miniatura|direita|Reconstituição do Políptico do Convento do Paraíso de Gregório Lopes e outros, proveniente do Convento do Paraíso e actualmente no MNAA.
O Políptico do Convento do Paraíso, ou Retábulo do Convento do Paraíso, é um políptico de doze pinturas a óleo sobre madeira de 1527, tratando-se provavelmente de obra colectiva com participação proeminente do artista português do Renascimento Gregório Lopes (1490-1550), e que decorou inicialmente o altar-mor do extinto Convento do Paraíso, em Lisboa, estando actualmente no Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa.
Os doze painéis conhecidos que compunham o Políptico do Convento do Paraíso são o Casamento da Virgem, a Anunciação, a Visitação, a Natividade, a Adoração dos Reis Magos, a Fuga para o Egipto, a Apresentação do Menino no Templo, e a Morte da Virgem. e ainda as quatro predelas representando Santa Luzia e Santa Ágata, Santa Margarida e Santa Maria Madalena, Santa Apolónia e Santa Inês e Santa Catarina e Santa Bárbara.
Segundo o historiador Manuel J.C. Branco, no Políptico do Convento do Paraíso, provável trabalho de oficina, evidencia-se um mestre já adestrado na lição do Renascimento e onde há a salientar um paisagismo generoso de "sfumatos" delicadíssimos além de um gracioso detalhe de tecidos e atmosferas cálidas.
Descrição miniatura|direita|Casamento da Virgem (1527, 127,5 x 86,5 cm), de Gregório Lopes e outros, painel que fazia parte do Políptico do Convento do Paraíso proveniente do Convento do Paraíso e actualmente no MNAA.
Casamento da Virgem Trata-se de um dos oito painéis do Políptico do Convento do Paraíso tendo de altura 127,5 cm e 86,5 cm de largura e representa o episódio bíblico do Casamento da Virgem.
O Casamento da Virgem, tema que tem como principais fontes os Evangelhos Apócrifos e a obra do século XIII Lenda Dourada de Tiago de Voragine, apresenta algumas variações interessantes em relação à fonte de inspiração. Em primeiro plano encontram-se os três principais intervenientes da cerimónia: a Virgem Maria à esquerda, São José do lado direito, e o celebrante do casamento, o Profeta Zacarias, entre os dois. Maria, aureolada e com a face coberta por um véu, veste um manto azul debruado a dourado com motivos geométricos. Contrastando com a juventude de Maria, José é representado calvo e de barbas brancas com veste vermelha. Zacarias, imponentemente vestido e coroado, segura uma aliança com a mão direita e benze a união conjugal. O facto de a cabeça do sacerdote estar virada para a Virgem desloca o centro da composição para esta. A cabeça calva de José contrasta com o halo da Virgem, a coroa do sacerdote e os chapéus dos acompanhantes.
Ladeando este grupo principal, encontram-se algumas personagens que assistem à cerimónia, as mulheres do lado esquerdo e os homens do lado direito, sendo de destacar a paleta variada e luminosa dos trajes e o dinamismo da composição. No olhar das duas convidadas mais próximas da Virgem nota-se uma atitude de observação e de registo do acontecimento, parecendo estar a observar meticulosamente o cabelo e o manto da Virgem, introduzindo um aspecto quotidiano numa cerimónia solene. As roupagens e os complementos estão tratados com grande pormenor e interesse.
A cena decorre no interior de uma igreja que se prolonga numa ala abobadada (transepto?) e de paredes encimadas por janelas em forma ogival, a que se acede através de um arco ladeado por pilastras com nichos decorados por pequenas estátuas encimadas por baldaquinos. O pintor demonstra conhecimento de perspectiva, concretizada na arquitectura de transição do românico para o gótico da igreja, em fundo, e nos ladrilhos, em primeiro plano.
Anunciação miniatura|esquerda|Anunciação (1527), de Gregório Lopes e outros, proveniente do Convento do Paraíso, actualmente no MNAA. Trata-se de um dos oito painéis do Políptico do Convento do Paraíso tendo de altura 129 cm e 88 cm de largura e representa o episódio bíblico da Anunciação.
A Virgem Maria está ajoelhada em posição de submissão tendo a seu lado um livro de horas aberto e a seus pés, em primeiro plano, uma jarra de faiança portuguesa com açucenas brancas, referência à pureza da Virgem, que tem a inscrição "Abram Prim" ("Abraão Primeiro"). Esta inscrição faz referência à figura de Abraão e ao episódio bíblico em que ele e a sua esposa Sara, sendo idosos, foram visitados por três anjos enviados por Deus que lhes anunciam o nascimento de um filho. O nascimento e a circuncisão de Isaac prefiguram os de Cristo (assim como o sacrifício de Isaac é associado ao Calvário), sendo este paralelismo sempre invocado, nomeadamente no tema da Anunciação.
O arcanjo Gabriel, com vestes de um branco rosado e dalmática bordada de fio de ouro e aplicações de pedraria, segura com a mão direita um bastão de ouro e com a esquerda aponta para a pomba do Espírito Santo cujos raios fecundadores, sendo uma emanação de Deus Pai, simbolizam a descida de Deus filho.
O livro aberto caído sobre o manto indica a surpresa de Maria perante a chegada do Arcanjo, permitindo as folhas finas ver à transparência o azul do vestido o que demonstra o virtuosismo do pintor. Na escrivaninha ao lado da Virgem está outro livro o que revela a sua atitude devota.
A cena ocorre no interior de um quarto que tem acesso a um pátio através de dois arcos românicos suportados por uma coluna de mármore vermelho. Ao fundo, incrustados numa parede branca, estão um armário com loiça e utensílios domésticos e um lavabo, sendo elementos que, para além da sua condição decorativa, remetem o simbolismo da água purificador relacionado com a virgindade de Maria. Na divisão principal sobressaem a cama de dossel e o chão de ladrilho vermelho parcialmente coberto por um tapete oriental decorado com motivos geométricos.
De um ponto de vista estrutural, a composição é bipartida, reflexo da dupla qualidade dos intervenientes, por pertencerem a esferas diferentes, sendo Gabriel do mundo celeste, e a Virgem do terreno, o que é ainda sublinhado pelos efeitos de claro-escuro e pela direcção da luz. Segundo a diagonal que parte da pomba em direcção à Virgem, a luz emana da direita, sublinhando o lugar da manifestação do sagrado. E tal como os outros painéis do Retábulo, a Anunciação tem uma moldura de madeira dourada muito ornamentada cujo cimo é constituído por arcos góticos entrelaçados.
Visitação
miniatura|direita|Visitação (1527), de Gregório Lopes e outros, proveniente do Convento do Paraíso, actualmente no MNAA. Trata-se de um dos oito painéis do Políptico do Convento do Paraíso, tendo de altura 129 cm e 88 cm de largura e representa o episódio bíblico da Visitação.
O encontro de Maria e Isabel é representado em primeiro plano, estando em vias de se abraçarem, o que está relacionado com a etimologia da palavra "visitação", que em grego significa saudação. Maria tem um manto verde escuro debruado a ouro, o mesmo com que figura nos outros painéis do Retábulo de que faz parte, enquanto Isabel, que está à esquerda para o espectador, com a cabeça coberta por um véu branco, tem um vestido vermelho e uma capa escura também debruada a ouro.
Atrás de Maria, como que a segui-la estão dois anjos de asas douradas com semblante prazenteiro. Em segundo plano, e a sair do que será a sua casa, está Zacarias, marido de Isabel, longas barbas brancas a acentuar a sua idade avançada, com chapéu preto e traje vermelho e descendo as escadas apoiado a um bordão.
Ao fundo, em edificações de alguma imponência de arquitectura flamenga, observam-se duas fileiras de arcos, uma ao nível térreo e outra num primeiro piso, estando neste três figuras que observam a cena. As árvores que ladeiam a edificação, pintadas com pormenor, completam o fundo. Uma destas árvores, com um tronco elevado que é acentuado pela menor folhagem, parece sair da cabeça de Maria, confundindo-se a copa com o céu, sendo provável que o pintor pretendesse fixar esta árvore como elemento de contacto entre o mundo terreno e o etéreo. No terreiro, em frente à edificação, estão algumas aves domésticas, algumas a debicar o chão à cata de comida, o que transmite uma sensação de quotidiano comum nas obras deste Artista.
Natividade miniatura|esquerda|Natividade (1527), de Gregório Lopes e outros, proveniente do Convento do Paraíso e actualmente no MNAA. Trata-se de um dos oito painéis do Políptico do Convento do Paraíso, tendo de altura 128,5 cm e 87,5 cm de largura e representa o episódio bíblico do nascimento de Jesus.
Maria tem o Menino Jesus recém nascido ao colo aquecendo a mão esquerda num fogareiro de barro, ou aceitando uma fralda que São José aqueceu. A seus pés encontram-se objectos de uso doméstico, como um jarro e um prato, e um cesto de verga com alimentos. Do tecto esburacado de um edifício em ruínas, descem anjos com livros nas mãos, formando uma diagonal descendente que encaminha o nosso olhar até à Sagrada Família.
Num primeiro plano,está um conjunto triangular formado por Maria, José e, na base, alguns alimentos. O azul e o vermelho dos mantos de Maria e José constituem as duas grandes superfícies que se impõem perante a diversidade de histórias que compõem a pintura. A cena decorre no interior de uma construção clássica em ruínas, tendo um pátio traseiro onde três figuras tratam do jumento e do boi. Como pormenor, o artista pintou uma natureza morta, em primeiro plano, onde se destaca uma cesta com ovos.
Adoração dos Reis Magos miniatura|direita|Adoração dos Reis Magos (1527), de Gregório Lopes e outros, proveniente do Convento do Paraíso e actualmente no MNAA. Trata-se de um dos oito painéis do Políptico do Convento do Paraíso tendo de altura 128 cm e 86,5 cm de largura e representa o episódio bíblico da Adoração dos Reis Magos.
O Menino Jesus, ao colo da Virgem Maria que tem ao seu lado São José, está colocado no centro da composição. Em primeiro plano do lado direito, ambos ajoelhados e de costas, estão dois Reis Magos ricamente vestidos, sendo acompanhados, num plano mais recuado, por um grupo de soldados que portam estandartes. Do lado oposto está o terceiro Mago, também em posição de adoração, estando mais distante um outro gruoo de soldados.
A Adoração dos Reis Magos decorre no mesmo espaço arquitectónico da Natividade, excepto nalguns pormenores que foram alterados para a adequação a um assunto diferente o que ajuda a compreender a estrutura da composição. A necessidade de integrar um maior número de personagens levou a que houvesse uma "dilatação" do espaço, o que se constata nas laterais da composição onde foram colocados os dois cortejos. Assim, enquanto na Natividade a janela do lado esquerdo se abria sobre uma paisagem rochosa, agora é transformada em porta por onde passa um cortejo, e o horizonte paisagístico, uma colina verdejante, é transferido para a abertura colocada ao fundo ao centro.
O artista esforçou-se a destacar a expressão dos rostos e a riqueza das vestes dos Magos, desdobram-se as capas de dois deles, em primeiro plano, com elegância em direcção ao centro fechando a composição. A pintura, que foi elaborada com grande minúcia e profusão de ornamentos, revela na expressão e na mão de S. José a proteger o Menino da excessiva actividade à sua volta um elemento emocional.
Fuga para o Egipto miniatura|esquerda|Fuga para o Egipto (1527, 128 x 87,5 cm), de Gregório Lopes e outros, proveniente do Convento do Paraíso, actualmente no MNAA. Trata-se de um dos oito painéis do Políptico do Convento do Paraíso tendo de altura 128 cm e 87,5 cm de largura e representa o episódio bíblico da Fuga para o Egipto.
Enquadrados numa paisagem verdejante e rochosa com edificações apalaçadas em fundo do lado esquerdo, a Virgem Maria com o Menino Jesus ao colo segue montada numa mula enquanto São José momentaneamente parado apanha tâmaras de uma palmeira cujos ramos são vergados com a ajuda de anjos. Este, como outros pormenores, é interessante pois remete quer para os Evangelhos Apócrifos quer para a Lenda Dourada de Tiago de Voragine.