A Guerra contra Nábis, conhecida também como Guerra Lacônica, de , foi travada entre as forças da cidade-estado de Esparta e as de uma coalizão composta pela República Romana, o Reino de Pérgamo, a Peraia Rodense e o Reino da Macedônia.

Durante a Segunda Guerra Macedônica (200-), a Macedônia cedeu a Esparta o controle sobre Argos, uma importante cidade na costa egeia do Peloponeso. A continuação da ocupação espartana depois do fim da guerra foi utilizada como pretexto por Roma e seus aliados para declarar guerra. A coalização anti-espartana cercou Argos, capturou a base naval de e marchou contra a própria Esparta. No final do conflito, as negociações levaram a uma paz nos termos impostos pelos romanos, sob os quais Argos e as cidades costeiras da Lacônia foram separadas de Esparta e os espartanos foram obrigados a pagara uma indenização de guerra aos romanos pelos oito anos seguintes. Argos se juntou à Liga Aqueia, sob cuja proteção foram colocadas as cidades lacônicas.

Como resultado da guerra, Esparta perdeu sua posição como uma potência relevante na Grécia e as tentativas subsequentes dos espartanos de recuperação fracassaram até que Nábis, o último monarca espartano, acabou sendo assassinado. Logo depois, Esparta foi forçada a se juntar à Liga Aqueia, sua antiga rival, encerrando séculos de independência política.

Contexto Depois da morte do regente espartano Macânidas em numa batalha contra a Liga Aqueia, Nábis derrubou o rei Pélops com a ajuda de um exército mercenário e assumiu o trono alegando ser um descendente do rei euripôntida Demarato. Na época, a tradicional constituição de Licurgo já tinha perdido importância e Esparta era dominada por um grupo de antigos mercenários. Políbio descreveu a força de Nábis como "uma gangue de assassinos, assaltantes, ladrões e salteadores".Políbio, Histórias 13.6 Em , Nábis assinou um tratado de paz com Roma, mas, em , ele próprio liderou um ataque ao território de Messene, que era aliada de ambos, mas havia sido governada por Esparta até meados do . Os espartanos capturaram Messene, mas foram forçados a abandoná-la quando um exército de Megalópolis chegou liderado por Filopemenes. Os espartanos foram decisivamente derrotados na Batalha de Tégea e Nábis acabou forçado a refrear suas ambições expansionistas por um tempo.Políbio, Histórias 16.13

Durante a Segunda Guerra Macedônica, Nábis teve uma nova oportunidade para expandir seus territórios. Filipe V da Macedônia ofereceu a ele a pólis de Argos em troca da deserção de Esparta da coalizão romana e de uma aliança com a Macedônia.Lívio, Ab Urbe Condita 32.39 Nábis aceitou e recebeu o controle de Argos. Porém, quando a guerra virou contra a Macedônia, e se juntou novamente à coalizão romana e enviou 600 cretenses mercenários para compor o exército romano.Lívio, Ab Urbe Condita 32.40 Filipe foi posteriormente derrotado pelos romanos na Batalha de Cinoscéfalos,Lívio, Ab Urbe Condita 33.10 mas Esparta continuou ocupando Argos. Depois da guerra, o exército romano não deixou a Grécia e posicionou guarnições em vários locais estratégicos por toda a região para assegurar seus próprios interesses.Lívio, Ab Urbe Condita 33.31

Reformas de Nábis Em troca de ajuda na guerra, Roma aceitou que Nábis assumisse o controle de Argos. Enquanto ele próprio se manteve como rei de Esparta, Nábis coroou sua esposa Ápia rainha de Argos, que era sua cidade natal. Depois, Ápia e Nábis perpetraram um golpe financeiro confiscando muitas propriedades das famílias mais ricas de ambas as cidades e torturando os que resistiam; boa parte das terras confiscadas foram redistribuídas para hilotas libertados e leais a Nábis.Cartledge and Spawforth, Hellenistic and Roman Sparta:A tale of two Cities, 74 Já muito rico, Nábis começou a transformar o porto de em um grande arsenal naval e a fortificar a cidade de Esparta. Seus aliados cretenses já podiam estabelecer suas bases navais em território espartano e, a partir deles, passaram a atuar como piratas. A construção de novos navios de guerra ofereceu aos mais pobres uma chance de participarem das lucrativas aventuras de Nábis como remadores. Porém, esta expansão militar espartana provocou um enorme desconforto nas potências vizinhas no mar Egeu e na República Romana.

O governo de Nábis foi fortemente baseado em suas reformas sociais e na reconstituição do poderio militar espartano. O efetivo militar da Lacedemônia (Esparta) tradicionalmente se baseava no alistamento de seus cidadãos plenos e dos periecos (um dos grupos de não-cidadãos livres da região) e no apoio de uma infantaria ligeira formada pelos hilotas. De muitos milhares na época das Guerras Médicas, o número de cidadãos plenos já havia declinado para umas poucas centenas na época de . Possivelmente havia muitas razões para este declínio, uma das quais era que todo espartano que não fosse capaz de pagar a sua parte na sissítia (a refeição comunal para os homens nas sociedades dóricas) perderiam sua cidadania plena (seus filhos, contudo, ainda podiam participar do agogê, o tradicional sistema de educação e treinamento espartano).

Como resultado, dispor de um exército respeitável de hoplitas sem mercenários e sem hilotas libertos era muito difícil. Cleômenes aumentou o número de cidadãos plenos e passou a exigir que o exército espartano operasse com uma dependência cada vez maior dos ligeiros falangitas no estilo macedônico.Warfare in the Classical World, p. 73 (Macedonian infantry) Porém, muitos destes recém-restaurados cidadãos foram mortos na Batalha de Selásia e as políticas de Nábis forçaram o exílio dos restantes. Como resultado, não havia um número suficientes de cidadãos para compor a infantaria pesada do exército. O poderio militar espartano rapidamente declinou e um dos objetivos das reformas de Nábis era justamente re-estabelecer uma classe de súditos leais capazes de servir como falangitas bem equipados (operando em formações densas e profundas, com lanças mais longas que a dos hoplitas). Num dos mais lembrados feitos da história de Nábis, os hilotas escravizados foram todos libertados, o que eliminou de uma vez um dos pilares ideológicos centrais do antigo sistema social espartano e a principal razão pela qual as pólis vizinhas de Esparta eram contrárias à sua expansão territorial. Cuidar de uma possível revolta dos hilotas era, até então, a principal preocupação da política externa espartana e a necessidade de evitar uma revolta interna limitava o expansionismo espartano. De uma vez só, Nábis resolveu o problema. Seus hilotas libertos receberam terras e foram casados com as ricas esposas dos espartanos exilados (todos cidadãos plenos) ou com as ricas viúvas da elite cujos maridos haviam sido assassinados por ordem dele.Green, Alexander to Actium: The Historical Evolution of the Hellenistic Age, 302

Preparativos thumb|400px|Região do mar Egeu na época da Guerra de Nábis

A Liga Aqueia estava muito insatisfeita por ter uma de suas cidades ainda sob ocupação espartana e conseguiu convencer os romanos a reverem sua decisão de manterem intactos os ganhos territoriais espartanos. Roma concordava com os aqueus pois nenhum deles queria uma Esparta poderosa e reorganizada provocando problemas depois que os exércitos romanos se retirassem da Grécia.

Em , Tito Quíncio Flaminino, o comandante romano na Grécia, convocou um conselho das pólis gregas em Corinto para discutir se declarariam ou não guerra contra Nábis. Entre as cidades cujos delegados participaram da reunião estavam a Liga Etólia, o Reino da Macedônia, Roma, o Reino de Pérgamo, a Peraia Rodense, a Tessália e a Liga Aqueia. Todos votaram pela guerra, com exceção da Liga Etólia e a Tessália, que queriam que os romanos se retirassem da Grécia de imediato.Cartledge and Spawforth, Hellenistic and Roman Sparta:A tale of two Cities, 75 Estes dois se ofereceram para lidar com Nábis, mas encontraram forte resistência da Liga Aqueia, que queria limitar qualquer expansão no poderio etólio.Lívio, Ab Urbe Condita 34.24 O historiador moderno Erich Gruen sugeriu que os romanos podem ter utilizado a guerra como pretexto para posicionarem algumas legiões na Grécia com o objetivo de evitarem que espartanos e etólios se juntassem ao Império Selêucida de Antíoco III se a Grécia fosse invadida.<ref name="Gruen450">Gruen, The Hellenistic World and the Coming of Rome, 450</ref>

Flaminino primeiro enviou um emissário a Esparta exigindo que Nábis entregasse Argos para a Liga Aqueia ou enfrentasse uma guerra contra Roma e seus aliados gregos. Nábis se recusou a obedecer este ultimato de Flaminino e, por causa da negativa, soldados romanos e gregos marcharam em direção do Peloponeso. Ao entrar na região, Flaminino juntou suas forças às do comandante aqueu, Aristeno de Megalópolis, que mantinha soldados e cavaleiros em Cleonas. Juntas, as duas forças seguiram para Argos.Lívio, Ab Urbe Condita 34.25

Nábis nomeou seu cunhado, o ágida Pitágoras, como comandante de sua guarnição em Argos, composta por homens. Conforme os romanos e seus aliados avançavam em direção à cidade, um jovem ágida chamado Dâmocles tentou iniciar uma revolta contra a guarnição espartana. Com uns poucos seguidores, ele se postou na ágora da cidade e urgiu seus concidadãos que se revoltassem. Porém, nada aconteceu e Dâmocles, juntamente com a maior parte de seus seguidores, foram cercados e mortos pela guarnição espartana. Uns poucos sobreviventes escaparam da cidade e seguiram para o acampamento de Flaminino. Eles sugeriram que o general romano movesse seu acampamento para mais perto dos portões de Argos, pois acreditavam que assim os habitantes se revoltariam. Flaminino enviou sua infantaria ligeira com apoio da cavalaria para encontrar um local adequado. Ao avistarem o pequeno grupo se aproximado, os espartanos saíram da cidade para dar-lhes combate. Os dois grupos se encontraram a cerca de 300 passos da muralha e os romanos acabaram forçando o recuou espartano.

Flaminino mudou seu acampamento justamente para aquele local. Por um dia, ele esperou por um ataque espartano, mas, quando percebeu que ele não viria, Flaminino convocou um conselho de guerra para discutir se deveria ou não cercar a cidade. Os líderes gregos, com exceção de Aristeno, defenderam que a cidade deveria ser atacada, uma vez que a captura de Argos era o objetivo da guerra para eles. Aristeno, por outro lado, argumentou que eles deveriam atacar diretamente Esparta ou a Lacônia. Flaminino concordou com Aristeno e o exército da coalizão marchou até Tégea, na Arcádia. No dia seguinte, Flaminino seguiu para Cárias, onde esperou pelo reforço dos auxiliares aliados. Chegaram um contingente de exilados espartanos liderados por Agesípolis, o legítimo rei ágida de Esparta que havia sido deposto pelo primeiro tirano, Licurgo, vinte anos antes, e macedônios com 400 cavaleiros tessálios enviados por Filipe V da Macedônia. Notícias também chegaram aos aliados de que diversas frotas haviam alcançado a costa lacônica — uma romana, liderada por Lúcio Quíncio, com 40 navios e uma rodense, liderada por Sósilas, com 18 navios — na esperança de que a derrota de Nábis interromperia os incessantes ataques piratas sobre suas rotas comerciais e cidades costeiras. Adicionalmente, uma frota pergamena, liderada pelo rei Eumenes II, esperava ganhar o apoio de Roma no caso de uma possível invasão do Império Selêucida.Holleaux, Rome and the Mediterranean; 218–133 B.C., 190Lívio, Ab Urbe Condita 34.26

Campanha lacônica thumb|esquerda|Nábis de Esparta.