Richard Rappaport que nasceu em 1944 em Pittsburgh é um pintor norteamericano de retratos e obras figurativas de grandes dimensões, de formação clássica e cuja evolução pictórica há cerca de meio século tem sido uma espiral de aproximação e afastamento do ideal renascentista.
Na sua obra, mesmo quando aplica a abstração, Rappaport mantém a figura icónica como fonte primacial. Além de retratos de profundidade psicológica, Rappaport, na tradição da pintura como memorial, usa a iconografia cristã para representar o Holocausto, a Guerra do Biafra e a Guerra do Vietname.
Antigo aluno e amigo de Robert L. Lepper na Universidade Carnegie Mellon em Pittsburgh, Rappaport é um dos artistas influenciados pelo curso de Lepper intitulado Individual and Social Analysis (Análise Individual e Social). O seu texto de 1989, Robert Lepper, Carnegie Tech, and the Oakland Project, é a principal fonte sobre a influência de Lepper sobre Andy Warhol, Philip Pearlstein, Mel Bochner, e Jonathan Borofsky quando estes foram seus alunos.
Desde 1981 Rappaport tem usado as páginas de anúncios de revistas de arte internacionais como lugar de exposição e a principal forma de presença pública. Nestas revistas incluem-se Art in America, Artforum, Flash Art, Bomb, Modern Painters, World Art, The New Criterion, e Limn.
Vida e Obra Desde cedo, a partir dos oito anos, que Rappaport demostrou uma invulgar capacidade para desenhar o rosto humano fazendo retratos emocionalmente credíveis de familiares e amigos, tendo o trabalho culminante sido o desenho reverencial da sua bisavó (1954), feito pouco depois do seu décimo aniversário. Depois ao longo de três anos, começando no quinto ano, o jovem artista assistiu às lições de Tam O'Shanter no Carnegie Institute, a que se seguiu aos treze anos durante um ano a aprendizagem tradicional de pintura com o artista realista/surrealista Abe Weiner. Já um talentoso desenhador aos dezessete anos, Rappaport é premiado com a medalha de ouro em desenho no National Scholastic Art & Writing Awards (Prémios Nacionais Escolares de Arte e Escrita dos EUA) na primavera de 1962, entrando para o Departamento de Pintura e Desenho do Carnegie Tech no outono daquele ano.Ao mesmo tempo que o seu irmão mais velho Robert Rappaport, que se tornaria o diretor na televisão do Mike Douglas Show e do Concurso de Miss Universo, entra no Departamento de Teatro para cenografia. Os anos do Carnegie Tech Uma das obras mais significativas, que irá enformar a prática futura do artista, feita nas férias de Natal do seu primeiro ano no Carnegie Tech, é Self Nude (1962), com cerca de metro e meio de altura, do torso do próprio autor, destacando um braço nu, o ombro e metade do rosto contra o fundo preto. Oito anos mais tarde o artista retorna ao conceito de quadro negro ao qual aplica camadas de tinta a óleo como em Joseph Accused (José Acusado) (1971) em que a imagem é obtida riscando a camada superior de cádmio vermelho para surgirem as cores mais claras inferiores turquesa e amarelo claro.
Em agosto de 1963, no verão após o seu ano de calouro, Rappaport pinta o seu primeiro conjunto de retratos em que se incluem Mrs. Ress (1963), Ann Weiner (1963) e o Self Nude (1963), permitindo-lhe ganhar o prémio do Departamento de arte pelo trabalho feito de forma independente e proporcionando-lhe a sua primeira exposição destes retratos no corredor central do Departamento no início do seu segundo ano escolar. Ao ver a exposição, o pai do pintor dá-lhe dinheiro para comprar materiais de pintura o que torna possível a execução dos seus trabalhos de grande dimensão de pintura sobre tela nos últimos três anos de estudo. thumbnail|upright 1.1|Burial of Christ (Lamentação), detalhe, 1964 A partir daí só nominalmente continuará a ser um estudante, escolhendo os seus temas de forma independente e trabalhando fora da sala de aula nesse segundo ano escolar revendo Rembrandt e Ticiano enquanto pintava a primeira fase do retrato de sua mãe Woman with Red Hands (Mulher com Mãos Vermelhas) (1963) e Burial of Christ (A Lamentação) (1964) cuja representação austera, sendo uma homenagem à Pietà de Villeneuve-lès-Avignon medieval, é a primeira de uma série de obras realizadas ao longo do tempo em que ele se retrata no papel de intruso alienado. thumb|upright 1|left|Family Portrait (Retrato de Família) detalhe, 1965 No ano seguinte realiza o duplo-retrato dos atores Michael Tucker e Laurie Jefferson (1965) e o retrato parcial da própria família Family Portrait (1965) que inclui a mãe dele, o irmão mais novo Ronald e ele próprio, realizado num momento emocionalmente intenso pois os seus pais se haviam separado. As faces em ambos os quadros são construídas a partir do tecido absorvente que deve muito ao exemplo de Edgar Degas - especialmente o da mãe do artista que invoca Portrait of a Young Woman (Retrato de uma Mulher Jovem) (1867) de Degas.
No verão de 1965, em Six Characters in Search (Seis Personagens em Busca) (1965), o artista retrata-se como protagonista rebelde/alvo de ridículo e agente do juízo que retoma o Cristo de Michelangelo no Juízo Final; e em Jewess Accused (Judia acusada) (1965) substitui a ênfase colocada em Christ and the Woman Taken in Adultery (Cristo e a mulher tomada em adultério) para expressar o ostracismo e a acusação de crimes contra os judeus que levaram ao Holocausto. Segue-se no último semestre lectivo We Are All Somnambulists (Somos todos Sonâmbulos) (1966). Todos foram pintados com modelos ao vivo. thumb|upright 1.2|left|Jewess Accused (Judia Acusada), 1965 No entanto, a obra de Rappaport está desfasada dos movimentos artísticos dominantes que emergiram na década de 1960 - Pop Art, Minimalismo e Arte conceptual - e em desacordo com o Novo Realismo, cujo programa de objetividade na representação da figura humana, eliminando todas as respostas subjetivas, exigindo a dimensão espiritual, desacredita o evidente romantismo na pintura de Rappaport. Enquanto Alice Neel e Larry Rivers em Nova York, Francis Bacon (artista) e Lucian Freud em Inglaterra e Balthus em França têm o privilegio de pintar figurativamente, a prática de Rappaport é marginalizada já como estudante, expressando nessas primeiras obras temas universais da condição humana e assumindo a sua pintura também um aspecto autobiográfico.
Para além da pintura, Rappaport desenha constantemente. A sua série gráfica mais evoluída é executada diretamente a partir de uma figura esquelética mumificada naturalmente, tendo sido enterrada em posição fetal, em exposição no Museu Carnegie, que fora sempre um fascínio para o artista e a que, utilizado como motivo simbólico do Holocausto, o artista irá retornar trinta e cinco anos mais tarde, na pintura The Oven's Womb (O Ventre do Forno) (1997), desenhado de forma simplificada, como se pintura de caverna, num campo de cor vermelho de cádmio.
A influência de Robert Lepper No Outono de 1964, Rappaport assiste as aulas de Robert Lepper, intituladas "Análise Individual e Social", estabelecendo uma relação estreita com o professor naturalmente mais velho. No entanto, ainda que fascinado pela lógica e eloquência de Lepper sobre uma vasta gama de questões, o caminho de Rappaport não segue alinhado com o dos ex-alunos famosos do Lepper: Andy Warhol, Philip Pearlatein, Mel Bochner, e Jonathan Borofsky. thumbnail|upright 1.4|Six Characters in Search (Seis Personagens em Busca), 1965 Estes, conscientes da mudança de hierarquia de valor devido ao impacto da máquina e mídia na sociedade, são directamente influenciados pelo trabalho de Lepper sobre desenho industrial e abordando o potencial do papel da tecnologia na prática de arte contemporânea, uma estratégia vista na prática conceitual de Bochner.
Ainda que continue dedicado a Lepper nos vinte e cinco anos seguintes, ao mesmo tempo seguindo a progressão das ideias de Lepper na evolução da obra dos artistas acima mencionados, o que consequentemente levou à escrita em 1989 de "Robert Lepper, Carnegie Tech, and the Oakland Project" ("Robert Lepper, Carnegie Tech e o projeto Oakland), Rappaport não pode ser considerado no "campo" de Lepper. (Isto será tornado mais evidente cerca de dezassete anos após a morte do Lepper no seu ensaio Robert Lepper /Six Characters in Search (Robert Lepper /Seis Personagens em Busca) que revê o legado de Lepper quatro décadas mais tarde.)
Ao invés, Rappaport mantém a sua própria agenda, já evidente em Burial of Christ (A Lamentação) pintado no ano anterior ao encontro com Lepper, que funde numa pintura figurativa expressiva o autobiográfico com o sócio-político, que são opções postas de lado na introdução por Lepper das suas aulas, cujo principal objetivo, expurgado do sócio-político, evoca o poder psíquico e emotivo da memória sem intermediação em resposta ao material autobiográfico.
De grande importância, o afastamento de Rappaport no final da década de 1960 da pintura tradicional com pincel para a sua técnica de grattage deve-se ao exemplo do próprio Lepper de chegar à conclusão de que o pincel não fazia parte dos seus instrumentos, que eram antes os do fabricante industrial. E ao olhar para a grande tradição figurativa da arte ocidental como um recurso e inspiração, Rappaport fá-lo enquadrado pela perspectiva tardo-modernista/pós-modernista de Lepper.
O Outono de 1964 revela-se um momento auspicioso quando logo após o início da classe de Robert Lepper, Rappaport encontra Herbert A. Simon, um dos cientistas sociais mais influentes do século XX, cujo trabalho de simulação por computador é pioneiro na tomada de decisões, e, na sequência da oferta por Rappaport a Simon de um desenho da filha deste, Barbara, cresce o relacionamento entre eles. Simon torna-se num dos primeiros apoiantes e amigo de longa data do jovem artista, cujo retrato, Herbert A Simon (1987), Rappaport pinta no verão de 1987 para a Universidade Carnegie Mellon por ter sido aquele o seu primeiro Prémio Nobel, retrato que é seguido uma semana mais tarde pelo de Robert Lepper.
Ship of Fools (Nave de Loucos), Julho de 1966 thumb|upright 1.4|left|Ship of Fools (Nave de Loucos), 1966 Após a licenciatura, em junho de 1966, é cedido a Rappaport um espaço em Nova Iorque durante o verão onde ele pinta a sua primeira obra sem utilizar modelos vivos, utilizando uma execução expressivamente gestual no desenho das figuras. Tomando como inspiração uma fotografia de Marc Chagall a pintar os seus murais para o Lincoln Center, bem como uma pintura em rolo japonesa emprestada pelo seu benfeitor, a qual incluia uma imagem de um barco assolado por um tufão, barco que pertencia à armada Mongol que falhara a invasão do Japão no século XVI, Rappaport, que já tinha em mente a versão de Hieronymus Bosch para o tema, começa a pintar Ship of Fools (Nave de Loucos) (1966) horas após o anúncio dos primeiros bombardeamentos do Vietname do Norte pelos Estados Unidos na escalada da guerra.
Ship of Fools (Nave de Loucos) não marca apenas um acontecimento histórico; artisticamente, marca um ponto de viragem para o jovem artista que entra numa fase de figuração iconográfica que em algumas obras dos anos de 1970 leva à redução quase completa dos traços do elemento figurativo. thumbnail|upright 1.3|Oratory Mural (Mural do Oratório) - detalhe - A Anunciação, 1966 A grande obra seguinte de Rappaport, nessa evolução, é o Mural do Oratório (1966-1967), que surge em resultado da exposição de Navio de Loucos na Universidade Carnegie Mellon em novembro de 1966, quando o Padre Philip Walsh do Oratório de Pittsburgh encomenda a Rappaport a pintura de um tríptico para a casa de repouso em projeto, obtendo para o artista um espaço para estúdio na antiga Chancelaria nas traseiras da Catedral de S. Paulo, em Pittsburgh, onde o artista pinta as telas no chão da biblioteca gótica. O mural, que foi recusado por quem o encomendou, manteve-se enrolado durante vinte anos, e só então encontra um espaço de exposição por empréstimo alargado ao Institutes for the Achievement of Human Potential de Filadélfia, em 1987.