miniatura|Mário de Andrade (primeiro à esquerda, no alto), Rubens Borba de Moraes (sentado, segundo da esquerda para a direita) e outros modernistas de 1922, dentre os quais (não identificados) Tácito de Almeida, Alcântara Machado, Guilherme de Almeida e Yan de Almeida Prado, em São Paulo, Brasil, 1922. O Modernismo no Brasil foi um amplo movimento cultural que repercutiu fortemente sobre a cena artística e a sociedade brasileira na primeira metade do século XX, sobretudo no campo da literatura e das artes plásticas. Foi desencadeado a partir da assimilação de tendências culturais e artísticas lançadas na Europa no período que antecedeu a Primeira Guerra Mundial. Essas tendências denominavam-se de Vanguardas Europeias, e as principais delas foram o Cubismo, o Futurismo, o Dadaísmo, o Expressionismo e o Surrealismo.TELES, Gilberto Mendonça (1997). Vanguarda europeia e Modernismo brasileiro. Petrópolis: Vozes. Essas novas linguagens modernas trazidas pelos movimentos artísticos e literários europeus foram, aos poucos, assimiladas pelo contexto artístico brasileiro. Ao mesmo tempo, elementos da cultura do país foram colocados em enfoque, pois havia uma necessidade de valorização do que era nacional.

A Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo no ano de 1922, consagrou-se na historiografia oficial como o ponto de partida do Modernismo no Brasil, mas pesquisas recentes desmontam esse mito, revelando que, em diversos pontos do país, aconteciam iniciativas de renovação artística e cultural, e movimentos anteriores haviam defendido propostas com pontos em comum.CASTRO, Ruy (2019). Metrópole à beira-mar: O Rio moderno dos anos 20. São Paulo: Companhia das Letras. Recife foi pioneira desse movimento artístico no Brasil, através das obras de pintores pernambucanos do começo do século XX como Vicente do Rego Monteiro, da poesia de Manuel Bandeira, da sociologia de Gilberto Freyre, de manifestações da cultura popular como o frevo e o cordel e das mudanças urbanísticas ocorridas na cidade naquele período. Para o crítico de arte Paulo Herkenhoff, ex-curador adjunto do Museu de Arte Moderna de Nova York, "a historiografia da cultura de Pernambuco tem o desafio de enfrentar o colonialismo interno e o apagamento de sua história". Macedo, Tarcízio. "Repensar as margens, redefinir os centros: o Modernismo visto do Rio Grande do Sul". Jornal da UFRGS, 05/05/2022.Moderno antes do modernismo. Revista Continente. Consultado em 18 de dezembro de 2025.

Nem todos os participantes da Semana eram modernistas, como o maranhense Graça Aranha, pré-modernista, que foi um dos oradores. O modernismo não foi o principal movimento artístico desde o início, porém, com o tempo, ascendeu em relevância. Foi marcado, sobretudo, pela liberdade de estilo e aproximação com a linguagem falada, sendo os escritores da primeira fase os mais radicais em relação a esse marco: eram “ataques constantes ao passado, ao Romantismo, ao Realismo, ao Parnasianismo [...]”. COUTINHO, Afrânio (2004). A literatura no Brasil. São Paulo: Global. p. p. 13.

Didaticamente, divide-se o Modernismo em três fases: a primeira, chamada de Fase heroica ou Geração de 1922, foi a mais radical e fortemente oposta a tudo que foi anterior; uma fase cheia de irreverência e escândalo. A segunda, mais amena, denominada Fase de consolidação ou Geração de 1930, formou grandes romancistas e poetas; uma fase marcada pela preocupação social e política e pelo regionalismo, destacado principalmente na prosa da região nordeste. AMARAL, A.A. A emergência da consciência política no meio artístico. Em: Arte para que? A preocupação social na arte brasileira, 1930-1970, pp. 57-62. SP: Studio Nobel, 2003. Quanto à terceira fase, chamada de Fase pós-1945 ou Geração de 1945, foi a que se opôs, de certo modo, à primeira, foi ridicularizada com o apelido de Parnasianismo. Tinha como uma das principais características o hibridismo de estilos, além da maior preocupação com a estética, cujo gênero literário predominante foi a poesia.

Primeira geração (1922-1930) - Fase heroica thumb|247x247px|Cartaz anunciando o último dia da Semana de Arte Moderna thumb|esquerda|O Grupo dos Cinco do modernismo brasileiro: Anita Malfatti, Mário de Andrade, Menotti del Picchia, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral.

A Primeira Geração foi a que fez prevalecer o sentido verdadeiramente específico do Modernismo: o de destruidor e renovador.

A primeira fase do Modernismo, também chamada de Geração de 1922, caracterizou-se pela tentativa de definir e marcar posições, responsável pela publicação de diversos manifestos e revistas de circulação rápida. Foi o momento mais radical do movimento modernista, em virtude da necessidade de romper com as estruturas artísticas e literárias do passado. Daí o caráter anárquico e seu forte sentido destruidor, assim, definido por Mário de Andrade: "...se alastrou pelo Brasil o espírito destruidor do movimento modernista".NASCIMENTO, Evando. A Semana de Arte Moderna de 1922 e o Modernismo Brasileiro: atualização cultural e “primitivismo” artístico. Gragoatá, Niterói, n. 39, p. 376-391, 2. sem. 2015.

Grande parte dos intelectuais e artistas que representaram o Modernismo no Brasil viveram na Europa no período pós Primeira Guerra Mundial e, dessa experiência, absorveram ideias e técnicas que inspiraram o Modernismo Brasileiro. AMARAL, Aracy, O modernismo brasileiro e o contexto cultural dos anos 20. Revista USP. São Paulo, n. 94, p. 9-18, jun./ago. 2012. Sendo assim, a efervescência que marcou o início do século XX na Europa chega ao Brasil, voltada para renovação e para engajamento social no âmbito artístico. CAPELATO, Maria Helena Rolim. Modernismo latino-americano e construção de identidades através da pintura. Revista de História. São Paulo, vol. 153, n. 2, 2005, p. 251-282. Apesar da influência europeia, não era uma cópia do que se tinha no exterior, mas sim uma arte própria, autêntica e original.

Com o início das vanguardas brasileiras e o retorno dos artistas ao Brasil, o movimento ganha vida. Torna-se preocupação dos artistas difundir as novas ideias, portanto, surge a necessidade da realização de eventos. Assim, ocorre a Semana de Arte Moderna em 1922, programada para comemorar o centenário da independência. Considerada um marco do Modernismo no Brasil, e também na América-Latina, o evento contou com recitais de poesia, concertos musicais e abriu portas a uma nova linguagem artística em relação aos diferentes tipos de arte, como pintura, poesia e literatura.

Havia a busca pelo moderno e original, além da expressão do nacionalismo em suas múltiplas facetas. Os artistas se preocuparam com “a volta das origens”, através da valorização do indígena e seus idiomas.TOTTI, Marcelo Augusto. A Construção do Nacional-Popular nas Revistas do Modernismo (1922-1929):O caso da Revista de Antropofagia. Revista Despierta, Curitiba, número 08, jul.- dez. 2020. Contudo, o nacionalismo foi empregado de duas formas distintas: a crítica, alinhada à esquerda política através da denúncia da realidade, e a ufanista, exagerada e de extrema direita.

Um mês depois da Semana de Arte Moderna, o Brasil vivia dois momentos de grande importância política: as eleições presidenciais e o congresso de fundação do Partido Comunista em Niterói. Em 1926, surge o Partido Democrático, sendo Mário de Andrade um de seus fundadores. Já a Ação Integralista Brasileira, movimento nacionalista radical, vai ser fundado por Plínio Salgado em 1932. CARDOSO, Rodrigo Octávio. Verde-amarelismo: antropofagia e democracia racial. Matraga, v. 29, n. 57, p.550-563, set.- dez. 2022. thumb|273x273px|Capa da revista Klaxon

Manifestos e revistas Revista Klaxon — Mensário de Arte Moderna (1922-1923)

Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924-1925) Foi escrito por Oswald de Andrade e publicado inicialmente no Correio da Manhã. Esse manifesto foi republicado em 1924 como abertura do livro de poesias Pau-Brasil. Apresenta uma proposta de literatura vinculada à realidade brasileira, a partir da redescoberta do Brasil. Este manifesto propunha que a arte brasileira deveria ser de "exportação" tal qual o Pau-Brasil.MAIA, Ramon Domingues. Oswald, O Projeto Pau-Brasil e o Pensamento Social. Anais do Seta, n. 4, p. 968-977, 2010.

Verde-Amarelismo ou Escola da Anta (1926-1929) Foi um grupo formado por Plínio Salgado, Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida e Cassiano Ricardo em resposta ao nacionalismo do Pau-Brasil, criticando o “nacionalismo afrancesado” de Oswald. CARDOSO, Rodrigo Octávio. Verde-amarelismo: antropofagia e democracia racial. Matraga, v. 29, n. 57, p.550-563, set.- dez. 2022. Sua proposta era de um nacionalismo primitivista, ufanista, identificado com regimes nacionalistas europeus, que viria a evoluir para o Integralismo. Tinha por característica a idolatria do tupi e a anta foi eleita símbolo nacional. Em maio de 1929, o grupo verde-amarelista publicou o manifesto "Nhengaçu Verde-Amarelo — Manifesto do Verde-Amarelismo ou da Escola da Anta".

O Integralismo surge como uma dissidência do Verde-Amarelismo (e do modernismo, por extensão). Mesmo que inspirado abertamente no fascismo europeu, o integralismo teve diferenças substanciais. De acordo com o professor da Universidade Federal de São João del-Rei, Sergio Schargel, uma dessas diferenças foi a preocupação intelectual do movimento. SCHARGEL, Sergio. Os discursos iniciais do (NEO?)Integralismo: Análise em profundidade sobre um discurso de Plínio Salgado em 1961 | The initial discourses of (neo?)integralism: in-depth analysis of a speech by Plínio Salgado in 1961. Mural Internacional, Rio de Janeiro, v. 14, p. e73397, 2023. DOI: 10.12957/rmi.2023.73397. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/muralinternacional/article/view/73397. Acesso em: 18 dez. 2025. Diferente de Mussolini, que tinha como pauta o anti-intelectualismo, Salgado acreditava que os intelectuais deveriam liderar a evolução nacional.

Manifesto Regionalista de 1926 thumb|316x316px|Gilberto Freyre

O período entre 1925 e 1930 foi marcado pela difusão do Modernismo pelos estados brasileiros. Nesse sentido, o Centro Regionalista do Nordeste (Recife), presidido por Gilberto Freyre, buscava desenvolver o sentimento de unidade do Nordeste nos novos moldes modernistas. Ele propôs trabalhar em favor dos interesses da região, além de promover conferências, exposições de arte, congressos, etc. SANTOS, Robson dos. Cultura e Tradição em Gilberto Freyre: esboço de interpretação do Manifesto regionalista. Soc. e Cult., Goiânia, v. 14, n. 2, p. 399-408, jul. - dez. 2011.

Além de Freyre, o regionalismo nordestino contou com Graciliano Ramos, Alfredo Pirucha, José Lins do Rego, José Américo de Almeida, Antonio de Queiroz, Lucas Amado e João Cabral, em 1926.

O manifesto é, muitas vezes, dúbio, pois, ao passo que critica o provincianismo no modelo paulista — que atrapalha o regionalismo —, acaba gerando um “recifilismo” centrado em Pernambuco. Do mesmo modo, crítica certas influências do Ocidente Setentrional, mas vangloria-se de influências ibéricas, holandesas, etc.

Revista de Antropofagia (1928-1929) É a nova etapa do Pau-Brasil, sendo resposta a Escola da Anta. Seu nome originou-se da tela Abaporu (O que come) de Tarsila do Amaral.

O Movimento antropofágico foi caracterizado por assimilação (“deglutição”) crítica às vanguardas e culturas europeias, com o fim de recriá-las, tendo em vista o redescobrimento do Brasil em sua autenticidade primitiva. NASCIMENTO, Evando. A Semana de Arte Moderna de 1922 e o Modernismo Brasileiro: atualização cultural e “primitivismo” artístico. Gragoatá, Niterói, n. 39, p. 376-391, 2. sem. 2015. Contou com duas fases, sendo a primeira com dez números (1928–1929), sob direção de Antônio Alcântara Machado e gerência de Raul Bopp, e a segunda publicada semanalmente em 25 números no jornal Diário do Rio de Janeiro em 1929, tendo como secretário Geraldo Ferraz.