João, o Apóstolo (; ; latim e grego koiné: Ioannes; Betsaida, 6 ─ Éfeso, 101) foi um dos doze apóstolos de Jesus, conforme relatado no Novo Testamento, filho de Zebedeu e de Salomé, e irmão de Tiago, igualmente apóstolo. Exercendo inicialmente o ofício de pescador no mar da Galileia, João foi chamado por Jesus para segui-lo, abandonando tudo para participar intimamente de sua missão.

A tradição cristã apresenta João como pertencente ao círculo mais próximo de Jesus, ao lado de Pedro e Tiago, tendo sido testemunha de acontecimentos centrais da vida de Cristo, como a Transfiguração, a agonia no Horto das Oliveiras e a Crucificação. O Evangelho segundo João refere-se a ele como o “discípulo a quem Jesus amava”, expressão que a tradição interpreta como sinal de profunda comunhão espiritual e fidelidade. Segundo o relato evangélico, foi a João que Cristo confiou sua Mãe, a Virgem Maria, aos pés da cruz.

De acordo com um testemunho antigo e amplamente difundido entre os Padres da Igreja, João teria sido o único dos apóstolos a não sofrer o martírio, vivendo até idade avançada após ter enfrentado perseguições, exílios e sofrimentos por causa da fé. A tradição sustenta que passou seus últimos anos em Éfeso, onde exerceu ministério pastoral e ensinou a fé cristã às comunidades locais.

Desde os primeiros séculos do cristianismo, os Padres da Igreja identificaram João, o Apóstolo, como sendo a mesma pessoa que João Evangelista, autor do quarto Evangelho, das três Epístolas joaninas, e João de Patmos, tradicionalmente reconhecido como o autor do Apocalipse. Essa identificação, embora debatida no âmbito acadêmico moderno, continua a ser professada pela Igreja Católica, pelas Igrejas Ortodoxas e por diversas outras denominações cristãs.

Venerado como santo e apóstolo, São João ocupa lugar notável na cristandade. É celebrado em 27 de dezembro pela Igreja Católica e em 26 de setembro pela Ortodoxa, sendo reconhecido não apenas como testemunha ocular de Cristo, mas também como mestre espiritual cuja teologia exerceu profunda influência sobre a doutrina cristã, a liturgia e a espiritualidade ao longo dos séculos.

Evangelista

A tradição católica afirma que João é o autor do Evangelho segundo João e de quatro outros livros do Novo Testamento — as três Epístolas de João e o Apocalipse. No Evangelho, a autoria é internamente creditada ao "discípulo amado" () em e afirma que o Evangelho segundo João é baseado no testemunho escrito do "discípulo amado". A autoria da literatura joanina tem sido debatida desde o ano 200 e sempre houve dúvidas se o houve de fato um indivíduo de nome "João" que escreveu todos estes livros. Seja como for, existe a noção de um "João Evangelista" e geralmente acredita-se que ele é o apóstolo João.

Em sua "História Eclesiástica", Eusébio afirma que a Primeira Epístola de João e o Evangelho segundo João são amplamente creditados a ele. Porém, ele menciona que o consenso é que a segunda e a terceira epístolas de João não seriam dele e sim de um outro João. Além disso, ele se esforça para firmar ao leitor de que não um consenso geral sobre as "revelações de João", uma obra que, atualmente, acredita-se que só possa ser o "Apocalipse" (também chamado de "Revelações"). O Evangelho segundo João é consideravelmente diferente dos evangelhos sinóticos, provavelmente escritos muito antes dele. Os bispos da Ásia Menor teriam supostamente pedido que João escrevesse seu evangelho para enfrentarem os ebionitas, que defendiam que Cristo não teria existido antes de Maria. João provavelmente conhecia e certamente aprovava os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, mas estes relatavam a vida de Jesus focando primordialmente nos eventos posteriores à prisão e morte de João Batista.Thomas Patrick Halton, On illustrious men, Volume 100 of The Fathers of the Church, CUA Press, 1999. P. 19. Por volta de 600, porém, Sofrônio de Jerusalém percebeu que "duas epístolas atribuídas a ele... são consideradas por alguns como sendo obra de um certo João, o Velho" e, depois de afirmar que o Apocalipse é obra de João de Patmos, ele teria sido "posteriormente traduzido por Justino Mártir e Ireneu", supostamente numa tentativa de reconciliar a tradição com as óbvias diferenças estilísticas no grego.

Até o século XIX, a autoria do Evangelho segundo João era universalmente atribuída ao apóstolo João. Porém, a maior parte dos biblistas modernos tem dúvidas.Harris, Stephen L., Understanding the Bible (Palo Alto: Mayfield, 1985) p. 355 Foley OFM, Leonard. "Saint of the Day: Lives, Lessons and Feast", (revised by Pat McCloskey, OFM), American Catholic.org Alguns concordam em datar a obra em algum momento entre 65 e 85.Harris, Stephen L., Understanding the Bible. McGraw-Hill, 2006. John Robinson propõe uma primeira edição entre 50 e 55 e uma outra, final, em 65, com base em similaridades com os escritos de Paulo. Outros estudiosos afirmam que o Evangelho segundo João teria sido composto em dois ou até três estágiosMark Allan Powell. Jesus as a figure in history. Westminster John Knox Press, 1998. / 978-0664257033. Há ainda os que defendem que ele não teria sido escrito até o terço final do século I, determinando a data mais antiga possível como algo entre 75 e 80. Gail R O'Day, introduction to the Gospel of John in New Revised Standard Translation of the Bible, Abingdon Press, Nashville, 2003, p.1906 Finalmente, há os que defendem uma data ainda mais tardia, talvez na última década do século I ou mesmo o início do século seguinte.Reading John, Francis J. Moloney, SDB, Dove Press, 1995

Ainda assim, atualmente, muitos teólogos continuam a aceitar a autoria tradicional. Colin G. Kruse afirma que, como João Evangelista foi consistentemente citado nas obras dos primeiros Padres da Igreja, "é difícil ignorar esta conclusão, apesar da ampla relutância em aceitar [a autoria] por muitos, mas de forma alguma todos, os estudiosos modernos".Kruse, Colin G.The Gospel According to John: An Introduction and Commentary, Eerdmans, 2004, , p. 28.

A autoria anônima tem muitos defensores.E P Sanders, The Historical Figure of Jesus, (Penguin, 1995) page 63 - 64. Bart D. Ehrman (2000:43) The New Testament: a historical introduction to early Christian writings. Oxford University Press. Geoffrey W. Bromiley (1995:287) International Standard Bible Encyclopedia: K-P MATTHEW, GOSPEL ACCORDING TO. Wm. B. Eerdmans Publishing. Donald Senior, Paul J. Achtemeier, Robert J. Karris (2002:328) Invitation to the Gospels Paulist Press. Keith Fullerton Nickle (2001:43) The Synoptic Gospels: an introduction Westminster John Knox Press. Ben Witherington (2004:44) The Gospel code: novel claims about Jesus, Mary Magdalene, and Da Vinci InterVarsity Press. F.F. Bruce (1994:1) The Gospel of John Wm. B. Eerdmans Publishing. Patrick J. Flannagan (1997:16) The Gospel of Mark Made Easy Paulist Press Segundo Paul N. Anderson, ele "contém mais reivindicações diretas de testemunho direto do que qualquer outra tradição evangélica".Paul N. Anderson, The Riddles of the Fourth Gospel, p. 48. F. F. Bruce argumenta que contém uma "enfática e explícita reivindicação de autoridade testemunhal direta".F. F. Bruce, The Gospel of John, p. 3. Bart D. Ehrman, porém, não acredita que as reivindicações evangélicas tenham sido escritas por testemunhas diretas dos eventos relatados.Bart D. Ehrman (2005:235) Lost Christianities: the battles for scripture and the faiths we never knew Oxford University Press, New York. Bart D. Ehrman (2004:110) Truth and Fiction in The Da Vinci Code: A Historian Reveals What We Really Know about Jesus, Mary Magdalene, and Constantine. Oxford University Press. Bart D. Ehrman(2006:143) The lost Gospel of Judas Iscariot: a new look at betrayer and betrayed. Oxford University Press.

Porém, João 21 termina (no versículo 24) com uma declaração explícita que unifica o autor ("João Evangelista") e a testemunha ("João, o Apóstolo"), na forma de um artifício literário de esconder ou adiar a descoberta do misterioso "outro discípulo", o "discípulo amado" e "este homem", as primeiras duas formas utilizadas múltiplas vezes durante o relato:

Apocalipse thumb|300px|direita|João de Patmos escrevendo o Apocalipse. No alto à direita, a Besta. Muitas tradições cristãs identificam este João como sendo o João Apóstolo e o João Evangelista.

O autor do Apocalipse (chamado também de "Revelações") identifica-se como "João" em Apocalipse 1."Revelation, Book of." Cross, F. L., ed. The Oxford dictionary of the Christian church. New York: Oxford University Press. 2005 O escritor do início do século II, Justino Mártir, foi o primeiro a afirmar que ele seria a mesma pessoa que "João, o Apóstolo",Justino Mártir, Diálogo com Trifão, 81.4 porém, alguns estudiosos atualmente afirmam que os dois seriam pessoas distintas.

João, o Presbítero, uma figura obscura do cristianismo primitivo, tem sido identificado como sendo o receptor das visões do Apocalipse por autores como Eusébio e São Jerônimo.

Acredita-se que João teria sido exilado para a ilha grega de Patmos durante as perseguições do imperador Domiciano. O autor afirma ter escrito o livro ali: Adela Yarbro Collins, uma biblista na Universidade de Teologia de Yale, afirma que:

Alguns críticos levantaram a possibilidade que João, o Apóstolo, João, o Evangelista, e João de Patmos sejam três pessoas diferentes.Griggs, C. Wilfred. "John the Beloved" in Ludlow, Daniel H., ed. Selections from the Encyclopedia of Mormonism: Scriptures of the Church (Salt Lake City, Utah: Deseret Book, 1992) p. 379. Segundo eles, João de Patmos teria escrito o Apocalipse apenas e não as epístolas e nem o Evangelho. Em primeiro lugar, argumentam, o seu autor se identifica como sendo "João" diversas vezes, enquanto o autor do Evangelho jamais o faz. Alguns estudiosos católicos afirmam que "vocabulário, gramática e estilo fazem com que seja duvidoso que o livro tenha sido apresentado na forma atual pela mesma pessoa responsável pelo quarto evangelho".Introduction. Saint Joseph Edition of the New American Bible: Translated from the Original Languages with Critical Use of All the Ancient Sources : including the Revised New Testament and the Revised Psalms. New York: Catholic Book Pub., 1992. 386. Print.

Referências a João no Novo Testamento thumb|esquerda|200px|Jesus chamando os "filhos do trovão", São João e São Tiago.1510. Por Marco Basaiti, atualmente na Accademia de Veneza. thumb|esquerda|200px|Cena do Calvário, com São João, Maria e Santa Maria Madalena aos pés da cruz, uma das imagens mais conhecidas de João, o Apóstolo.Séc. XIX. Por Joseph Ernst Tunner, na igreja de Sant'Antonio Nuovo, em Trieste, Itália. Filhos do trovão João, o Apóstolo, era filho de Zebedeu e irmão mais novo de Tiago, filho de Zebedeu (tradicionalmente chamado de São Tiago Maior). Segundo a tradição, sua mãe era Salomé, uma conclusão obtida ao se comparar com . Zebedeu e seus filhos eram pescadores do mar da Galileia e os irmãos foram primeiro discípulos de João Batista. Jesus chamou então Pedro, André e os dois para segui-lo. Jesus os chamava de "boanerges" ("filhos do trovão") uma referência ao fato que, apesar de ambos terem sido descritos como sendo calmos e gentis, os irmãos, quando levados ao limite, tornavam-se selvagens e barulhentos, o que os fazia se defender como uma tempestade: uma das histórias do evangelho conta como os irmãos queriam chamar o fogo dos céus contra uma cidade samaritana, mas Jesus os admoestou ().

Ainda segundo a tradição, João teria vivido mais de meio século depois da morte de Tiago, que teria sido o primeiro apóstolo a ser martirizado.

Outras referências