Supergirl é uma revista em quadrinhos americana publicada pela editora DC Entertainment. Sete versões diferentes da revista foram publicadas com formatos e durações distintas desde 1972. A mais recente versão teve início em 2016, como parte do evento "DC Rebirth", e trouxe como protagonista Kara Zor-El, prima do super-herói Superman. Kara, como personagem, surgiu em 1959, e durante muitos anos foi apenas uma coadjuvante nas histórias de seu primo, embora recebesse certo destaque em dezenas de histórias curtas publicadas nas revistas Action Comics e Adventure Comics, em especial a partir da segunda metade da década de 1960. Esse destaque levou à publicação, a partir de 1972, de uma série própria, entretanto, pouco depois, a revista acabaria sendo descontinuada, junto das revistas Lois Lane e Jimmy Olsen, também dedicadas ao elenco de apoio de Superman, em favor de uma antologia intitulada Superman Family, que foi publicada entre 1974 e 1982, e reunia histórias de vários personagens.
Durante a década de 1990, uma nova versão da personagem foi apresentada, que, apesar de também se chamar "Supergirl", possuía poucas semelhanças com a versão original, e era também conhecida como "Matriz". Essa nova personagem chegaria a protagonizar uma minissérie em 4 edições publicada em 1994. Pouco depois, uma terceira versão da personagem seria apresentada, e esta seria a protagonista de uma revista própria publicada entre 1996 e 2003, em 81 edições integralmente escritas por Peter David. Essa terceira versão seria uma fusão da "Matriz" com uma humana comum chamada Linda Danvers, e também a protagonista de Many Happy Returns, história recorrentemente citada pela crítica como a melhor trama da história da personagem.
A partir de 2005, a versão original da personagem, seria retomada pela editora, seguindo os conceitos originalmente estabelecidos em 1959, e desde então tem sido a protagonista de diferentes revistas: uma série de 67 edições publicada entre 2005 e 2011; uma série de 42 edições publicada entre 2011 e 2015, e a série atual da revista, publicada desde 2016. Além destas revistas tradicionais, a personagem também protagonizou revistas alternativas, como a minissérie destinada ao público infantil Supergirl: Cosmic Adventures in the 8th Grade e a série Adventures of Supergirl.
Antecedentes e contexto
Action Comics (1959-1969)
thumb|Action Comics #252, com a primeira aparição da Supergirl, em 1959.
Embora Superman tenha surgido na década de 1930, muitos dos elementos mais fantásticos comumente associados ao personagem só foram introduzidos a partir da metade final da década de 1950. Naquela época, o editor responsável pelas histórias do personagem era Mort Weisinger, e ele tinha como hábito conversar com as crianças que liam as revistas do personagem e perguntá-las o que gostariam de ver nas próximas edições. É esse relacionamento que é apontado como o motivo pelo qual surgiram personagens como a Supergirl e Krypto, o Super-Cão.
Originalmente, a revista Action Comics era uma antologia com uma série de outras histórias, além daquelas protagonizadas por Superman.DOWELL, p. 65-66 Gradualmente, a quantidade de páginas da revista foi sendo reduzida, como forma de evitar com que o preço de capa de 10 centavos por edição fosse aumentado. Diminuindo a quantidade de histórias publicadas por edição, consequentemente, havia menos espaço para outros personagens. Após a introdução da Supergirl na edição #252, em maio de 1959, as histórias não relacionadas ao Superman ficariam completamente esquecidas.EURY, p. 129
Muitas das histórias da Supergirl eram baseadas no que Weisinger entendia ser o necessário para atender aos anseios das garotas que liam os quadrinhos da personagem, por isso o historiador Les Daniels não vê como surpreendente que a personagem passasse a ter um "super-cavalo" ou um "super-gato" na década de 1960. Enquanto "Cometa" era um cavalo dotado de poderes mágicos que "sob circunstâncias especiais, podia se transformar num belo rapaz" - um personagem apropriado para uma época em que cavalos e unicórnios eram bastante populares entre as garotas - "Streaky" era o gato de estimação da Supergirl, que ganhava super-poderes após entrar em contato com a artificial "kryptonita X" - e era uma resposta ao igualmente poderoso "super-cão". Ambos os personagens poderiam ser populares entre as crianças, mas eram visto como excessivamente infantis por alguns dos leitores mais velhos.DANIELS, p. 99-108
Adventure Comics (1969-1972)
A partir de 1969, as histórias de Supergirl substituiriam as da Legião dos Super-Heróis como a principal atração da revista Adventure Comics, fazendo com que a personagem deixasse de ser publicada em Action Comics. A personagem adotaria a identidade secreta de "Linda Lee Danvers" e um tema constante nas histórias era a busca da personagem por um propósito que a posicionasse como uma figura independente de seu primo famoso, Superman.
Durante uma série de histórias publicadas até 1972, a personagem tentou atuar como repórter, como conselheira estudantil e até como atriz em uma soap opera (telenovela americana). As histórias, segundo o jornalista Marc Buxton, era um reflexo do conflito que a própria editora tinha com a personagem: "uma busca para sair da sombra de Superman e se tornar uma heroína independente, vencendo uma sutil solidão e a marginalidade de gênero a que era imposta". Durante a década de 1970, a revista mudaria seu conteúdo algumas vezes, e Supergirl acabaria não permanecendo na revista por muito tempo.
A primeira edição a ter a personagem em lugar de destaque na revista foi Adventure Comics #381, com uma trama escrita por Cary Bates e ilustrada por Win Mortimer e Jack Abel. Nos meses seguintes, a personagem protagonizaria sempre duas histórias: uma história curta apresentada como uma das tramas secundárias incluídas para manter o formato de antologia da revista, e uma história mais longa, a "principal" trama de cada edição.
Bates dividiria a responsabilidade pelos roteiros com Robert Kanigher e E. Nelson Bridwell, e Mortimer seria ocasionalmente substituído por Kurt Schaffenberger. As histórias sempre possuíam tramas simples, mas não deixavam de ser "bobas", na definição do jornalista Brian Cronin, do site americano CBR. Conforme avançava a publicação das histórias, um tema recorrente começaria a surgir: a busca por "um propósito". Supergirl "merecia" encontrar seu propósito, mas, como definiria o jornalista Marc Buxton, "ser uma mulher que buscava provar seu valor era uma das características definidoras da personagem".
Os roteiristas e editores buscavam encontrar um propósito para o personagem tanto quanto ela buscava isso em suas histórias. Essa iniciativa era capitaneada por Mike Sekowsky, que pouco antes havia sido responsável por uma reformulação nas histórias da Mulher-Maravilha, mudando inclusive seu uniforme - e tão constantes quanto as mudanças de emprego pelas quais passava a personagem em suas histórias eram as alterações que ocorreriam em suas vestimentas. Num dado momento, os leitores foram convidados a contribuir enviando ideias para o uniforme que a heroína usaria, e pelos três anos em que as histórias foram publicadas na revista, diferentes variantes foram utilizadas. Um variante consistia num vestido longo, apresentado em Adventure Comics #402. Outra variante apresentada logo na edição seguinte colocaria a personagem usando botas de cano alto e um vestido curto. Nenhuma das tentativas de "modernizar" o visual da personagem acabaria tendo efeitos duradouros, e a personagem chegava a ser retratada com dois visuais diferentes numa mesma capa, como em Adventure Comics #413, em que a personagem é retratada usando calças compridas na imagem principal, mas shorts numa imagem apresentada próxima ao logo da editora.
Entre 1971 e 1972, uma sequência de histórias colocaria a personagem concluindo a faculdade na fictícia "Stanhope University" e se mudando para a cidade de San Francisco, onde começaria a trabalhar como jornalista e conheceria Nasthalthia "Nasty" Luthor. Sobrinha do vilão Lex Luthor, Nasthaltia era inicialmente amiga de Linda Danvers, mas quando descobre que Linda era, na verdade, apenas a identidade secreta de Supergirl, a quem odiava, Nasthaltia passou a se dedicar à arruinar a carreira da agora ex-amiga. Cansada dos confrontos, Supergirl acabaria pedindo demissão do emprego que possuía e a começar uma nova faculdade.
Histórico da publicação Volume 1 (1972-1974) e Superman Family (1974-1982)
A primeira série a apresentar a heroína Supergirl como protagonista começou a ser publicada em 1972. A personagem era bastante popular à época, e a série de histórias que haviam sido publicadas na revista Adventure Comics foram bem-sucedidas o suficiente junto ao público para a editora decidir investir numa série própria da personagem. No mês seguinte à publicação da última trama da personagem em Adventure Comics seria lançada a revista Supergirl, escrita por Cary Bates e ilustrada por Art Saaf. Após ter se demitido de seu trabalho na rede de televisão KSFTV, em San Francisco, Supergirl decidiria ingressar num curso de artes na fictícia "Vandyre University", localizada na cidade.
À época, a linha de revistas de Superman vinha passando por uma reformulação. Em 1970, o editor Mort Weisinger decidiria se aposentar, e diferentes editores assumiriam cada uma das revistas de Superman então publicadas. Ao passo que Julius Schwartz assumiu o comando de Superman, Murray Boltinoff se tornaria o editor de Action Comics.DANIELS, p. 135, 138-140 O grupo editoral do personagem compreendia ainda outras cinco revistas em publicação: Adventure Comics, Superboy, Lois Lane, Jimmy Olsen e World's Finest. Inicialmente, Schwartz acumularia o cargo de editor de Superman com o de World's Finest, revista na qual eram publicadas as histórias de Superman em parceria com Batman; Boltinoff por sua vez acumularia Superboy, com as histórias do jovem Superman; e Jimmy Olsen, com as histórias do personagem homônimo com Action Comics; Mike Sekowsky, por sua vez, se tornaria o editor de Adventure Comics, revista que, à época, continha as histórias de Supergirl; e o editor de Lois Lane a partir de 1970 seria E. Nelson Bridwell. (trechos arquivados no site "Superman Through the Ages!", passível de consulta no Internet Archive)
As dez histórias publicadas em Supergirl, vol. 1 seguiam uma trama continuada que, por sua vez, seguia o que já havia sido apresentado em Adventure Comics, com a personagem passando a viver em San Francisco. Ao invés de apresentar uma única história por edição, múltiplas subtramas eram apresentadas simultaneamente, mas essa fórmula, apesar de similar ao que vinha sendo feito nas revistas da Marvel Comics, não surtiu os mesmos efeitos. As revistas "femininas" da editora, Supergirl, Wonder Woman e Superman's Girl Friend, Lois Lane, possuíam um único editor - Robert Kanigher, cuja carreira se deu especializando-se em histórias de romance em quadrinhos. O estilo de Kanigher não se adaptou às demandas dos leitores por histórias de aventura, e logo as três revistas começaram a vender cada vez menos. Buscando uma forma de reverter isso, a editora removeu Kanigher do cargo que então ocupava, colocando Julius Schwartz e Murray Boltinoff em seu lugar. Schwartz ficaria responsável por Supergirl e Wonder Woman, enquanto Boltinoff assumiria Lois Lane.
Em 1973, a editora decidiria realizar uma segunda mudança na linha de revistas. À época, a publicação de antologias intituladas "DC 100-page Super Spectacular" se tornaria uma prática comercial bem-sucedida na DC Comics, e utilizando esse formato, a editoria decidiria, no ano seguinte, que as revistas Jimmy Olsen, Lois Lane e Supergirl seriam canceladas e substituídas por uma única revista que teria mais páginas que as três somadas, permitindo não apenas a publicação de histórias protagonizadas por cada um dos personagens, como também a republicação de histórias antigas.