Racismo ambiental é um termo criado nos Estados Unidos e utilizado para descrever a injustiça ambiental em contexto racializado. Refere-se a como comunidades de minorias étnicas são sistematicamente submetidas a situações de degradação ambiental.Bullard, Robert D. (Ed.). (1993). Confronting environmental racism: Voices from the grassroots. South End Press.Pacheco, Tania (2008). Inequality, environmental injustice, and racism in Brazil: beyond the question of colour. Development in Practice, 18(6), 713-725.Herculano, Selene, & Pacheco, Tania (2006). Racismo ambiental, o que é isso. Rio de Janeiro: Projeto Brasil Sustentável e Democrático: FASE. Em sentido mais amplo, descreve as relações ecológicas desiguais entre o Norte e o Sul Global, associando-se ao colonialismo, ao neoliberalismo e à globalização.Figueroa, Robert, & Mills, Claudia (2001). "Environmental justice". In: Dale Jamieson (Ed.) A companion to environmental philosophy. Massachussets/Oxford: Blackwell Publishers. pp. 426-438. ISBN 1-557586-910-3
O racismo ambiental é uma forma específica de injustiça ambiental, na qual acredita-se que a causa subjacente é a discriminação étnico-racial.
Conceito O racismo ambiental (ou racismo meio ambiental) é um termo usado para descrever situações de injustiça social no meio ambiental em contexto racializado, ou seja, nas quais comunidades pertencentes a minorias étnicas, como as populações indígenas, negras e asiáticas, são particularmente afetadas.
Situações de injustiça ambiental podem incluir a inacessibilidade a recursos naturais (como ar limpo, água potável e outros benefícios ecológicos), a exclusão da tomada de decisão sobre territórios tradicionais Racismo ambiental, conflictos climáticos y la revuelta Sioux en Dakota del Norte. Eldiario.es. 7 de noviembre de 2016. e recursos naturais locais, Justicia ambiental y climática: de la equidad al funcionamiento comunitario. Ecología Política. 2011. e também o sofrimento das mazelas das degradações ambientais, como: inundações; queimadas; poluição; contaminação pela extração de recursos naturais e industriais; exposição à resíduos tóxicos; ausência de saneamento básico; situação precária de moradia.
Normalmente, quando referido dentro de um contexto internacional, o racismo ambiental descreve as relações ecológicas desiguais entre as nações industrializadas (o Norte Global) e países mais pobres (o Sul Global). Neste sentido, associa-se diretamente às heranças da história colonial e do neocolonialismo sobre as minorias étnicas, bem como, às forças do neoliberalismo e da globalização advinda das grandes potências capitalistas sobre a biodiversidade nativa e comunidades locais dos países emergentes. Racismo ambiental y otros ejemplos de capitalismo salvaje. Público. 1 de junho de 2016.
Origem miniaturadaimagem|280x280px|Benjamin Chavis, ativista que cunhou o termo.
O termo "racismo ambiental" foi cunhado em 1982 pelo norte-americano Benjamin Chavis, ativista do movimento dos direitos civis nos Estados Unidos. Cutter, Susan L. (1995) Race, class and environmental justice. Progress in Human Geography, 19(1), p. 111-122. DOI: 10.1177/030913259501900111 Acredita-se que a frase foi usada pela primeira vez no ano de 1982, no momento em que Chavis gritou "Isto é racismo ambiental!" ao ser preso, durante protesto contra um aterro químico de Bifenilpoliclorado no estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Neste contexto, Bejamin Chavis cunhou o termo para se referir à:
Discriminação racial no ataque deliberado às comunidades étnicas e minoritárias por meio de sua exposição à locais e instalações de resíduos tóxicos e perigosos, juntamente com a exclusão sistemática de minorias na elaboração, cumprimento e reparação das políticas ambientais.Chavis, Benjamin (1993). "Foreword". In: Bullard, Robert D. (Ed.). Confronting environmental racism: Voices from the grassroots.. Cambridge: South End Press, pp. 3-6. [tradução livre]
Conhecido por ter sido, ainda adolescente, assistente de Martin Luther King Jr., Benjamin Chavis foi, posteriormente, notório membro de várias organizações negras estadounidenses, como a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor.esquerda|miniaturadaimagem|246x246px|Robert D. Bullard, "pai da Justiça Ambiental".
O conceito foi expandido no livro Confronting environmental racism: voices from the grassroots ("Confrontando o racismo ambiental: vozes do movimento de base", tradução live para o português). Esta obra, publicada no ano de 1993, foi organizada pelo intelectual negro Robert D. Bullard, também norte-americano, conhecido por ter cunhado o termo justiça ambiental.Bullard, Robert D. (1993). "Anatomy of environmental racism and the environmental justice movement". Confronting environmental racism: Voices from the grassroots, 15, 15-39. No prefácio ao livro de Bullard, Chavis definiu racismo ambiental como:
Discriminação racial na elaboração das políticas ambientais, aplicação e regulação de leis, o ataque deliberado às comunidades de cor por meio de instalações de resíduos tóxicos, a sanção oficial de venenos e poluentes cuja presença causa risco de vida para nossas comunidades e a história da exclusão de pessoas de cor da liderança dos movimentos ecologistas [tradução livre]
Direitos civis e ambientais
Ao longo das décadas 1960, 1970 e 1980, os movimentos por direitos civis nos Estados Unidos conviveram com os movimentos por justiça ambiental. Suas pautas se aproximaram em vários pontos. Covergiram na mobilização de pessoas preocupadas com suas localidades e com a saúde comunitária, ecoando preocupação ambiental e empoderamento político na luta antirracista.Calgaro, Cleide, and Moisés João Rech. "Justiça ambiental, direitos humanos e meio ambiente: uma relação em construção." Revista de Direito e Sustentabilidade 3.2 (2017): 1-16.
O reconhecimento da noção de racismo ambiental impulsionou o movimento social de justiça ambiental e redefiniu o ambientalismo, movimento que ganhou força nas décadas de 1970 e 1980 nos Estados Unidos.Lamim-Guedes, V. (2012). Consciência negra, justiça ambiental e sustentabilidade. Sustainability in Debate/Sustentabilidade em Debate, 3(2).
Internacionalização Embora o termo tenha origem estadounidense, o racismo ambiental passou a ser utilizado em nível internacional. Exemplos incluem sua utilização por comunidades marginalizadas do Sul Global frente à importação de resíduos perigosos permitidas pelas políticas ambientais de seus países - liberais em relação às pressões das grandes corporações do Norte Global.
No Brasil, foi realizado no ano de 2001 o "Primeiro colóquio internacional sobre justiça ambiental, trabalho e cidadania" na cidade do Rio de Janeiro, marcando a criação da Rede Nacional de Justiça Ambiental. No ano de 2005 ocorreu o "Primeiro seminário brasileiro contra o racismo ambiental". Desta maneira, estes dois termos, originados no contexto norte-americano, foram importados e adaptados para explicar a realidade brasileira.SILVA, Lays Helena Paes (2012). Ambiente e justiça: sobre a utilidade do conceito de racismo ambiental no contexto brasileiro. e-cadernos CES, n. 17.
Alimentação e desigualdades O racismo ambiental também se relaciona à desigualdade na alimentação, na produção e no acesso aos alimentos. As estruturas e relações de poder global restringem aspectos como direito à terra e possibilidade de trabalho, afetando diretamente minorias étnicas e seu acesso à alimentação. No aspecto histórico e econômico, isso pode ser visto no processo de colonização, constituído por meio da escravidão e gerador de profundas desigualdades.
No caso dos Estados Unidos, a dinâmica colonial afetou os indígenas com a expulsão dessa população de seu território, onde foram impossibilitados de produzirem seus próprios alimentos. Posteriormente, os africanos escravizados foram inseridos no regime escravista de plantation, que gerou consequências para a população negra mesmo após o fim da escravidão em relação ao acesso à direitos básicos, como a alimentação.
Na história mais recente, o impacto desproporcional dos riscos e desastres ambientais sobre grupos marginalizados têm se expressado, também, na desigualdade de acesso à alimentação de qualidade, interrupção de hábitos alimentares locais e destruição de meios tradicionais de subsistência, produzindo contextos de insegurança alimentar. Em resposta a esses cenários, o movimento em torno da soberania alimentar tem se destacado na garantia do acesso regular e permanente a uma alimentação saudável. Shostak, Sara (31 de julho de 2023). «Food and Inequality». Annual Review of Sociology (em inglês) (1): 359–378. ISSN 0360-0572. doi:10.1146/annurev-soc-031021-112747. Consultado em 13 de novembro de 2025
América Latina Na América Latina, o termo racismo ambiental se difundiu, com mais força, a partir dos anos 2000.
Além da histórica e elevada desigualdade social e discriminação étnica, as situações de injustiça ambiental emergiram em virtude da situação política e econômica dos países latino-americanos no cenário internacional, marcada pela exploração intensiva e simultânea tanto dos recursos naturais, quanto da força de trabalho.Porto, Marcelo Firpo; Pacheco, Tania & Leroy, Jean Pierre (2013). "Apresentação". In: ______. (Org.) Injustiça ambiental e saúde no Brasil: o mapa de conflitos. Editora Fiocruz, 2013.ISBN 9788575414347
Brasil Além de marcado por forte concentração de renda e de poder, inúmeras situações de injustiça ambiental e conflitos étnicos são historicamente observados no contexto brasileiro.Porto, Marcelo Firpo & Milanez, Bruno (2009) Eixos de desenvolvimento econômico e geração de conflitos socioambientais no Brasil: desafios para a sustentabilidade e a justiça ambiental. Ciência & Saúde Coletiva, 14: 1.983-1.994, 2009. esquerda|miniaturadaimagem|300x300px|Crime ambiental em Brumadinho (Minas Gerais, Brasil): lama tóxica matou o rio que sustentava os Pataxó. Dois dos maiores desastres ambientais da história recente do Brasil comprovam as teorias de racismo e injustiça ambiental:
84,5% das vítimas imediatas do rompimento da barragem em Mariana em Minas Gerais eram negras. O desastre do ano de 2015 foi de responsabilidade direta da mineradora Samarco, que poluiu a bacia do Rio Doce com rejeitos de mineração, destruiu casas e matou 19 pessoas. A lama tóxica contaminou as águas do rio, matando peixes e a subsistência de comunidades ribeirinhas e do povo indígena krenak, produzindo um impacto devastador na alimentação e renda locais.Krenak, Ailton (2019). O insustentável abraço do progresso ou era uma vez uma floresta no Rio Doce. Os Indígenas e as Justiças no Mundo Ibero-Americano (Sécs. XVI-XIX), 19. 58,8% dos 259 mortos e 70,3% dos 11 desaparecidos do rompimento da barragem em Brumadinho, também em Minas Gerais, se declaravam como não-brancos e tinham renda média abaixo de 2 salários mínimos. O desastre de 2019, responsabilidade da mineiradora Vale, trouxe igualmente injustiça ambiental para a população da região, incluindo o povo pataxó. Comunidades quilombolas, ribeirinhas e ligadas ao extrativismo sustentável também são grupo afetados pelo racismo e injustiça ambiental no Brasil.
No Brasil, o racismo e a injustiça ambiental recrudesceu-se com o fenômeno do bolsonarismo. A política ambiental do governo Bolsonaro ameaçou esforços globais de preservação do meio ambiente com ações no escopo do necropolítica, como por exemplo: ameaças contra os direitos de povos indígenas e quilombolas com incentivo aos desmatamentos e a liberação de agrotóxicos; bem como a falta de medidas contra a COVID-19, que afetou desproporcionalmente as populações de favela.
Em janeiro de 2024, o conceito entrou em voga na mídia brasileira depois que a ministra da igualdade racial, Anielle Franco, associou ao racismo ambiental aos danos causados por enchentes então ocorridas no Rio de Janeiro.
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