História das mulheres (em inglês women's studies) é um campo interdisciplinar de estudo acadêmico que examina a questão de gênero como uma construção social e cultural, o estatuto social e as contribuições das mulheres, e as relações entre poder e gênero.
Metodologias populares dentro do campo de estudos sobre as mulheres incluem a teoria do ponto de vista, a intersecionalidade, multiculturalismo, feminismo transnacional, e práticas de leitura, associadas à teoria crítica, ao pós-estruturalismo e à teoria queer. O campo pesquisa e critica normas sociais de gênero, raça, classe, sexualidade, e outras desigualdades sociais. Ele está relacionado com o - mais amplo - campo dos estudos de gênero. Estudos sobre as mulheres precederam os estudos de gênero como uma campo de estudo estabelecido. Nos Estados Unidos, o primeiro Doutoramento em estudos sobre as mulheres foi criado em 1990 e o primeiro Doutoramento em estudos de gênero, em 2005. A história das mulheres é o campo de estudos que visa resgatar a participação feminina ao longo do tempo, quebrando a lógica da História como algo predominantemente masculino, já que durante muito tempo houve um silêncio historiográfico em relação às mulheres. Inserido na perspectiva da Nova História, esse campo surge como definível nos Estados Unidos e Grã-Bretanha na década de 1960 e na França cerca de uma década depois, em meio a ascensão da segunda onda do feminismo. Alguns fatores contribuíram diretamente para o surgimento desse ramo, dentre eles: o Movimento de Libertação das Mulheres, desenvolvido a partir dos anos 1970; a presença significativa das mulheres nas universidades, e uma mudança na perspectiva histórica, na qual vários sujeitos passaram a reivindicar seu lugar na “escrita da História”, dentre eles as mulheres. A partir de 1980 a História das mulheres se aproxima de categorias de análise de gênero, para explicar as relações de poder entre e mulheres e a invisibilidade feminina na História. A categoria gênero, como por exemplo a elaborada por Joan Scott, considera que a questão da diferença sexual não é determinada pela natureza, mas sim construída social e politicamente, remodelada durante a História e perpassada por relações de poder. Ou seja, estudar sob a categoria de gênero não é analisar o feminino isoladamente, mas sim as diferenças e relações entre homens e mulheres através da História.
Na década 1990 esse campo da historiografia já estava sendo consolidado, com números crescentes de trabalhos e estudos. A História das mulheres hoje inclui os estudos sobre os direitos das mulheres, dos feminismos, das mulheres que subverteram a ordem como militantes, entre outros diversos temas.
Na década de 1940, em torno da opressão da mulher, Mary Nash debate seu papel na história, e a historiadora Mary Beard, em Woman as force in history, questiona a marginalização da mulher nos estudos históricos, onde os historiadores homens a ignoravam sistematicamente.
Para o historiador J.M. Hexter a ausência das mulheres se deve ao fato de elas não terem participado dos grandes acontecimentos políticos e sociais. Simone de Beauvoir em sua pioneira obra, "O segundo sexo", assume postura similar à de Hexter, ao argumentar que a mulher, ao viver em função do outro, não tem projeto de vida própria; atuando a serviço do patriarcado, sujeitando-se ao protagonista e agente da história: o homem. A historiadora Branca Moreira Alves, igualmente, focaliza em estudo de 1980, e, instigada pelo movimento em que militava na década de 1970.
Regiões
Europa As mudanças vieram nos séculos XIX e XX; por exemplo, foi dado às mulheres o direito a remuneração igual por lei. As mulheres tradicionalmente cuidavam da casa, davam a luz e criavam os filhos, eram enfermeiras, mães, esposas, vizinhas, amigas e professoras. Durante os períodos de guerra, as mulheres foram convocadas para o mercado de trabalho para realizar trabalhos que tinham sido tradicionalmente restritos aos homens. Após as guerras, elas invariavelmente perderam seus empregos na indústria e tiveram que voltar para papéis domésticos e de serviços.
Na Irlanda estudos sobre mulheres e relações de gênero de forma mais geral, eram raros antes de 1990; agora são lugar-comum com cerca de 3000 livros e artigos impressos.Richard Bourke; Ian McBride (2016). The Princeton History of Modern Ireland. Princeton University Press. p. 361. ISBN 978-1-4008-7406-4.
O interesse pelo estudo da História das mulheres na Europa Oriental tem sido adiado.Maria Bucor, An Archipelago of Stories: Gender History in Eastern Europe, American Historical Review, dezembro 2008, Vol. 113 Issue 5, pp 1375-1389 A resistência institucional continua, como evidenciado pela falta de cursos de graduação ou pós-graduação dedicados à História das mulheres e gênero nas universidades húngaras.Andrea Petö and Judith Szapor, The State of Women's and Gender History in Eastern Europe: The Case of Hungary, Journal of Women's History, Spring 2007, Vol. 19 Issue 1, pp 160-166
França Historiadores franceses têm tomado uma abordagem única: há extenso material de estudo sobre a História das mulheres e gênero, apesar da falta de mulheres e programas de estudo de gênero ou departamentos em nível universitário. Mas abordagens utilizadas por outros acadêmicos na pesquisa de Histórias sociais generalizadas tem sido aplicadas ao campo da História das mulheres também. O alto nível de pesquisa e publicação sobre as mulheres e a História de gênero é devido ao alto interesse no seio da sociedade francesa. A discriminação estrutural na academia contra o assunto da História do gênero em França está mudando devido ao aumento dos estudos internacionais após a formação da União Europeia e mais estudiosos franceses buscando consultas fora da Europa.Françoise Thébaud, Writing Women's and Gender History in France: A National Narrative? Journal of Women's History, Spring 2007, Vol. 19 Issue 1, pp 167-172.
No Antigo Regime na França, poucas mulheres mantinham qualquer poder formal; apenas algumas rainhas assim como chefes de conventos católicos. No Iluminismo, os escritos do filósofo Jean Jacques Rousseau forneceream um programa político para a reforma do ancien régime, fundada sobre uma reforma dos costumes nacionais. A concepção das relações entre as esferas públicas e privadas de Rousseau é mais unificada do que a encontrada na sociologia moderna. Rousseau argumentou que o papel doméstico das mulheres é uma condição prévia estrutural para uma sociedade "moderna".Jennifer J. Popiel, Making Mothers: The Advice Genre and the Domestic Ideal, 1760-1830, Journal of Family History 2004 29(4): 339-350
Rússia Durante a era soviética, o feminismo foi desenvolvido juntamente com ideais de igualdade, mas na prática e em arranjos domésticos, os homens muitas vezes dominavam.Barbara Evans Clements (2012). A History of Women in Russia: From Earliest Times to the Present. Indiana University Press. ISBN 0-253-00097-1.Natalia Pushkareva (1997). Women in Russian History: From the Tenth to the Twentieth Century. M.E. Sharpe. ISBN 978-0-7656-3270-8.
China Os trabalhos publicados geralmente tratam de com as mulheres foram participantes visíveis na revolução, como o emprego foi o veículo para a libertação das mulheres, o confucionismo e o conceito cultural da família como fonte de opressão das mulheres. Enquanto rituais de casamento rurais, como preço da noiva e dote têm permanecido da mesma em forma, a sua função mudou. Isso reflete o declínio da família extensa e do crescimento da agência das mulheres na transação de casamento.Gail Hershatter (2007).Women in China's Long Twentieth Century. University of California Press. ISBN 978-0-520-91612-8. Em recente pesquisas na China, o conceito de gênero produziu novos conhecimentos em inglês e chinês.Gail Hershatter, and Zheng Wang, Chinese History: A Useful Category of Gender Analysis, American Historical Review, Dec 2008, Vol. 113 Issue 5, pp 1404-1421
Definições do Campo de Estudo A História das mulheres é um campo de estudo da História que produz uma crítica à visão da História dominante, predominantemente masculina, que, criada nessas condições, reflete uma diferença social.ibid.
Desde o início da escrita da História as relações entre seres humanos na sociedade são desiguais. A escrita da História, desde seu início, foi feita por homens, registrando grandes fatos historiográficos que são os grandes acontecimentos realizados pelos homens ou, caso englobe um fato realizado por uma mulher, ainda essa é, na maioria das vezes, contada por eles.
Assim, vê-se que não existiu uma História do ser humano no geral, mas sim, uma História focada em um dos gêneros.PEDRO, Joana Maria. op. cit., p. 80 A reviravolta feminista do começou a contestar isso,PEDRO, Joana Maria. op. cit., p. 79 e as mulheres começaram não somente a adentrar na História como sujeito e como centros de questões particulares, bem como aumentaram, também, a sua participação na escrita da História, criando assim a categoria de estudo “mulher”.
Entretanto, a própria categoria “mulher” sofreu críticas porque essa identidade única, diferenciada de “homem”, não seria suficiente para representar todas as diferenças entre as mulheres, expressar as necessidades e os mais diversos direitos da mulher, pois as elas estão inseridas em diferentes formas de opressão.PEDRO, Joana Maria. op. cit., p. 82
Uma linha de trabalhos acadêmicos passou a incluir na narrativa da História universal a presença das mulheres levando em conta as vivências comuns, lutas e resistências.PEDRO, Joana Maria. op. cit., p. 83
A palavra “gênero” foi utilizada por Robert Stoller em 1968 para designar uma identidade sexual que vai além da biológica. No movimento feminista a palavra “gênero” era utilizada nos debates para discutir a subordinação das mulheres pelos homens.NICHOLSON, Linda. Interpretando o gênero. Estudos feministas, 2008, p. 2 Para Joan Scott, "gênero é a organização social da diferença sexual".SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria de análise histórica
História miniaturadaimagem|Suffragettes lutando pelo seu direito de voto em 1912, Nova Iorque. O primeiro curso de estudos credenciado sobre as mulheres foi realizado em 1969, na Universidade de Cornell.Kahn, Ada P. (2006). The Encyclopedia of Stress and Stress-related Diseases (2nd ed.). Facts on File. p. 388. ISBN 0816059373. Depois de um ano intenso de organização dos [grupos de conscientização sobre mulheres, comícios, petição de circulação e de funcionamento não-oficial ou experimentais, aulas e apresentações para sete comitês e assembleias,Salper, Roberta (Novembro de 2011). "San Diego State 1970: The Initial Year of the Nation's First Women's Studies Program". Feminist Studies. Feminist Studies, Inc. 37 (3): 658–682."SDSU Women's Studies Department" . o primeiro programa de estudo da mulher nos Estados Unidos foi estabelecida em 1970, na Universidade Estadual de San Diego. Em conjunto com o Movimento Nacional de Libertação das Mulheres, estudantes e membros da comunidade criaram o Comitê AD HOC para estudos sobre as mulheres."History :: Department of Women's Studies at San Diego State University". womensstudies.sdsu.edu Em 1974, membros do corpo docente da San Diego State iniciaram uma campanha nacional para a integração do departamento. No momento, essas ações e o campo eram extremamente políticos. Devido a sensível natureza política do movimento e a dura reação ao movimento feminista, ainda há uma série de incertezas sobre a criação de estudos sobre as mulheres.Boxer, Marilyn J. (Fall 2002). "Women's studies as women's history". Women's Studies Quarterly, special issue: Women's Studies Then and Now. The Feminist Press. 30 (3–4): 42–51. JSTOR 40003241.
O primeiro jornal acadêmico interdisciplinar em estudos sobre as mulheres, Estudos Feministas, iniciou sua publicação em 1972. A Associação Nacional de Estudos das Mulheres, nos Estados Unidos, foi fundada em 1977.