O controle do fogo pelos primeiros seres humanos foi um ponto de virada no aspecto cultural da evolução humana. A evidência mais antiga do uso intencional de fogo data de há cerca de 1,7 milhão de anos pelo ancestral hominínio do gênero Homo, embora ainda ocorra debate dentro da comunidade científica. O fogo fornece uma fonte de calor, proteção e um método para cozinhar alimentos. Estes avanços culturais permitiram a dispersão geográfica humana, inovações culturais e mudanças na dieta e no comportamento. Além disso, a criação de fogo permitiu a expansão da atividade humana nas horas escuras e mais frias da noite e seu uso é disseminado nas mais variadas culturas e tradições, antigas e contemporâneas.
Origem e primeiras evidências de uso do fogo miniaturadaimagem|267x267px|Fogo em um poço, demonstrando o pleno domínio do fenômeno para uso humano O fogo, embora seja um fenômeno natural, atualmente, pode ser obtido tanto de maneira natural como artificial. Há milhares de anos, no entanto, o uso de fogo era obtido eventualmente, principalmente em tempestades em que relâmpagos atingiam certos ambientes e provocavam incêndios. Em eventos como esse, muitos animais reagiam a essa forma de emancipação de energia se afugentando, ou mesmo se aproveitando da atividade do fogo, caso de alguns pássaros que caçavam mais eficientemente em momentos como esse, quando suas presas se mostravam aturdidas. No entanto, somente os humanos aprenderam a dominar o fogo e usá-lo em benefício próprio.
O uso do fogo pelo homem foi considerado por Charles Darwin a descoberta mais importante da humanidade depois da linguagem e estaria, assim, inteiramente associado a questões de sobrevivência com seu uso se desenvolvendo de maneira gradativa a partir das reais necessidades enfrentadas no ambiente em que os hominínios viviam.
Alguns pesquisadores classificam o uso do fogo em três processos integradores: primeiro, para forrageamento; segundo, para cozimento, proteção e uso doméstico e social do fogo; e terceiro, para uso em processos tecnológicos. Tais processos não ocorreram simultaneamente e baseiam-se em hipóteses que embora sejam distintas, não são mutuamente exclusivas, como as da consumo de alimentos que necessitavam ser cozidos em suas dietas, e a hipótese social, associada ao desenvolvimento cerebral dos hominínios e a importância de suas relações sociais e auxílio mútuo (como para sobrevivência ao frio) com o uso do fogo.
Primeiras evidências registradas Os ancestrais de nossa espécie comumente designados como hominínios pela comunidade científica, coevoluíram com o uso do fogo. Este processo acompanhou, portanto, as necessidades e o desenvolvimento tecnológico de nossa linhagem, servindo-se como uma ferramenta essencial para o caminho da civilização humana. As evidências mais antigas demonstram que há cerca de 1,9 milhão de anos havia comida cozida, embora o fogo provavelmente não tenha sido utilizado de forma controlada até há um milhão de anos. Novos estudos e o surgimento de evidências estão auxiliando a traçar o caminho da evolução humana com utilização do fogo como artifício essencial em seu aprendizado e na sobrevivência de sua linhagem. miniaturadaimagem|O fogo foi dominado a partir de eventos de manifestação natural que causavam incêndios, como relâmpagos que atingiam florestas e áreas de campos abertos Por muito tempo, o chamado Peking-Man (Homo erectus perkinensis) de Zhoukoudian, localizado em uma província chinesa, foi considerado o primeiro hominínio a produzir e manusear o fogo em benefício próprio. Seus fósseis foram identificados pelo antropólogo canadense Davidson Black e sua equipe como um membro da linhagem hominínea, datado de meados de 500.000 anos antes de Cristo. Alguns compostos queimados encontrados no sítio arqueológico junto com alguns agregados de poeira foram indicativos de que aquela seria a evidência mais antiga do uso de fogo por hominínios. No entanto, estudos surgidos nas décadas posteriores demonstraram que tais compostos, embora tenham sido queimados por fogo, não entraram em estado de combustão de maneira intencional e sim gerado por elementos por combustão espontânea de material orgânico. Até hoje em dia, não há inteiro consenso na comunidade científica se esta situação representou o uso de fogo pelo ancestral da linhagem humana de maneira intencional, visto que embora a evidência do fogo fosse forte, a evidência de envolvimento humano no processo era superficial e com interpretações não consolidadas. miniaturadaimagem|Sítio arqueológico de Zhoukoudian, China, onde foram encontrados os restos de Peking Man, aceito por muito tempo como a evidência mais antiga de uso do fogo intencional pelo homemEstudos posteriores, realizados nas décadas de 1970 e de 1980, demonstraram, então, que provavelmente uma das evidências mais antigas do uso e manejo do fogo pelo homem data de há cerca de 1,42 milhão de anos e estaria na África do Sul, na caverna de Wonderwerk. Estudos de fósseis realizados neste local indicaram que o Homo erectus já fazia uso e manejo do fogo no início do Pleistoceno, portanto, a partir de evidências de combustão de matéria no local.
A África representa um local em que surgem muitos registros de uso do fogo pelo homem de forma intencional, principalmente pelo fato de que este continente, ao que tudo indica, seria o "berço" dos primeiros hominínios. Como exemplo, pode-se citar registros de evidências do uso controlado do fogo intencionalmente no Lago Baringo, Koobi Fora e em Olorsesaille, todos sítios localizados no Quênia. Na Etiópia também ja fora encontrados restos queimados que poderiam inferir no uso controlado do fogo, em Gadeb e na Região de Afar, mais precisamente. No Marrocos, fora usado técnicas termoluminescentes para se descobrir restos de alimentos cozidos utilizados por Homo sapiens.
No entanto, a Ásia também oferece enormes evidências do uso do fogo intencional, ou pelo menos aponta inferências a respeito. Além das evidências estudadas do Peking man, temos evidências registradas em Xihoudu, na China, nas ilhas Java, e também em Israel, com evidências no Pleistoceno inferior e médio. Na China, na província Yuanmou, há a evidência de uso do fogo de há cerca de 1,7 milhão de anos, representado o registro mais antigo de evidência de uso do fogo intencional pelo gênero Homo. No entanto, tal evidência até hoje é tema de debate.
Domínio do fogo É sabido que o fogo desempenhou um papel crucial para a humanidade nos últimos milhares de anos, com papéis que vão desde adaptação ao ambiente, criação de novas tecnologias, valores socioculturais e ideológicos, papéis esse muitas vezes interligados entre si. Porém, uma questão que intriga os pesquisadores da área é como se desenvolveu essa descoberta. Tradicionalmente, o estudo da relação humana com o fogo estava mais preocupada em saber quando começamos a usar o fogo e quando ele se incorporou ao cotidiano das adaptações dos hominínios. Porém, existem alguns problemas com essas abordagens: buscar uma data exata para determinar a partir de que momento os hominínios começaram a usar o fogo não é tão simples quanto determinar a data da invenção de uma máquina atualmente, por exemplo. Além disso, não é fácil diferenciar em alguns sítios arqueológicos o que seria um fogo de causas naturais, como resultado de um relâmpago, de um fogo feito por humanos. Outra questão tem a ver com uma confusão, ou ausência de padronização nos termos usados por pesquisadores para descrever a relação dos antigos com o fogo.miniaturadaimagem|280x280px|Exemplo do domínio do fogo utilizado por um nativo do NamíbiaUma dessas confusões tem a ver com a terminologia para o “controlled use of fire”, ou uso controlado do fogo, que é o termo mais usado atualmente. Principalmente a partir do fim da década de 1970 e início da década de 1980, o foco das pesquisas nessa área era encontrar vestígios desse uso controlado do fogo. O problema está justamente na atribuição de significado que pesquisadores davam às evidências de uso de fogo, nas quais o seu “controle” tinha um significado de manejo ou domínio básico do fogo, o que por sua vez gerava a interpretação de que qualquer evidência antiga significava que ele já estaria “controlado”. Haveria então uma ausência de discussões sobre um domínio do fogo em etapas, de forma gradual, dando margem para um cenário de descoberta pontual das técnicas de produção de fogo, e que a partir desse momento, toda a humanidade teria acesso e conhecimento a essa descoberta. Poucos pesquisadores tentaram propor novas terminologias para elucidar diferentes graus de “controle” do fogo. Então também se encontram na literatura termos como “uso vs controle”, “uso oportunístico vs uso controlado” e “uso fortuito vs controle do fogo”.
Controle do fogo Uma proposta recente para diferenciar melhor como os hominínios teriam desenvolvido o controle do fogo foi feita por Pruetz & LaDuke, na qual haveria três etapas, ligadas tanto cronologicamente e cognitivamente, ao domínio do fogo. A primeira etapa seria caracterizada pela conceitualização do fogo, ao entender como o fogo se comportava e quais suas propriedades, permitindo que fossem feitas atividades próximas a ele; a segunda etapa consistiria na habilidade de controlar o fogo, ou seja, um conjunto de conhecimentos atrelados a contenção, alimentação e apagamento das chamas. Por fim, a terceira etapa estaria atrelada à habilidade de fazer o fogo à vontade, por meio de conhecimentos e tecnologias diversas.
Uma outra proposta levantada classificaria os estágios de controle do fogo em quatro fases: 1 - habituação; 2 - uso; 3 - curadoria/manutenção; e 4 - manufatura. Há, ainda, uma terceira ideia para como a relação da humanidade com o fogo teria sido moldada ao longo do tempo e que também é composta de três estágios: 1.º estágio: por volta de há 1 milhão de anos, talvez um pouco antes. O fogo seria sazonal, esporádico, com limitações em sua manutenção. Não haveriam evidências de produção própria do fogo ou fogueiras que durassem muito tempo, o que descartaria a possibilidade de controle sobre o fogo. 2.º estágio: haveria uma melhora na capacidade de manutenção do fogo, associada a acampamentos. Essa etapa teria se consolidado há entre 400 e 200 mil anos, e conta como evidências a ocorrência de deposição de cinzas e carvão, associados com ossos queimados e artefatos líticos. A dúvida maior seria se o fogo era antropogênico ou de causas naturais. Se o fogo fosse causado naturalmente e os humanos já soubessem coletá-lo e mantê-lo, é de se esperar que sua ocorrência em sítios seria necessariamente próxima a locais com ocorrências naturais de fogo. Além disso, se o fogo era apenas coletado e de certa forma estava mais intrincado com adaptações dos hominínios ao meio, isso já seria um passo a mais para se valorizar sua manutenção. Isso estaria relacionado com a ocorrência dos acampamentos e também de possíveis divisões de tarefas, com indivíduos responsáveis por cuidar do fogo enquanto outros fariam a caça e coleta de alimento, reforçando assim um vínculo entre a tecnologia do fogo e aspectos socioculturais. Por fim, o terceiro estágio seria marcado por uma maior contenção das fogueiras e com evidências para técnicas e habilidades de criar fogo (embora nem sempre seja possível saber qual técnica teria sido usada). Além disso, também estaria associado com adaptações para cozimento de alimentos ao longo do ano, não apenas de maneira esporádica. Por fim, supõe-se também que haveria uma mudança na concepção do fogo em si, passando de um fenômeno natural para uma criação humana, um artefato, o que também traria impactos na organização social da população.