As relações entre Estados Unidos e França são as relações diplomáticas estabelecidas entre os Estados Unidos da América e a República Francesa desde 1776. As relações diplomáticas entre as duas nações possuem um caráter longevo e profundo, no âmbito de cooperações militares e econômicas e apoio político mútuo desde o estabelecimento dos Estados Unidos como potência regional no continente americano. O primeiro acordo diplomático entre as duas nações deu-se através de apoio francês durante a Guerra de Independência Americana e desde então, têm experimentado relações pacíficas e cordiais (com exceção da Quase-guerra em 1798-1800 e na Segunda Guerra Mundial).

Em 2002, 62% dos franceses tinham visão positiva sobre os Estados Unidos. As estatísticas caíram para 50% entre 2003 e 2008, devido especialmente às divergências dos dois países quanto à Guerra do Iraque. Em 2013, 64% dos franceses tinham visão favorável sobre os Estados Unidos, aumentando para 74% em 2014. Em contrapartida, 82% dos estadunidenses veem a França como uma nação favorável.

Comparação entre os dois países Estados Unidos da América República FrancesaPopulação habitantes (3) habitantes (20)Área 9 371 174 km² (4) 551 500 km² (48)Densidade populacional35/km²99/km²CapitalWashington, D.C.ParisMaior cidadeNova Iorque – 8 560 405 hab.Paris - 2 234 105 hab.GovernoRepública constitucional federal presidencialistaRepública constitucional semipresidencialista unitáriaPrimeiro líderGeorge WashingtonClóvis ILíder atualPresidente Donald Trump Presidente Emmanuel Macron Legislatura nacionalCongresso dos Estados UnidosParlamento da FrançaIdioma oficialInglêsFrancêsReligiões principaisTrocas populacionais100 000 estadunidenses na França145 000 franceses nos Estados UnidosPIB (PPC)18,5 trilhões (2)2,7 trilhões (10)Gastos militares596 bilhões (1)50,9 bilhões (7)Membresia internacional

História Século XVIII

thumb|right|250px|A vitória revolucionária na Batalha de Chesapeake fortaleceu os laços franco-americanos e possibilitou outras vitórias decisivas. thumb|right|250px|A Rendição de Lorde Cornwallis, retratando forças francesas (à esquerda) e norte-americanas (à direita) no desfecho da Guerra da Independência. Durante o período de relativa paz entre Grã-Bretanha e França, e enquanto houve o precário equilíbrio entre os colonos americanos, as colônias francesas e britânicas coexistiram sem maiores rivalidades. Contudo, com o levante da Revolução Gloriosa na Inglaterra em 1688, diversas disputas dinásticas, religiosas e faccionais voltaram à torna entre os dois países, desencadeando longos confrontos bélicos - principalmente em solo americano. A principal série de conflitos entre os dois países ficou conhecida como "Quatro Guerras Franco-Indígenas": Guerra do Rei Guilherme; Guerra da Rainha Ana; Guerra do Rei Jorge e a Guerra Franco-Indígena propriamente dita). Os britânicos finalmente removeram os franceses da América do Norte em 1763 após a derrota francesa na Guerra dos Sete Anos. Após uma década, no entanto, as colônias britânicas iniciaram um movimento político revolucionário que receberia apoio dos franceses, e culminando na Independência dos Estados Unidos.

Após a ratificação da Declaração de Independência dos Estados Unidos em julho de 1776, enviados especiais em Paris recrutaram oficiais para compor o Exército Continental. Um destes foi o Marquês de Lafayette, que ganhou proeminência como major-general dos exércitos estadunidenses em vários conflitos com a Grã-Bretanha. Apesar da rígida desconfiança francesa, os agentes americanos também solicitaram o estabelecimento de alianças formais. Impressionados com a vitória americana na Batalha de Saratoga em outubro de 1777, os franceses concordaram em forjar tratados de comércio e aliança que os comprometeriam a apoiar os colonos até a rendição britânica.

A aliança militar começou com pouca força. O almirante francês Charles Henri d'Estaing desembarcou na América do Norte em 1778 com uma frota e logo iniciou suas operações ao lado do General John Sullivan. As primeiras medidas militares entre os dois países tinham como finalidade reaver a localidade de Newport, em Rhode Island. O Almirante d'Estaing deixou brevemente a operação para confrontar frota britânica e em seguida rumou para Boston buscando reparos. Sem suporte naval, o plano fracassou e Sullivan teve de liderar um contra-ataque as forças americanas sem apoio francês. A indignação americana foi generalizada, e vários marinheiros franceses foram mortos em motins anti-franceses. Posteriormente, novos fracassos de d'Estaing em Savannah enfraqueceram a confiança mútua entre os dois países.

A aliança experimentaria uma melhoria somente com a chegada do Conde de Rochambeau, em 1780, que cooperou grandemente com George Washington. As ações navais francesas na Batalha de Chesapeake possibilitariam uma vitória decisiva franco-americana na Batalha de Yorktown em outubro do ano seguinte. A vitória em Yorktown é considerada decisiva no processo de independência dos Estados Unidos.

Os franceses teriam ainda papel de destaque nas negociações de paz entre britânicos e norte-americanos em 1782. De fato, o ministro do exterior francês, o Conde de Vergennes, havia sido apontado principal conselheiro dos norte-americanos nas questões diplomáticas. Contudo, os comissários norte-americanos (Benjamin Franklin, John Adams e John Jay) buscaram afastar-se de uma suposta manipulação por parte dos franceses e optaram por negociar diretamente com os britânicos. Em setembro de 1782, Vergennes propôs uma solução que foi radicalmente oposta pelos Estados Unidos. A França desejava livrar-se das obrigações bélicas com os norte-americanos, mas a Espanha insistiu em guerrear contra os britânicos até reaver o controle sobre Gibraltar. O acordo final determinava que os Estados Unidos seriam a região a leste dos Apalaches, enquanto toda a região ao norte do rio Ohio permaneceria sob controle britânico como Território do Noroeste. A região ao sul seria um país independente sob controle espanhol.

Século XIX Primeira Guerra Mundial

Os maiores contatos entre Estados Unidos e França neste período ocorreram após a entrada deste primeiro no conflito em 1917. Além de prover apoio logístico, o governo estadunidense enviou mais de um milhão de combatentes para as trincheiras francesas. O apoio norte-americano foi um dos fatores decisivos para a derrocada alemã na Primeira Guerra Mundial, já que Berlim encontrava sérias dificuldades em cobrir as baixas nos campos de enfrentamento e tinha ainda de lidar com a descrença generalizada do povo. Os estadunidenses, enviados sem seus armamentos pesados como estratégia contra o tempo, fizeram uso da artilharia francesa, bem como de tanques e aeronaves, como o SPAD S.XIII. thumb|right|230px|Cartaz estadunidense da Primeira Guerra Mundial retratando Joana d'Arc como heroína de guerra. Wilson havia se tornado o herói de guerra para os franceses e sua chegada a Paris foi amplamente aclamada. No processo de paz, contudo, apesar de compartilharem muitos objetivos, os dois países entraram em disputa com a política francesa de enfraquecer permanentemente a Alemanha e obrigá-la a arcar com as despesas do conflito. A deflagrada ambição do Primeiro-ministro francês Georges Clemenceau em garantir a segurança de seu país no futuro estava relacionada à sua pouca expectativa sobre as ambições do presidente estadunidense Woodrow Wilson. Certa vez, o chefe de governo francês afirmou: "Até Deus satisfez-se com Dez Mandamentos, mas Wilson insiste em quatorze" (em referência aos Quatorze Pontos de Wilson). Estados Unidos e França vieram a discordar sobre as negociações pós-guerra, especialmente nas decisões envolvendo o futuro da Alemanha.

Clemenceau também estava determinado a criar um estado-tampão no território alemão a oeste do rio Reno. Aos olhos dos estadunidenses e britânicos, tal violação do príncipe de autodeterminação seria um pretexto para futuras guerras envolvendo as nações vizinhas, e o chefe de governo francês acabou por aceitar um compromisso proposto pelos Estados Unidos. O território em questão seria ocupado pelas tropas Aliadas durante cinco a quinze anos e estava determinada a criação de uma zona desmilitarizada abrangendo cinquenta quilômetros a oeste do Reno. Wilson e David Lloyd George concordaram que seus países protegeriam a França de uma eventual insurgência alemã. Os líderes republicanos em Washington, no entanto, defendiam a formação de um tratado com a França. Mas, a proposta não tomou efeito dada a insistência de Wilson em reaver as medidas do Tratado de Versalhes, que por sua vez não era bem visto pelos membros do partido.

Entre Guerras

thumb|left|250px|Os "Quatro Grandes" da Conferência de Paris: Lloyd George, Emanuele Orlando, Clemenceau e Wilson.

Durante o período Entreguerras, Estados Unidos e França permaneceram amigáveis e pacíficos. No início da década de 1920, intelectuais, artistas, escritores e personalidades estadunidenses divulgavam a cultura francesa.

Um grande número de artistas estadunidenses, como Josephine Baker, gozaram de grande popularidade entre os franceses. Da mesma forma, Paris tornava-se um dos maiores centros de jazz em toda a Europa, abrigando diversos artistas afro-americanos e - ao contrário dos próprios Estados Unidos à época - não possuía leis discriminatórias. A literatura também foi beneficiada com este período de paz, com autores como William Faulkner, F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway descrevendo sua influência pela cultura europeia.

Contudo, um forte sentimento de antiamericanismo ganhou evidência neste período. Muitos líderes franceses tradicionalistas alarmavam a população contra o "poder influenciador" de Hollywood, que representava a modernidade e o progresso de ideias em detrimento do tradicionalismo dos valores franceses.David Strauss, "The Rise of Anti-Americanism In France: French Intellectuals and the American Film Industry, 1927–1932," Journal of Popular Culture (177) 10#4 pp 752–759

Em 1928, as duas nações lideraram a campanha pelo Pacto Kellogg-Briand, que declarava ilegais as soluções políticas obtidas através de conflitos bélicos. O pacto, que veio a ser ratificado pela grande maioria de nações, promovia resoluções pacíficas a conflitos regionais e internacionais e conclamava ao esforço coletivo em evitar agressões diplomáticas. Décadas mais tarde, tais provisões seriam incorporadas a Carta das Nações Unidas e outros tratados.Harold Josephson, "Outlawing War: Internationalism and the Pact Of Paris," Diplomatic History (1979) 3#4 pp. 377–390

Segunda Guerra Mundial

thumb|left|230px|O icônico Desembarque Aliado na Normandia. As relações franco-americanas voltaram a estagnar durante as presidências de Theodore Roosevelt e Charles de Gaulle, o líder da França Livre, que havia recusado em participar dos Desembarques da Normandia em junho de 1944. Após a Batalha da Normandia, os Aliados constataram que seria somente uma questão de tempo até a derrocada do Terceiro Reich. Dwight Eisenhower garantiu a De Gaulle que Paris seria devolvida aos franceses, salientando que sua localização geográfica não era estratégica para os objetivos de guerra. Entretanto Paris permanecia uma das mais significativas cidades europeias por seu valor histórico e cultural. O próprio Adolf Hitler havia ordenado sua implosão durante a Ocupação da França para erguer uma grande metrópole nazista em seu lugar. A liberação da cidade ficou a cargo da II Divisão de Artilharia sob comando do General Phillipe Leclerc.