A expressão astronomia ameríndia refere-se aos conhecimentos de astronomia que foram desenvolvidos pelos povos ameríndios de forma autônoma, isto é, sem a influência do conhecimento astronômico de outros continentes.
Astronomia inca A civilização Inca (séculos XIII-XVI), que estabeleceu o vasto império do Tawantinsuyu nos Andes, desenvolveu um sofisticado conhecimento astronômico. Diferentemente de tradições ocidentais que, por vezes, dissociam ciência de religião, a astronomia inca era intrinsicamente ligada com sua cosmovisão. Era uma ciência prática e sagrada, um instrumento de leitura da vontade divina e uma ferramenta central de administração estatal.
Os Incas acreditavam que o cosmos era dividido em três planos interconectados: Hanan Pacha: O mundo de cima, dos astros e deuses, e essas mesmas divindades, eram chamadas de “huacas” cujos movimentos regiam a vida na terra; Kay Pacha: O mundo terreno, dos seres humanos; Uku Pacha: Mundo subterrâneo, dos ancestrais e da fertilidade.
Eles pensavam que os astros eram formas de divindades, como os seguintes astros/divindades: Inti (Sol): Ele era o ancestral da linhagem real Inca, e tinha uma encarnação humana, o Sapa Inca. Os Incas comemoravam o Inti Raymi (Solstícios de Inverno) em homenagem ao deus Inti, para que ele garantisse a longevidade e prosperidade do povo Inca; Mama Killa (Lua): A divindade associada ao ciclo feminino e ao calendário ritual mensal, e também era a irmã e esposa de Inti.; Mayu (Via Láctea): Era concebida como um rio celestial cuja orientação no céu (Norte-Sul ou Leste-Oeste) definia as estações seca e chuvosa. Seu papel como eixo cosmológico estruturava toda a percepção espacial andina (URTON, 1981); Colca (Plêiades): Seu aparecimento no crepúsculo matutino em junho marcava o início do ano agrícola. Sua aparência (clareza e tamanho) era um indicador meteorológico vital para a previsão das chuvas e, consequentemente, do sucesso da colheita.
O povo Inca, até sua decadência, não desenvolveu instrumentos de observação astronômica complexos, porém eles usaram outras formas de observar o cosmo, como a arquitetura. Uma das formas que os Incas utilizaram, foram pilares de pedras (geralmente de granito) erguidos no horizonte ao redor de Cuzco, esses pilares alinhados com o Sol, marcavam os solstícios e equinócios, essa forma de observar se chamava Intiwatana.
Astronomia maia Os maias possuíam um calendário muito apurado. Também previam, com grande exatidão, os movimentos do sol, da lua e de vênus.LEONARD, J. N. América Pré-Colombiana. Tradução de Thomaz Scott Newlands Neto. Biblioteca de História Universal Life. Rio de Janeiro. Livraria José Olympio Editora. 1980. p. 42.
Astronomia ticuna Os ticunas expressam seus conhecimentos astronômicos em artefatos e mitos. Esses conhecimentos lhes possibilitam prever o comportamento da natureza (época de seca, época de chuva, períodos de desova de animais, safras), o que lhes ajuda em suas atividades cotidianas de caça, pesca, coleta e agricultura.Portal InforMast. Disponível em http://www.mast.br/informast_mensal/2015/outubro/vale_a_pena_conferir_06.html. Acesso em 2 de janeiro de 2016. Os ticunas também utilizam os fenômenos celestes para ilustrar conceitos morais (como a proibição do incesto, que é relacionado às manchas escuras da lua).Scielo. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-77012004000200002. Acesso em 2 de janeiro de 2016.
Astronomia tupi-guarani Os povos da família linguística tupi-guarani desenvolveram um sofisticado conhecimento astronômico. Eles foram capazes de estabelecer uma relação de causa e efeito entre a lua e as marés antes que os europeus notassem o fenômeno. Isso porque o fenômeno é mais intenso nos trópicos do que na região temperada onde fica a Europa.
Os povos tupis-guaranis dividiam o ano em duas estações: uma estação quente (no caso do sul do Brasil) ou chuvosa (no caso do norte do Brasil) e uma estação fria (no caso do sul do Brasil) ou seca (no caso do norte do Brasil). O início da estação fria/seca era assinalado no céu pelo aparecimento da constelação da Ema na segunda quinzena de junho. Essa estação era chamada de "estação velha" (em guarani, ara ymã. Em tupi antigo, 'arumûana).NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo. Global. 2013. Já o início da estação quente/úmida na segunda quinzena de dezembro era assinalado no céu pelo surgimento da constelação tupi-guarani do Homem Velho. Essa estação era chamada de "tempo novo" (em guarani, ara pyau. Em tupi antigo, 'arypysasu).
Os indígenas tupis-guaranis utilizavam e utilizam o calendário celeste para: determinar o tempo de colheita e de pesca; a contagem de dias, meses e anos; determinar a época de rituais religiosos; e para ilustrar mitos e normas morais.
Para os tupis-guaranis, os eclipses eram causados por uma onça-pintada que tentava devorar os irmãos sol e lua: por esse motivo, os índios faziam todo o barulho que podiam durante os eclipses, para "afugentar" a onça.
Os indígenas ainda explicavam as crateras lunares como um incesto que a lua (um indivíduo masculino, segundo eles) teria tentado praticar contra sua tia. Durante o incesto, a tia teria manchado o rosto da lua com resina para poder, posteriormente, identificar o agressor. Essa manchas de resina no rosto da lua seriam as crateras lunares. Com isso, os índios tupis-guaranis ensinavam que o incesto era proibido.
Segundo os tupis-guaranis, o planeta Vênus, o objeto mais brilhante no céu depois do sol e da lua, era a "esposa da lua", que só fica perto da lua enquanto esta está jovem, mas que se afasta dela à medida em que a lua cresce e se torna lua cheia.
A Via-láctea era chamada pelos tupis-guaranis de "Caminho da Anta" (em tupi antigo, tapi'irapé). thumb|A constelação das Plêiades (seîxu, em tupi antigo)NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo. Global. 2013. p. 440.
Os tupinambás relacionavam o surgimento da constelação das Plêiades em meados de janeiro com a chegada das chuvas.
Para determinar o meio-dia solar, as estações do ano e os pontos cardeais, os tupis-guaranis utilizam um relógio solar vertical.Scientifican American Brasil. Disponível em http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/mitos_e_estacees_no_ceu_tupi-guarani.html. Acesso em 28 de maio de 2015. Ver também Etnoastronomia indígena do Brasil
Ligações externas As estrelas eram terrenas: antropologia do clima, da iconografia e das constelações Ticuna''
Categoria:História da astronomia Categoria:Cultura dos ameríndios