Interseccionalidade (ou teoria interseccional) é o estudo da sobreposição ou intersecção de identidades sociais e sistemas relacionados de opressão, dominação ou discriminação. Howard Zinn, A People’s History of the United States (Harper Perennial: New York, 2003), page 253 A teoria sugere e procura examinar como diferentes categorias biológicas, sociais e culturais, tais como gênero, raça, classe, capacidade, orientação sexual, religião, casta, idade, geolocalização e outros eixos de identidade interagem em níveis múltiplos e muitas vezes simultâneos. Este quadro pode ser usado para entender como a injustiça, as opressões e as desigualdades — sociais, raciais, epistêmicas, sistêmicas e estruturais — ocorrem em uma base multidimensional, sem serem suprimidas ou hierarquizadas.RIOS, Flavia. O que é interseccionalidade e qual sua importância para a questão racial? Nexo Políticas Públicas. 2020. Arquivo digital. Acesso em: 16 de agosto de 2021 [s. p.]. A interseccionalidade sustenta que as conceituações clássicas de opressão dentro da sociedade — tais como racismo, sexismo, classismo, colonialismo, patriarcalismo, machismo, capacitismo, xenofobia,ISIL is Using Ukraine as a Forward Base into Caucasia and as for Entry into EuropeWhat Would the Black Panthers Think of Black Lives Matter? bifobia, homofobia e a transfobia e intolerâncias baseadas em crenças — não agem independentemente umas das outras, mas que essas formas de opressão se inter-relacionam, criando um sistema de opressão que reflete o "cruzamento" de múltiplas formas de discriminação. Pdf. alt=Cartaz sobre feminismo interseccional|miniaturadaimagem|287x287px|Cartaz sobre feminismo interseccional

A interseccionalidade é um conceito acadêmico, das ciências sociais, podendo ser usada como uma ferramenta analítica que pode ser adaptada para diversas formas, permitindo a análise de diferentes fenômenos e problemas sociais para pensar as desigualdades, porém se desenvolve e abarca outros sentidos, como de ferramenta de intervenção política — com a apropriação dos movimentos sociais e da ONU, por exemplo, que a entendem como um instrumento político, de enfrentamento das desigualdades, e de identidade coletiva — em que alguns agentes — movimentos sociais, principalmente de mulheres, preferem se valer da interseccionalidade como um jeito de se autonomear. Resumindo, a interseccionalidade surge como conceito acadêmico de intervenção jurídica, mas sofre mutações e pode ser referida a partir dessas múltiplas possibilidades.

A interseccionalidade é um paradigma importante no conhecimento acadêmico e em contextos mais amplos, como o trabalho de justiça social ou demografia, no entanto, as dificuldades surgem devido às muitas complexidades envolvidas no processo das "conceituações multidimensionais" que explicam a maneira em que as categorias socialmente construídas de diferenciação interagem para criar uma hierarquia social, identidades subalternas, subordinações de gênero, de classe e de raça e de opressões estruturantes da matriz colonial moderna. Por exemplo, a interseccionalidade sustenta que não há experiência singular de uma identidade. Ao invés de compreender a saúde dos homens e das mulheres apenas pelo prisma do gênero, é necessário considerar outras categorias sociais como classe, habilidade, nação ou raça, para ter uma compreensão mais completa da gama de preocupações com a saúde destes - homens e mulheres.

A teoria da interseccionalidade também sugere que formas e manifestações de opressão aparentemente discretas são moldadas por uma outra (mutuamente co-constitutiva). Assim, para compreender plenamente a racialização dos grupos oprimidos, deve-se investigar as maneiras pelas quais a racialização se estrutura, seus processos e suas representações sociais (ou ideias que pretendem representar grupos e membros do grupo na sociedade) são moldadas por gênero, classe, sexualidade etc. Enquanto a teoria começou como uma exploração da opressão das mulheres negras dentro da sociedade, hoje a análise é potencialmente aplicada a todas as categorias — incluindo status geralmente vistos como dominantes quando vistos como estados independentes.

Como escreveu Kimberlé Crenshaw, "numa sociedade em que as discussões em torno da igualdade e justiça se tornam cada vez mais prementes, a compreensão da experiência humana deve evoluir para uma visão mais holística e abrangente". A teoria da interseccionalidade emerge como uma resposta à limitação das análises que tratam as identidades de forma isolada. Em vez de considerar uma única dimensão da identidade, a abordagem interseccional reconhece que as pessoas estão sujeitas a uma miríade de formas de opressão e privilégio, que não podem ser dissociadas umas das outras. "O que muitas vezes chamamos de experiência é, na verdade, uma experiência de classe, uma experiência de género, uma experiência de raça".

Contexto histórico

O conceito de interseccionalidade surgiu a partir de círculos sociológicos no final dos anos 1960 e início dos anos 1970 em conjunto com o movimento feminista multirracial. Ele veio como parte de uma crítica do feminismo radical que tinha desenvolvido na década de 1960 o pensamento conhecido como "teoria feminista revisionista". Esta teoria feminista revisionista "desafiou a noção de que" gênero "foi o principal fator determinante no destino de uma mulher".

O movimento liderado por mulheres negras contestou a ideia de que as mulheres eram uma categoria homogênea essencialmente compartilhando as mesmas experiências de vida. Este argumento foi a constatação de que as mulheres brancas da classe média não serviam como uma representação precisa do movimento feminista como um todo. Reconhecendo que as formas de opressão vividas por mulheres brancas de classe média eram diferentes das que eram experimentadas pelas negras, as mulheres pobres, ou com deficiência, as feministas procuraram compreender as maneiras em que gênero, raça e classe combinados "determinam o destino do feminino". Leslie McCall, uma teórica líder da interseccionalidade, argumenta que a introdução da teoria da interseccionalidade foi vital para a sociologia, alegando que, antes de seu desenvolvimento havia pouca pesquisa que especificamente se dirigia às experiências de pessoas que são submetidas a múltiplas formas de subordinação dentro da sociedade. Pdf. Como Bell Hooks, notável estudiosa, coloca de forma eloquente: "a luta para acabar com o racismo e a luta para acabar com o sexismo estão naturalmente entrelaçadas e fazê-las separar era negar uma verdade básica da nossa existência, que a raça e o sexo são ambos faces imutáveis da identidade humana" (Hooks, 1981).

O termo que também tem laços históricos e teóricos com o conceito de simultaneidade avançou na década de 1970 por membros do Coletivo Combahee River, em Boston, Massachusetts. Os membros deste grupo articularam uma consciência de que as suas vidas — e suas formas de resistência à opressão — eram profundamente moldadas pelas influências simultâneas de raça, classe, gênero e sexualidade. Assim, as mulheres do Coletivo Combahee River adiantaram uma compreensão de experiências afro-americanas que desafiou análises emergentes dos movimentos sociais centrados no homem, no indígenaBlack and Indigenous Territorial Movements : Women Striving for Peace in Colombia e no negro bem como aqueles do branco, de classe média e das feministas heterossexuais. O feminismo interseccional pode se caracterizar como uma luta étnica-nacional contra as discriminações, principalmente com os feminismos negro e indígena.SEGATO, Rita Laura. Gênero e colonialidade: em busca de chaves de leitura e de um vocabulário estratégico descolonial. e-cadernos CES. Coimbra, v. 18, p. 106-131, 2012. CONNELL, Raewyn. A colonialidade do gênero. In: Gênero em termos reais. São Paulo: nVersos, 2016, p. 25-44. LUGONES, María. Rumo a um feminismo decolonial. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.). Pensamento feminista:Conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019, p. 357-377. ANZALDÚA, Gloria. Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. Estudos Feministas. Florianópolis, v. 8, n. 1, p. 229-236, 2000 GARGALLO CELENTANI, Francesca. Formas, líneas e ideas de los feminismos indígenas. In: Feminismos desde Abya Yala. Ideas y proposiciones de las mujeres de 607 pueblos en nuestra América. Bogotá: Desde Abajo, 2015, p. 119-162. OLIVEIRA, Marize Vieira de. Feminismo indígena. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.). Explosão feminista. Arte, cultura, política e universidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, p. 301-324 O feminismo do Terceiro Mundo também defende estas ideias.

A interseccionalidade foi pensada como conceito da teoria crítica de raça, em 1989, pela jurista, professora e intelectual afro estadunidense Kimberlé Crenshaw, para quem a interseccionalidade permite enxergar a colisão das estruturas, a interação simultânea das avenidas identitárias, além do fracasso do feminismo em contemplar mulheres negras, já que reproduz o racismo. Igualmente, o movimento negro falha pelo caráter machista, oferece ferramentas metodológicas reservadas às experiências apenas do homem negro. Após a Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Formas Conexas de Intolerância (WCAR), em Durban, na África do Sul, em 2001, a interseccionalidade conquistou popularidade acadêmica. Luiza Bairros editou a seção “Dossiê” da Revista Estudos Feministas, sobre a conferência, em que foram publicados um texto de Crenshaw e outro de Maylei Blackwell e Nadine Naber, lidando com diferentes aspectos do conceito. A teoria interseccional mostra mulheres negras posicionadas em avenidas longe da cisgeneridade branca heteropatriarcal. São mulheres de cor, lésbicas, terceiromundistas, interceptadas pelos trânsitos das diferenciações, sempre dispostos a excluir identidades e subjetividades complexificadas, desde a colonização até a colonialidade.

Teoria interseccional no Brasil Embora o termo tenha sido cunhado pela jurista negra norte-americana Kimberlé Crenshaw, em 1989, com foco em raça e gênero, a ideia das opressões cruzadas e indissociáveis de gênero, raça e classe já fazia parte do repertório discursivo de mulheres negras brasileiras desde os anos 1970 e 1980.

Nesse período, muitas integrantes do que viria a se constituir como movimento autônomo começaram suas atividades, em uma dupla militância junto a coletivos de mulheres e de negros brasileiros, os quais reemergiram na década de 1970. Entre elas, Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Sueli Carneiro, Tereza Santos, Edna Roland, Luiza Bairros, Matilde Ribeiro e Fátima Oliveira, fundamentais para a construção do pensamento e da prática feminista negra no Brasil. Integraram-se a movimentos que se institucionalizaram partilhando uma ideia essencialista de igualdade: entre as mulheres, raça era uma dimensão secundária, e entre os negros as desigualdades de gênero eram ignoradas.

Com a retomada de mobilizações da sociedade civil, durante a década de 1980, o movimento de mulheres negras no Brasil ganhou expressividade tanto no ativismo negro quanto no feminista. Lélia Gonzalez, nesta década, indagava a sociedade e a academia, em particular, quanto às desvantagens e aos privilégios sobre o sexo (o termo “gênero” não era tão usual como nos debates atuais), a raça e a classe.

O debate sobre interseccionalidade se fez essencial para compreender o contexto de luta de mulheres negras, uma vez que a tríade gênero-raça-classe, ainda hoje, se apresenta como incontornável, no que se refere às relações intragênero e intergênero. Essa tríade não pode ser analisada separadamente, visto que seu impacto sócio-político-cultural se faz de maneira conjugada. Em especial, as assimetrias advindas do entrecruzamento e da constituição recíproca de gênero, classe e raça seriam incontornáveis para a análise das desigualdades nas sociedades contemporâneas.