Manuel Nunes Viana foi um português radicado na Bahia muito jovem. Ficou conhecido por atos de coragem que o levaram do sertão baiano para a região mineira onde se tornou proprietário de lucrativas lavras de ouro. Foi um dos protagonistas da Guerra dos Emboabas. Era amigo de Pascoal da Silva Guimarães e despertou a animosidade do governador D. Pedro de Almeida, conde de Assumar.

Origem De Viana do Minho, era filho de Antônio Nunes Viegas. Chegou adolescente à Bahia, recomendado a um rico comerciante. Começou sua vida de trabalho como caixeiro, sina de tantos portugueses que desembocavam no Brasil. Mas era «dócil e inteligente, insinuante e amável». Foi descrito da seguinte forma nos chamados Registros da Alfândega: "Passa Manuel Nunes Viana, homem de mediana estatura, cara redonda, olhos pardos, cabelo preto, com sua carregação que consta de vinte e três cargas de molhados. Rio Grande, 14 de maio de 1717".C. R. Boxer em a Idade de Ouro do Brasil, ed. Brasiliana, p. 209

Notícias das carências no sertão de Minas Gerais fizeram-no levar àquelas montanhas do ouro um rico e abastecido comboio de gêneros; triunfou por sua aptidão, amaneirado para tratar com os fregueses, adquirindo logo confiança e estima. Antonil lhe calculará mais tarde a fortuna em 50 arrobas.

Em Minas, obteve lavras abundantes de ouro a légua e meia de Caeté, nas abas da serra da Piedade e outras em sociedade com seu primo e amigo Manuel Rodrigues Soares, em Catas Altas; passou a ter fazendas de criação de gado no Jequitaí, no rio São Francisco e na Jacobina, pois era também procurador de D. Isabel Guedes de Brito. Esta Isabel Maria era filha do mestre de campo Antônio Guedes de Brito. Deu a Manuel Nunes Viana procuração para defender seu direito sobre o imenso domínio herdado do pai no interior da Bahia. Conseguindo assim a procuração de Isabel, viúva do coronel Silva Pimentel, para a representar nos direitos ao vasto latifúndio herdado do pai, 160 léguas de terra do morro do Chapéu às nascentes do rio das Velhas, como era hábil e inteligente, se apresentou ao Governador Geral e conseguiu ser investido em 1703 da mesma autoridade de regente e mestre d campo do rio de São Francisco de que gozava Guedes de Brito. Sua missão era a criação de gado nos limites do vasto território, combate aos índios bravos que ali aparecessem, extinção dos eventuais quilombos, punição dos aventureiros de toda a casta...

Criando gado e obrigando os moradores a se aforar, vendo sua fortuna crescendo, fundou várias Fazendas: Pau a Pique e Palma, perto da vila de João Amaro; Escuro, uma légua acima da vila de Carinhanha onde havia a lagoa na qual é tradição que mandava arrojar escravos ou prisioneiros vivos, hoje chamada Cinquenta, porque foram dali retiradas 50 caveiras de adultos no início do século XIX; Tábua ou Jequitaí, para onde voltou em 1710, a dois dias da barra do Rio das Velhas, com uma casa luxuosa e opulenta onde diziam que recolhia os doentes desenganados e ricos da região para lhes apressar a morte e herdar os bens.

Nenhum documento paulista da época o classifica como sendo um facínora, muito embora certos papéis de outra procedência assim o apontem, existindo mesmo várias tradições a seu respeito nesse particular. Uma delas é a de que assassinou uma filha, na sua estância perto de Januária, por sabê-la de relações com um rapaz pobre e de baixa condição. Outra, a de que mandava arrojar escravos e prisioneiros vivos numa lagoa, perto da sua fazenda do Escuro, a fim de que fossem devorados pelas piranhas. Tal lagoa tomou o nome de Cinqüenta, porque dali foram retiradas cinquenta caveiras de adultos, em meados do século XIX. Uma terceira sinistra tradição, já mencionada, é a de que recolhia na sua fazenda da Tabua, que se dizia mal adquirida, os doentes desenganados e ricos da região, apressando-lhes a morte, a fim de herdar-lhes os bens.Dicionário de Bandeirantes e Sertanistas do Brasil

Animosidade entre paulistas e reinóis ou emboabas Nunes Viana apareceu bem moço nos fins do século XVII na Bahia, vindo de Viana do Minho. Era ativo, valoroso espadachim e aparece no Códice Costa Matoso: «A notícia que tenho de Manuel Nunes Viana é que, chegando novato à cidade da Bahia, sucedeu ter uma pendência com dois ou mais homens e na mesma, quebrando-se-lhe a espada pelas guarnições, se defendeu com o chapéu na mão deue sorte q chegou a concluir um e tirar-lhe a espada da mão e com ela matou o outro e se ocultou. De cujo sucesso tendo o governador daquela cidade notícia, o mandou vir à sua presença para o ver e pedindo-lhe o dito Viana que lhe valesse, deu-lhe varias cartas de favor para o sertão, onde fez numerosas façanhas e se opulentou de sorte que chegou a ser aclamado nestas Minas, pelo povo, governador delas, fato ocorrido no ano de 1708, na então Vila Rica, mais precisamente no seu distrito de Cachoeira do Campo, durante a Guerra dos Emboabas, no interior da Matriz de Nossa Senhora de Nazareth, sendo sagrado o primeiro governador eleito pelo povo, na história das Américas, e indo para a Bahia, de lá passou a Lisboa, e voltando para a dita Bahia, trouxe várias mercês que lhe fez Sua Majestade, entre as quais foi a de alcaide-mor duma das vilas, mestre de campo e o oficio de escrivão da ouvidoria da vila de Sabará".

Com a atordoada do ouro, passara à região do Caeté (mina na aba da serra da Piedade) e Catas Altas (minas de sociedade com o primo Manuel Rodrigues Soares; e São Caetano do Japoré. Antonil comenta que em pouco temo, com tantos escravos, tinha 150 arrobas de ouro. Boiadeiro por excelência, nunca abandonou o comércio de gado, e sem querer se submeter às leis do fisco, se tornou contrabandista em larga escala de outros gêneros. Portanto em 1708 no Caeté estará em luta aberta com Manuel de Borba Gato, guarda-mor, e os demais potentados paulistas.

Sua casa, dizem os cronistas, era um verdadeiro castelo de armas, arsenal completo; o único trabalho, quando do rumor que os Paulistas pretendiam atacá-lo, foi o de chamar sua gente em ordem: numerosa escravatura que formava por si só uma legião de combatentes sob o comando do fiel negro Bigode. Os forasteiros do Sabará e do Rio das Velhas marcharam para o defender e se uniram aos do Caeté. O terror da guerra invadiu então os paulistas, e os principais entre eles trataram de acalmar os ânimos, pois também muitos deles eram amigos particulares de Nunes Viana. Lavrou-se termo de tal ajuste, os partidos se obrigando a depor as armas; Nunes Viana tudo tinha a perder com guerra e intimamente não a desejaria... Queria antes enriquecer mais, engrossar seus cabedais. Seu maior inimigo, Jerônimo Pedroso, retornou então à sua fazenda do Itatiaiuçu donde só sairá mais tarde para a guerra.

Houve outros incidentes mais tarde, com um certo José Pardo e seus filhos bastardos carijós, que mataram um português em plena rua, mas por sua vez, para outros, seria «homem de grande suposição, inofensivo e benquisto.» Foi renovado outro acordo, desta vez entretanto a duras penas, para haver paz entre os dois grupos.

Datada de 3 de fevereiro de 1706, temos carta de Borba Gato ao rei, em que se declara «poderoso e zeloso do serviço de Vossa Majestade». De 1706 a 1708 haviam subido o contrabando e os prejuízos dos quintos. Nunes Viana, segundo a carta, «continuadamente introduz nas Minas tropas da Bahia, sua fortuna cresce, concentra força imensa.» Havia vindo para as Minas pela estrada proibida da Bahia e dizia que mandava vir gado, «quando na verdade entram comboios de Fazenda.» Os anos passavam sobre Borba sem lhe mudar o caráter: agia contra o português poderosíssimo. Em fins de novembro de 1707 espalhou-se o boato de que os Paulistas, em conluio no rio das Velhas estavam decididos a matar os forasteiros num só dia que seria 10 de janeiro de 1708! Apesar de falso, o boato conseguiu efeito calamitoso.

A procuração dada por D. Isabel Guedes de Brito serviu para obter que o Governo do Estado do Brasil lhe desse o título de regente e mestre-de-campo do rio São Francisco, como tivera Antônio Guedes de Brito: o que equivalia a torná-lo encarregado de vigilância do gado nos limites entre o Morro do Chapéu e as nascentes do rio das Velhas, combater os índios, destruir os quilombos, castigar ladrões e assassinos. Fundou por conta própria grandes currais de gado e se fez construir uma bela casa em Tabua, perto do confluente do rio das Velhas com o rio São Francisco. Atraído logo pelas Minas de Caeté, explorou-as e, paralelamente, favorecia, contra as ordens reais, comércio de gado entre Minas e a Bahia.

Estancos e protestos Enquanto isso, o governador Artur de Sá Meneses, nas melhores disposições, tomara medidas para organizar o fornecimento de gado aos açougues dos distritos de Minas, e os dera com privilégios (em 1701 e a vigorar até 1706) ao comerciante abastado Francisco do Amaral Gurgel, que dispunha de cabedais ao nível de tal empresa. Amaral Gurgel gastou muito dinheiro no conserto e alinhamento dos caminhos para o sertão e, dispondo de recursos, tinha monopolizado também o comércio do fumo em rolo e da aguardente que se importavam da Bahia e eram gêneros indispensáveis aos mineiros. Amaral requereu pois a prorrogação ao governador, já D. Fernando Martins Mascarenhas Lencastre, justificando-a por seu pouco lucro, os sacrifícios feitos e o bem dos povos - abrindo generosamente os cordões da bolsa. Mas o que o povo chamava «estancos do Amaral» eram flagelos, os Paulistas bradavam contra os contratistas, apoiados pelo povo todo.

Puseram-se à testa do movimento Bartolomeu Bueno da Silva, o Feio, depois chamado o Anhanguera, e Domingos Monteiro da Silva. Convocaram uma junta no rio das Velhas e representaram contra a prorrogação do privilégio. D Fernando, o governador, fez o que era comum - pôs uma pedra em cima dos papéis.

Mas, de acordo com o regime, os contratos subiam à aprovação do Rei. À vista da hesitação de D. Fernando, que por ato expresso não queria dar força nova ao contrato, enquanto se esperava a aprovação do Rei, Amaral Gurgel se recolheu à sua fazenda do Bananal. Frei Francisco assumiu o negócio, partindo para o Rio de Janeiro. Uma rês custava nos currais da Jacobina, na Bahia, três ou quatro oitavas, nos currais do São Francisco custava já oito ou nove: vendida nos açougues do rio das Velhas produzia 70-80 mil réis; nos de Ouro Preto ou da vila do Carmo, entre 80-90 mil réis. Estava assim em jogo assim mais de 30 arrobas de ouro: uns compravam, outros vendiam, ganhavam os tropeiros e os fazendeiros dos caminhos que alugavam os pastos de engorda e descanso. Outro frade trinitário, Frei Firmo, era o sublocatário dos açougues do rio das Velhas, um verdadeiro leão na defesa do monopólio. E Nunes Viana, regendo as vastas possessões de D. Isabel, que mediam 160 léguas de extensão no São Francisco, e tendo de suas as fazendas de Jequitaí e da Taboa, claro que se interessava demais pelo assunto dos estancos, pois por tais paragens passavam os gados tanto de Matias Cardoso quanto pelo rio Verde, pelo caminho do Guaratuba. Os "caminhos do gado", aliás, eram da Tranqueira, por Matias Cardoso, e dai à Barra do rio das Velhas, subindo por este rio acima até o arraial do Borba, hoje Arraial Velho; e outro caminho que subia da Tranqueira pelo rio Verde às cabeceiras do Gorutuba ou Guaratatuba, rio das Araras, de onde se acabava no último curral do rio das Velhas a 24 léguas abaixo do Sabará.