O Processo Revolucionário em Curso (PREC), também conhecido como Período Revolucionário em Curso, designa, em sentido lato, o período de actividades revolucionárias, marcante na História de Portugal, decorrido durante a Revolução dos Cravos, iniciada com o golpe militar de 25 de Abril de 1974 e concluída com a aprovação da Constituição Portuguesa, em Abril de 1976.O processo constitucional e a estabilidade do regime – Artigo de Carlos Gaspar, Análise Social, vol. XXV (105-106), 1990 (1.°, 2.°), 9-29 O termo, no entanto, é frequentemente usado para aludir ao período crítico do Verão Quente de 1975, com o seu antes e o seu depois, que culmina com a Crise de 25 de Novembro de 1975.O 25 de Novembro por Álvaro Cunhal O 'mistério' do 25 de Novembro de 1975 - Artigo de José Manuel Barroso (Opinião, Diário de Notícias)PREC (definição, os partidos e o 25 de Novembro] em CITI
Num sentido mais restrito, designa a acção dos partidos, quadros militares e grupos de esquerda que, por entre efervescente agitação popular e alguma desordem,Do 11 de Março ao 25 de Novembro de 1975 – Artigo em Portugal-Tchat conduziam o processo político do pós 25 de Abril «rumo ao socialismo». No processo estavam envolvidos militantes de uma vasta franja do espectro partidário de esquerda, desde o Partido Socialista (PS) aos mais radicais, como o maoista MRPP. Entre eles, apesar da contenda ideológica, havia coesão cerrada em torno dos chamados "ideais de Abril" e a convicção de que uma verdadeira justiça social seria instalada em Portugal.
Antecedentes A situação interna e o contexto internacional thumb|212x212px|Marcello Caetano, primeiro-ministro derrubado pelo 25 de Abril. Quando eclodiu o golpe militar de abril, o mundo estava em plena recessão, como rescaldo do choque petrolífero de 1973.Anatomia da influência na sociedade dos Estados. Do choque petrolífero ao golpe de Pinochet – Artigo de José Adelino Maltez em Maltez.info Portugal ainda era um país relativamente atrasado, mal industrializado e de forte emigração.O atraso económico português em perspectiva histórica (1860-1913), Jaime Reis, Análise Social, vol. XX (80). 1984-1.º, 7-28] Encontrava-se, no entanto, em fase de integração na comunidade dos países europeus ditos democráticos. Mau grado a persistência de um regime ditatorial,Salazarismo – Texto de Danny Dauto em Scribd os sinais de mudança eram visíveis em todos os sectores da vida portuguesa e sugeriam a possibilidade de uma ruptura política e social a breve trecho.Morte de Salazar, SEDES, MRPP e Convergência Monárquica em Maltez.info Por interesses estratégicos das grandes potências, tanto no quadro europeu como africano, Portugal era membro de pleno direito da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN)NATOBackground Note: Portugal (US Department of State) e da Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA).
Em 1973, num artigo muito do agrado dos simpatizantes do velho regime, a bem conhecida Time Magazine fala de um “milagre económico português”: taxas de crescimento anual de 5% ou mais, criação de indústrias de metalomecânica e petroquímica, de indústria pesada na construção naval, de movimentos accionistas e de investimentos estrangeiros com a instalação de multinacionais em Portugal.“Desenvolvimento monopolista em Portugal (fase 1968-73): estruturas fundamentais”, Américo Ramos dos Santos, Análise Social, vol. XIII (49), 1977-1.°, 69-95 Destaca a consolidação de uma classe média empresarial e “uma mudança do perfil da população”. A integração dos países mediterrânicos na família das democracias parlamentares europeias avançava sem mudanças violentas.IDENTIDADES IDEOLÓGICAS E PARTIDÁRIAS NA EUROPA: Portugal, Espanha e Grécia em perspectiva comparativa, André Freire, ed. CIES-ISCTE / CELTA Portugal, apesar dos sobressaltos e da reviravolta política, não é excepção. A viragem democrática de países de regimes duros era então manifesta na Europa, tais como a da Grécia e de Espanha. Em muitos casos, afirmam os defensores do progresso económico pacífico, “as democracias nascem de sociedades ricas ou em enriquecimento”. A classe média ascendente, sentindo-se capacitada para o exercício do domínio do Estado, “por conveniência costuma reclamar a Liberdade”.Dos mitos e lendas do surgimento do PREC – Artigo de Miguel Castelo Branco em Alameda Digital Europe’s troubled peace, 1945-2000 de Tom Buchanan (Google books)
As hipóteses de desenvolvimento de Portugal estavam no entanto dramaticamente condicionadas pelo seu isolamento político e pelos subestimados custos da guerra colonial.Custos da guerra – Artigo de Rosário Simões em Guerra ColonialPortugal vai pagar factura da Guerra Colonial até 2020 – Semanário SOL, 23 de Abril, 2011
A ala liberal Durante a Primavera Marcelista não era previsível uma evolução por outra via,Primavera Marcelista num texto de Cunha Simões defendida pelos deputados da Ala Liberal da Assembleia Nacional, uma geração de políticos adeptos da liberalização do regime do Estado Novo. Antes do 25 de abril, pontificavam na Ala Liberal Francisco Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão, Mota Amaral, Joaquim Magalhães Mota, Miller Guerra.
Em 1970Anuário 1970 de José Adelino Maltez certas ideias desses "liberais" são apresentadas para a revisão constitucional: falam da abolição da censura, da liberdade de imprensa e de livre associação, da extinção dos tribunais plenários, das medidas de segurança sem termo certo que, aplicadas aos presos políticos, iam dar em prisão perpétua. Denunciam a prisão preventiva sem culpa formada. Reclamam a inclusão do direito ao trabalho e do direito à emigração na lista dos direitos fundamentais. Reclamam o reforço dos poderes da Assembleia Nacional, a modernização dos seus métodos de trabalho, a restauração do sufrágio universal para a eleição do Presidente da República, a proibição do veto presidencial às leis de revisão constitucional. O projecto da Ala Liberal significaria a substituição do regime ditatorial e autoritário do Estado Novo por uma democracia de modelo europeu ocidental. Ala liberal, o desencanto do reformismo – artigo de António de Araújo em Análise Social
Entre 1970 e 1971, o número de detenções por motivos políticos volta entretanto a aumentar. A violência dos métodos usados na instrução dos processos é denunciada por apoiantes dos presos e isso chega à Assembleia Nacional pela voz de Francisco Sá Carneiro e de outros deputados. O recuo no terreno das liberdades significa uma travagem daquilo que a chamada Primavera Marcelista continha de promessa de renovação do regime. Contra isto se insurgem os deputados da Ala Liberal, que apresentam várias iniciativas legislativas ao longo do ano de 1972.Authoritarian Regimes and Democratic Semioppositions: The end of the Portuguese dictatorship (1968-1974) in comparative perspective – Artigo de Tiago Fernandes na pág. do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa Vendo frustradas as suas esperanças, abandonam a Assembleia. Sá Carneiro é o primeiro, em 1973, desabafando: "É o fim!".
Passam à oposição, exprimindo-se em artigos do jornal Expresso (fundado por Francisco Pinto Balsemão em Janeiro de 1973). A acção destes "liberais" terá desacreditado a experiência marcelista junto de largos sectores das classes médias portuguesas.
O fim da Primavera Marcelista
Marcello Caetano já havia perdido o passo, condicionado pela fragilidade da sua base de apoio no seio do regime, denunciado pelo PCP, pela extrema-esquerda e agora por um PSPS - Partido Socialista (1973) – na pág. de José Adelino Maltez marcado pela ainda forte impregnação marxista dos seus intelectuais mais jovens: Mário Sottomayor Cardia, António Reis (professor), Álvaro Guerra, Alberto Arons de Carvalho. Marcello CaetanoSobre Marcelo Caetano – Biografia na Escola Secundária de Camões estava ancorado na herança de Oliveira Salazar, cativo daqueles que não tinham uma solução para a mudança do regime e incapacitado de dialogar com uma oposição que assumia declaradamente a tese do derrube violento da situação. Restava a Marcelo o seu círculo de amigos e admiradores, que em breve ascenderiam à ribalta nos partidos de direita surgidos nos meses que se seguiram ao dia 25, restava-lhe o respeito que o general António de SpínolaAntónio Sebastião Ribeiro de Spínola (1910-1996) em Dicionário da História do Estado Novo (Fernando Rosas, J.M. Brandão de Brito) em Associação 25 de Abril por ele demonstrava.
O peso da guerra colonial precipitou porém a mudança, que se fez por via armada, com a acção dos jovens capitães, seguida da Revolução dos Cravos.
História thumb|Mural do PRP (1975)thumb|Mural de 1975 alusivo ao 25 de Abril thumb|Mural da Liga Comunista Internacionalista (Portugal) (LCI).thumb|230px|Vasco Gonçalves em 1982.
Abril — setembro de 1974
Revolução, institucionalização do MFA, início da descolonização e cisão do MFA com Spínola.
Tendo António de Spínola chegado à chefia do Estado em 1974 na sequência da Revolução dos Cravos, trava-se uma séria discussão entre este e os diversos partidos emergidos do 25 de Abril,MOV.CAPITÃES / MFA - CONSPIRAÇÃO / Acção Gen. Spínola em Associação 25 de Abril em particular no tocante à questão colonial: o Presidente da República aposta na construção de uma espécie de Commonwealth portuguesa (Portugal e o Futuro), enquanto alguns partidos, nomeadamente o PS e o PCP, se manifestam contra esta solução.
Contrariado, Spínola convoca para o dia 28 de setembro de 1974 uma manifestação, mobilizando a chamada Maioria silenciosa, segundo ele a maior parte da população, que segue as suas ideias. O 28 de Setembro em CITI A fim de evitar que Spínola tome autoritariamente o poder, os partidos de esquerda, PS, PCP e os mais radicais, com o apoio de militares, levantam barricadas nos principais acessos a Lisboa, impedindo a chegada das camionetas dos manifestantes e frustrando os seus intentos. Spínola demite-se.PORTUGAL: The Fall of a Hero-General – Time Magazine, 14 de outubro 1974 Sucede-lhe Francisco da Costa Gomes, que nomeia como chefe de Governo o coronel Vasco Gonçalves.
Outubro de 1974 — fevereiro de 1975 Tensões entre blocos políticos. Polarização interna, preocupações externas.
Estava agora de olho vivo em Portugal. Receava que a Revolução dos Cravos conduzisse o país a um perigo idêntico e fazia os seus cálculos. Tinha já travado conhecimento com Mário Soares (encontro em Washington com Costa Gomes e Mário Soares a 18 de outubro de 1974), de quem desconfia e em quem julga ver o Kerenski de Portugal. Menos desconfiado é Frank Carlucci, o embaixador em Lisboa, futuro vice-director da CIAAs manobras secretas de Washington no PREC artigo de Maria Inácia Rezola no seu regresso aos EU, que sabe bem que Soares, the only game in townThe Strange Career of Frank Carlucci, artigo de Francis Schor em CounterPunch, de 01/02/2002 é de confiança, um liberal astuto e alguém com grande ambição pelo poder.Memórias de um PS Desconhecido, Rui Mateus, Lisboa, Dom Quixote (ver Contos Proibidos - passagens do livro) As estratégias de interferência dos EU em Portugal são delineadas desde os primeiros momentos da revolução. Kissinger cedo estabelece «planos de emergência, ou contingência, para o caso de Portugal cair nas mãos dos comunistas».Truman, Kennedy, Ford e Clinton, os Presidentes que perturbaram Portugal – artigo de Bárbara Reis no jornal Público, 20/1/2017 Esses planos passam pela ocupação militar dos Açores, com vista à manutenção da Base das Lages, considerada bastião norte-americano inalienável, hipótese essa deixada em aberto, para qualquer eventualidade, numa reunião que tem em Janeiro de 1975 com o secretário da Defesa James Schlesinger.EUA tinham planos para invadir os Açores em 1975 – artigo de Nuno Simas no jornal Público de 22 de Novembro de 2010