thumb|Pedro em 1835 por Luís Gomes Tourinho, no Museu de Arte da Bahia. A infância e juventude de Pedro II do Brasil compreende o período desde seu nascimento em até sua coroação e consagração como Imperador do Brasil em . Nascido na cidade do Rio de Janeiro, Pedro II era o filho mais novo e o único menino do imperador Pedro I e sua primeira esposa a arquiduquesa Maria Leopoldina da Áustria. Foi o herdeiro aparente de seu pai desde o nascimento e recebeu o título de Príncipe Imperial do Brasil.
Sua mãe morreu quando ele tinha um ano de idade, com seu pai se casando novamente alguns anos depois com a princesa Amélia de Leuchtenberg. O jovem Pedro formou um laço forte com Amélia, quem ele considerou como sua mãe pelo restante da vida. Pedro I abdicou do trono em e partiu para a Europa com a esposa, deixando Pedro II para trás, junto com suas irmãs, tendo uma infância solitária e estudiosa para ser o imperador. Ele foi criado com simplicidade e uma educação excepcional com o objetivo de transformá-lo no monarca ideal. A perda repentina de seus pais, junto com o crescimento solitário e infeliz que teve, muito afetaram Pedro e definiram sua personalidade.
Pedro tinha cinco anos de idade quando ascendeu ao trono. Uma regência foi criada até ele alcançar a maturidade e estar apto para exercer seus poderes constitucionais. Essa regência mostrou-se fraca e com pouca autoridade, levando o país para a anarquia, marcada por disputas políticas e várias rebeliões. Pedro foi explorado como instrumento por facções políticas rivais em busca de seus próprios interesses e foi manipulado em aceitar a prematura elevação para maior de idade em , aos catorze anos, encerrando assim os nove caóticos anos do período regencial.
Herdeiro do trono
Nascimento thumb|180px|esquerda|Pintura representando Pedro em 1826, aos dez meses de idade. Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga; nasceu às 2h30min do dia na cidade do Rio de Janeiro, na província do Rio de Janeiro, no Império do Brasil, após um trabalho de parto que durou mais de cinco horas. Seu nome, assim como o de seu pai, era uma homenagem a São Pedro de Alcântara.; Ele automaticamente recebeu o título honorífico de "dom" como membro da realeza brasileira.
Seu pai era o imperador dom Pedro I do Brasil, filho do rei dom João VI de Portugal, e, assim, o menino era membro do ramo brasileiro da Casa de Bragança portuguesa. Sua mãe era a arquiduquesa Maria Leopoldina da Áustria, filha do imperador Francisco I da Áustria e irmã mais nova da arquiduquesa Maria Luísa, Duquesa de Parma e segunda esposa de Napoleão Bonaparte. Através de sua mãe, Pedro era primo direto dos imperadores Francisco José I da Áustria e Maximiliano do México. Dentre seus ancestrais mais distantes, destacam-se os reis Carlos I da Espanha e Luís XIV da França.
No dia de seu nascimento, Pedro foi apresentado a membros do governo reunidos no Paço de São Cristóvão pelo veador da imperatriz, o brigadeiro-general Francisco de Lima e Silva. Tinha apenas 47 centímetros de altura e foi considerado uma criança frágil e enferma. Ele herdou a epilepsia de seus parentes espanhóis da Casa de Bourbon, apesar de ela vir a desaparecer por completo durante a sua adolescência. Pedro foi batizado alguns dias depois, em 9 de dezembro. Sua madrinha foi sua irmã mais velha, a princesa dona Maria da Glória, enquanto o padrinho foi seu próprio pai.
Era considerado um estrangeiro pela lei portuguesa por ter nascido depois do reconhecimento da independência do Brasil. Porém sua irmã Maria da Glória, tendo nascido antes da independência, pôde ascender ao trono português em 28 de maio de 1826 como Maria II depois da abdicação de Pedro I (que também foi o rei Pedro IV de Portugal). Ele se tornou o herdeiro da coroa brasileira e Príncipe Imperial como o único filho legítimo de Pedro I, sendo reconhecido como tal em 6 de agosto de 1826.
Primeiros anos thumb|Pedro c. 1830 por Arnaud Pallière, no Museu Imperial. Pedro I convidou D. Mariana Carlota de Verna Magalhães Coutinho (posterior Condessa de Belmonte) para assumir a posição de aia. Mariana de Verna era uma viúva portuguesa considerada culta, honrada e gentil. Pedro a chamava de "Dadama" pois não conseguia pronunciar corretamente quando criança a palavra "dama". Entretanto, ele continuou a chamá-la dessa maneira até já adulto por afeição e por considerá-la uma mãe postiça. Como era comum dentre a realeza dessa época, ele não foi amamentado por sua mãe. Em vez disso, a imigrante suíça Marie Catherine Equey foi escolhida como sua ama de leite.
Maria Leopoldina morreu em 11 de dezembro de 1826 quando Pedro tinha apenas um ano de idade, poucos dias depois de ter abortado um bebê menino. Pedro cresceria e não teria nenhuma memória da mãe, sabendo apenas aquilo que as pessoas comentavam e contavam sobre ela. De seu pai "não retinha uma imagem clara".
Pedro I se casou novamente dois anos e meio depois com a princesa Amélia de Leuchtenberg. Pedro passou pouco tempo com a madrasta, que acabaria por deixar o país dois anos depois. Mesmo assim eles tiveram uma relação bem próxima; e mantiveram-se em contato por cartas até a morte dela em 1878. Tão forte foi a influência de Amélia no príncipe que ele até sua morte a considerou como sua mãe e quando adulto "a mulher ideal, a quem ele sempre buscou, era morena, vivaz e inteligente, e notadamente mais velha do que ele". Pedro I abdicou da coroa em depois de um longo conflito contra liberais federalistas. Ele e a esposa imediatamente partiram para Portugal a fim de reconquistar a coroa de Maria II, que havia sido usurpada por D. Miguel. Deixado para trás junto com as irmãs mais velhas, o Príncipe Imperial assim se tornou o imperador Pedro II.
Regência
Ascensão thumb|esquerda|300px|Cerimônia de aclamação de Pedro em 9 de abril de 1831 no Paço Imperial por Jean-Baptiste Debret, nos Museus Castro Maya. Pedro, então com cinco anos de idade, acordou na manhã do dia 7 de abril com a coroa imperial ao lado de sua cama. Pedro I e Amélia já tinham deixado o solo brasileiro abordo da fragata inglesa HMS Warspite. Pedro II escreveu uma carta de despedida ao pai com a ajuda de Mariana de Verna. Ao recebê-la o ex-monarca chorou e respondeu chamando o menino de "Meu amado filho, e meu Imperador". Seu pai e madrasta permaneceram a bordo do Warspite por mais cinco dias antes de partirem para a Europa, porém eles nunca viram o jovem imperador nesse período. Pedro I permaneceria angustiado pelo restante de sua vida sobre a ausência dos filhos e preocupado com seus futuros. Pedro II sentia saudades do pai e madrasta (que havia assumido o papel de mãe), possivelmente sendo um dos motivos por sua posterior falta de demonstração de emoção em público. De fato, a "inesperada perda da família assombraria Pedro II pelo resto da vida". Três de suas irmãs também ficaram para trás: as princesas D. Januária, D. Paula e D. Francisca.
Pedro foi aclamado em 9 de abril como o novo imperador. Ele chorou na carruagem ao lado de Mariana de Verna ainda desnorteado pelo abandono dos pais e assustado pelas grandes multidões que acompanhavam seu trajeto até o Paço Imperial. O jovem imperador foi exibido em uma das janelas do palácio para o povo junto com suas três irmãs. Pedro ficou em cima de uma cadeira para que as centenas de pessoas reunidas pudessem vê-lo melhor e para que ele conseguisse ver suas aclamações. Os brasileiros ficaram comovidos pela "figura do pequeno órfão que deveria governá-los". Toda essa provação, seguida pelos bramidos dos canhões que o saudavam, foi tão traumática que ela talvez possa ser a explicação por sua aversão a cerimônias públicas quando adulto.
thumb|Pedro em 1832 por Francisco de Sousa Lobo, no Museu de Arte Sacra de São Paulo. Sua elevação a imperador causou um período de crise, um dos piores da história do Brasil. Até alcançar a maioridade Pedro ainda não podia exercer suas prerrogativas constitucionais (os poderes Executivo e Moderador), assim uma regência foi criada. A primeira regência consistia em um triunvirato, com um de seus membros sendo o brigadeiro-general Francisco de Lima e Silva que cinco anos antes havia apresentado o bebê Pedro para os membros do governo. Disputas entre facções políticas rivais resultaram em uma regência instável e quase anárquica. Os liberais que tinham conseguido tirar Pedro I do trono logo se dividiram em duas facções: os liberais moderados (monarquistas constitucionais que mais tarde se dividiriam entre si nos partidos Liberal e Conservador) e os republicanos (uma minoria, porém radical e revoltosa). Havia também restauracionistas que defendiam a volta do antigo imperador. miniaturadaimagem|Retrato de jovem ainda sem a barba no início dos 1840s, já após ser coroado, obra de François-René Moreaux pertencente ao acervo do Museu Histórico Nacional. Várias rebeliões estouraram durante a regência. As primeiras foram a Rebelião de Santa Rita em 1831, a Revolta do Ano da Fumaça em 1833 e a Cabanada entre 1832 e 1834, que queriam o retorno de Pedro I e tinham o apoio do povo comum, escravos e ex-escravos. A morte do ex-imperador em setembro de 1834 acabou com essas esperanças. A promulgação também em 1834 do Ato Adicional, uma emenda constitucional que dava maiores poderes administrativos e políticos para os governos provinciais, aumentou ainda mais os conflitos entre partidos, já que quem dominasse as províncias também controlaria os sistemas eleitoral e político. Os partidos que perdiam as eleições acabavam se revoltando na tentativa de assumir o poder pela força. Entretanto, as facções revoltosas continuavam a defender o trono como um modo de legitimar suas ações (ou seja, não estavam se revoltando contra a própria monarquia). A Cabanagem entre 1835 e 1840, a Sabinada de 1837 a 1838 e a Balaiada de 1838 até 1841 todas seguiam esse curso, mesmo quando em certos momentos as províncias tentavam se separar e se tornar repúblicas independentes (embora ostensivamente enquanto Pedro fosse menor de idade). A exceção foi a Revolução Farroupilha, que começou como mais uma disputa entre partidos políticos rivais na província de São Pedro do Rio Grande do Sul, mas que rapidamente evoluiu para uma rebelião separatista financiada pelo ditador argentino Juan Manuel de Rosas. A maior parte da população das províncias revoltosas, incluindo suas maiores cidades, permaneceram leais ao império.
Tutela 280px|esquerda|thumb|O Paço de São Cristóvão c. 1835–40 por Karl Robert, Barão de Planitz, na Coleção Maria Cecília e Cândido Guinle de Paula Machado. Pedro I havia selecionado três pessoas que ficariam encarregadas dos cuidados de seus filhos. O primeiro era seu amigo José Bonifácio de Andrada e Silva, a quem ele nomeou como tutor, posição que posteriormente foi confirmada pela Assembleia Geral. A segunda era Mariana de Verna, que ocupava a posição de aia desde o nascimento de Pedro II. E a última pessoa era Rafael, um afro-brasileiro que havia lutado na Guerra da Cisplatina. Este último era um empregado do Paço de São Cristóvão em quem Pedro I muito confiava e pediu para cuidar de seu filho – um encargo que Rafael cumpriu pelo resto da vida. São Cristóvão foi a principal residência de Pedro II durante sua infância. A princesa Paula adoeceu seriamente no final de 1832 (provavelmente de meningite) e morreu três semanas depois em 16 de janeiro de 1833. A perda da irmã reforçou o sentimento de abandono que o jovem imperador e suas outras duas irmãs já sentiam.