O Museu Judaico de São Paulo cultiva e mantém vivas as diversas expressões, histórias, memórias, tradições e valores da cultura judaica, em diálogo com o contexto brasileiro, com o tempo presente e com as aspirações de seus diferentes públicos. Localiza-se na Rua Martinho Prado, 128, e pertence à Associação Amigos do Museu Judaico no Estado de São Paulo (AMJSP). O edifício que abriga o Museu é a antiga Sinagoga Beth-El, projetada e construída por Samuel Roder entre 1927 e 1932. O Templo é de estilo bizantino e possui 7 lados, o que remete à numerologia judaica. Em 2004 a Congregação Israelita Ashkenazi de São Paulo doou o edifício para a AMJSP, foi então assinado um contrato de comodato e Associação deu início ao processo de arrecadação de fundos para criar o Museu Judaico naquele espaço.
O Templo Beth-El foi tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) em 13 de setembro de 2013, quando já estavam em andamento as obras de restauração para transformar a Sinagoga em museu. As obras, entretanto, já haviam sido aprovadas pelo Departamento do Patrimônio Histórico e pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano. O projeto prevê uma nova fachada de vidro, na entrada lateral do prédio, situada na Avenida 9 de Julho, uma forma de unir a modernidade e as linhas clássicas da Sinagoga.
O Museu foi criado com o intuito de retomar o uso do Templo Beth-El, ampliando sua função cultural e mantendo sua função religiosa. O acervo já conta com aproximadamente 2 mil itens catalogados, incluindo objetos e documentos que contam a história dos judeus no Brasil, enfatizando a fusão das culturas judaica e brasileira.
História Família Klabin Na abolição da escravatura e a substituição da mão de obra escrava pela mão de obra de imigrantes europeus no Brasil, Maurício Klabin, judeu natural da Lituânia, enxergou a oportunidade de se inserir no mundo dos negócios. Em 1891, Klabin desembarcou em Santos e seguiu para São Paulo, onde conseguiu seu primeiro emprego em uma tipografia, a qual adquiriu posteriormente, começando assim a trilhar seu caminho nos negócios. Com a prosperidade do empreendimento, conseguiu trazer para o Brasil seus irmãos que ainda viviam na Europa. Fundaram juntos a empresa Maurício Klabin & Irmãos e em 1904 adquiriram parte da massa falida do Banco União, expandindo seu patrimônio na cidade de São Paulo. O progresso da família se refletiu na configuração da comunidade judaica paulistana. Em 1923, os Klabin doaram terras para a criação do Cemitério Israelita da Vila Mariana e continuaram doando até 1947, quando deixou de ser possível pois as terras ao redor tinha outros proprietários. Depois disso, a família se envolveu na criação do Templo Beth-El.
Templo Beth-El O Templo Beth-El foi construído por iniciativa da Comunidade Israelita Ashkenazim que representava a elite da comunidade judaica paulistana na década de 1920, liderada pelas famílias Klabin e Lafer, foi o primeiro templo judaico erguido fora dos redutos do Bom Retiro. Dois projetos arquitetônicos foram apresentados, ambos de arquitetos russos, um de Samuel Roder, mais clássico, e outro de Gregori Warchavchik, mais modernista, que era casado com a filha mais velha de Maurício Klabin. O projeto de Roder foi o escolhido. miniaturadaimagem|268x268px|Escritos em hebraico na fachada do Templo A pedra fundamental do Templo foi lançada em dezembro de 1928. Nesse ano, a Avenida 9 de Julho ainda estava no papel, mas Samuel Roder, que já havia trabalhado na Companhia City, sabia do projeto, por isso indicou o local para a construção do Templo. No início das obras, Roder foi chamado para uma conversa por Horácio Lafer, que transmitia um pedido de Mina Klabin Warchavchik para que seu marido Gregori participasse do projeto. O arquiteto atendeu ao pedido e Warchavchik ficou a frente do projeto por 6 meses, período no qual foi executado o revestimento em pedra das paredes do Templo. Depois Roder retornou ao comando e deu continuidade ao seu projeto. O terreno era complexo, por isso apesar dos esforços de todos os envolvidos, as obras não puderam ser concluídas até 1929 como era previsto. O Templo foi entregue provisoriamente para as celebrações do ano novo judeu de 1930, com altar e cadeiras improvisados. As obras só foram concluídas em 1932, o Templo abriu as portas como uma sinagoga aberta, de rito asquenazita, isso significa que aceitava rabinos das mais diversas origens, confirmando o que está escrito em hebraico na fachada do Templo: “Que esta seja uma casa de orações para todos os povos”.
Entre as décadas de 1940 e 1960, foram celebrados no Templo inúmeras cerimônias de Brit milá, Bar Mitzvá, casamentos e Yskor (reza fúnebre). Com o passar do tempo, o Templo foi perdendo sua relevância, principalmente por conta da migração das famílias que frequentavam o espaço para outros bairros da capital.
O Museu Em abril de 2000 representantes de várias entidades judaicas se reuniram na Hebraica e fundaram a Associação dos Amigos do Museu Judaico (AMJSP), com a intenção de criar no futuro o Museu Judaico de Sao Paulo. Quatro anos depois, em abril de 2004, a Comunidade Israelita Ashkenazim e a AMJSP assinaram um contrato de comodato, sendo assim, a Comunidade continuou utilizando o Templo para grandes festas e a Associação conseguiu o espaço para abrigar o futuro Museu.
A partir de 2006, a AMJSP começou a tentar arrecadar fundos para financiar a obra de restauro do Templo, para torná-lo Museu. A obra foi orçada em 22 milhões de reais e foi iniciada em 2011, um ano após ser aprovada pelo Departamento do Patrimônio Histórico e pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano. Em 2013 o governo alemão doou 900 mil reais para a iniciativa. A obra foi concluída e entregue ao público em 2021.
Arquitetura Arquitetura do Templo Beth-El esquerda|miniaturadaimagem|223x223px|Vitrais no nível da sinagoga Samuel Roder nasceu em Kiev em 1896, quando a atual capital ucraniana ainda fazia parte da Rússia. Vindo de uma família judaica abastada, formou-se na Escola de Belas Artes da Academia Imperial de Kiev em 1913. Após viajar pela Europa e para Nova York, Roder desembarcou no Brasil em 1917 e viu de longe a eclosão da Revolução Russa e as consequências dela, como a impossibilidade de manter contato e de contar com o suporte financeiro da família. Para se sustentar, Samuel decidiu começar a trabalhar como arquiteto em São Paulo. Seu primeiro emprego foi na City of São Paulo Improvements and Freehold Land Company Limited, a Companhia City, onde trabalhou até 1918. Depois abriu seu próprio escritório, que funcionou até 1970, em sociedade com Fernando Costa. miniaturadaimagem|Torre lateral da fachada do Templo O projeto arquitetônico de Samuel Roder foi inspirado no Templo Tifereth-Israel, localizado em Cleveland, Ohio, projetado por Charles Greco. Roder teria tido acesso a imagens da sinagoga de Greco através da revista Architectural Forum que publicou um artigo sobre o templo americano em 1925. O historiador Lewis Mumford afirmava que o uso do estilo bizantino em templos e sinagogas era importante pois ao longo de mais de quinze séculos, ele serviu como uma linguagem universal utilizada por judeus, cristãos e muçulmanos na Palestina. Para Mumford o uso desse estilo era como um retorno aos fundamentos da cultura e da religião, dessa forma o judeu poderia se manter judeu mesmo em uma sociedade moderna. miniaturadaimagem|Cadeiral do Templo em madeira escura O Templo Beth-El foi projetado com 7 lados em sua base e em todas as suas torres, em referência à numerologia judaica. Sua fachada é emoldurada por duas torres laterais e o domo bizantino com uma suave curvatura. Seu interior é estruturado com pilares e arcos formando um polígono que sustenta as galerias. Essas são distribuídas nos três lados desse polígono e suportadas por grandes pilares, criando uma polarização sutil entre a Bema, que é a plataforma utilizada para a leitura da Torá, e o Aron Kodesh, o local onde são guardados os Sefer Torá.
No nível da sinagoga - ou seja, o local de culto no interior do Templo -, nas galerias e entre o mezanino e a cúpula, foram colocados vitrais. A luz filtrada por eles é um dos únicos elementos decorativos do Templo. Outros elementos como as cadeiras fixas e a Bema, são sóbrios, feitos em madeira escura. Samuel Roder tinha intenções de decorar o interior do Templo, mas não pode por conta da falta de recursos. A arquitetura interna do Templo, segue o padrão das sinagogas europeias: foi feito um mezanino, para as mulheres ficarem durante as cerimônias realizadas no templo - os homens ficam embaixo - e a parede onde fica o Aron Kodesh e o altar foi projetada para ficar geograficamente voltada para Jerusalém.
Arquitetura do Museu Para transformar o Templo em Museu, foi necessário uma modernização. O projeto incluía desde a restauração da pintura original da sinagoga até a construção de um anexo de 4 andares. Vários projetos foram analisados e, em 2010, o júri, que incluía um membro do Departamento do Patrimônio Histórico, escolheu o projeto da Botti Rubin Arquitetura. O projeto proposto não comprometia a estrutura do Templo, permitia que ainda ficasse claro como funcionava uma sinagoga e incluía novos elementos de forma neutra.
A linha que definiu o projeto foi "Modernidade e preservação", isso significava manter as características originais do Templo - algumas vezes até as recuperando - e incorporar algo novo, no caso, um anexo que ocupa a área que vai da Rua Martinho Prado até a Avenida 9 de Julho, acompanhando o desnível do terreno com a estrutura de 4 andares. Apesar de todos os avanços na área da construção civil, a equipe que coordenou o projeto enfrentou o mesmo problema que Samuel Roder: o Córrego do Saracura, que compõe o Ribeirão Anhangabaú. O lençol freático fica apenas alguns metros abaixo Avenida 9 de Julho, por isso as estacas de sustentação, que teriam 30 metros, tiveram de ser trocadas por estacas de 50 metros.
Representantes do MJSP criaram parcerias com museus judaicos de Jerusalém, Nova York e Berlim garantindo assim um cronograma de exposições temporárias internacionais para os primeiros anos de funcionamento do Museu. A entrada lateral pela Avenida 9 de Julho conta com a grande fachada de vidro, que se estende pelos 4 andares. No nível da Avenida 9 de Julho há uma área educativa para alunos de escolas da cidade de São Paulo e outras crianças em visita, onde há monitores para esclarecer os temas abordados nas diversas exposições do Museu. A intenção é educar as crianças sobre o antissemitismo, discriminação e cidadania. No segundo subsolo, há exposições temporárias que podem ser próprias do Museu ou internacionais, fruto das parcerias do MJSP com museus ao redor do mundo. Para receber essas exposições, o Museu precisou criar uma sala com sistema de climatização especial e de segurança, além de itens como suportes expográficos. esquerda|miniaturadaimagem|Entrada principal na Rua Martinho Prado miniaturadaimagem|231x231px|Salão interno do Templo