Quinto Fúlvio Flaco () foi um político da gente Fúlvia da República Romana eleito cônsul por quatro vezes, em 237, 224, 212 e 209 a.C. com Lúcio Cornélio Lêntulo Caudino, Tito Mânlio Torquato, Ápio Cláudio Pulcro e Fábio Máximo respectivamente.Lívio, Ab Urbe Condita XXV, 2.4.Lívio, Ab Urbe Condita XXV, 3.1.Lívio, Ab Urbe Condita XXVII, 6.9-11. Um dos grandes heróis da Segunda Guerra Púnica, foi ainda pretor em 215Lívio, Ab Urbe Condita XXIII, 24.4 e 30.18. e 214 a.C,Lívio, Ab Urbe Condita XXIV, 9.4-5. procônsul em 211 e 210 a.C.Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 1.2. para continuar sua campanha em CápuaLívio, Ab Urbe Condita XXVI, 28.6-8. e, finalmente, ditador em 210 a.C..
Era filho de Marco Fúlvio Flaco, cônsul em 264 a.C., pai de Quinto Fúlvio Flaco, cônsul em 179 a.C., e avô de Quinto Fúlvio Flaco, cônsul em 180 a.C..
Primeiro consulado (237 a.C.) e censorado (231 a.C.) thumb|direita|upright=1|Mapa dos principais povos da Gália Cisalpina, a região conquistada durante os primeiros consulados de Quinto Fúlvio Flaco. Foi eleito cônsul em 237 a.C. com Lúcio Cornélio Lêntulo CaudinoFasti Capitolini [em linha], no no qual lutou contra os gauleses.Lívio, Ab Urbe Condita XXV, 2.4.
Em 231 a.C., foi eleito censor com Tito Mânlio Torquato, porém, não havia transcorrido ainda um lustro - tempo que durava o censorado - antes de serem nomeados novos censores, o que só ocorreria em 230 a.C. Por isso, renunciaram.
Segundo consulado (224 a.C.) Em 224 a.C., foi eleito novamente, desta vez com Tito Mânlio Torquato e ambos lideraram, com sucesso, a guerra contra os gauleses no norte da Itália. Por conta desta campanha, foram os primeiros generais romanos a ultrapassar o rio Pó.Políbio II 31; Lívio, Ab Urbe Condita Epit. 20; Paulo Orósio IV 1 3. Em sua campanha, derrotou e subjugou os ínsubres.Lívio, Ab Urbe Condita XXV, 3.1.
Segunda Guerra Púnica
Primeiros anos (218–213 a.C.) Em 216 a.C., Flaco foi nomeado pontífice no lugar de Quinto Élio Peto, que foi morto na Batalha de Canas.Lívio, Ab Urbe Condita XXIII, 21.7. No ano seguinte, foi eleito pretor urbano e o Senado colocou 25 navios sob seu comando para a proteção das vias marítimas próximas de Roma, mas o próprio Senado, pouco depois, ordenou que ele recrutasse soldados e 400 cavaleiros e seguisse para a Sardenha. Flaco nomeou também o novo comandante enquanto Quinto Múcio, que estava gravemente doente, não se recuperava. O escolhido foi Tito Mânlio Torquato.Lívio, Ab Urbe Condita XXIII, 34.11-15.
Em 214 a.C., foi o único a ser reeleito pretor (mais uma vez "urbano") e o Senado, através de um senatus consultum, decretou que Flaco tivesse a cidade de Roma como província e que tivesse também o comando das tropas na ausência dos cônsules. No final do ano seguinte, foi mestre da cavalaria (magister equitum) do ditador comitiorum habendorum causa Caio Cláudio Centão, escolhido para convocar a Assembleia das centúrias para a eleição dos novos cônsules.Lívio, Ab Urbe Condita XXV, 2.3.
Terceiro consulado (212 a.C.)
Acabou sendo eleito cônsul com Ápio Cláudio Pulcro em 212 a.C. Durante seu mandato, instituiu os Ludi ApollinariLívio, Ab Urbe Condita Epit. 25.3 e concorreu ao cargo de pontífice máximo, mas não conseguiu obter o cargo por que a posição era incompatível com a de cônsul.Lívio, Ab Urbe Condita XXV, 5.3-4. Os dois lutaram com sucesso contra Hanão, comandante dos cartagineses, na Batalha de BeneventoLívio, Ab Urbe Condita Epit. 25.4 e, pouco depois, cercou a cidade de Cápua.Lívio, Ab Urbe Condita Epit. 25.7.
Proconsulados (212–210 a.C.)
Cerco de Cápua e marcha contra Roma
thumb|direita|upright=1.4|Marcha de Aníbal a Roma (em amarelo) e a de Quinto Fúlvio Flaco (em vermelho). Quinto Fúlvio e Ápio Claúdio, cônsules em 212 a.C., continuaram no comando de seus exércitos como procônsules em 211 a.C. e receberam ordens de não levantarem o cerco à cidade de Cápua sem conquistar a cidade.Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 1.2. Quando Aníbal decidiu marchar para Roma, abandonando o cerco, conta-se que Flaco escreveu imediatamente ao Senado para informar sobre as intenções do general cartaginês. Houve uma grande comoção entre os senadores que consideraram a situação crítica o suficiente para que fosse convocada uma Assembleia geral. Alguns, como Públio Cornélio Cipião Asina, propuseram que se convocassem de volta à Roma todos os comandantes e seus exércitos com o objetivo de defender a capital, abandonando assim o cerco em Cápua. Outros, por outro lado, como Fábio Máximo, consideraram vergonhoso abandonar Cápua por causa do medo que provocava os movimentos de Aníbal.Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 8.1-3.
Entre as facções opostas, prevaleceu a opinião mais equilibrada de Públio Valério Flaco, que, tendo escutado os dois argumentos, propôs que se escrevesse aos comandantes que assediavam Cápua, informando-lhes o tamanho das forças que defendiam a cidade; estes, por sua vez, podiam saber quantos soldados Aníbal havia levado consigo e quantos seriam necessários para cercar Cápua. Somente depois eles próprios decidiriam qual seria o comandante que seguiria para Roma e com qual força para defender a capital de Aníbal.Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 8.5-8. Foi assim que Fúlvio Flaco escolheu ir a Roma, pois Ápio Cláudio estava ferido. Ele escolheu soldados e cavaleiros e atravessou o Volturno. Como sabia que Aníbal subia pela Via Latina, escolheu a Via Ápia, enviando mensageiros às cidades no caminho, como Sétia, Cora e Lavínio, para que que deixassem as provisões necessárias ao exército à beira da estrada. Ordenou também que guarnições fossem postadas em cada uma delas, prontas para defendê-las.Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 8.9-11.
Aníbal, que já não estava ansioso para tomar a cidade, assim que soube que os romanos estavam alistando duas novas legiões em Roma e também que Flaco vinha marchando para lá com um grande exército, preferiu desistir do projeto de capturar Roma e, ao invés disso, dedicou-se a penetrar profundamente na região vizinha, saqueando e queimando tudo o que podia. Os cartagineses acabaram reunindo em seu próprio acampamento uma grande quantidade de butim, pois nenhuma força ousava confrontá-los.Políbio IX, 6.5-9. Poucos dias mais tarde, Aníbal decidiu voltar para Cápua, seja por que estava satisfeito com o resultado dos saques, seja por que acreditava ser impossível cercar Roma, mas sobretudo por que esperava que seu plano tivesse surtido o efeito esperado depois de passados um número suficiente de dias, obrigando o procônsul Ápio Cláudio a ou levantar o cerco a Cápua ou dividir seu exército tentando salvar a pátria e manter o cerco simultaneamente. Qualquer uma das duas situações era do agrado do general cartaginês.Políbio IX, 7.1-3. Porém, quando Aníbal soube que Ápio Cláudio não havia encerrado o cerco a Cápua,Políbio IX, 7.7. preferiu levar seu exército até Daunia, na região setentrional da Apúlia, e a terra dos brútios (moderna Calábria), alcançando Régio de forma tão súbita que por pouco não conseguiu tomar a cidade, aliada dos romanos, de surpresa.Políbio IX, 7.10.Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 12.1-2.
Retorno a Cápua (211-210 a.C.)
Retornando a Cápua, ajudou no cerco da cidade, que havia sido abandonada pelas tropas de Aníbal. Os dois procônsules, Flaco e Ápio Cláudio, ordenaram que os senadores campânios se apresentassem no acampamento romano, fora das muralhas. Quando eles chegaram, foram todos presos e receberam ordens de entregar todo o ouro e toda a prata que possuíam aos questores. Vinte e cinco deles foram enviados como prisioneiros a Cales e vinte e oito a Teano Sidícino; eles eram os principais responsáveis pela revolta de Cápua contra Roma.Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 14.7-9. Com relação à pena a ser imposta a estes senadores, os dois procônsules discordaram, pois Cláudio era favorável ao perdão, mas Flaco queria uma punição que servisse de exemplo. A discórdia entre os dois levou-os a escreveram ao Senado, não apenas consultando sobre a decisão a ser tomada, mas também sobre a oportunidade de interrogar os prisioneiros. E Fúlvio, que considerava inoportuno que os senadores romanos fossem interrogados, pois eles poderiam delatar aliados latinos e prejudicar a aliança já consolidada com eles, decidiu partir para Teano com cavaleiros ao amanhecer.Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 15.1-6. Chegando lá, ordenou que o principal magistrado lhe trouxesse os campânios que estavam sob sua custódia. Quando eles chegaram, foram massacrados a pauladas e decapitados com um machado. Logo depois, ele rapidamente seguiu para Cales e ordenou que os prisioneiros campânios fossem, da mesma forma, levados até ele. Segundo Lívio, chegou naquele momento um mensageiro portando a resposta do Senado, mas aparentemente Fúlvio não a leu, pois imediatamente massacrou os prisioneiros que restavam.Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 15.7-9.
Processo contra Flaco e o governo de Cápua (210 a.C.) thumb|direita|upright=1.4|Campanha de Aníbal na Campânia e as principais cidades envolvidas, inclusive Cápua. Em 210 a.C., quando um dos cônsules daquele ano, Marco Valério Levino, retornou do front macedônico, passou por Cápua. Ali, uma grande multidão de campânios foi ao seu encontro aos prantos, implorando-lhe que permitisse que fossem a Roma para suplicar aos senadores, pois haviam sido levados a um estado de extrema ruína por causa do procônsul Fúlvio Flaco.Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 27.10. Este, em sua defesa, declarou não odiar pessoalmente os campânios. Sua hostilidade derivava simplesmente do fato de que os campânios odiavam profundamente o povo romano.Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 27.11. Segundo Lívio, "Não existia sobre a terra, de fato, um povo mais hostil contra os romanos [do que os campânios]".Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 27.12. Flaco alegou que os havia mantido presos em seus próprios muros para evitar que pudessem vagar pela região vizinha como "bestas ferozes", massacrando indiscriminadamente. Os campânios contaram a Levino que alguns deles haviam fugido para o lado de Aníbal enquanto outros haviam tentado incendiar o Fórum Romano. Levino, de fato, encontrou o Fórum semi-incendiado por alguns campânios, que foram denunciados e executados depois de um processo legal perante o Senado.Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 27.12-13. Flaco alegou que não achava seguro permitir campânios no interior das muralhas de Roma, mas Levino, depois que os campânios juraram a Flaco que retornariam a Cápua cinco dias depois de receberem a resposta do Senado, permitiu que eles viessem à cidade. Rodeado pela multidão e seguido também por uma delegação de siracusanos, que vieram reclamar com Levino sobre um tratamento similar dispendido pelo cônsul Marco Cláudio Marcelo, o conquistador de Siracusa, aparentemente Levino se ressentiu por causa da destruição de duas famosíssimas cidades e guiou até Roma, como acusadores, os que foram vencidos em combate por dois ilustres generais como Flaco e Marcelo.Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 27.14-17.
Bem mais complicado foi, por outro lado, o veredito pela causa de Cápua, pois os campânios estavam entre os mais próximos aliados italianos, portadores desde muito tempo da cidadania romana.Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 33.1-3. Os senadores escutaram a delegação e pediram que eles deixassem o recinto; decidiu-se então convocar Quinto Fúlvio Flaco, que era o governador de Cápua, uma vez que Ápio Cláudio Pulcro morreu logo depois da captura da cidade, mas ninguém queria deixar Cápua desprotegida por muito tempo. Decidiu-se então escutar Marco Atílio Régulo, ex-cônsul, Caio Fúlvio Flaco, irmão de Quinto Fúlvio, Quinto Minúcio Termo e Lúcio Vetúrio Filão, importantes expoentes romanos e testemunhas da Batalha de Cápua como colaboradores do procônsul Ápio Cláudio Pulcro.Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 33.4-5. Estando presentes expoentes em número suficiente para julgar a questão, iniciou-se o processo.Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 33.6-11.