Lemonade é o sexto álbum de estúdio da artista musical estadunidense Beyoncé. O seu lançamento ocorreu em 23 de abril de 2016, através das gravadoras Parkwood Entertainment e Columbia Records. Com a finalização das atividades promocionais de Beyoncé (2013), a cantora começou a trabalhar em seu próximo projeto com o engenheiro de gravação e mixagem Stuart White. Neste período, ela trabalhou com diversos colaboradores, como Kahlil Joseph, Melina Matsoukas, Dikayl Rimmasch, Mark Romanek, Todd Tourso e Jonas Åkerlund. Beyoncé deu início ao desenvolvimento do disco como forma de se utilizar da arte quase como uma "sessão de terapia", após a infidelidade de seu marido, o rapper Jay-Z. Foi desenvolvido como o segundo "álbum visual" da carreira da artista, seguindo de Beyoncé. Contudo, diferentemente deste, que contém videoclipes separados para cada música, Lemonade foi promovido com um filme de uma hora, exibido na HBO e divididos em onze capítulos conectados ao próximo por intermédio de algumas poesias escritas pela autora britânica Warsan Shire.
Lemonade é um álbum conceitual cujo escopo lírico das canções giram em torno do amor afrocentrado, dos processos de autoconhecimento de mulheres pretas, e da importância do perdão dentro de relacionamentos amorosos entre pessoas dessa etnia. O disco possui uma sonoridade inspirada por gêneros urbanos como R&B e hip hop, mas também explora outros, como rock e a música country que — apesar de terem origem afro-americana —, são pouco associados a artistas negros. Além de elementos de reggae, trap, rock e blues. As gravações do projeto ocorreram entre 2014 e 2015 sob a produção executiva da própria cantora. Ele apresenta vocais convidados de Jack White, the Weeknd, James Blake e Kendrick Lamar, e contém samples e interpolações de uma série de canções de hip hop e rock.
Lemonade recebeu ampla aclamação da mídia especializada, que enalteceram a experimentação de gêneros em sua musicalidade, a produção, os vocais de Beyoncé e a forma que a temática política é refletida na vida pessoal da artista. Consequentemente, foi incluído em diversas listas dos melhores álbuns de 2016, da carreira da intérprete e de todos os tempos. A revista Rolling Stone reconheceu-o como o maior disco do século XXI, um dos 500 melhores de todos os tempos e foi colocado pela Apple Music na 10.ª posição entre os 100 melhores da história. A obra rendeu a Beyoncé uma série de indicações e prêmios, incluindo um Grammy Awards de Melhor Álbum Urbano Contemporâneo. Comercialmente, o disco obteve um desempenho exitoso, liderando tabelas de vários países, como Austrália, Brasil, Canadá, Irlanda e Reino Unido. Nos Estados Unidos, tornou-se o sexto projeto em estúdio consecutivo de Beyoncé a debutar em primeiro lugar na parada Billboard 200, com 653 mil unidades equivalentes em sua primeira semana. Mundialmente, encerrou como o álbum mais adquirido em todo o mundo em 2016, com mais de dois milhões de cópias comercializadas.
A fim de promover o disco, cinco singles foram lançados, "Formation", "Sorry", "Hold Up", "Freedom" e "All Night", além do promocional "Daddy Lessons", com a banda Dixie Chicks. O primeiro citado foi o mais bem sucedido nas paradas, ao chegar até o 10.ª posto da estadunidense Billboard Hot 100. Como forma de divulgação, Beyoncé apresentou-se em premiações e eventos televisivos, como o MTV Video Music Awards, Grammy Awards, BET Awards e Super Bowl 50. Ela também deu início a turnê mundial The Formation World Tour, que visitou estádios na América do Norte e Europa. Desde o seu lançamento, Lemonade tem sido objeto de estudo de diversos artigos acadêmicos, gerando discussões importantes sobre raça, gênero e empoderamento negro e feminino. Além de influenciar diversos artistas na elaboração de seus trabalhos.
Antecedentes e desenvolvimento
Em 6 de fevereiro de 2016, sem qualquer anúncio prévio, Beyoncé lançou "Formation" para download digital gratuito no serviço de streaming Tidal, disponibilizando em conjunto o vídeo musical correspondente em seu canal no YouTube. Tanto a música quanto a gravação audiovisual correspondente foram bem recebidas por críticos musicais, que elogiaram a retratação da cultura afro-americana predominante em ambos os projetos que não é vista com frequência na cultura de massa. No dia seguinte, a cantora apresentou "Formation" durante sua participação especial no show do intervalo do Super Bowl 50, que também contou com Coldplay e Bruno Mars. Imediatamente após a performance, foi lançado nas redes sociais da artista um comercial anunciando sua próxima turnê mundial.
Logo após o anúncio da turnê, Beyoncé foi tanto elogiada quanto criticada pelo público em geral em relação à nova música e o figurino inspirado pelo grupo Panteras Negras usado no Super Bowl. Como resultado, as hashtags "#BoycottBeyonce" e "#IStandWithBeyonce" começaram a se tornar populares em redes sociais como o Twitter. Um grupo de manifestantes também planejou fazer um protesto "anti-Beyoncé" fora da sede da National Football League (NFL), organizadora do evento esportivo, no dia em que os ingressos começassem a serem vendidos para o público geral. Entretanto, a manifestação planejada não teve nenhum protestante e, em vez disso, contou com dezenas de pessoas que apoiavam a cantora e fizeram um protesto contrário.
Lemonade foi gravado entre junho de 2014 e julho de 2015 em 11 estúdios localizados nos Estados Unidos. Beyoncé teve a ideia de escrever cada música correspondente aos onze capítulos que podem ser vistos no filme Lemonade, e publicou moodboards ao redor do estúdio representando cada um deles para fornecer inspiração aos seus colaboradores. Ela e eles também tocavam músicas no estúdio como forma de inspirar uns aos outros. O álbum foi escrito em etapas, com Beyoncé se retirando para sua casa para trabalhar nas gravações com o engenheiro de gravação e mixagem Stuart White, bem como para cuidar de sua filha. O processo começou no Record Plant em Los Angeles, que a equipe locou por um mês. Eles então fizeram uma pausa e, mais tarde, foram a Paris por 45 dias. A equipe ficou em um hotel, onde montou dois estúdios em dois quartos diferentes, um para Beyoncé e outro para Jay-Z. O rapper contou como ele e a cantora gravaram músicas separadamente e juntos, descrevendo-as como "usar nossa arte quase como uma sessão de terapia" após sua infidelidade. A canção que ela gravou separadamente foi o que se tornou Lemonade e foi lançada primeiro.
O álbum foi produzido através da síntese de Beyoncé do trabalho de muitos colaboradores, incluindo artistas populares e menos conhecidos. MNEK relatou como "Hold Up" foi concebido, dizendo: "A maneira como Beyoncé trabalha, a música é [como] uma peça de quebra-cabeça e então ela junta vários elementos. Pode ser um pouco oque ela escreveu, um pouco o que outra pessoa escreveu e ela fará disso a ponte; um pouco que eu escrevi ela tornou o meio oito". MNEK também explica que a intérprete estava "ignorando tudo" que não aprovasse, comentando: "[Ela dizia] eu gosto disso, eu gosto daquilo, é assim que isso deve soar". Jack White, que colaborou em "Don't Hurt Yourself", descreve como "ela pegou apenas um esboço de um esboço lírico e a transformou na música mais ousada, cruel e incrível [..] Estou tão surpreso com o que ela fez com isso". O co-escritor e co-produtor de "Hold Up" e "Sorry", MeLo-X explica que "ela tem uma maneira de criar que eu nunca vi antes como artista. Ela produz, altera e arranja faixas de maneiras que eu não imaginaria". Ao falar sobre como ele também marcou o filme Lemonade, MeLo-X explica: "Ela esteve envolvida em tudo. Ela dá direção em tudo e está muito envolvida com todo o processo. É inspirador ver uma artista desse nível ser capaz de ainda ter um olho para certas coisas e um ouvido [..] Nós apenas sentamos e revisamos coisas, cenas e sons diferentes e meio que juntamos tudo pedaço por pedaço".
Conteúdo Temas e sonoridade
No âmbito lírico, as canções de Lemonade tratam de temas como traição conjugal ao mesmo tempo em que mergulham em questões sobre a solidão da mulher preta, os estereótipos da masculinidade preta hegemônica e as raízes das dificuldades da manutenção saudável de relações afetivo-sexuais entre indivíduos dessa etnia. O jornal The Washington Post chamou o álbum de um "ciclo de canções surpreendentemente furioso sobre infidelidade e vingança". Já o Chicago Tribune descreveu-o como não apenas uma mera tentativa de domínio da música popular, mas sim como uma retrospectiva que permite ao ouvinte explorar as circunstâncias pessoais de Beyoncé, com tons musicais do sul dos Estados Unidos, uma reminiscência de seus anos de formação passados no Texas. O banco de dados AllMusic escreveu que Beyoncé "se delicia com sua negritude, feminilidade e origem sulista com um jogo de palavras supremo".
Musicalmente, Lemonade é uma miscelânea de gêneros, como R&B, rock, hip hop e até música country. De acordo com o The A.V. Club, as faixas "abrangem e interpolam todo o continuum de R&B, rock, soul, hip hop, pop e blues", realizado por uma precisão hábil "borrando eras e referências com impunidade determinada". A Entertainment Weekly observou, ainda, a forte inserção de elementos de vanguarda. Para o Consequence of Sound, os gêneros do álbum abrangem "do gospel ao rock, do R&B ao trap"; No projeto, Isaac Hayes e Andy Williams estão entre os artistas sampleados. O PopMatters o descreveu como a obra "matizada na temática de raiva e traição com vastas faixas banhadas em contexto político; no entanto, ainda é um álbum pop em sua essência com tons mais sombrios e louváveis". Em 2020, o crítico Marc Hogan, da Pitchfork, o colocou entre os grandes álbuns de art pop dos últimos 20 anos por "preencherem o vazio de declarações de longa-metragem com seriedade artística e apelo de massa, antes amplamente ocupado por bandas de guitarra [de rock]".
Para narrar sua história e tal problemática, a cantora recorre ao uso do álbum visual caracterizado por simbolismos semióticos, performances musicais e declamações poéticas que constroem uma experiência audiovisual envolvente que complementa e enriquece a narrativa lírica do álbum. Esse acompanhamento visual, também nomeado Lemonade, contém 65 minutos de duração. Sua produção ficou a cargo de Good Company e Jonathan Lia, e foi exibido na HBO em 23 de abril de 2016, registrando 787 mil espectadores. Ele é dividido em onze capítulos, intitulados ordenadamente em "Intuition" ("Intuição"), "Denial" ("Negação"), "Anger" ("Raiva"), "Apathy" ("Apatia"), "Emptiness" ("Vazio"), "Accountability" ("Responsabilidade"), "Reformation ("Reforma"), "Forgiveness") ("Perdão"), "Ressurection" ("Ressurreição"), "Hope" ("Esperança") e "Redemption" ("Redenção"). No álbum visual, cada música ganha um clipe que é conectado ao próximo por intermédio de algumas poesias escritas pela autora britânica Warsan Shire e que retratam em seus versos questões em torno do amor afrocentrado, dos processos de autoconhecimento de mulheres pretas, e da importância do perdão dentro de relacionamentos amorosos entre pessoas dessa etnia; seus poemas adaptados foram "The Unbearable Weight of Staying" ("O Peso Insustentável de Ficar"), "Dear Moon" ("Querida Lua"), "How to Wear Your Mother's Lipstick" ("Como Usar o Batom da Sua Mãe"), "Nail Technician as Palm Reader" ("Manicure como Cartomante"), e "For Women Who Are Difficult to Love" ("Para Mulheres que São Difíceis de Amar"). Também inclui Ibeyi, Laolu Senbanjo, Amandla Stenberg, Quvenzhané Wallis, Chloe x Halle, Zendaya e Serena Williams.
Músicas, letras e visuais miniatura|150px|Swizz Beatz co-produziu quatro faixas, a maior quantidade por qualquer produtor. miniatura|150px|Swizz Beatz co-produziu quatro faixas, a maior quantidade por qualquer produtor. miniatura|150px|Solange Knowles co-compôs "Get Me Bodied" e foi usada como inspiração para a canção. miniatura|150px|Jay-Z participou de duas canções, nas quais compôs os seus versos.