O Capital no século XXI (Le Capital au XXIe siècle) é um livro de economia escrito por Thomas Piketty e publicado pela primeira vez na França em 2013 pela editora Éditions du Seuil. No livro Piketty estuda a dinâmica da repartição dos rendimentos e da riqueza nos países desenvolvidos desde o século XVIII.

Para o autor a repartição das riquezas constitui um problema político fundamental para a estabilidade das sociedades democráticas modernas e essa questão é muitas vezes discutida sem números precisos. Esse estudo é baseado numa compilação de variados dados históricos disponíveis, como por exemplo dos arquivos fiscais franceses.

As suas conclusões põem em causa a curva de Kuznets estabelecida na década de 1950 que apontava que o desenvolvimento económico era mecanicamente acompanhado do declínio das desigualdades de rendimento. As desigualdades observadas no início do século XXI são comparáveis aos níveis de desigualdade do século XIX e do início do século XX. Piketty junta-se a Marx e afirma que o capitalismo, se não for regulado, gera desigualdades crescentes. Ele sugeriu várias medidas políticas para limitar o aumento das desigualdades, como a criação de um imposto global sobre o capital. Também insiste sobre a necessidade de estabelecer avaliações precisas dos grandes patrimónios.

O livro obteve um grande sucesso público, inicialmente na França, mas especialmente nos EUA, onde se tornou em poucas semanas num dos livros mais vendidos. Recebeu uma recepção crítica favorável,Éric Toussaint, Que faire de ce que nous apprend Thomas Piketty sur Le Capital au XXI siecle, 19 janvier 2014 especialmente após a sua tradução em inglês publicada em 2014.Steven Pearlstein. 2014/03/28. Capital in the Twenty-first Century by Thomas Piketty, The Washington Post,

O Editor celebrou uma quarentena de contratos de venda dos direitos de autor por todo o mundo, um recorde quase absoluto para um volumoso ensaio deste tipo.Thomas Piketty, jackpot pour les maisons d'édition, Les Échos, 19/3/2015, [http://www.lesechos.fr/tech-medias/medias/0204237554367-thomas-piketty-jackpot-pour-les-maisons-dedition-1103947.php#

Conteúdo As duas leis fundamentais do capitalismo thumb| Edifício da Bolsa de Valores da Cidade do México Thomas Piketty enuncia duas leis fundamentais. A primeira estabelece que a parcela dos rendimentos do capital no rendimento nacional () é igual à taxa de rendibilidade média do capital () multiplicado pelo rácio entre o estoque de capital e o rendimento nacional (), ou seja, .Gaël Giraud, Quelle intelligence du capital pour demain? Une lecture du Capital au XXI siecle de Thomas Piketty, Document de travail du Centre d'économie de la Sorbonne, Fev 2014, http://www.gaelgiraud.net/wp-content/uploads/2012/05/recension-Piketty1.pdf

A segunda lei estabelece que, a longo prazo, o rácio entre o estoque de capital e o rendimento () tende para o rácio entre a taxa de poupança () e a taxa de crescimento (), ou seja, .

Piketty estima que o rácio entre o capital e o rendimento foi de 6 ou 7 no século XIX, que caiu para 2 após a Segunda Guerra Mundial e que se encontra hoje num nível próximo do do século XIX com um valor de 5 ou 6.

Além disso, Piketty constata que a longo prazo o rendimento médio do capital () é maior do que a taxa de crescimento da economia (). Isto implica que os detentores de capital enriquecem mais rapidamente do que o resto da população. Síntese da obra Após ter recolhido e construído importantes bases de dados, Piketty chega às seguintes conclusões: Tendencialmente, o crescimento é uma variável da história económica fortemente em função do crescimento populacional. Desde o ano 0 a 1750, nos países desenvolvidos, o crescimento estimado terá sido de 0,1% ao ano. Desde a revolução industrial, o crescimento anual dos países desenvolvidos é de apenas 0,8% por ano. Taxas de crescimento () anuais de 5 à 10% apenas ocorreram na Europa durante os "30 gloriosos anos" e nos países em desenvolvimento durante uma quinzena de anos. Elas são devidas, para os primeiros, à reconstrução após as duas guerras mundiais e à grande depressão; para os segundos, à rápida "recuperação" nas economias desenvolvidas. De acordo com Piketty e vários colegas, os períodos de crescimento muito forte acabaram. A taxa de rendibilidade do capital () é historicamente estável e maior do que a do crescimento. Até onde podemos estimar (Piketty retoma estudos que fazem esta estimativa até ao Império Romano), e em seguida calcular, a taxa de rendibilidade do capital, seja agrário, industrial ou financeiro, situa-se entre 4,5% e 5% ao ano. Piketty não vê absolutamente nenhuma razão para que seja diferente no decurso do século XXI. Estruturalmente, implica uma concentração cada vez maior de capital. Se considerarmos uma criação de nova riqueza ao ritmo de 0,1% ao ano (ou mesmo de 0.8%) e uma acumulação pelos proprietários existentes de uma magnitude de 4,5 a 5%, é histórico e evidente que a riqueza se concentra progressivamente (e a um ritmo que vai acelerando) nas mãos de uns poucos… Se este não foi o caso durante os nossos famosos "30 gloriosos", porque é o único período histórico em que a concentração de capital foi fraca graças à combinação de vários fatores: forte crescimento; inflação elevada (o que diminui a taxa de rendibilidade líquida do capital); tributação pesada dos rendimentos elevados e sobre as transmissões de grande valor (respectivamente até 80% e 90% para os escalões mais elevados). Além disso, todos estes fenómenos se concentraram sobre uma capitalização quatro vezes menor do que em 1914. O que implica o regresso dos herdeiros: o parêntese "Democrático-mérito-igualitário" acabou. Após 1975, as desigualdades de rendimento aumentam; o caráter regressivo dos impostos sucumbiu diante da ofensiva neoliberal e da globalização; a inflação foi controlada pelos bancos centrais entre 1 e 2% e o crescimento nos países desenvolvidos tem ficado perto das suas tendências históricas (cerca de 1% por ano). O país que se vê como o mais igualitário e meritocrático (e que o foi até o início século XX comparativamente à Europa) é hoje o mais desigual: 1% dos americanos captam 20% do total do rendimento anual dos EUA, 10% captam 50%, enquanto 90% dos trabalhadores americanos compartilham apenas 50% dos rendimentos totais do país. A acumulação vai no mesmo sentido, mas o capital é ainda mais concentrado nos "super ricos" do que os rendimentos: 1% possui 35% do património norte-americano; 10% têm 70%; os restantes 90% da população compartilham apenas 30% do património nacional. A tendência é por toda a parte a mesma com um pequeno “atraso” na Europa devido ao quase aplainamento do capital no pós guerras. As tendências no século XXI, de acordo com Piketty, serão: em baixa (à volta de 1,5% a partir de 2050 com o fim do crescimento demográfico); inflação fraca; a 4,5%. Em suma, tudo indica que, se o sistema é deixado sem peias, as desigualdades irão continuar a crescer e rapidamente regressaremos à situação de "antes" de 1914 com uns pouco herdeiros imensamente ricos. Como irão reagir a nossas sociedades democráticas? Por quanto tempo os mitos da repartição e da possibilidade de ascensão meritocrática resistirão aos factos? direita|thumb|Um pôster da Industrial Workers of the World (1911), mostrando a Pirâmide do Sistema Capitalista

Piketty finalmente oferece pistas. A melhor solução, "a priori", passa por um imposto realmente progressivo traduzido em impostos confiscadores sobre as parcelas mais elevadas das transmissões e dos rendimentos para limitar o efeito natural da concentração, bem como um imposto sobre o capital próprio para acelerar uma nova repartição. Esta solução também teria a vantagem de reduzir sem demasiados danos humanos os enormes défices públicos. De acordo com a repartição de Piketty, os Estados não beneficiaram da imensa acumulação de capital nos últimos 60 anos: eles detêm uma parte sempre reduzida e bastante estável da riqueza nacional, enquanto a riqueza privada multiplicou-se por mais de dois.

Piketty não se ilude sobre a dificuldade de alcançar uma regulação coordenada a nível mundial. Ele também está ciente da impopularidade actual de tais medidas pois que alguns dos nossos valores (meritocracia, prioridade do sentimento no comportamento conjugal, padrões individuais de sucesso...) se desenvolveram/reforçaram durante a anomalia do século XX quando se tornou temporariamente maior do que e levou a um descrédito crescente da função do Estado e da Fiscalidade.

Originalidade da obra As originalidades da obra de Piketty devem-se aos pontos seguintes: o Capital (a sua acumulação, a sua repartição...) é pouco estudado no capitalismo. Piketty relê o pensamento económico (Smith, Ricardo, Marx) como percorrido pelo receio da captação da riqueza por uma minoria. os economistas tendem a trabalhar em episódios específicos, com durações e séries estatísticas curtas. Piketty irá alargar o seu estudo tão longe quanto possível no tempo e no espaço. parece apresentar provas que merecem grande respeito e tem sido pouco criticada na sua metodologia ou nas suas principais conclusões. As duas críticas mais recorrentes são: não é suficientemente 'política' (não clama pelo desaparecimento do sistema existente); a segunda diz respeito às suas recomendações no final da obra, consideradas como limitadas (apenas focadas sobre os impostos) ou irrealistas (abordagem global).

Recepção da obra Recepção na França Para Mediapart, Piketty ausculta "o capitalismo, as suas contradições, as suas desigualdades violentas"(Mediapart, 03.09.2013, 05.09.2013)</ref>. Christian Chavagneux, afirma que é "uma referência, garanto!".'Alternatives économiques'

Nicolas Baverez classificou severamente a obra de “marxismo de pacotilha”. Salienta designadamente que nada permite validar a hipótese de Piketty segundo a qual o século XXI estará condenado a um crescimento reduzido.Nicolas Baverez, Piketty, un marxisme de sous-préfecture, L'Express, 26/9/2013, http://www.lepoint.fr/editos-du-point/nicolas-baverez/piketty-un-marxisme-de-sous-prefecture-26-09-2013-1735260_73.php

Jean-Luc Gaffard, economista no Observatoire Français des Conjonctures Économiques (OFCE), lamenta o fosso entre a riqueza dos dados utilizados e a simplicidade da teoria económica desenvolvida, que admite designadamente uma taxa de crescimento exógena e independente do nível das desigualdades.Jean-Luc Gaffard, Pourquoi lire Piketty?, Blogue do OFCE Observatoire français des conjonctures économiques, 3/6/2014, http://www.ofce.sciences-po.fr/blog/pourquoi-lire-piketty/Jean-Luc Gaffard, Le Capital au XXI siecle: un défi pour l'analyse, Les Notes de l'OFCE Observatoire français des conjonctures économiques, n. 40, 2/6/2014, http://www.ofce.sciences-po.fr/blog/pourquoi-lire-piketty/

Na revista Sociologie, Christian Baudelot e Roger Establet sublinham o “poder explicativo da análise, que dá significado à época em que vivemos”.Christian Baudelot e Roger Establet, Le capital au XXI siecle, Sociologie, 2014, http://sociologie.revues.org/2255}}

Recepção no mundo anglo-saxónico O livro teve um enorme sucesso de crítica no mundo anglo-saxónico.John Cassidy, Forces of Divergence Is surging inequality endemic to capitalism?, The New Yorker, 31/3/2014, p. a11, url=http://www.newyorker.com/arts/critics/books/2014/03/31/140331crbo_books_cassidy?currentPage=all