A Igreja Paroquial de São José, também conhecida como Igreja de São José dos Carpinteiros ou de São José de Entre-as-Hortas, é uma igreja de arquitectura barroca e pombalina localizada na Rua de São José, em Lisboa.

Foi elevada a igreja paroquial em 1567 após ter sido construída no local de uma antiga ermida. Foi reedificada após o terramoto de 1755, segundo instruções do mestre-pedreiro Caetano Tomás. Funcionou num edifício adjacente a Casa dos Vinte e Quatro, um órgão deliberativo autárquico da cidade.

História

Origens As raízes deste monumento remontam à criação da Casa dos Vinte e Quatro pelo rei D. João I. Os diferentes mesteres encontravam-se agrupados sob a protecção de santos padroeiros, possuindo obrigações e privilégios perante a administração municipal lisboeta. A bandeira de São José englobava os pedreiros, canteiros, taipeiros, ladrilhadores, carpinteiros de casas, móveis e samblagem, bem como entalhadores, torneiros e violeiros. O regimento desta agremiação data de 24 de Agosto de 1501, tendo recebido confirmação por alvará régio a 26 de Abril de 1503. Inicialmente, estes trabalhadores reuniam-se e realizavam as suas eleições no Hospital Real de Todos-os-Santos. Foi neste contexto que, no ano de 1532, se instituiu formalmente a Irmandade de São José dos Pedreiros e Carpinteiros, sediada primitivamente na Igreja de Santa Justa e Santa Rufina.

As limitações de espaço em Santa Justa, onde a confraria dispunha de apenas uma capela para os seus ajuntamentos, motivaram a procura de um local próprio. A 15 de Maio de 1545, assinalou-se simbolicamente a tomada de posse de um cardal doado perpetuamente para a edificação do novo templo. Pouco depois, a 25 de Maio, foi acordada a compra de terrenos numa área denominada Entre-as-Hortas, situada no vale de Andaluz, a Norte das Portas de Santo Antão e fora da cerca da cidade. Em 6 de Julho do mesmo ano, a corporação dirigiu um requerimento ao arcebispo de Lisboa, D. Fernando de Vasconcelos e Meneses, solicitando autorização para construir uma ermida a expensas próprias. A petição fundamentava-se na dimensão da confraria, que contava com mais de 300 oficiais, comprometendo-se estes a custear a obra, a ornamentação e o sustento de um capelão. O prelado deferiu o pedido, constituindo a construção de uma sede privativa por uma associação de ofícios: um caso raro na capital, viabilizado pela considerável capacidade financeira dos seus membros.

No ano seguinte, a 25 de Abril de 1546, a imagem do padroeiro e a irmandade transferiram-se para o novo santuário de São José de Entre-as-Hortas, então parcialmente erguido, onde os confrades passaram a assistir à missa dominical e em dias festivos, empunhando as suas tochas. Segundo os relatos do cronista Cristóvão Rodrigues de Oliveira, as esmolas recolhidas neste período ascendiam a 60 cruzados. O dinamismo da irmandade, para além da vertente profissional, traduzia-se num forte pendor assistencial e na promoção do culto eucarístico, com destaque para a participação na procissão do Corpus Christi.

A nova paróquia de S. José O distanciamento em relação à sede de Santa Justa privava os habitantes locais de um acesso regular aos sacramentos. Consequentemente, a 20 de Novembro de 1567, o cardeal-infante Dom Henrique, na qualidade de arcebispo, desanexou aquele território e elevou a ermida a igreja paroquial, dando origem à nova paróquia de São José. Esta medida inscreveu-se nas directrizes do Concílio de Trento e da Contra-Reforma, visando disseminar novos modelos doutrinais. A escolha do patrono inseria-se numa estratégia deliberada de exaltar São José como o paradigma de pater familias, um culto que viria a ser autonomizado em 1621 pelo Papa Gregório XV e estimulado por obras como o Officium parvum in honorem Sanctissimi Patriarchae Joseph, publicado pelo frei Gaspar em 1567.

A transição para sede paroquial exigiu obras de ampliação, o que implicou a expropriação da primitiva Casa do Cabido e respectivo quintal. Como compensação, edificou-se a actual Casa do Cabido, adossada à igreja com acesso pela Rua da Fé, acolhendo a sua primeira assembleia a 15 de Janeiro de 1574. A presença do templo catalisou o desenvolvimento urbanístico do bairro, impulsionado pela melhoria da salubridade resultante do encanamento da ribeira de Valverde, outrora referenciada como o "rego das imundícies". O povoamento expandiu-se a partir da igreja, originando artérias como a Rua da Fé em 1570, a Rua do Telhal em 1586, a Rua do Carrião e a Travessa das Pretas em 1607, e a Rua da Praga em 1621. O dinamismo económico da zona era assinalável, com a estimativa da entrada de pelo menos 1500 cavalgaduras diárias pela Porta de Santo Antão em 1620, beneficiando da proximidade com a estrada pública para Andaluz. A toponímia de Bairro de São José fixou-se oficialmente a partir de 1682.

No decurso do século XVII, o templo foi objecto de nova intervenção arquitectónica, atestada por uma inscrição datada de 1653 patente numa das portas da nave, cuja autoria do projecto permanece incógnita. A ornamentação interior prosseguiu com a celebração de contratos de douramento. Em 1698, coube ao o pintor Manuel Henriques o douramento do altar de Nossa Senhora da Fé pelo valor de 170 mil réis. A 7 de Agosto de 1702, o cavaleiro da Ordem de Cristo Diogo Leite contratou o mesmo pintor para dourar o altar do Santo Cristo do Bonfim por idêntica quantia, exigindo-se uma perfeição equiparável à do altar fronteiro. Acresce que, após o incêndio que consumiu o Hospital Real de Todos-os-Santos em 1750, a Casa dos Vinte e Quatro transferiu as suas reuniões para as dependências da Irmandade de São José.

Terramoto e reconstrução O sismo de 1 de Novembro de 1755 provocou a ruína da fachada principal e da capela-mor. A confraria recorreu prontamente ao mestre pedreiro Caetano Tomás, que erigiu o actual frontispício num espaço de aproximadamente dois anos. A reconstrução contou com o esforço conjunto das irmandades dos Carpinteiros, dos Pedreiros e do Santíssimo Sacramento. As Memórias Paroquiais de 9 de Abril de 1758, redigidas pelo vigário Tomás Rodrigues de Aguiar, documentam esta recuperação e descrevem a orgânica do templo. O clérigo auferia à data 500 mil réis de rendimento e era coadjuvado por um cura e um coadjutor. A paróquia mantinha 34 capelães para missas quotidianas, remunerados pelas confrarias do Santíssimo, das Almas e de São José. Numa fase posterior, a 13 de Maio de 1889, o espólio da igreja foi enriquecido com a transferência de diversos objectos cultuais oriundos do extinto Mosteiro da Esperança. É de sublinhar que o arquivo histórico da instituição sobreviveu praticamente incólume desde a sua génese, preservando livros de matrículas, habilitações de genere e diversas pautas de exames.

Em 1925, foi baptizado nesta igreja o escritor Alexandre O'Neill.Revista Colóquio/Letras n.º 113/114 (Janeiro de 1990). Alexandre O'Neill - Elementos para uma biografia, pág. 15.

Descrição

Exterior

A igreja exibe uma planta longitudinal formada por dois rectângulos justapostos, correspondentes à nave e à capela-mor, resultando num volume paralelepipédico rematado por um telhado de duas águas. O frontispício é precedido por uma escadaria dupla que conforma um pequeno átrio. No centro da fachada rasga-se um portal rectangular de lintel encurvado, encimado por um medalhão oval em alto-relevo figurando o santo padroeiro. Este elemento central é ladeado por duas lápides com formato semelhante a escudos guerreiros, as quais contêm inscrições relativas às efemérides do templo. Destas cartelas pendem, esculpidas em pedra, ferramentas representativas dos ofícios da irmandade: utensílios de pedreiro à esquerda e de carpinteiro à direita. No registo superior da frontaria abrem-se três janelões gradeados que iluminam o coro, sendo os laterais de formato rectangular e o central desenhado em arco de volta perfeita, o qual provoca o encurvamento da cimalha. O conjunto é superiormente finalizado por um frontão de gosto barroco com empena contracurvada. À esquerda adossa-se a torre sineira, de secção quadrada, dotada de dois vãos rectangulares sobrepostos e ventanas em arco de volta inteira.

Interior

Nave O espaço interior organiza-se numa única nave de planta rectangular, coberta por uma abóbada de berço. O tecto apresenta uma pintura ornamental monocromática executada no decurso do século XIX, ilustrando o patriarca e o anjo. As paredes laterais encontram-se revestidas, até à altura da soleira dos púlpitos, por um silhar composto por 16 fiadas de azulejos azuis e brancos, datáveis de meados do século XVIII. Os painéis descrevem episódios da vida do orago, incluindo o seu sonho, a visitação de Maria a Isabel, o nascimento de Jesus, a interacção com o Menino, a fuga para o Egipto, a sua morte e a ascensão, sempre acompanhados de legendas explicativas redigidas em latim.

Coro-alto O coro-alto, de formato rectilíneo e construído em madeira, eleva-se sobre a entrada, repousando sobre mísulas pétreas e apresentando uma grade conformada por delgados balaústres torneados. A meio da nave perfilam-se dois púlpitos fronteiros com balcão de madeira, cuja sobreporta é encimada por um espaldar semicircular em leque, exibindo o símbolo do Espírito Santo em baixo-relevo e um coroamento de sanefas em talha dourada.

Falso transepto e capelas Uma teia elaborada em madeira de pau-santo, com balaústres torsos e ritmada por pilastras de mármore avermelhado, separa a nave de um falso transepto. Este espaço transversal é definido pela abertura de duas capelas laterais integradas em arcos de volta inteira. Os respectivos retábulos, lavrados em talha policromada do primeiro quartel do século XVIII, estruturam-se através de um pórtico com colunas e arquivoltas reentrantes. Do lado do Evangelho situa-se a capela dedicada a Nossa Senhora da Fé com uma imagem sua, setecentista — em tempos, este espaço albergava a capela do Santíssimo Sacramento. No lado oposto, correspondente à Epístola, ergue-se o altar do Senhor dos Passos, cujo camarim abobadado expõe a respectiva efígie. A ladear o arco triunfal da capela-mor encontram-se mais dois altares colaterais, igualmente rasgados em arcos de volta perfeita em mármore. Sobre estes arcos dispõem-se cartelas ovais de estilo barroco: no lado do Evangelho exibe-se o brasão corporativo dos carpinteiros e pedreiros, enquanto no lado da Epístola se inscrevem as iniciais da invocação de Jesus Salvador dos Homens.

Capela-mor O acesso à capela-mor faz-se através de um arco triunfal de mármore que assenta sobre socos decorados com embrechados marmóreos. Este recinto, de proporções e altura inferiores às da nave, é coberto por uma abóbada estucada que ostenta um fresco ilustrativo da Sagrada Família. O retábulo-mor oitocentista, em mármore, apresenta decoração inspirada nos mosaicos florentinos e acomoda um trono policromado. Sobre o altar repousa uma outra figuração da Sagrada Família, desta vez uma escultura espanhola do século XVII, considerada a peça mais antiga com esta temática guardada no edifício. Integrado no programa decorativo encontra-se também um notável presépio de terracota da segunda metade do século XVIII, abrigado num oratório e atribuído à escola do escultor Machado de Castro. A composição retrata a Sagrada Família, a Anunciação e a Fuga para o Egipto.

Sacristias