da Música (denominação original), é uma instituição fundada em 6 de julho de 1973 pelo arcebispo de Mariana, Dom Oscar de Oliveira.

Pertenceu ao Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana até 2007 e é administrada pela Fundação Cultural e Educacional da Arquidiocese de Mariana desde então, com a finalidade de recolhimento, em caráter permanente, de instrumentos e acervos musicais históricos, originários principalmente da Arquidiocese de Mariana.

A instituição recebe pesquisadores interessados no repertório e na história musical mineira e brasileira, sedia um módulo expositivo para visitantes, oferece cursos e realiza eventos e projetos científicos, sociais, culturais e educacionais na área de música, com ênfase no patrimônio histórico-musical brasileiro, especialmente mineiro.

Localização e administração

Situado no centro histórico do município de Mariana (MG), o Museu da Música pertence à Arquidiocese de Mariana e, até 2007, era parte do Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana, passando a ser gerenciado, a partir desse ano, diretamente pela Fundação Cultural e Educacional da Arquidiocese de Mariana, como as demais instituições culturais e educacionais dessa administração eclesiástica. O Museu da Música surgiu nesta cidade em função de Mariana ter centralizado a atividade musical eclesiástica de Minas Gerais, pois foi sede episcopal desde 1748 e a sexta diocese brasileira, depois das dioceses da Bahia (1555), Rio de Janeiro (1676), Olinda (1676), Maranhão (1677) e Pará (1719), sendo elevada a arquidiocese em 1906. Primeira vila, cidade e capital de Minas Gerais, Mariana desenvolveu-se economicamente em função da mineração aurífera, tornando-se região agropastoril no século XIX e, na recente fase industrial, um centro minerador de ferro. A herança urbanística e eclesiástica de Mariana fez com que lá se concentrassem muitas reminiscências da antiga arte sacra, especialmente dos séculos XVIII e XIX, como fontes musicais impressas e manuscritas, livros litúrgicos e instrumentos musicais, incluindo o órgão histórico da Catedral de Mariana, construído no início do século XVIII e transferido para a Catedral de Mariana em 1753. O Museu da Música está atualmente instalado no Centro Cultural Dom Frei Manoel da Cruz, nas dependências do Antigo Palácio da Olaria (ou Palácio dos Bispos de Mariana), no bairro denominado Chácara ou São José (na antiga Rua da Olaria e atual Rua Cônego Amando), edifício histórico construído na primeira metade do século XVIII, já assinalado na conhecida Planta da Cidade de Mariana, atribuída ao engenheiro português José Fernandes Pinto Alpoim (1700-1765), entre o Seminário Menor da Boa Morte (atual Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal de Ouro Preto) e o Morro de São José (onde estão a Igreja de São Pedro dos Clérigos e o Seminário Maior de São José).

Função thumb|Visita ao Museu da Música de Mariana em junho de 2013|left O Museu da Música de Mariana tem como principal função receber, custodiar, conservar e disponibilizar, para pesquisa no local, manuscritos e impressos musicais históricos brasileiros, além de manter uma exposição permanente com manuscritos musicais e livros litúrgicos antigos, instrumentos musicais e fotografias. A instituição possui 15 coleções musicais, estando disponibilizadas em formato online o catálogo das três primeiras: a Coleção Dom Oscar de Oliveira (CDO), o Acervo do Seminario de Mariana (ASM) e o Arquivo Lavínia Cerqueira de Albuquerque (ALC). Constituído, desde sua fundação, como arquivo e museu, a instituição recebeu esse nome em decorrência da criação de organismos semelhantes por Dom Oscar de Oliveira, destinadas à proteção do patrimônio histórico e artístico marianense, como o Museu Arquidiocesano de Arte Sacra de Mariana em 1962 e o Museu do Livro de Mariana (constituído pela biblioteca histórica dos bispos de Mariana) em 1988. Além de receber constantemente pesquisadores e visitantes desde 1984, o Museu da Música de Mariana também oferece cursos, sedia eventos e realiza projetos científicos, sociais, culturais e educacionais relacionados ao patrimônio histórico-musical brasileiro, especialmente o patrimônio arquivístico-musical.

O Museu da Música foi a primeira instituição fundada no Brasil, com a função específica de recolher acervos musicais históricos, como reflexo das ações e discussões desencadeadas no país pelo musicólogo Francisco Curt Lange (1913-1997), o qual, desde 1944, havia reunido fontes musicais dos séculos XVIII a XX em várias cidades brasileiras (principalmente mineiras e paulistas), levando-as para sua residência, inicialmente no Rio de Janeiro e depois em Montevidéu (Uruguai), até seu definitivo recolhimento ao Museu da Inconfidência (Ouro Preto - MG), em 1983. A visão planejadora e a proposta inovadora do arcebispo de Mariana, no entanto, foram bastante transformadoras naquela época e naquele contexto: é certo que a ação colecionista de Curt Lange havia estimulado o desejo de construir coleções semelhantes no país, o que, de fato, começou a ocorrer a partir da década de 1960; para algumas dessas coleções, no entanto, o modelo de Curt Lange foi seguido integralmente, o que resultou em novos acervos pessoais, em propriedade de um pequeno número de pesquisadores. Foi nesse aspecto que se diferenciou a ação de Dom Oscar de Oliveira, ao criar a primeira coleção de fontes histórico-musicais em Minas Gerais para atender ao interesse público, abrindo-a oficialmente aos pesquisadores durante o I Encontro Nacional de Pesquisa em Música (Mariana, 1 a 4 de julho de 1984), o primeiro evento periódico brasileiro destinado à reunião dos especialistas que se dedicavam ao estudo do passado musical do país.

História O acervo musical do AEAM thumb|Igreja de São Pedro dos Clérigos de Mariana, onde foi inaugurado o Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana (AEAM), em 1965 O Museu da Música foi oficialmente fundado pelo terceiro arcebispo de Mariana, Dom Oscar de Oliveira (Entre Rios de Minas, 09/01/1912 - 25/02/1997, arcebispo entre 1960 e 1988), em 6 de julho de 1973, porém suas origens remontam ao ano de 1960, quando Dom Oscar assumiu a Arquidiocese de Mariana e publicou uma série de 13 artigos intitulados "Música sacra e liturgia", nos números 39 a 51 (de 12 de junho a 4 de setembro) do jornal marianense O Arquidiocesano. Manifestando grande interesse pela música sacra e pela documentação histórica, Dom Oscar fundou, em 1965, o Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana (AEAM), e a ele fez recolher o arquivo musical da Catedral de Mariana. Em 1966, o acervo musical do AEAM foi tema da reportagem “Visita ao maravilhoso reino da música antiga mariananese”, publicada por Wagner Ribeiro no jornal O Arquidiocesano, e em 1967, os músicos marianenses Aníbal Pedro Walter e Vicente Ângelo das Mercês eram assinalados como arquivistas da música nessa instituição.

thumb|Uma das gavetas originais do Fundo Barão de Cocais do Museu da Música de Mariana (CDO.02), em seu antigo armário-arquivo, em gavetas menores que os manuscritos, na Residência Arquiepiscopal em 2003|left miniaturadaimagem|"Lista das músicas pertencentes à Catedral que não foram entregues ao atual mestre da capela Senhor Quartel Mestre José Felipe Correia Lisboa por falecimento do Padre Mestre João de Deus" Em 1968, depois do provável desligamento de Aníbal Pedro Walter e Vicente Ângelo das Mercês do AEAM, Dom Oscar de Oliveira convidou, para a função de arquivista musical, a professora Maria Ercely Coutinho, que trabalhou na instituição de 1968 a 1972. Foi nesse período que o arcebispo começou a solicitar às famílias de músicos mineiros a doação de arquivos musicais, o que foi ocorrendo de forma cada vez mais intensa a partir dessa época: o primeiro desses acervos foi oferecido à Arquidiocese de Mariana em 1969 por José Henrique Ângelo (mestre Juca Henrique), filho do músico João Henrique Ângelo (falecido em 1940) e neto do também músico João Ângelo Pereira (falecido em 1899), todos atuantes em corporações musicais de Barão de Cocais (MG). Francisco Curt Lange, que tomou conhecimento do acervo musical do AEAM pela reportagem de 1966, começou a oferecer seu trabalho de arquivista a Dom Oscar de Oliveira em 1967, mas o arcebispo acabou aceitando a colaboração do padre José de Almeida Penalva (1924-2002), que já vinha trabalhando com os manuscritos musicais do Arquivo Manuel José Gomes, no Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas (SP), sua cidade natal. Em Mariana, José Penalva organizou e elaborou um catálogo do arquivo recebido de José Henrique Ângelo, publicado parcialmente no jornal O Arquidiocesano em 1972, com o título “Informe sobre acervo de música sacra dos séc. XVIII e XIX encontrado em Barão de Cocais (Minas Gerais) do Arquivo Eclesiástico de Mariana”, porém em sua forma integral no ano seguinte, na revista Cadernos, periódico do Studium Theologicum (claretiano) de Curitiba (PR), cidade na qual o Padre Penalva passou a residir após a finalização do trabalho em Mariana.

O arquivo musical da catedral de Mariana A primeira coleção de fontes musicais recolhida ao AEAM, descrita na Wagner Ribeiro em 1966, deve ter correspondido ao antigo arquivo musical da Catedral de Mariana, embora nele tenham sido incluídas, sem registro de entrada, fontes musicais originárias de várias instituições da cidade, especialmente da Ordem Terceira de São Francisco de Assis de Mariana. Não existem descrições completas do arquivo musical da Catedral de Mariana e nem registros sobre seu recolhimento à Cúria de Mariana, mas isso provavelmente ocorreu antes da reportagem de 1966 e após a promulgação do Motu Proprio Tra le sollecitudini (22 de novembro de 1903) do Papa Pio X, que acarretou o desuso da maior parte do repertório sacro dos séculos XVIII e XIX, decorrente da depuração do “funesto influxo que sobre a arte sacra exerce a arte profana e teatral”, solicitada pelo pontífice. Uma parte significativa das fontes musicais remanescentes do arquivo musical da Catedral de Mariana, recolhidas à Cúria nesse período, integram o atual Fundo Mariana (CDO.01) do Museu da Música. Comprova este fato a reportagem de Wagner Ribeiro de 1966, na qual estão descritas 19 fontes musicais do AEAM, presentes no Fundo Mariana, com a apresentação do incipit musical da Regina Cæli lætare (Antífona de Nossa Senhora) de José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (1746?-1805), a partir de uma cópia de 1779 (visível na imagem ao lado), o mais antigo manuscrito musical desse fundo e de todo o acervo do Museu da Música. thumb|Catedral de Mariana em 2015|left Na segunda metade do século XVIII e primeira metade do XIX, os mestres da capela da catedral de Mariana devem ter acumulado manuscritos em seu arquivo, especialmente João de Deus de Castro Lobo (1794-1832), do qual são conhecidas cerca de 40 composições. Vários documentos do século XIX atestam a relação entre o arquivo musical catedralício e o acervo musical encontrado por Dom Oscar de Oliveira na Cúria, como a Lista das músicas pertencentes à Catedral, de 1832, embora seja evidente que boa parte do repertório acumulado nessa igreja nos séculos XVIII e XIX tenha se perdido muito antes de chegar ao AEAM. Também existem razões para se acreditar que o arquivo musical da catedral - ou parte dele - tenha sido intencionalmente destruído após o falecimento de João de Deus de Castro Lobo, em decorrência do temor do contágio de doenças fatais, especialmente a tuberculose, provável causa mortis desse compositor e organista. thumb|Caetano de Souza Teles Guimarães (1813-1886), doador de "164 músicas" ao arquivo musical da Catedral de Mariana em 1882.