A vaginite aeróbica (VA) é uma forma de vaginite descrita por Donders et al. em 2002. Caracteriza-se por uma perturbação mais ou menos severa da população lactobacilar e pela presença de inflamação, atrofia e pela presença de flora predominantemente aeróbica (bactérias entéricas, comensais ou patogénicas).

Pode ser considerada o equivalente aeróbico da vaginose bacteriana. A falha em estabelecer o diagnóstico diferencial entre as duas entidades pode ter levado a resultados e conclusões incorrectas em estudos realizados no passado. A entidade descrita como "vaginite descamativa inflamatória" mais não será do que uma forma grave de vaginite aeróbica.

Sinais e sintomas As mulheres com vaginite aeróbica, habitualmente, apresentam enantema, atrofia, erosões e ulcerações da mucosa vaginal. Podem ter um corrimento amarelado, abundante, contudo, sem o cheiro "a peixe", típico da vaginose bacteriana. O pH habitualmente encontra-se elevado. Os sintomas podem incluir ardor, picadas e dispareunia - podem estar presentes desde há muito tempo, por vezes anos. É comum que estas mulheres tenham uma história de vários tratamentos com antibióticos e antibióticos, sem alívio da sintomatologia.Donders, G; Bellen, G; Rezeberga, D (2011). "Aerobic vaginitis in pregnancy". BJOG [S.l.: s.n.] 118 (10): 1163–70. doi:10.1111/j.1471-0528.2011.03020.x. PMID 21668769 Existem casos de vaginite aeróbica assintomática - mulheres apenas com critérios microscópicos; a sua proporção é desconhecida.

Diagnóstico O diagnóstico é realizado por critérios microscópicos. Idealmente, deve ser utilizado um microscópio com contraste de fase, com uma ampliação de 400x (campo de grande aumento - CGA). Para cálculo do índice de pontuação ("AV score"), para além do número relativo de leucócitos, da proporção de leucócitos tóxicos, da flora de fundo e da proporção de epiteliócitos, o grau lactobacilar tem que ser avaliado:

Grau I numerosos lactobacilos pleomórficos; sem presença de outras bactérias Grau IIa flora mista, mas com predomínio de lactobacilos Grau IIb flora mista, mas a proporção de lactobacilos está severamente diminuída, com predomínio de outras bactérias Grau III lactobacilos muito raros ou ausentes, com sobrecrescimento de outras bactérias

"AV score" Grau lactobacilar Número de leucócitos Proporção de leucócitos tóxicos Flora de fundo Proporção de epiteliócitos parabasais 0 I e IIa <10/CGA Ausentes ou esporádicos Muito escassa ou citólise Ausentes ou <1% 1 IIb >10/CGA e; <10/célula epitelial <50% dos leucócitos Pequenos bacilos coliformes ≤10% 2 III >10/célula epitelial >50% dos leucócitos Cocos ou cadeias >10%

O "AV score" é calculado de acordo com o descrito na tabela. "AV score" <3: ausência de AV "AV score" 3 ou 4: AV ligeira "AV score" 5 ou 6: AV moderada "AV score" ≥6: AV severa. A medição isolada do pH não é suficiente para realização do diagnóstico.

Complicações A vaginite aeróbica tem sido associada a diversas complicações ginecológicas e obstétricas, incluindo:

Ruptura prematura de membranas Trabalho de parto pré-termo Corioamnionite ascendente Risco aumentado de contrair infecções de transmissão sexual (incluindo VIH) Anomalias no teste de Papanicolau

Tratamento

O tratamento nem sempre é fácil; tem por objectivo corrigir as três grandes alterações encontradas na vaginite aeróbica: a presença de atrofia, a inflamação e as alterações da flora. Para tal, recorre-se aos corticóides tópicos para diminuição da inflamação e estrogénios tópicos para reduzir a atrofia. O uso e escolha de antibióticos para diminuição da quantidade/proporção de bactérias aeróbias é ainda um assunto em debate. O uso de antibióticos locais, preferencialmente não absorvíveis e com cobertura para bactérias aeróbicas intestinais gram positivas e gram negativas pode ser uma boa opção. Nalguns casos serão necessários antibióticos sistémicos, como a amoxicilina+ácido clavulânico e a moxifloxacina. Lavagens vaginais com iodopovidona podem permitir um breve alívio dos sintomas; a longo prazo o efeito é diminuto e sem grande impacto na flora aeróbica. O cloreto de dequalínio pode ser uma boa opção de tratamento.

Epidemiologia

Cerca de 5 a 10% das mulheres têm vaginite aeróbica. Em mulheres grávidas, a prevalência situa-se entre os 8,3–10,8%.Donders GGG, Van Calsteren K, Bellen G, Reybrouck R, Van den Bosch T, Riphagen I et al (2009) Predictive value for preterm birth of abnormal vaginal flora, bacterial vaginosis and aerobic vaginitis during the first trimester of pregnancy. BJOG 116(10):1315–1324. doi:10.1111/j.1471-0528.2009.02237.xZodzika J, Rezeberga D, Jermakova I, Vasina O, Vedmedovska N, Donders G (2011) Factors related to elevated vaginal pH in the first trimester of pregnancy. Acta Obstet Gynecol Scand 90(1):41–46. doi:10.1111/j.1600-0412.2010.01011.x Considerando apenas mulheres sintomáticas, a prevalência pode chegar aos 23%.Fan A, Yue Y, Geng N, Zhang H, Wang Y, Xue F (2013) Aerobic vaginitis and mixed infections: comparison of clinical and laboratory findings. Arch Gynecol Obstet 287(2):329–335. doi:10.1007/s00404-012-2571-4Bologno R, D ́ıaz YM, Giraudo MC, Fernández R, Menéndez V, Brizuela JC, Gallardo AA, Alvarez LA, Estevao Belchior SG (2011) Importance of studying the balance of vaginal content (BAVACO) in the preventive control of sex worker.s [Article in Spanish] Rev Argent Microbiol. 43(4):246–50. doi: 10.1590/ S0325-75412011000400002.Marconi C, Donders GG, Bellen G, Brown DR, Parada CM, Silva MG (2013) Sialidase activity in aerobic vaginitis is equal to levels during bacterial vaginosis. Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol 167(2):205–209. doi:10.1016/j.ejogrb.2012.12.003.

Categoria:Doenças inflamatórias dos órgãos pélvicos femininos