The Holy Bible é o terceiro álbum de estúdio da banda galesa de rock alternativo Manic Street Preachers. Foi lançado em 30 de agosto de 1994 pela Epic Records. Durante o processo de escrita e gravação do álbum, o compositor e guitarrista Richey Edwards estava sofrendo com depressão profunda, alcoolismo, automutilação e anorexia nervosa, razão pela qual muitas fontes consideram que o conteúdo do disco refletia o estado mental de Richey. As músicas abordam temas como a política e o sofrimento humano. The Holy Bible foi o último álbum da banda lançado antes do desaparecimento de Edwards, em 1 de fevereiro de 1995.
Apesar de ter alcançado o sexto lugar nas Paradas de sucesso do Reino Unido, as vendas globais foram inicialmente inferiores àquelas dos álbuns anteriores, e o disco não conseguiu entrar nas paradas de sucesso da Europa continental nem da América do Norte. Promoveu-se o trabalho com turnês e participações em festivais do Reino Unido, Irlanda, Alemanha, Portugal, Países Baixos e Tailândia, parcialmente sem Edwards. A despeito do insucesso comercial, The Holy Bible foi aclamado pela crítica especializada, e é frequentemente mencionado em listas de melhores discos de todos os tempos, como aquelas das revistas Melody Maker, NME e Q, bem como do livro 1001 Álbuns para Ouvir Antes de Morrer. Até 2014, haviam sido vendidas mais de meio milhão de cópias do disco ao redor do mundo.
Gravação
Segundo o baterista Sean Moore, a banda sentia que havia se perdido em seu álbum anterior de 1993, Gold Against the Soul. Por isso, para o trabalho seguinte, optaram por retornar às raízes e redescobrir "um pouco da britaneidade que nos faltava". O cantor e guitarrista James Dean Bradfield reiterou que o quarteto sentia-se "um pouco roquista demais [...] Nós havíamos perdido a direção". Depois de ter os dois primeiros discos dominados por influências feito Guns N' Roses e Alice in Chains, a banda decidiu inspirar-se nos artistas de quem gostavam no começo de sua carreira, como Magazine, Wire, Skids, Public Image Ltd, Gang of Four, Joy Division e Siouxsie and the Banshees.
A Epic Records propusera que o álbum fosse gravado em Barbados, mas a banda quis evitar o que Bradfield chamou de "toda essa baboseira de rockstar decadente". Ainda segundo Bradfield, foi o baixista Nicky Wire quem teve a ideia de que a banda "não usasse tudo de que dispunha" para gravar o álbum. Assim, as gravações iniciaram-se com o engenheiro de som Alex Silva no econômico e "absolutamente minúsculo" Sound Space Studios, em Cardiff. O álbum foi mixado por Mark Fereegard, que trabalhara previamente com The Breeders. "She Is Suffering" foi produzida por Steve Brown. A gravação durou quatro semanas
Bradfield descreveu a gravação do disco como algo que o impedia de ter uma vida social, e Alex Silva culpa as longas horas de trabalho com o álbum pelo fim do relacionamento que tinha à época, com sua namorada. O guitarrista Richey Edwards comparecia às sessões de gravação, mas, segundo Wire, era comum que ele "desmoronasse no sofá e dormisse", enquanto os demais membros da banda faziam todo resto. Ele estava bebendo exageradamente, e chorava com frequência. "Inevitavelmente", disse Bradfield, "o dia começava com o barulho de uma latinha sendo aberta."
O álbum foi concebido com "disciplina acadêmica", segundo Bradfield, com a banda trabalhando para que "cada música se assemelhasse a um ensaio" em aspectos estruturais.
Conteúdo
Letras
Embora Richey Edwards e Nicky Wire dividissem igualmente os créditos pelas letras dos dois álbuns anteriores, cerca de 70 a 75% daquelas de The Holy Bible foram escritas por Edwards, segundo James Dean Bradfield. Na época do lançamento da edição comemorativa de dez anos do álbum, Wire afirmou ter sido majoritariamente responsável por "Ifwhiteamericatoldthetruthforonedayit'sworldwouldfallapart" (a qual menciona o ator River Phoenix) e por "This Is Yesterday", contribuindo apenas com o título de algumas outras canções. Contudo, depois que releu seus cadernos, Wire surpreendeu-se pela descoberta de que havia contribuído com mais letras do que se recordava previamente, tendo colaborado também com partes de "Of Walking Abortion" e "Mausoleum", bem como com algumas linhas de "Faster". Assim, ele passou a considerar-se responsável por cerca de 30% das palavras do álbum.
As letras do registro lidam com temas como prostituição, consumismo estadunidense, imperialismo britânico, liberdade de expressão, o Holocausto, fome voluntária, assassinos em série, pena de morte, revoluções políticas, infância, fascismo e suicídio. Segundo a revista Q, "o tom do álbum é por vezes desolador, irado e resignado" Em 1994, essa revista também comentou que "mesmo uma olhada superficial nos títulos das músicas confirmaria que este não é o novo álbum de Gloria Estefan".
Sean Moore descreveu o conteúdo das letras como estando nos limites do caráter de Richey.. Segundo Bradfield, "algumas das letras me confundiram. Algumas […] eram voyeurísticas e outras viam de sua experiência pessoal […] Lembro-me de receber as letras de 'Yes' e pensar, 'seu maluco do caralho, como vou escrever uma melodia para isso?'" O crítico Simon Price apontou que todo potencial que essa canção possuía para a rádio foi minado por seu foco em prostituição e os palavrões sexuais recorrentes da letra.
Em uma entrevista à época de lançamento do álbum, Nicky Wire disse que a faixa "Ifwhiteamericatoldthetruthforonedayit'sworldwouldfallapart" não se tratava de "uma canção completamente anti-Americanos", mas sim que ela falava sobre "como a mais vazia cultura do mundo consegue dominá-lo de uma forma tão completa." Seu título é constantemente atribuído a Lenny Bruce, sem se citar qualquer fonte para a afirmação. É possível que um erro de atribuição surgira devido às discussões da banda sobre Bruce, liberdade de expressão e 'PCP'.
"Of Walking Abortion" trata do totalitarismo da direita, sobre o qual Wire afirmou: "há um verme, na natureza humana, que nos faz desejar que nos dominem." Por "Archives of Pain" lidar com a glorificação de serial killers e ser uma aparente defesa da pena de morte, Wire disse que ela "foi a faixa com a qual Richey e eu mais nos preocupamos […] ela não é um endosso à direita política, mas sim contra a fascinação por pessoas que matam." Mais adiante em 1994, Bradfield descreveu a canção como "uma das mais importantes coisas que já fizemos", mas também disse que ela era "bastante de direita" e "um erro de cálculo."
Wire declarou que "Revol" tratava da ideia de Edwards de que "relacionamentos políticos, e relacionamentos em geral, são falhas." Já "P.C.P.", afirmou, era sobre como "os seguidores do politicamente correto pensam ser liberais, mas acabam sendo o contrário." Ele mencionou que se sentiu "completamente confuso" com "Faster" (à qual ele também contribuíra), embora Edwards lhe contara que ela abordava questões de abuso autoinfligido.
"Mausoleum" e "The Intense Humming of Evil", disse Wire, foram ambas inspiradas por visitas da banda aos campos de concentração de Dachau e de Bergen-Belsen. Um rascunho inicial da primeira canção fora considerado insuficientemente crítico por Bradfield, que solicitara que ela fosse reescrita, afirmando que "não se pode ser ambivalente quanto ao Holocausto."
De acordo com Wire, "Die in the Summertime" e "4st 7lb" eram "obviamente sobre o estado mental de Richey." Porém, Edwards afirmou que a primeira canção fala, na realidade, de um aposentado que desejava morrer com as memórias de sua infância na cabeça. Já a medida que dá nome à "4st 7lb", 29 kg, é o peso abaixo do qual a morte é considerada medicamente inevitável para anoréxicos.
"This Is Yesterday" trata, segundo Wire, de "como as pessoas sempre encaram sua juventude como um período de glória."
Tanto Wire quanto Bradfield expressaram certo desgosto pela letra de "She Is Suffering", com Wire afirmando que ela sofre de uma síndrome de "homem-ao-resgate." Edwards aponta que o pronome do título da canção refere-se ao Desejo: "em outras bíblias e livros sagrados, nenhuma verdade é possível até que se esteja livre de desejo."
Uso de samples de diálogos
Inúmeras faixas do disco são complementadas por samples de diálogos, cujo conteúdo está em conformidade aos temas das próprias composições:
"Yes" tem um diálogo do documentário Hookers, Hustlers, Pimps and their Johns, de 1993, dirigido por Beeban Kidron, e que fala sobre o comércio de prostituição. "Ifwhiteamericatoldthetruthforonedayit'sworldwouldfallapart" abre com uma propaganda do programa televisivo Rising Tide, da GOP TV. "Of Walking Abortion" se inicia com o trecho de uma entrevista com Hubert Selby Jr.. "She is Suffering", na mixagem americana do disco, começa com um sample do cientista e filósofo britânico John G. Bennett dizendo que "é impossível alcançar o alvo sem sofrimento." Esse diálogo não está presente na edição padrão do álbum nem no single. "Archives of Pain" abre com as palavras da mãe de uma das vítimas do serial killer Peter Sutcliffe, proferidas em uma reportagem de TV do julgamento dele. "4st 7lb" começa com um diálogo de um documentário de 1994 sobre anorexia, chamado Caraline's Story, dirigido por Jeremy Llewelyn-Jones, e que fala de Caraline Neville-Lister. "Mausoleum" cita uma entrevista com J. G. Ballard, na qual ele explica suas razões para escrever a novela Crash. "Faster" se inicia com uma fala de John Hurt no filme 1984, baseado no livro 1984 de George Orwell. "The Intense Humming of Evil" inicia com um trecho de uma reportagem sobre os Julgamentos de Nuremberga. "P.C.P." se encerra com uma frase de Albert Finney, dita no filme The Dresser, dirigido por Peter Yates.
Estilo musical
Musicalmente, The Holy Bible representa uma mudança em relação aos dois primeiros discos da banda, Generation Terrorists e Gold Against the Soul, cuja sonoridade era mais calcada no modern rock. The Holy Bible foi descrito como rock alternativo, pós-punk, hard rock, punk rock, rock gótico: "In mood as much as message, The Holy Bible was an intensely sombre record, overcast by the same stormy skies which darkened Van Gogh's last works. It was gothic and, quite often, literally goth: more than one song could easily have been early Cure, Sisters of Mercy or Bauhaus." e glam punk. Porém, o disco tinha ainda influências de punk britânico, new wave, industrial e art rock. Durante a gravação deste registro, a banda estava influenciada principalmente por artistas como Wire, Public Image Ltd. e Joy Division. A nova sonoridade legou comparações a artistas como Magazine, Siouxsie and the Banshees e Gang of Four.
Outra influência bastante direta foi The Jam: "This Is Yesterday" foi inspirada pelas canções In The Crowd (1978) e Ghosts (1982), e as linhas de guitarra de "4st 7lb" são similares àquelas de The Eton Rifles (1979). "Of Walking Abortion" foi descrita como "uma investida punk metal", e como tendo sido inspirada por "The Light Pours Out of Me" (1978), do Magazine. Já From Out of Nowhere (1989), do Faith No More, serviu de modelo a "Faster." O peso do trabalho também foi comparado àquele da banda de rock industrial, Nine Inch Nails.
Estética
James Dean Bradfield descreveu este como um "período definitivo para nós, visualmente, mas também para o tipo de músicas que escrevíamos e o álbum […] nunca tivemos medo de admitir isso."
No começo de 1994, em turnê, a banda visitou lojas de itens militares e comprou roupas para vestirem no palco, em homenagem a The Clash. Esse visual militar foi constantemente adotado pela banda durante a divulgação de The Holy Bible, inclusive em seus vídeos e aparições na televisão. Uma apresentação de "Faster" no Top of the Pops, da BBC, em junho de 1994, resultou em um número recorde de reclamações: mais de 25000, por conta do uso da Balaclava paramilitar utilizada por Bradfield.