O RMS Majestic foi um navio de passageiros operado pela White Star Line. Foi originalmente construído na Alemanha pelos estaleiros da Blohm & Voss para a Hamburg-Amerika Linie sob o nome de SS Bismarck, sendo o terceiro da Classe Imperator de transatlânticos depois do SS Imperator e SS Vaterland. A construção começou em 1913 e ele foi lançado no ano seguinte, porém sua finalização foi paralisada pela Primeira Guerra Mundial. As obras foram reiniciadas após o fim do conflito e ele foi cedido ao Reino Unido como reparação de guerra, sendo comprado pela White Star Line.
Foi renomeado para Majestic e realizou sua viagem inaugural em maio de 1922, ganhando o título de maior navio de passageiros do mundo e o mantendo pelos treze anos seguintes, até a chegada do SS Normandie. Ele foi colocado para a linha entre Southampton e Nova Iorque junto com o RMS Olympic e RMS Homeric, tornando-se o carro-chefe da empresa no período entreguerras. Seus interiores luxuosos lhe valeram grande popularidade durante a década de 1920, porém sinais prematuros de desgaste começaram a surgir após alguns anos de serviço.
A Grande Depressão fez o Majestic ficar cada vez menos lucrativo, sendo colocado em rotas de cruzeiro a fim de tentar manter sua rentabilidade. A White Star Line fundiu-se em 1934 com a Cunard Line e o navio foi inicialmente mantido na frota, porém acabou considerado um excedente dois anos depois. Ele foi vendido para desmontagem, porém a Marinha Real Britânica o adquiriu para poder transformá-lo em uma embarcação de treinamento. Foi renomeado HMS Caledonia e serviu nessa função até pegar fogo em setembro de 1939, sendo totalmente desmontado em 1943.
Antecedentes As empresas alemãs de transporte marítimo aspiravam no início da década de 1910 reconquistar o domínio do mercado que detiveram na virada do século, tendo sido superadas pelos enormes transatlânticos construídos pelas britânicas Cunard Line e White Star Line, especialmente o RMS Lusitania, RMS Mauretania e RMS Olympic. Foi nessas circunstâncias que Albert Ballin, presidente da Hamburg-Amerika Linie (HAPAG), decidiu construir três navios para serem os maiores do mundo até então. Seus planos inicialmente eram de construir a primeira embarcação na Alemanha e as duas seguintes nos estaleiros da Harland & Wolff no Reino Unido, porém mudou de ideia e decidiu reforçar o sentimento patriótico simbolizado pelo trio, ao fazer com que os três fossem construídos por estaleiros alemães.
Tamanho e conforto eram prioridades. Ballin sabia que seus navios não poderiam competir com os britânicos em velocidade. Ele planejou contornar o problema oferecendo luxuosidade, contratando o arquiteto francês Charles Mewès para cuidar dos interiores das embarcações. Outra questão era o tamanho, que precisava ser grande o bastante para acomodar numerosos tripulantes e passageiros divididos em quatro classes, diferente das três classes tradicionais, com a adicional dedicada ao transporte em massa de imigrantes. O naufrágio do RMS Titanic, que ocorreu em 1912 durante a construção das duas primeiras embarcações da HAPAG, salientou a necessidade de botes salva-vidas capazes de acomodar todos os passageiros a bordo e os desafios correspondentes. Os construtores alemães decidiram projetar seus navios com botes espalhados em vários locais, principalmente no convés superior.
Construção Pré-guerra thumb|esquerda|upright=1.2|O Bismarck em construção, 1914. O primeiro navio do trio foi o SS Imperator, que realizou sua viagem inaugural em 10 de junho de 1913. A segunda embarcação foi o SS Vaterland, que era um pouco maior que o Imperator e fez sua primeira viagem em 24 de maio de 1914. O último do trio teria o nome de SS Bismarck. Sua construção começou em 1913 logo após o lançamento do Vaterland, com o batimento de sua quilha nos estaleiros da Blohm & Voss em Hamburgo, durante cerimônia que teve a presença do imperador Guilherme II. O projeto original previa que o Bismarck fosse mais semelhante ao Vaterland, que por sua vez era diferente do Imperator em vários pontos, como por exemplo no fato de que os dutos das chaminés não desciam diretamente para o centro do navio, mas sim dividiam-se em tubos menores que corriam pelos flancos, permitindo a existência de espaços internos maiores.
Durante a construção do Bismarck em 1914 a HAPAG começou a suspeitar que o britânico RMS Aquitania, que em breve seria colocado em serviço pela Cunard, teria um comprimento maior que suas embarcações. Esta notícia fez a empresa alemã instalar uma águia ornamental na proa do Imperator para que pudessem ganhar alguns metros a mais. Isto também afetou o Bismarck, já que foi decidido prolongar seu comprimento em aproximadamente dois metros. Esta decisão gerou certo atrito com a Blohm & Voss, já que a adição desses dois metros seria particularmente onerosa, necessitando de uma revisão completa dos projetos e a adição de duas seções à meia nau para que o comprimento fosse aumentado. Estas mudanças no fim foram desnecessárias, já que o Aquitania nunca realmente chegou a ameaçar em comprimento o Vaterland e o Bismarck. Entretanto, isto permitiu que o Bismarck se tornasse o maior navio do mundo e mantivesse esse título até a estreia do francês SS Normandie da Compagnie Générale Transatlantique em 1935.
Como o nome do navio era uma homenagem ao ex-chanceler Otto von Bismarck, sua neta, a condessa Hannah von Bismarck-Schönhausen, foi escolhida para batizar a embarcação durante o lançamento em 20 de junho de 1914. O Imperator e o Vaterland tinham sido batizados, respectivamente, por Guilherme II e por Ruperto, Príncipe Herdeiro da Baviera, com o Bismarck sendo o único que seria batizado por uma mulher. Entretanto, toda a cerimônia estava sujeita a uma precisão rigorosa e a condessa não conseguiu jogar a garrafa de champanhe com força suficiente para quebrar no casco. O navio começou a escorregar para a água e o imperador teve de correr atrás dele e atirar a garrafa para que ela se quebrasse. Assim, acabou-se que as três embarcações da HAPAG foram batizadas por homens, quando a tradição geralmente concedia esse papel às mulheres.
O arquiduque Francisco Fernando da Áustria foi assassinado apenas uma semana depois do lançamento do Bismarck e a Primeira Guerra Mundial começou logo em seguida. Todos os funcionários do estaleiro foram requisitados para o esforço de guerra, com os trabalhos no navio cessando completamente para serem retomados apenas ao final do conflito. Muitos dos materiais que estavam previstos para serem utilizados no processo de equipagem e finalização do Bismarck foram instalados em outros projetos.
Pós-guerra thumb|upright=1.3|O casco do Bismarck em agosto de 1918. Vários navios das companhias de navegação britânicas serviram na Primeira Guerra, e muitos foram perdidos. A Alemanha foi derrotada e, pelos termos do Tratado de Versalhes, obrigada a ceder boa parte de suas embarcações a fim de substituir a tonelagem perdida pelos aliados. A White Star acabou adquirindo muitos deles. Foi assim que os três grandes transatlânticos da HAPAG foram parar nas mãos dos aliados: o Vaterland tinha sido tomado pelos Estados Unidos durante a guerra e permaneceu com os norte-americanos, sendo rebatizado como SS Leviathan. Já o Imperator e o Bismarck foram vendidos para a Cunard e para a White Star, que ficaram donas de metade de cada navio. O primeiro foi renomeado como RMS Berengaria e navegou pela primeira vez com a Cunard em 1920. O segundo ainda estava incompleto e foi destinado à White Star. Alguns anos depois, por simplicidade, as duas empresas tornaram-se donas completas do navio que operavam.
A construção do Bismarck ainda precisava recomeçar na Blohm & Voss. Todavia, os novos proprietários enviaram peritos dos estaleiros da Harland & Wolff em Belfast, os construtores habituais dos navios da White Star, para supervisionarem o andamento dos trabalhos. Inicialmente mil e depois dois mil trabalhadores foram mobilizados. O projeto sofreu algumas modificações, principalmente no quesito propulsão, já que os britânicos pediram que as caldeiras a carvão originais fossem convertidas para funcionarem a óleo combustível, que era mais econômico. Existiam grandes temores que os trabalhadores alemães poderiam sabotar a embarcação, algo aparentemente confirmado quando um incêndio surgiu no Bismarck em 4 de outubro de 1920, mas que não teve consequências graves. Além disso, os materiais necessários para as obras nem sempre chegavam no tempo esperado, atrasando o progresso. A atribuição para a White Star foi confirmada oficialmente em fevereiro de 1921 e o novo nome do navio foi rapidamente anunciado: RMS Majestic, referência a uma embarcação homônima. As chaminés foram instaladas no final de maio e início de junho, com os trabalhos concentrando-se em seguida nos interiores. Houve novas mudanças feitas na distribuição dos passageiros: a quarta classe foi abolida devido à redução dos fluxos migratórios e o navio foi reprojetado a fim de transportar menos de mil imigrantes por travessia, para um total de pouco mais de dois mil passageiros. Estes números eram bem aquém das mais de quatro mil pessoas que o Imperator costumava transportar.
O transatlântico foi concluído em 28 de março de 1922 e entregue ainda sob o nome Bismarck. Oficiais da White Star e seu comodoro Bertram Hayes viajaram para Hamburgo com o objetivo de acompanharem os testes marítimos, ficando chocados ao descobrir que o navio fora pintado com as cores da HAPAG. As cabines mais luxuosas foram decoradas para que a família imperial alemã desfrutasse de um "cruzeiro da vitória", algo incongruente à luz dos acontecimentos recentes. Hayes também descobriu que sua cabine fora usada como depósito. Estes eventos refletiam o clima de tensão que acompanhava a entrega. Sob essas circunstâncias, os britânicos redobraram seus esforços para satisfazerem o orgulho dos alemães, permitindo que o navio deixasse o porto hasteando a bandeira alemã e sob o comando do capitão Hans Ruser, comodoro da HAPAG.
Os testes marítimos ocorreram no dia 1º de abril de 1922 e satisfizeram completamente a White Star. Ele retornou temporariamente para a Alemanha para que os últimos ajustes e arranjos fossem finalizados. Os britânicos assumiram oficialmente a posse do navio em 9 de abril, sendo imediatamente pintado com as cores da White Star. Assim, a empresa tornou-se dona do maior navio de passageiros do mundo da época, fazendo seu caminho até Southampton a fim de realizar sua viagem inaugural.
Características Aspectos técnicos O Majestic foi o maior navio do mundo em seu tempo. Tinha 291,3 metros de comprimento, por 30,5 metros em seu ponto mais largo, com calado de onze metros e uma tonelagem de 56 551 toneladas. Possuía dois mastros, um na proa e outro na popa, e três chaminés. Estas deveriam ser uniformemente amarelas caso o navio tivesse servido sob a HAPAG, porém tornaram-se de cor marrom ocre com topo preto, quando ele foi adquirido pela White Star. A terceira chaminé era falsa e tinha intenção de equilibrar o visual externo da embarcação, enquanto as duas primeiras evacuavam a fumaça produzida nas caldeiras. Ao contrário do projeto usual na época, e seguindo o que fora testado no Vaterland, a fumaça era evacuada por pequenos tubos finos que subiam pela lateral do Majestic, em vez de por meio de um único duto grande que atravessava o centro do navio.